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vampiregrave
Livro Raro
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Postby vampiregrave » 21 Apr 2015 09:24

Por forma a continuar o debate que até agora tinha sido efectuado noutro tópico, e para reorganizar as fontes citadas facilitando a sua consulta, resolvi criar este tópico.

Resumindo a questão, o que se pretende decidir é qual o nível de actualização em termos de ortografia que devemos aplicar a obras teatrais. À data, aos dois restantes géneros por nós publicados, são aplicados diferentes critérios: no caso da poesia, a grafia só é actualizada caso não tenha impacto em termos de fonética e se não interferir na métrica, aquilo a que podemos chamar de actualização conservadora; na prosa os casos em que não actualizamos a grafia são apenas pontuais, como certos arcaísmos ou quando se denota uma clara intenção do autor em reproduzir o discurso de uma certa região ou faixa social. Em termos de estilo, também diferem os critérios: na poesia temos vindo a respeitar sempre a aplicação (ou não) de maiúsculas, itálicos, avanços de linha, etc., enquanto na prosa temos procurado aplicar os critérios geralmente aceites nos dias que correm.

Alguns exemplos retirados do Frei Luís de Sousa:

TELMO.

— É... delgadinha, é. Há-de inrijar. É tê-la por aqui, fora daqueles ares apestados de Lisboa; e deixai, que se há-de pôr outra.


Exemplo 2
MADALENA.

— Para essa houve poder maior que as minhas forças... D. João ficou naquela batalha com seu pai, com a flor da nossa gente. (Sinal de impaciência em Telmo.) Sabeis como chorei a sua perda, como respeitei a sua memória, como durante sete anos, incrédula a tantas provas e testemunhos de sua morte, o fiz procurar por essas costas de Berberia, por todas as séjanas de Fez e Marrocos, por todos quantos aduares de Alarves aí houve... Cabedais e valimentos, tudo se impregou; gastaram-se grossas quantias; os embaixadores de Portugal e Castela tiveram ordens apertadas de o buscar por toda a parte; aos padres da Redenção, a quanto religioso ou mercador podia penetrar naquelas terras, a todos se incomendava o seguir a pista do mais leve indício que pudesse desmintir, pôr em dúvida ao menos, aquela notícia que logo viera com as primeiras novas da batalha dʼAlcácer. Tudo foi inútil; e a ninguém mais ficou resto de dúvida...


Exemplo 3
MADALENA.

— Pois tens: melhor. — E és tu que andas, continuamente e quasi por acinte, a sustentar essa quimera, a levantar esse fantasma, cuja sombra, a mais remota, bastaria para inodoar a pureza daquela inocente, para condenar a eterna desonra a mãe e a filha... (Telmo dá sinais de grande agitação.) Ora dize: já pensaste bem no mal que estás fazendo? — Eu bem sei que a ninguém neste mundo, senão a mim, falas em tais cousas... falas assim como hoje temos falado... mas as tuas palavras misteriosas, as tuas alusões frequentes a esse desgraçado rei D. Sebastião, que o seu mais desgraçado povo ainda não quis acreditar que morresse, por quem ainda espera em sua leal incredulidade! — esses contínuos agouros em que andas sempre de uma desgraça que está iminente sobre a nossa família... não vês que estás excitando com tudo isso a curiosidade daquela criança, aguçando-lhe o espírito — já tão perspicaz! — a imaginar, a descobrir... quem sabe se a acreditar nessa prodigiosa desgraça em que tu mesmo... tu mesmo... sim, não crês deveras? Não crês, mas achas não sei que doloroso prazer em ter sempre viva e suspensa essa dúvida fatal. E então considera, vê: se um terror similhante chega a entrar naquela alma, quem lho há-de tirar nunca mais?... O que há-de ser dela e de nós? — Não a perdes, não a matas... não me matas a minha filha?


