O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

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vampiregrave
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O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby vampiregrave » 04 Dec 2013 20:27

Tal como prometido, venho desta forma dar início à primeira tradução em grupo do projecto. Para já vou colocar uma sugestão de tradução para o primeiro parágrafo, de modo a avaliarmos qual a melhor abordagem em termos de quantidade de texto e prazo de tradução, isto é, qual a quantidade de parágrafos e o número de dias para discutir a sua tradução que se traduzem num melhor resultado final, e resultam num processo mais célere.

Progresso da tradução (parágrafos): 19/30

Parágrafo 20
And now was I indeed wretched beyond the wretchedness of mere Humanity. And a brute beast —whose fellow I had contemptuously destroyed—a brute beast to work out for me—for me a man, fashioned in the image of the High God—so much of insufferable wo! Alas! neither by day nor by night knew I the blessing of Rest any more! During the former the creature left me no moment alone; and, in the latter, I started, hourly, from dreams of unutterable fear, to find the hot breath of the thing upon my face, and its vast weight—an incarnate Night-Mare that I had no power to shake off—incumbent eternally upon my heart!

Spoiler! :
For the most wild, yet most homely narrative which I am about to pen, I neither expect nor solicit belief. Mad indeed would I be to expect it, in a case where my very senses reject their own evidence. Yet, mad am I not—and very surely do I not dream. But to-morrow I die, and to-day I would unburthen my soul. My immediate purpose is to place before the world, plainly, succinctly, and without comment, a series of mere household events. In their consequences, these events have terrified—have tortured—have destroyed me. Yet I will not attempt to expound them. To me, they have presented little but Horror—to many they will seem less terrible than barroques. Hereafter, perhaps, some intellect may be found which will reduce my phantasm to the common-place—some intellect more calm, more logical, and far less excitable than my own, which will perceive, in the circumstances I detail with awe, nothing more than an ordinary succession of very natural causes and effects.

Não peço, nem espero, que acreditem na narrativa tão extraordinária e no entanto tão prosaica que estou prestes a escrever. Seria louco se o esperasse, quando os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto não sou louco e seguramente não estou a sonhar, mas amanhã morrerei e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar perante o mundo, sinceramente, sucintamente e sem qualquer comentário, uma série de meros acontecimentos domésticos. As suas consequências, aterrorizaram, torturaram e destruíram-me. No entanto não vou tentar explicá-los. Para mim, pouco mais representam do que Horror — a muitos parecerão menos terríveis do que barrocos. Talvez venha a surgir um intelecto capaz de reduzir as minhas fantasias a lugares-comuns, um intelecto mais calmo, mais lógico, e de longe menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma vulgar sucessão de causas e efeitos bastante naturais.

From my infancy I was noted for the docility and humanity of my disposition. My tenderness of heart was even so conspicuous as to make me the jest of my companions. I was especially fond of animals, and was indulged by my parents with a great variety of pets. With these I spent most of my time, and never was so happy as when feeding and caressing them. This peculiarity of character grew with my growth, and in my manhood, I derived from it one of my principal sources of pleasure. To those who have cherished an affection for a faithful and sagacious dog, I need hardly be at the trouble of explaining the nature or the intensity of the gratification thus derivable. There is something in the unselfish and self-sacrificing love of a brute, which goes directly to the heart of him who has had frequent occasion to test the paltry friendship and gossamer fidelity of mere Man.

Desde a minha infância fui notado pela doçura e pela humanidade dos meus modos. A ternura do meu coração era conspícua a ponto de me tornar alvo da chacota dos meus companheiros. Tinha uma afeição especial por animais e os meus pais agraciaram-me com uma grande variedade de exemplares. Com eles passei a maior parte do meu tempo, e nunca fui tão feliz como quando os alimentava e acariciava. Esta peculiaridade do meu carácter cresceu comigo e, já adulto, tornou-se numa das minhas principais fontes de prazer. Àqueles que já nutriram uma afeição por um cão fiel e sagaz, dificilmente necessitarei de explicar a natureza ou a intensidade da satisfação que dela se retira. Há qualquer coisa no amor altruísta e abnegado de um animal que toca directamente o coração daquele que teve ocasiões frequentes para testar a amizade mesquinha e a ténue fidelidade do mero Homem.

I married early, and was happy to find in my wife a disposition not uncongenial with my own. Observing my partiality for domestic pets, she lost no opportunity of procuring those of the most agreeable kind. We had birds, gold-fish, a fine dog, rabbits, a small monkey, and a cat.

Casei cedo e tive a felicidade de encontrar na minha mulher uns modos não incompatíveis com os meus. Vendo a minha afeição por animais domésticos, não perdia qualquer oportunidade para arranjar os mais agradáveis. Tínhamos pássaros, peixinhos-dourados, um belo cão, coelhos, um pequeno macaco e um gato.

This latter was a remarkably large and beautiful animal, entirely black, and sagacious to an astonishing degree. In speaking of his intelligence, my wife, who at heart was not a little tinctured with superstition, made frequent allusion to the ancient popular notion, which regarded all black cats as witches in disguise. Not that she was ever serious upon this point—and I mention the matter at all for no better reason than that it happens, just now, to be remembered.

