O Mandarim - critérios de revisão da Edição Crítica

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Samwise
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O Mandarim - critérios de revisão da Edição Crítica

Postby Samwise » 13 Mar 2014 01:30

A maioria dos pontos abaixo transcritos fazem sentido apenas no contexto da obra em questão. Ainda assim, penso que se justifica partilhar aqui tais critérios - servirão sempre como base trabalho e comparação com outras eventuais revisões a fazer no Adamastor. O facto destes critérios não estarem incluídos nos ebooks que publicamos justifica por seu turno que devam estar acessíveis ao público em geral - e em particular a quem calhar vir ler a nossa versão de O Mandarim.

O texto seguinte é da autoria de Beatriz Berrini.

CRITÉRIOS PARA A APRESENTAÇÃO DO TEXTO
E DO SEU APARATO CRÍTICO

Edição ne varietur. É a de 1889, designada 3.ª edição, publicada em vida do autor e apresentando ligeiras variantes em relação à 1.ª edição em volume, de 1880. Consulte-se o item «História do Texto» da Introdução, onde se justifica a escolha.

Texto do folhetim e em volume. As páginas pares estampam o texto publicado em folhetim no Diário de Portugal; as ímpares a versão de 1889, ne varietur. Como nesta actual edição o folhetim não aparece em texto corrido, para permitir o seu confronto com aquele de 1889 – as páginas pares por vezes têm número inferior de linhas impressas em relação às ímpares, e algumas estão totalmente em branco. Por outro lado, anotaram-se em rodapé e de acordo com as normas da presente edição, as correcções por mim introduzidas no texto do Diário de Portugal.

Variantes. As alterações textuais, deduzidas do cotejo entre a 1.ª edição de 1880 e a ne varietur de 1889, são apresentadas na parte inferior das páginas. Cada variante é indicada pelo número da linha, seguindo-se o elemento do texto-base (frase ou vocábulo) que precede aquele que é objecto de alteração; vem depois o(s) elemento(s) alterado(s), ou seja, a variante propriamente dita. Os dois conjuntos de vocábulos estão separados por um colchete. Sempre que houve necessidade, para garantir a clareza, o registo dos elementos textuais anteriores e posteriores à alteração alargou-se. O mesmo procedimento foi adoptado no caso de haver mais de uma alteração em frase e/ou vocábulo muito próximos. O exemplo seguinte parece-me suficientemente esclarecedor:

desaparecer a meus olhos, como um fumo, a ] desaparecer aos meus olhos com um fumo a

Neste exemplo, aos foi substituído por a, acrescentando-se duas vírgulas logo a seguir, inexistentes no texto de 1880.
Quando a alteração coincide com o início de parágrafo, não havendo portanto elemento textual comum imediatamente anterior, o registo de variante limita-se ao(s) elemento(s) alterado(s).

Notas explicativas do editor. Foram reduzidas ao mínimo, limitando-se aos casos em que nos pareceu imprescindível elucidar pontos obscuros, dar o significado de algumas expressões pouco utilizadas hoje em dia, e assim por diante.

Ortografia e pontuação. A ortografia foi actualizada. Foram respeitadas as opções do autor no que tange à pontuação. Em alguns casos, a pontuação de Eça de Queirós parece-nos bastante peculiar, como por exemplo quanto ao emprego dos dois pontos (:), que hoje em dia obedece a normas diferentes das então vigentes. Somente se alterou a pontuação quando pareceu não haver justificação estilística para o seu emprego (caso da vírgula entre sujeito e predicado), atribuível ou a um lapsus calami ou a uma gralha tipográfica, ou ainda a mão alheia. A alteração é indicada em nota na parte inferior da página.

Maiúsculas. Adoptou-se a norma vigente, mesmo que no texto original o autor utilizasse maiúsculas para palavras hoje escritas em minúsculas, salvo nos casos em que é patente o emprego por razões estilísticas.

Palavras onomatopaicas. Aqui também se obedeceu à grafia da edição ne varietur. Inclusive nos casos em que, hoje, a grafia é diferente. Assim, por exemplo, acatou-se a dupla acentuação de né-né ou de Tó-tó. Uma excepção: ouf (assim escrito talvez por influência francesa) que foi alterado para uf.