Critérios aplicados em edições de referência

Edição crítica d'O Arco de Sant’Ana, Maria Helena Santana, Coordenação de Ofélia Paiva Monteiro (Imprensa Nacional)

Na fixação textual, optou-se pela modernização ortográfica, sempre que não apague, porém, “formas que assinalam, num momento em que a grafia não estava submetida ainda a uma sistematização normativa, realizações fónicas distintas das actuais ou devidas a razões estilísticas de diversa índole”; e manteve-se a “subtil pontuação garrettiana, a não ser em casos de necessidade evidente de correcção ou de aconselhável esclarecimento da sintaxe dos textos”. A transcrição textual proposta pela edição tem, pois, “um carácter moderadamente conservador”, que visa facilitar a leitura “pela eliminação de marcas ortográficas oitocentistas irrelevantes” (como as consoantes duplas), mas deseja “manter a ‘cor histórica’ representativa de um certo momento da evolução da língua ou de uma preferência de Garrett, possuidor que era de um apuradíssimo sentido da eufonia, dos valores semântico-estilísticos das palavras, da variedade idiolectal do português do seu tempo”. Como acontece na edição já vinda a lume de O Arco de Sant’Ana, todas as obras que integrarão a edição crítica serão portadoras de uma introdução que, para além de atentar nas questões ecdóticas que lhes são específicas, esclarecerá o lugar que ocupam na produção de Garrett, porá em relevo a sua tessitura formal e semântica e dará conta, quando for caso disso, do marulhar imaginativo que antecedeu a sua “consolidação” num projecto já delineado com alguma consistência.

[...]

Ortografia
A nossa intervenção no texto consistirá, essencialmente, na actualização e normalização ortográfica. O projecto de edição crítica das Obras de Almeida Garrett estabelece, como critério geral, que não serão modernizadas as formas em que a divergência gráfica corresponda a uma realização fónica distinta da actual ou a uma intenção estilística (efeito arcaizante, reprodução da pronúncia popular, etc.).
Esta última situação tem particular pertinência n’O Arco de Sant’Ana, onde deparamos com significativa presença de um vocabulário medievalizante, associado à linguagem coloquial popular (co’a, arrefém, não no, etc.). Conservam-se, por conseguinte, essas formas, assinalando apenas os casos duvidosos.

No que respeita às variantes fónicas, observa-se em princípio a mesma regra — a lição do texto-base — salvo nos casos em que se justifique outro procedimento. Assim, mantém-se a grafia de termos como dezenove, siquer, inda, idea, alâmpada, similhante, vivirei, San’João, peior, passeiar, etc., bem como de estrangeirismos ainda não fixados na época (polka, cahoutchou). Um número de casos significativo diz respeito a palavras começadas ou compostas por in ou im > en, em (intender, interter, ingano, impunhar, desenvolver, desembargo…); na verdade, Garrett foi muito sistemático em relação a estas grafias nas edições impressas, embora os manuscritos revelem frequentes flutuações.
Respeitam-se igualmente as oscilações em variantes equivalentes (Douro / Doiro) ou de formas que tanto podem aparecer desdobradas como contraídas (de uma / duma). Em alguns casos a contracção afecta termos com maior autonomia — des’que (desde que), até’qui —, que também se conservam.

Actualizam-se porém as formas que, reflectindo a memória etimológica, não constituem necessariamente variantes fónicas em relação à pronúncia actual: é o caso de palavras começadas por st ou sp > est (splendor, spectáculo, stridente, stilo) e de ex / es em lexemas como extendido, excomungado, em que se verifica oscilação.

Nota de rodapé:
Conserva-se, em determinados contextos, a grafia extranho em lugar de estranho, uma vez que Garrett, numa das suas notas finais, as distingue semanticamente: «Extranho é o que vem do exterior em relação ao país e outras circunstâncias externas; estranho o que nos surpreende, o que nós estranhamos por desusado, inesperado, etc.» No entanto, o Autor não usou um critério consistente ao longo do texto, surgindo quase sempre a forma extranho.


Critérios aplicados na edição d'A Confissão de Lúcio, da Assírio & Alvim.

A ortografia é actualizada, excepto nos casos em que a actualização altera a representação fonológica das palavras. É o caso de «inegualável» e de «quasi».