Este último era um animal extraordinariamente grande e bonito, todo preto e de uma sagacidade espantosa. Ao falar da sua inteligência, a minha mulher, bastante dada a superstições, fazia frequentes alusões à ancestral crença popular segundo a qual todos os gatos pretos são bruxas disfarçadas. Não que ela alguma vez desse verdadeira importância a este assunto, e se o menciono agora é apenas porque acabei de me lembrar dele.

Pluto—this was the cat's name—was my favorite pet and playmate. I alone fed him, and he attended me wherever I went about the house. It was even with difficulty that I could prevent him from following me through the streets.

Plutão — era este o nome do gato — era o meu animal e companheiro favorito. Ninguém para além de mim o alimentava, e ele seguia-me para todo o lado dentro de casa. Era até difícil impedi-lo de me acompanhar pelas ruas.

Our friendship lasted, in this manner, for several years, during which my general temperament and character—through the instrumentality of the Fiend Intemperance—had (I blush to confess it) experienced a radical alteration for the worse. I grew, day by day, more moody, more irritable, more regardless of the feelings of others. I suffered myself to use intemperate language to my wife. At length, I even offered her personal violence. My pets, of course, were made to feel the change in my disposition. I not only neglected, but ill-used them. For Pluto, however, I still retained sufficient regard to restrain me from maltreating him, as I made no scruple of maltreating the rabbits, the monkey, or even the dog, when by accident, or through affection, they came in my way. But my disease grew upon me—for what disease is like Alcohol!—and at length even Pluto, who was now becoming old, and consequently somewhat peevish—even Pluto began to experience the effects of my ill temper.

A nossa amizade prolongou-se desta forma por vários anos, durante os quais o meu temperamento e carácter, devido ao Demónio da Intemperança, sofreram (coro ao confessá-lo) uma alteração drástica para pior. Tornei-me, a cada dia, mais temperamental, mais irritável, mais insensível aos sentimentos alheios. Servi-me de linguagem imprópria para com a minha mulher, chegando mesmo a tratá-la com violência. Os meus animais sentiram, é claro, essa mudança na minha disposição. Não só os negligenciei, como os maltratei. Por Plutão, no entanto, conservava ainda suficiente consideração para me impedir de maltratá-lo, embora não revelasse escrúpulos em maltratar os coelhos, o macaco, ou mesmo o cão, quando, por acaso ou afeição, estes se cruzavam comigo. Mas a minha doença cresceu em mim – pois que doença é como o Álcool! – e por fim até Plutão, agora envelhecido e como tal um pouco rezingão, até mesmo ele começou a sentir os efeitos do meu génio.

One night, returning home, much intoxicated, from one of my haunts about town, I fancied that the cat avoided my presence. I seized him; when, in his fright at my violence, he inflicted a slight wound upon my hand with his teeth. The fury of a demon instantly possessed me. I knew myself no longer. My original soul seemed, at once, to take its flight from my body and a more than fiendish malevolence, gin-nurtured, thrilled every fibre of my frame. I took from my waistcoat-pocket a pen-knife, opened it, grasped the poor beast by the throat, and deliberately cut one of its eyes from the socket! I blush, I burn, I shudder, while I pen the damnable atrocity.

Certa noite, ao regressar a casa, de uma das minhas deambulações pela cidade, bastante inebriado, tive a impressão de que o gato evitava a minha presença. Agarrei-o; ele, assustado com a minha violência, infligiu-me com os seus dentes um pequeno golpe na mão. Uma fúria demoníaca apoderou-se instantaneamente de mim. Nem eu mesmo me reconhecia. A minha alma pareceu, de imediato, ter-me abandonado e uma malevolência mais que diabólica, alimentada pelo gin, fez vibrar cada fibra do meu corpo. Tirei um canivete do bolso do meu colete, abri-o, segurei o pobre animal pela garganta e, deliberadamente, arranquei-lhe um dos olhos da órbita! Coro, ardo, estremeço ao narrar esta maldita atrocidade.

When reason returned with the morning—when I had slept off the fumes of the night's debauch—I experienced a sentiment half of horror, half of remorse, for the crime of which I had been guilty; but it was, at best, a feeble and equivocal feeling, and the soul remained untouched. I again plunged into excess, and soon drowned in wine all memory of the deed.

Quando pela manhã recuperei a razão – quando, pelo sono, havia dissipado os vapores da devassidão nocturna – senti um misto de horror e remorso pelo crime de que era culpado; mas este era, na melhor das hipóteses, um sentimento débil e equívoco, e a minha alma permaneceu insensível. De novo mergulhei nos excessos e logo afoguei no vinho toda a lembrança do que acontecera.