Nomes próprios estrangeiros (de cidades, vilas, rios, pessoas, etc.). Adoptou-se a ortografia actualizada para denominações já integradas na língua portuguesa (embora com grafia diferente no século XIX). Exemplos: Bona (por Bonn); Pequim e Nanquim (em vez de Peking e Nanking, na edição de 1889), Xangai (em lugar de Chang-Hai), etc.; no caso de Xangai vale a pena observar que a letra x já era usada na grafia de palavras chinesas no século XIX. Teria algum motivo Eça de Queirós para preferir o desdobramento em dois vocábulos e o H inicial, já que se familiarizara com a língua chinesa, ao menos um pouco, em Havana? Apesar disso, como foi especificado, observou-se a grafia actualizada. No caso de oscilação, adoptou-se a grafia quantitativamente predominante, por motivo de uniformidade.

Palavras estrangeiras comuns. Observou-se a fidelidade à língua original, embora nem sempre se apresentem de forma correcta no texto de 1889. Muitas vezes, tais palavras aparecem sem destaque, por já estarem incorporadas na língua quotidiana à época. Assim, nesta edição foram respeitadas as opções gráficas do autor.

Grafia de palavras chinesas. Exceptuando-se aquelas denominações já incorporadas na língua portuguesa, conservou-se a grafia da edição de 1889, ne varietur. Como já se assinalou, e por mais de uma vez nesta Introdução, existem hoje em dia sete sistemas de transcrição do chinês para o alfabeto ocidental e para as línguas europeias. Leitor de livros e jornais oitocentistas em inglês e francês, além daqueles em português, estava Eça familiarizado com as transcrições adoptadas nos textos então publicados. Fez portanto uma escolha consciente desta ou daquela grafia, de nomes próprios ou não. Essa a razão de termos optado por uma fidelidade à grafia presente no texto-base ne verietur, exceptuando-se os casos assinalados no item anterior. Tal fidelidade estendeu-se às maiúsculas e/ou minúsculas iniciais de palavras compostas, inclusive em relação ao nome do guia chinês de Teodoro: Sá-Tó.

O caso especial de «kouli» / «koulis». Conhecia Eça de Queirós, com certeza, desde os seus tempos de Havana, e como cônsul em Newcastle ou Bristol, a transcrição inglesa: coolie. Assim a palavra aparece também em Júlio Verne, pois o francês adoptou a mesma grafia. Entretanto, privilegiou Eça de Queirós outra grafia, com k inicial, seguido de ou (e não de u). Teria razões para isso e optámos por respeitá-las.

Gralhas e erros. Foram corrigidos os erros explicáveis por lapso do autor, anotando-se a correcção. O mesmo em relação a óbvias gralhas tipográficas e, neste caso, não se julgou necessário a nota.

A transcrição do folhetim. Seguiram-se os mesmos critérios adoptados para a edição do texto ne varietur. É preciso ter em mente que os folhetins foram submetidos de França e/ou Inglaterra, para Portugal, e não sofreram revisão do autor antes da publicação definitiva. Nem sempre, por outro lado, a letra de Eça de Queirós era de leitura fácil, e pode ter sido decifrada com erros. Acrescente-se que as gralhas tipográficas eram frequentes e, por vezes, espantosas. Assim, quando se decidiu por determinadas grafias, foi depois de um cotejo com as duas edições de 1880 e 1889. É o caso por exemplo de camapé, que na edição em volume foi substituída por canapé. As variantes aparecem na parte inferior das páginas pares: primeiramente a grafia adoptada, como também a pontuação, seguida de colchete e da versão do texto do Diário de Portugal. Note-se mais uns casos: as grafias dos nomes do embaixador russo: Camiloff, do Mandarim Ti-chin-fú, do guia Sá-Tó – diferentes das do texto-base em volume. Fomos fiéis a elas, para favorecer o confronto entre os dois textos, jornalístico e livro.
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