Acordo/Reforma Ortográfica

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Bugman
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Bugman » 03 Feb 2012 13:53

Tem pontos positivos e pontos negativos. Quando vejo as digitalizaçoes dos textos do Eça e do Ramalho na BNo fico a pensar como era possível há cem annos escrever-se assim... Devia ser uma língua muito feia na altura!
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urukai
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby urukai » 13 Feb 2012 12:45

Aqui fica um post que encontrei noutro fórum e que me parece muito esclarecido:

A posição do Vasco Graça Moura é tudo menos inesperada. Foi não só um dos mais notáveis opositores ao Acordo, mas simplesmente o mais activo, visível e eloquente - talvez igualado apenas pelo linguista António Emiliano, mas este menos mediático -, argumentando perante o parlamento e com pertinente obra publicada sobre o assunto ("Acordo Ortográfico - A Perspectiva do Desastre").

Todos os que estiveram atentos a este processo o sabiam. Quem lê notícias sabia. Não conheço o Vasco Graça Moura de nenhum lado, apenas como leitor e espectador, e sabia perfeitamente que este escritor Prémio Pessoa não se iria permitir dirigir uma instituição que adoptasse o Acordo Ortográfico. Seria uma capitulação humilhante.

Agora a pergunta que eu coloco é: acham que o escritor e ex-divulgador literário Francisco José Viegas não sabia que isto ia acontecer? Para mim é claro que sabia. Não lhe reconheço grandes defeitos ou qualidades, mas pelo menos aqui soube arquitectar um golpe de génio. Foi buscar alguém que gerava unanimidade no Partido e, com um ou outro desconforto, também no país - afinal o Prémio Pessoa é a maior distinção cultural da Lusofonia, trata-se de alguém com uma obra de inegável importância e com reconhecida capacidade para a acção. Sabia perfeitamente que ele ia afastar o Acordo de uma das principais instituições culturais do país, somando-se a outras que já não o seguem. Queria relançar o debate, depois de várias vezes já ter dado a entender que o Acordo não é irreversível e que pode ser revisto, em especial nesta fase de transição.

Esta foi a medida necessária, num momento em que as universidades escolheram o caminho fácil de se vergarem à imposição política sem levar em conta a validade científica do Acordo. Preferiram não gerar ondas, quando muito facilmente se contesta a falta de rigor científico de um Acordo que:
- não cumpre sequer aquilo a que se propõe: unificar a ortografia portuguesa (se de um lado unifica, de outro cria duplas grafias mesmo em palavras que não as tinham);
- recorre à etimologia para justificar certas decisões, deixa-a de lado para justificar outras;
- defende simplificar aquilo que não simplifica, antes complica.

Este terceiro ponto carece de explicação, porque parece não ser entendido por muita gente. A minha visão é a de alguém que trabalha diariamente e profissionalmente com a língua, enquanto editor. O Acordo complica, porquê?

Quando lemos um texto, deparamo-nos ocasionalmente com palavras que não conhecemos, ou que conhecemos na forma escrita mas nunca ouvimos pronunciadas. A ortografia, na maior parte das vezes, ajuda-nos a saber pronunciar essas palavras. Há excepções, palavras que saem mal se não conhecemos, mas eram relativamente marginais. Com o Acordo passam a ser em elevado número.

E qual o problema disto acontecer?

1º - Dificuldade na aprendizagem. Para saber pronunciar um enorme número de palavras, é necessário já as conhecer auditivamente. Esperem uns anos para verem como as crianças vão ler um texto com várias palavras que não conhecem. Ou pelo desastre que vai ser o português lido por estrangeiros que pretendam estudá-lo.

2º - Acentuação das diferenças de "classe" ou sociais. As pessoas menos letradas, alfabetizadas mas com vocabulário limitado, serão ainda mais afastadas da língua, ao não serem capazes de pronunciar correctamente uma série de palavras.

3º - Tendência para a alteração da pronúncia. Talvez a consequência mais grave de todas. Pode parecer exagerado, mas não é, porque já aconteceu o mesmo como consequência da supressão do trema em 1945 em Portugal (só agora o foi no Brasil).

Dou exemplos. já acima escrevi "eloquente" e "linguista", como há também "pinguim", "linguiça", "frequente", etc. Sabemos que se pronuncia o "u", contrariando a regra dos "u" mudos após "q" e "g" e antes de "e" ou "i". Como defendi no ponto 1º, peçam a crianças que leiam um texto recheado de palavras deste género e verão o que acontece. O pior é que há algumas, como "sequestro", em que hoje em dia não se pronuncia com frequência o "u", erradamente, quando sempre se pronunciou. Por isso os brasileiros escrevem e lêem "seqüestro", como nós escrevíamos até 1945. Outro exemplo: "paisagem". Hoje em dia é comum ouvir um ditongo com o "a" aberto - "pái-zagem", mas quando se escrevia "païsagem" percebia-se que a palavra tem a mesma raiz de "país" (do francês arcaico "païs"), e que não existe ditongo em "ai". Ainda há quem pronuncie "pâ-i-zagem".

Podíamos ir buscar inúmeras palavras que perderam o trema e fazer aqui um teste a todos os foristas. Verificaríamos que muitos erros de pronúncia surgiriam, eu próprio confesso que os daria em muitas palavras que não conheço. Como não dar? Só seria possível não os dar se conhecesse todas as palavras que perderam o trema.

Agora se fizermos o mesmo teste com as palavras alteradas com este Acordo... é assustador.

Termino este longo texto com uma pergunta. Porque não retirar o "u" das inúmeras palavras em que não é pronunciado? Haja coerência. Porque não retirá-lo de "foguete", "guiar", "guerra" ou "guilhotina"?

Resposta possível: "porque determina a forma como se pronuncia o "g".

O "g", a letra que está ao lado? Então as tais consoantes "mudas" não influenciam também a forma como se lê a letra que está ao lado?

Claro que sim. Basta isto para provar que o Acordo não foi escrito com rigor científico (dualidade de critérios), muito menos com a intenção anunciada de simplificar a escrita. Foi escrito com a única intenção de aproximar a ortografia de Portugal (e por arrasto de todos os PALOP) à do Brasil.

Mas lembremos o seguinte: ao longo da primeira metade do século XX, o grande desígnio dos linguistas e intelectuais brasileiros foi o de afirmar a nacionalidade através da língua, aproximando-a do modo de falar brasileiro em oposição ao português. A supressão das consoantes deriva desse desígnio, como também outras alterações. Todos os acordos tentados, e foram muitos, fracassaram porque nunca foi possível "convencer" o Brasil a ceder neste aspecto, porque mexia com um nacionalismo cultural em plena efervescência, ligado ao movimento modernista dos anos 20.

Também por isso, pouco sentido faz aplicar em Portugal uma ortografia que foi criada por manifesta oposição à ortografia portuguesa.

Peço desculpa pela extensão do texto.


Autor: elreidom

Na minha empresa vai ser obrigatório usar-se o novo acordo. :td:

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Arsénio Mata
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Arsénio Mata » 13 Feb 2012 21:36

Na minha empresa há muita gente que não sabe escrever/falar português, independentemente de qual seja o acordo ortográfico.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/


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