In the meantime the cat slowly recovered. The socket of the lost eye presented, it is true, a frightful appearance, but he no longer appeared to suffer any pain. He went about the house as usual, but, as might be expected, fled in extreme terror at my approach. I had so much of my old heart left, as to be at first grieved by this evident dislike on the part of a creature which had once so loved me. But this feeling soon gave place to irritation. And then came, as if to my final and irrevocable overthrow, the spirit of PERVERSENESS. Of this spirit philosophy takes no account. Yet I am not more sure that my soul lives, than I am that perverseness is one of the primitive impulses of the human heart—one of the indivisible primary faculties, or sentiments, which give direction to the character of Man. Who has not, a hundred times, found himself committing a vile or a silly action, for no other reason than because he knows he should not? Have we not a perpetual inclination, in the teeth of our best judgment, to violate that which is Law, merely because we understand it to be such? This spirit of perverseness, I say, came to my final overthrow. It was this unfathomable longing of the soul to vex itself—to offer violence to its own nature—to do wrong for the wrong's sake only—that urged me to continue and finally to consummate the injury I had inflicted upon the unoffending brute. One morning, in cool blood, I slipped a noose about its neck and hung it to the limb of a tree;—hung it with the tears streaming from my eyes, and with the bitterest remorse at my heart;—hung it because I knew that it had loved me, and because I felt it had given me no reason of offence;—hung it because I knew that in so doing I was committing a sin—a deadly sin that would so jeopardize my immortal soul as to place it—if such a thing wore possible—even beyond the reach of the infinite mercy of the Most Merciful and Most Terrible God.

Entretanto o gato recuperou lentamente. A órbita do olho perdido apresentava, é certo, um aspecto assustador, mas de resto ele não aparentava qualquer sofrimento. Deambulava pela casa como de costume, mas, como seria de esperar, fugia aterrorizado quando eu me aproximava. Eu conservava ainda parte do meu antigo coração, suficiente para, a princípio, me sentir angustiado pela repulsa evidente, por parte de uma criatura que outrora me amara tanto. Mas este sentimento rapidamente se transformou em irritação, e então chegou, como que anunciando a minha queda final e irrevogável, o espírito da PERVERSIDADE. Sobre este espírito não se ocupa a filosofia e, no entanto, não estou mais seguro de que a minha alma esteja viva, do que a perversão seja um dos impulsos primitivos do coração humano – uma das indivisíveis faculdades primárias, ou sentimentos, que orientam o carácter do Homem. Quem não se achou, centenas de vezes, a cometer um acto vil ou despropositado, por nenhuma outra razão do que saber que não deveria fazê-lo? Não teremos uma atracção perpétua, à revelia do nosso melhor julgamento, pela violação daquilo que é Lei, meramente porque a entendemos como tal? Este espírito de perversidade, como dizia, anunciou a minha queda final. Foi este desejo imperscrutável da alma, para se atormentar a si mesma, para violentar a sua própria natureza, para praticar o mal pelo mal, que me levou a continuar e, finalmente, a consumar os danos que havia infligido à inofensiva criatura. Certa manhã passei-lhe, a sangue frio, um laço em torno do pescoço e pendurei-o no ramo de uma árvore; enforquei-o com lágrimas a escorrer dos meus olhos e com o mais amargo dos remorsos no meu coração; enforquei-o porque sabia que ele me tinha amado, e porque senti que não me tinha ofendido de forma alguma; enforquei-o porque sabia que ao fazê-lo estava a cometer um pecado, um pecado mortal que ameaçaria a minha alma imortal, como que colocando-a – se tal fosse possível – para lá do alcance da infinita misericórdia do Mais Misericordioso e Mais Terrível dos Deuses.

On the night of the day on which this cruel deed was done, I was aroused from sleep by the cry of fire. The curtains of my bed were in flames. The whole house was blazing. It was with great difficulty that my wife, a servant, and myself, made our escape from the conflagration. The destruction was complete. My entire worldly wealth was swallowed up, and I resigned myself thenceforward to despair.

Na noite do dia em que tão cruel feito se concretizou, o meu sono foi perturbado por gritos de fogo. As cortinas da minha cama estavam em chamas. Toda a casa flamejava e foi com grande dificuldade que a minha mulher, uma criada e eu próprio escapámos da conflagração. A destruição foi completa. Toda a minha fortuna terrena se evaporou e eu resignei-me, a partir daí, ao desespero.

I am above the weakness of seeking to establish a sequence of cause and effect, between the disaster and the atrocity. But I am detailing a chain of facts—and wish not to leave even a possible link imperfect. On the day succeeding the fire, I visited the ruins. The walls, with one exception, had fallen in. This exception was found in a compartment wall, not very thick, which stood about the middle of the house, and against which had rested the head of my bed. The plastering had here, in great measure, resisted the action of the fire—a fact which I attributed to its having been recently spread. About this wall a dense crowd were collected, and many persons seemed to be examining a particular portion of it with very minute and eager attention. The words "strange!" "singular!" and other similar expressions, excited my curiosity. I approached and saw, as if graven in bas relief upon the white surface, the figure of a gigantic cat. The impression was given with an accuracy truly marvellous. There was a rope about the animal's neck.

Estou para lá da fraqueza de estabelecer uma relação de causa e efeito entre o desastre e a atrocidade, mas, estando a detalhar uma cadeia de eventos, não pretendo deixar de fora nenhum elo possível. No dia que sucedeu ao do incêndio, visitei as ruínas. Com uma única excepção, todas as paredes se haviam desmoronado. Esta excepção era uma parede de isolamento, não muito grossa, que ficava sensivelmente a meio da casa, e contra a qual havia estado encostada a cabeceira da minha cama. Ali o estuque tinha resistido em grande medida à acção do fogo, algo que atribuí ao facto de ter sido aplicado há pouco tempo. Uma densa multidão estava reunida junto a esta parede, e muitas pessoas pareciam examinar, com minuciosa e ávida atenção, uma porção específica da mesma. As palavras «estranho!», «singular!» e outras expressões semelhantes, despertaram a minha curiosidade. Aproximei-me e vi, como que gravada em baixo-relevo na superfície branca, a figura de um gato gigantesco. A imagem era de uma precisão verdadeiramente maravilhosa. Em torno do pescoço do animal, havia uma corda.

