Acordo/Reforma Ortográfica

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Ripley
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Ripley » 05 Mar 2010 11:35

Samwise wrote:É o apelo sentimental, alicerçado numa metáfora que não tem correspondência na sinceridade. Não vamos retirar 1,6% das palavras de Portugal. Vamos alterá-las. Ainda por cima vamos alterá-las de forma a ficarem mais limpas. Quem não gosta de ver os monumentos nacionais restaurados e a brilhar?


Sammy, poderia dar-te uma résteazinha de razão nalguns dos teus argumentos. Aqui, não. OK, as pedras não vão ser retiradas, apenas alteradas. Mas falando de um monumento, esses têm pedra trabalhada. E parte dessa pedra trabalhada será alisada e descaracterizada à força de a quererem fazer igual à do mamarracho do lado - quase como quereres alisar parte da frontaria do Mosteiro dos Jerónimos para ficar mais "próximo" ou "compatível" com o CCB.
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Samwise » 05 Mar 2010 12:04

Ripley wrote:
Samwise wrote:É o apelo sentimental, alicerçado numa metáfora que não tem correspondência na sinceridade. Não vamos retirar 1,6% das palavras de Portugal. Vamos alterá-las. Ainda por cima vamos alterá-las de forma a ficarem mais limpas. Quem não gosta de ver os monumentos nacionais restaurados e a brilhar?


Sammy, poderia dar-te uma résteazinha de razão nalguns dos teus argumentos. Aqui, não. OK, as pedras não vão ser retiradas, apenas alteradas. Mas falando de um monumento, esses têm pedra trabalhada. E parte dessa pedra trabalhada será alisada e descaracterizada à força de a quererem fazer igual à do mamarracho do lado - quase como quereres alisar parte da frontaria do Mosteiro dos Jerónimos para ficar mais "próximo" ou "compatível" com o CCB.



:mrgreen: (I've just picked a fight!)

Contraponho : o uso da expressão "arte" ligada ao monumentos nacionais não encontra um paralelo à sua medida quando a título de exemplo é metaforizada para a questão da linguagem portuguesa e do acordo ortográfico. Aquilo que nos monumentos representa a criatividade artística dos seus autores, não tem nenhum equivalente na linguagem.

Pode fazer confusão e causar repulsa a muita gente começar a ver a nova grafia a ser usada, mas é uma questão que tem apenas a ver com os anos de habituação a uma realidade que de repente muda de um dia para o outro - e não com o aspecto artístico dessa anterior-realidade. Porque não existe qualquer aspecto artístico nessa anterior realidade.

Com exemplos é mais fácil explicar. Quando era pequeno nunca cheguei a perceber por que razão "actor" incluía um "c" que não era lido. A explicação teria a ver com factores históricos, que vinham de trás, e que até então ninguém se tinha dado ao trabalho de questionar se havia alguma razão lógica para manter - como de resto já tinha sido feito anteriormente com outras estranhezas no vocabulário, o "ph" que passou a "f", por exemplo. Tudo bem, aceitei, engoli, e habituei-me ao longo de 30 anos a nunca mais pensar no assunto. Até agora. Agora faz-me imensa confusão ler "ator". Mas nada que tenha a ver com algum aspecto artístico ligado ao assunto - é apenas a natural resistência à mudança que é característica das nossas personalidades. É também por isso que considero o tal argumento da comparação com os monumentos falacioso e sentimentalista.

Diz-se também que o acordo representa uma perda da nossa identidade cultural. Em que sentido? Não entendo. Não perdemos identidade nenhuma. Limamos algumas arestas que não fazem qualquer diferença do ponto de vista lexical.

"Se não serve para nada, para que é que lá está?"

Mas mantenho: se me dessem a escolher, o acordo não ia para a frente. Não por razões patrióticas, artísticas, culturais ou sentimentais (considero todas derivadas do tal factor de "resistência à mudança"), mas por razões puramente lógicas. Ter-se-ia gasto muito menos dinheiro. E também sou sensível à questão dos tradutores portugueses...
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby urukai » 05 Mar 2010 12:20

Eu sou contra o acordo por uma questão de orgulho.
Orgulho-me de näo dar erros ortográficos quando escrevo e temo que daqui para a frente comece a dar uns quantos... :(
Que é q me vai distinguir dos meus colegas de trabalho que volta não volta mandam umas calinadas que até o corrector* do word tem arrepios?
Mas se isso significa que vou vender melhor os meus futuros livros no Brasil e em África, tudo bem! Que são umas letras M.I.A. comparadas com muitos Euros na carteira?

* Primeiro erro and counting...

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Tzimbi » 05 Mar 2010 12:28

Samwise wrote:Com exemplos é mais fácil explicar. Quando era pequeno nunca cheguei a perceber por que razão "actor" incluía um "c" que não era lido. A explicação teria a ver com factores históricos, que vinham de trás, e que até então ninguém se tinha dado ao trabalho de questionar se havia alguma razão lógica para manter - como de resto já tinha sido feito anteriormente com outras estranhezas no vocabulário, o "ph" que passou a "f", por exemplo. Tudo bem, aceitei, engoli, e habituei-me ao longo de 30 anos a nunca mais pensar no assunto. Até agora. Agora faz-me imensa confusão ler "ator". Mas nada que tenha a ver com algum aspecto artístico ligado ao assunto - é apenas a natural resistência à mudança que é característica das nossas personalidades. É também por isso que considero o tal argumento da comparação com os monumentos falacioso e sentimentalista.