Do mesmo modo, mantêm-se as elisões por apóstrofo («complicações d'alma», por exemplo), dado que são efectuadas por razões rítmicas precisas.

A pontuação original é respeitada, e mantém-se a maiúscula a seguir aos dois pontos.

As gralhas evidentes são corrigidas.


Os desta última, são contrariados em parte no seguinte artigo:

"Da edição Diogo de «A Vida em Lisboa» [crítica a 'A Vida em Lisboa', de Júlio César Machado]" / Luís Prista. In: Revista Colóquio/Letras. Notas e Comentários, n.º 155/156, Jan. 2000, p. 359-369.

As práticas de ortografia falham por vezes no propósito de actualização estipulado no Prefácio. Veja-se duas palavras recorrentes, os nomes de duas personagens. Em Melitão foi mantida a grafia do original, apesar de se tratar de forma gráfica para o nome para que hoje está convencionada a grafia «Militão». Ou quis o editor manter a grafia por pensá-la significativa? Nem mesmo pela fonética, porque, a não ser em hipercorrecções (os «ministros», «responsabilidade», etc., dos jornalistas a lerem pelo teleponto ou dos políticos a fazerem-se vernáculos), estes <i> gráficos correspondem a e «mudo»: a pronúncia para a grafia «Militão» é igual à de «Melitão». (Se fosse preciso testemunho de que à época havia hesitações naquela grafia, e de que a forma com <e> não correspondia a uma identificação especial, teríamos a comédia A Vida em Lisboa, sucedâneo teatral da outra, onde o que vemos grafado é Militão, com <i>.) E relevar características gráficas que não eram funcionais no original é proceder exactamente ao contrário da atitude, de conservação, que o editor tinha em mente. Quanto a Estêvão, que aparece sempre sem o acento circunflexo, não vou dizer que a manutenção gráfica se deveu a ter-se lido como aguda a palavra do original, e creio que houve apenas desconhecimento da ortografia actual.

Nota: Em outras edições recentes tenho encontrado a mesma opção que creio injustificável. Assim, na sua edição dos Poemas Completos de Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, Assírio & Alvim, 1996), Fernando Cabral Martins anota ter mantido a forma inegualável porque a «grafia de hoje, inigualável, implicaria uma alteração fonológica» (p. 278), não se apercebendo de que o <e> de inegualável representa o fonema /i/, que o <i> afinal identicamente significaria. Não só portanto a grafia conservada se torna supérflua, como há o risco de inculcar ao leitor uma pronúncia virtual (com e «mudo» ou com /e/).


Uma perspectiva menos conservadora, por parte da Caixotim (edição de O Que Fazem Mulheres, de Camilo):

Não se tratando de uma edição crítica, não se justifica o registo em rodapé de variantes verificadas no confronto entre a 1.ª e 2.ª edições. Como norma geral, procedeu-se à actualização da grafia, mantendo embora os traços fonéticos e fonológicos que representam realizações da época da escrita ou traços específicos do idiolecto camiliano. tal como já efectuado para títulos anteriores, conservaram-se formas como dous, douda, noute, amoldurar, soledade, etc., mesmo que por vezes, em paralelo com outras, alternantes (caso de dois, coisa, noite), pois correspondiam a realizações fonéticas ainda não uniformizadas na língua-padrão ou no uso do próprio autor. Corrigiram-se os lapsos evidentes, resultantes das condições de escrita ou de revisão cometidos pelo Autor ou por quem, em seu lugar, procedeu à correcção das provas tipográficas.

Continuamos convictos de que, com estes cuidados, a inteligibilidade do discurso camiliano não sofrerá a mais ligeira quebra e que, por outro lado, ele poderá manter mais íntegro o seu sortilégio, pois com essa discreta e necessária intervenção o leitor não perderá o menor dos efeitos estilísticos que o Autor quis conferir-lhe, pelo cunho inconfundível e tão autêntico das modulações da língua que falava ou que punha na boca das suas personagens, depois de a ter bebido na fonte inesgotável dos clássicos e no vivo linguajar do povo, entre o qual crescera e vivera tão longa parte da sua vida.

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