When I first beheld this apparition—for I could scarcely regard it as less—my wonder and my terror were extreme. But at length reflection came to my aid. The cat, I remembered, had been hung in a garden adjacent to the house. Upon the alarm of fire, this garden had been immediately filled by the crowd—by some one of whom the animal must have been cut from the tree and thrown, through an open window, into my chamber. This had probably been done with the view of arousing me from sleep. The falling of other walls had compressed the victim of my cruelty into the substance of the freshly-spread plaster; the lime of which, with the flames, and the ammonia from the carcass, had then accomplished the portraiture as I saw it.

Experimentei uma admiração e um terror extremos assim que vislumbrei esta aparição, pois dificilmente a podia considerar menos do que isso. Passado o choque inicial um pensamento veio em meu auxílio, pois lembrei-me que o gato havia sido enforcado num jardim próximo da casa. Assim que soou o alarme de fogo, o jardim enchera-se imediatamente com a multidão, de entre a qual alguém certamente cortara a corda e atirara o animal, através de uma janela aberta, para o meu quarto. Isto terá sido feito com o intento de me acordar. A queda das outras paredes teria então esmagado a vítima da minha crueldade contra o estuque recentemente aplicado, cuja cal, em conjunto com as chamas e a amónia do cadáver, executara então a imagem como a vi.

Although I thus readily accounted to my reason, if not altogether to my conscience, for the startling fact just detailed, it did not the less fail to make a deep impression upon my fancy. For months I could not rid myself of the phantasm of the cat; and, during this period, there came back into my spirit a half-sentiment that seemed, but was not, remorse. I went so far as to regret the loss of the animal, and to look about me, among the vile haunts which I now habitually frequented, for another pet of the same species, and of somewhat similar appearance, with which to supply its place.

Apesar de assim prestar prontamente explicações à minha razão, senão mesmo à minha consciência, quanto ao surpreendente acontecimento que relatei, nem por isso este deixou de ter forte impacto na minha imaginação. Durante meses não consegui libertar-me do espectro do gato e, ao longo desse período, um sentimento misto que quase se assemelhava a, mas que não chegava a ser, remorso, assolou-me o espírito. Cheguei ao ponto de lamentar a perda do animal e de procurar, nos lugares imundos que agora frequentava habitualmente, outro bicho da mesma espécie e de aparência semelhante que pudesse substituí-lo.

One night as I sat, half stupified, in a den of more than infamy, my attention was suddenly drawn to some black object, reposing upon the head of one of the immense hogsheads of Gin, or of Rum, which constituted the chief furniture of the apartment. I had been looking steadily at the top of this hogshead for some minutes, and what now caused me surprise was the fact that I had not sooner perceived the object thereupon. I approached it, and touched it with my hand. It was a black cat—a very large one—fully as large as Pluto, and closely resembling him in every respect but one. Pluto had not a white hair upon any portion of his body; but this cat had a large, although indefinite splotch of white, covering nearly the whole region of the breast. Upon my touching him, he immediately arose, purred loudly, rubbed against my hand, and appeared delighted with my notice. This, then, was the very creature of which I was in search. I at once offered to purchase it of the landlord; but this person made no claim to it—knew nothing of it—had never seen it before.

Quando certa noite me sentava, meio embrutecido, num antro mais do que infame, a minha atenção foi subitamente atraída para um objecto preto que repousava em cima de um dos imensos barris de Gin, ou de Rum, que constituíam a principal mobília da divisão. Já olhava fixamente para o topo deste barril há alguns minutos, e o que agora me causava surpresa era o facto de não me ter apercebido antes do objecto que aí se encontrava. Aproximei-me e toquei-lhe com a mão. Era um gato preto, um enorme gato preto, tão grande como Plutão e que se assemelhava a ele em todos os aspectos excepto um. Plutão não tinha um único pelo branco no corpo, mas este gato tinha uma grande, embora indefinida, mancha branca cobrindo-lhe o peito quase na totalidade. Assim que lhe toquei levantou-se de imediato, ronronou sonoramente, roçou-se na minha mão e pareceu enlevado com a atenção que lhe dedicava. Esta era pois a criatura que eu procurava. Propus-me imediatamente a comprá-lo ao proprietário do estabelecimento, mas este não se assumiu como dono do gato, não sabia nada dele e nunca o havia sequer visto antes.

I continued my caresses, and, when I prepared to go home, the animal evinced a disposition to accompany me. I permitted it to do so; occasionally stooping and patting it as I proceeded. When it reached the house it domesticated itself at once, and became immediately a great favorite with my wife.

Continuei a acariciá-lo e, quando me preparava para voltar para casa, o animal manifestou vontade de me acompanhar. Deixei que o fizesse, curvando-me ocasionalmente para o afagar enquanto caminhava. Quando chegou a casa o gato familiarizou-se sem demora e tornou-se de imediato num predilecto da minha mulher.

For my own part, I soon found a dislike to it arising within me. This was just the reverse of what I had anticipated; but—I know not how or why it was—its evident fondness for myself rather disgusted and annoyed. By slow degrees, these feelings of disgust and annoyance rose into the bitterness of hatred. I avoided the creature; a certain sense of shame, and the remembrance of my former deed of cruelty, preventing me from physically abusing it. I did not, for some weeks, strike, or otherwise violently ill use it; but gradually—very gradually—I came to look upon it with unutterable loathing, and to flee silently from its odious presence, as from the breath of a pestilence.

Pela parte que me tocava, depressa começou a crescer dentro de mim uma certa antipatia por ele. Tal era precisamente o contrário do que eu previra; sucede que, sem que eu saiba como ou porquê, a sua clara afeição por mim causava-me repulsa e incómodo. Pouco a pouco estes sentimentos de repulsa e incómodo cresceram até se tornarem uma total amargura e ódio. Evitava a criatura; uma certa sensação de vergonha, e a recordação do meu anterior acto de crueldade, impediam-me de abusar dela fisicamente. Abstive-me, durante algumas semanas, de lhe bater ou abusar dela de qualquer outra forma física, mas gradualmente, muito gradualmente, passei a vê-la com uma inexprimível aversão e a fugir em silêncio da sua odiosa presença, como se de um ar pestilento se tratasse.

What added, no doubt, to my hatred of the beast, was the discovery, on the morning after I brought it home, that, like Pluto, it also had been deprived of one of its eyes. This circumstance, however, only endeared it to my wife, who, as I have already said, possessed, in a high degree, that humanity of feeling which had once been my distinguishing trait, and the source of many of my simplest and purest pleasures.

Algo que terá, sem dúvida, aumentado o meu ódio pelo animal foi a descoberta, na manhã após o ter trazido para casa, que ele, tal como Plutão, também havia sido privado de um dos seus olhos. Esta circunstância, no entanto, só o tornou mais querido para a minha mulher, que, como já havia dito, possuía, em elevado grau, aquele sentimento de humanidade que em tempos havia sido o meu traço distintivo e a fonte de muitos dos meus prazeres mais simples e puros.

With my aversion to this cat, however, its partiality for myself seemed to increase. It followed my footsteps with a pertinacity which it would be difficult to make the reader comprehend. Whenever I sat, it would crouch beneath my chair, or spring upon my knees, covering me with its loathsome caresses. If I arose to walk it would get between my feet and thus nearly throw me down, or, fastening its long and sharp claws in my dress, clamber, in this manner, to my breast. At such times, although I longed to destroy it with a blow, I was yet withheld from so doing, partly by a memory of my former crime, but chiefly—let me confess it at once—by absolute dread of the beast.

Contudo, a afeição que o gato manifestava por mim parecia crescer à medida que a minha aversão por ele aumentava. Seguia os meus passos com uma tenacidade que seria difícil explicar ao leitor. Sempre que me sentava, agachava-se debaixo da minha cadeira ou saltava para o meu colo, cobrindo-me com as suas odiosas carícias. Se me levantasse para caminhar, atravessava-se por entre os meus pés, quase me derrubando, ou, cravando as suas garras longas e afiadas na minha roupa, trepava até ao meu peito. Nessas alturas, apesar de me apetecer desfazê-lo com uma pancada, retraía-me de o fazer, em parte devido à memória do meu anterior crime, mas sobretudo, permitam-me que o confesse de imediato, por um pavor absoluto do animal.

This dread was not exactly a dread of physical evil—and yet I should be at a loss how otherwise to define it. I am almost ashamed to own—yes, even in this felon's cell, I am almost ashamed to own—that the terror and horror with which the animal inspired me, had been heightened by one of the merest chimaeras it would be possible to conceive. My wife had called my attention, more than once, to the character of the mark of white hair, of which I have spoken, and which constituted the sole visible difference between the strange beast and the one I had destroyed. The reader will remember that this mark, although large, had been originally very indefinite; but, by slow degrees—degrees nearly imperceptible, and which for a long time my Reason struggled to reject as fanciful—it had, at length, assumed a rigorous distinctness of outline. It was now the representation of an object that I shudder to name—and for this, above all, I loathed, and dreaded, and would have rid myself of the monster had I dared—it was now, I say, the image of a hideous—of a ghastly thing—of the GALLOWS!—oh, mournful and terrible engine of Horror and of Crime—of Agony and of Death!

Este pavor não era bem a um qualquer mal físico, mas no entanto não encontro outra forma de o definir. Sinto-me quase que envergonhado ao admitir, sim, mesmo condenado nesta cela, quase me sinto envergonhado ao admitir que o terror e o horror que o animal me inspirava, haviam sido aumentados por uma das mais simples quimeras possíveis de conceber. Por mais de uma vez a minha mulher havia-me chamado à atenção para a particular mancha de pêlo branco de que já falei, e que constituía a única diferença visível entre o estranho animal e aquele que eu havia matado/destruído. O leitor recordar-se-á que esta mancha, embora grande, era inicialmente bastante indefinida; mas, aos poucos, duma forma quase imperceptível e que durante muito tempo a minha Razão rejeitou como fantasiosa, acabou por assumir contornos bem delineados. Assemelhava-se agora a um objecto que sou incapaz de nomear sem estremecer e, acima de tudo por esse motivo, abominava e temia o monstro, e ter-me-ia livrado dele se tivesse coragem para tal. Assemelhava-se agora, dizia eu, à imagem de uma coisa hedionda, de uma coisa pavorosa, de uma FORCA! Oh, lúgubre e terrível engenho de Horror e de Crime, de Agonia e de Morte!


Casos para análise na revisão final
Spoiler! :
    Tradução de disposition - modos, feitio, etc.
    Tradução de «for what disease is like Alcohol!»
    Tradução de blazing, em: «The whole house was blazing»
    Itálicos
    Tradução de landlord
    Garantir consistência nos casos traduzidos para afecto/afeição

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Samwise » 04 Dec 2013 22:48

Aqui vai a minha sugestão (parti basicamente do teu texto, Vampire, e alterei algumas parte, que aparecem sublinhadas)

Para a tão extraordinária, e no entanto tão prosaica narrativa que estou prestes a grafar, não espero nem clamo credibilidade. Louco seria eu deveras se o esperasse, num caso em que os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto, louco não sou — e muito seguramente não estou a sonhar. Mas amanhã morrerei, e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar diante do mundo, de forma franca, sucinta e sem comentar, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram — torturaram — destruíram-me. No entanto não vou tentar explicá-los. Para mim, não representam mais do que Horror — a muitos parecerão menos terríveis do que barrocos. Futuramente, talvez, algum intelecto possa aparecer que venha a reduzir a minha fantasia a um lugar-comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico, e muito menos exaltável do que o meu, que encontrará, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma vulgar sucessão de causas e efeitos bastante naturais.
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby vampiregrave » 04 Dec 2013 23:02

Samwise wrote:Aqui vai a minha sugestão (parti basicamente do teu texto, Vampire, e alterei algumas parte, que aparecem sublinhadas)

Para a tão extraordinária, e no entanto tão prosaica narrativa que estou prestes a grafar, não espero nem clamo credibilidade. Louco seria eu deveras se o esperasse, num caso em que os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto, louco não sou — e muito seguramente não estou a sonhar. Mas amanhã morrerei, e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar diante do mundo, de forma franca, sucinta e sem comentar, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram — torturaram — destruíram-me. No entanto não vou tentar explicá-los. Para mim, não representam mais do que Horror — a muitos parecerão menos terríveis do que barrocos. Futuramente, talvez, algum intelecto possa aparecer que venha a reduzir a minha fantasia a um lugar-comum — algum intelecto mais calmo, mais lógico, e muito menos exaltável do que o meu, que encontrará, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma vulgar sucessão de causas e efeitos bastante naturais.


Parecem-me todas boas sugestões. Só tenho algumas reticências relativamente a esta:

de forma franca, sucinta e sem comentar

Poe utiliza directamente os advérbios, talvez até ao exagero, como se consegue verificar logo neste parágrafo. Esta alteração foge um pouco ao original, mas também é verdade que mantém o sentido e atenua o excesso de advérbios que indiquei.

Duas notas. Primeiro, parece-me uma boa abordagem a de pegar na tradução base e editá-la com as sugestões. A não ser que queiram comentar apenas uma passagem em concreto, julgo que é a melhor opção. Segundo, só vou editar a tradução no primeiro post após ter recebido feedback dos restantes envolvidos, para partirem todos da mesma base. Assim que uma secção ficar fechada, coloco em spoiler, mantendo visíveis apenas os parágrafos em debate.

Edit: Mais uma nota. Possuo apenas uma edição portuguesa que inclui este conto, e espantou-me a liberdade com que o texto foi traduzido...

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Bugman » 04 Dec 2013 23:24

Estava aqui ocupado e vocês em simultâneo...

Seguem abaixo os meus 20 cêntimos:

Bugman wrote:Não espero que acreditem numa narrativa tão extraordinária, e no entanto tão prosaica, como estou prestes a escrever. Seria louco se o esperasse, quando os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto não sou louco, e certamente não sonhei, mas amanhã morro e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar perante o mundo, francamente, sucintament e sem qualquer comentário uma série de meros acontecimentos domésticos. A sua consequência foi de me terem aterrorizado, torturado e destruído, e ainda assim não vou tentar explaná-los. Para mim, eles representam nada mais do que um pouco de Horror, para muitos eles serão pouco menos terríveis do que barrocos. Pode ser que subsequentemente algum intelecto consiga reduzir os meus fantasmas a lugares comuns. Um intelecto mais calmo, mais lógico e de longe menos excitável do que o meu, e que encontrará, por entre as circunstâncias que descrevo com espanto, nada mais do que uma sucessão banal de causas e efeitos naturais.
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby vampiregrave » 04 Dec 2013 23:44

Bugman wrote:Estava aqui ocupado e vocês em simultâneo...

Seguem abaixo os meus 20 cêntimos:

Bugman wrote:Não espero que acreditem numa narrativa tão extraordinária, e no entanto tão prosaica, como estou prestes a escrever. Seria louco se o esperasse, quando os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto não sou louco, e certamente não sonhei, mas amanhã morro e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar perante o mundo, francamente, sucintament e sem qualquer comentário uma série de meros acontecimentos domésticos. A sua consequência foi de me terem aterrorizado, torturado e destruído, e ainda assim não vou tentar explaná-los. Para mim, eles representam nada mais do que um pouco de Horror, para muitos eles serão pouco menos terríveis do que barrocos. Pode ser que subsequentemente algum intelecto consiga reduzir os meus fantasmas a lugares comuns. Um intelecto mais calmo, mais lógico e de longe menos excitável do que o meu, e que encontrará, por entre as circunstâncias que descrevo com espanto, nada mais do que uma sucessão banal de causas e efeitos naturais.


A tua sugestão desperta algumas questões pertinentes, que convém serem esclarecidas numa fase inicial. Devemos apontar para uma tradução mais literal, ou adequar a linguagem desde que se mantinha o sentido original? Devemos procurar respeitar sempre a pontuação original?

Edit: 1000 posts :mrgreen:

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Samwise » 04 Dec 2013 23:54

O texto do Bugman foge ao espartilho estrutural do Poe, mas fica extraordinariamente mais fluído para se ler. Gostei. :bow:

Ainda sugiro uns pequenos ajustes:

..."como a que estou prestes a escrever..."

"A sua consequência foi a de me terem aterrorizado..."

Penso que dentro do teu tipo de tradução, que elimina alguns coloquialismos, fica melhor "explicar" do que "explanar".


vampiregrave wrote:Duas notas. Primeiro, parece-me uma boa abordagem a de pegar na tradução base e editá-la com as sugestões. A não ser que queiram comentar apenas uma passagem em concreto, julgo que é a melhor opção. Segundo, só vou editar a tradução no primeiro post após ter recebido feedback dos restantes envolvidos, para partirem todos da mesma base. Assim que uma secção ficar fechada, coloco em spoiler, mantendo visíveis apenas os parágrafos em debate.


Concordo. Também me parece um bom sistema, para já.

Edit: Mais uma nota. Possuo apenas uma edição portuguesa que inclui este conto, e espantou-me a liberdade com que o texto foi traduzido...


Face ao texto do Bugman, há que pensar no tipo de liberdades que pretendemos tomar, e seguir sempre dentro dessa base...


EDIT: Parabéns! :mrgreen:
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby vampiregrave » 04 Dec 2013 23:59

Será que nos compete corrigir as falhas dos autores (isto admitindo que estaríamos aptos a detectar essas mesmas falhas)? :rolleyes:

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Bugman » 05 Dec 2013 00:19

Samwise wrote:Ainda sugiro uns pequenos ajustes:

..."como a que estou prestes a escrever..."

"A sua consequência foi a de me terem aterrorizado..."

Penso que dentro do teu tipo de tradução, que elimina alguns coloquialismos, fica melhor "explicar" do que "explanar".


Antes de mais obrigado pelo elogio :blush: , mas gostava de ressalvar que não tentei eliminar coloquialismos. A explicação segue à frente...

Se bem me lembro (já não estudo PT ou EN há 14 anos) gramaticalmente o português e o inglês diferem um pouco um do outro e o que contribui para um estilo de leitura numa lingua não o faz para outra. Neste caso concreto, a frase de abertura ganha mais da fluidez do original quando a "descrença" abre a frase. Outro ponto em que as duas línguas diferem é na extensão das frases. Em inglês há um primado para frases curtas, ao passo que em português chegamos a ter frases que são o próprio parágrafo, sem que isso interfira com a compreensão do texto ou o ritmo da leitura.

Acho que, numa tradução, deve-se primar por preservar o sentido do que o autor quer dizer. Nesse sentido conjuguei algumas frases que o Edgar tinha em separado e alterei um pouco a estrutura das frases para aquilo que me soa mais "português". De seguida procurei manter vocábulos apelando à minha memória sobre a frequência dos mesmos e tentando empregar vocábulos com frequências semelhantes em português. Uma complicação para ambos, porque ao lado dos italianos e franceses com quem trabalho sou um letrado de Oxford e por causa dos galicismos e anglicismos o meu vocabulário português já não é o que foi.

Quanto aos remarks feitos:

"como a que estou prestes a escrever..." - Tentei reler e de facto soa-me melhor, apesar de não ter a certeza que vá de encontro ao texto original. Aceito o que os restantes acharem por bem;

"A sua consequência foi a de me terem aterrorizado..." - Eh pá sim, bota preposição nisso! :P

fica melhor "explicar" do que "explanar". - O verbo "to expound" (to give a detailed explanation of something) não é um verbo que se encontre com frequência na literatura inglesa. Talvez na época fosse, não o rejeito porque não sou assim tão grande conhecedor, e ao passar este sentido para português tentei usar um verbo também pouco frequente, daí ter recorrido ao "explanar" e não ao "explicar" ou "descrever".
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Bugman » 05 Dec 2013 00:22

vampiregrave wrote:Será que nos compete corrigir as falhas dos autores (isto admitindo que estaríamos aptos a detectar essas mesmas falhas)? :rolleyes:


Se por autores queres dizer os tradutores, acho que sim. Quanto às falhas dos "autores" mesmo, as falhas podem ser fruto da natureza distinta das línguas e não necessariamente falhas. Nesse sentido, estaremos a corrigir falhas, ou simplesmente a preencher lacunas?
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby vampiregrave » 05 Dec 2013 00:32

Bugman wrote:
vampiregrave wrote:Será que nos compete corrigir as falhas dos autores (isto admitindo que estaríamos aptos a detectar essas mesmas falhas)? :rolleyes:


Se por autores queres dizer os tradutores, acho que sim. Quanto às falhas dos "autores" mesmo, as falhas podem ser fruto da natureza distinta das línguas e não necessariamente falhas. Nesse sentido, estaremos a corrigir falhas, ou simplesmente a preencher lacunas?


Falo dos escritores.

Retomando a questão da liberdade na tradução, julgo que tem que ser encontrado um meio-termo, sob pena de se tornar bastante complicado gerir a tradução em grupo. O problema será identificar essa fronteira. A partir de que ponto não estaremos a ir além da necessária adaptação à nossa língua, fugindo à intenção original do autor?

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Bugman » 05 Dec 2013 00:52

Traduttore tradittore... :whistle:

Acho que se torna difícil estabelecer um conjunto de regras fixas que determinem isso. Se calhar vamos mesmo ter de apelar ao que à "ditadura da maioria" e o que parecer uma boa tradução a um maior número de participantes acaba por ser o produto final.
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Samwise » 05 Dec 2013 01:23

Bugman wrote:Outro ponto em que as duas línguas diferem é na extensão das frases. Em inglês há um primado para frases curtas, ao passo que em português chegamos a ter frases que são o próprio parágrafo, sem que isso interfira com a compreensão do texto ou o ritmo da leitura.


Sir, you obviously haven't met Charles Dickens! . . . :mrgreen: :mrgreen: :mrgreen:

--

Acerca da(s) liberdade(s) na tradução, onde anda o Thanatos quando precisamos dele? :bbde:

Gostava de ouvir mais opiniões, especialmente da parte de quem já tem experiência concreta com a coisa.

Tenho um pouco de receio em seguir a "lei democrática" nestes assuntos, já que os votos podem decretar por maioria que 2 + 2 = 5 ...
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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby vampiregrave » 05 Dec 2013 10:05

Para já proponho então o seguinte método:
Fase 1 - Começo por colocar o texto original e uma tradução minha, o mais literal possível. Nessa tradução, por um lado, decerto se tornarão evidentes os casos que devem ser reescritos, que soam mal ao leitor português, e por outro podemos aproveitar aqueles excertos que suscitam menor dúvida.

Fase 2 - Go wild :rotfl:

Quanto à questão da liberdade, teremos de avaliar caso a caso.

Edit: E para confirmar que isto da liberdade é uma coisa do Diabo, aqui vai mais uma proposta, não tão literal como a primeira, mas respeitando, na maioria dos casos, a pontuação do original:

Não peço, nem espero, que acreditem na narrativa tão extraordinária, e no entanto tão prosaica, que estou prestes a escrever. Seria louco se o esperasse, quando os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto, não sou louco — e seguramente não estou a sonhar. Mas amanhã morrerei, e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar perante o mundo, francamente, sucintamente e sem qualquer comentário, uma série de meros acontecimentos domésticos. Nas suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram — torturaram — destruíram-me. No entanto não vou tentar explicá-los. Para mim, pouco mais representam do que Horror — a muitos parecerão menos terríveis do que barrocos. Talvez venha a surgir um intelecto capaz de reduzir as minhas fantasias a lugares-comuns — um intelecto mais calmo, mais lógico, e de longe menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma vulgar sucessão de causas e efeitos bastante naturais.


Destaquei a bold a frase que me causa mais dúvidas. Creio que devemos manter o efeito de crescente tensão do original, mas não estou certo de que a minha sugestão seja a mais apropriada para esse fim.

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Thanatos » 05 Dec 2013 14:30

Pior que as traduções dos anos 80 da Europa-América não hão-de ser.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: O Gato Preto - Edgar Allan Poe [Tradução]

Postby Bugman » 05 Dec 2013 15:16

Quanto ao Dickens, de facto nunca fomos apresentados, mas não creio que faça inveja a um Saramago ou a um Lobo Antunes. De resto, quando se fala na generalidade, deixa-se muita coisa de fora...

Quanto às liberdades, gostei da versão do Vampiregrave, mas faria umas pequenas alterações. Para começar as frases começadas por 'mas' (acho que há um tópico algures onde discorro sobre o assunto) e acabando nos travessões a meio da frase. A minha proposta de alteração segue abaixo (e sim, algumas coisas vão contra a minha versão do texto, mas mudá-las-ia la também).

vampiregrave wrote:Não peço, nem espero, que acreditem na narrativa tão extraordinária, e no entanto tão prosaica, que estou prestes a escrever. Seria louco se o esperasse, quando os meus próprios sentidos rejeitam as evidências. No entanto, não sou louco e seguramente não estou a sonhar., mas amanhã morrerei, e hoje quero aliviar a minha alma. O meu propósito imediato é colocar perante o mundo, francamente, sucintamente e sem qualquer comentário, uma série de meros acontecimentos domésticos. As suas consequências, estes acontecimentos aterrorizaram, torturaram e destruíram-me. No entanto não vou tentar explicá-los. Para mim, pouco mais representam do que Horror e a muitos parecerão menos terríveis do que barrocos. Talvez venha a surgir um intelecto capaz de reduzir as minhas fantasias a lugares-comuns, um intelecto mais calmo, mais lógico, e de longe menos excitável do que o meu, que perceberá, nas circunstâncias que detalho com assombro, nada mais do que uma vulgar sucessão de causas e efeitos bastante naturais.
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O homem que obedece a Deus, não precisa de outra autoridade. Petr Chelčický
Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
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