Em meia dúzia de frases explicaste uma das razões pela qual sou a favor do Acordo. Ou melhor, posso não ser bem a favor, mas contra é que não sou de certeza.

Quanto aos tradutores portugueses, não tenhas pena de nós, porque não vai ser este Acordo que nos vai dificultar a vida. Ainda há umas semanas deparei-me com um tradutor que ainda não punha em prática regras de um outro "Acordo". Num teste escreveu "análogamente" e não foi erro de digitação, não sabia mesmo que os advérbios terminado em -mente não eram acentuados desde 197-e qualquer coisa (não sei a data exacta, nem me apetece procurar). Ah, resta dizer que o tradutor em questão tinha nascido em 1985...
É óbvio que este meu argumento nem chega a ser argumento, mas era só um pequeno exemplo de como a língua portuguesa (falada e escrita) é tão mal tratada pelos falantes nativos, incluindo mesmo aqueles que supostamente são especialista da língua. :(
Em relação a perdermos trabalho, mas por que razão não pensam ao contrário? O mercado brasileiro é n vezes maior do que o português. Porque não ver neste Acordo uma oportunidade?

A língua está em constante mudança. Até mesmo as palavras mudam de significado. Por exemplo, "despoletar" sempre foi para mim (e em tempos idos também) o contrário do que significa actualmente. Hoje em dia, qualquer um que abra o Dicionário da Academia pode ler que "despoletar" também significa deflagrar, acionar, etc. Sempre aprendi que era o contrário, era impedir que a arma disparasse (colocar a espoleta), logo não acionar.

Sinceramente, não vejo por que razão este Acordo é assim tão mau.

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Samwise » 05 Mar 2010 12:34

Tzimbi wrote:Em relação a perdermos trabalho, mas por que razão não pensam ao contrário? O mercado brasileiro é n vezes maior do que o português. Porque não ver neste Acordo uma oportunidade?


A razão invocada teria a ver com a mão-de-obra, que no Brasil supostamente será 1) mais barata, 2) em muito maior quantidade. Será assim como que "a nossa China das traduções"... :mrgreen:
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Pedro Farinha » 05 Mar 2010 12:42

Aí já não posso concordar contigo Sam, e perdoem-me este off-topic, mas irrita-me sobremaneira o facto de se pensar que quanto mais isolados melhor para a nossa economia, foi este modelo salazarista que nos deixou com 50 anos de atraso. Na minha opinião, quanto mais aberto for o mercado melhor para nós. Devemos pensar sempre primeiro no que podemos fazer lá fora do que aquilo que outros podem vir fazer aqui.

Até porque ;) nós portugueses, somos muito melhores a trabalhar lá fora ou para fora do que para dentro. Acredita, diariamnete vejo pessoas que ao saberem que dado projecto ou um mero documetno vai para o exteror dizem descaradamente "deixa-me fazer isto como deve ser porque é para..." :pissed:

Ok, voltem lá ao Acordo que estou a gostar do esgrimir dos argumentos.

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Samwise » 05 Mar 2010 13:46

Pedro Farinha wrote:Aí já não posso concordar contigo Sam, e perdoem-me este off-topic, mas irrita-me sobremaneira o facto de se pensar que quanto mais isolados melhor para a nossa economia, foi este modelo salazarista que nos deixou com 50 anos de atraso. Na minha opinião, quanto mais aberto for o mercado melhor para nós. Devemos pensar sempre primeiro no que podemos fazer lá fora do que aquilo que outros podem vir fazer aqui.


A questão da abertura do mercado é muito mais complexa do que isso.

Claro que "quanto mais isolados, pior para a economia", mas a abertura total e sem regras não traz só benefícios. Um dos problemas da liberalização (e da palavra "globalização" que lhe está associada) é justamente a diferença nas condições sócio-económicas que se verifica entre os vários países e que pode ditar o colapso de determinadas indústrias em determinados deles quando se verifica que os preços, noutros, são muito menores, e que é compensatório fazer a transição.

A questão do acordo e do argumento utilizado passa mesmo por aqui. Quando se verificar que pelo mesmo pedido de trabalho há uma quantidade maior de oferta e a preços mais reduzidos, muitos dos proponentes vão ponderar essa mudança. Com a agravante de aqui não haver custos de transporte associados, já que é de um "serviço" que se trata e não de um produto físico. O que se está a prever que aconteça com o acordo é uma saída do investimento para o exterior, e não o contrário.

O factor distintivo continua a ser a qualidade, sendo que neste caso a qualidade manifesta-se no facto de teres alguém português a traduzir para a sua língua natal VS alguém brasileiro a traduzir para uma língua que parece igual à sua mas que na prática não é. A incógnita é saber quantos dos pedidos de tradução serão sensíveis a esta questão e quantos sacrificarão o resultado final em função dos menores custos. Não é segredo nenhum que já neste momento, e sem o acordo ortográfico à mistura, o mercado não está famoso quanto a condições contratadas com os tradutores...
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Dandelion » 05 Mar 2010 17:12

Quanto aos tradutores portugueses, não tenhas pena de nós, porque não vai ser este Acordo que nos vai dificultar a vida. Ainda há umas semanas deparei-me com um tradutor que ainda não punha em prática regras de um outro "Acordo". Num teste escreveu "análogamente" e não foi erro de digitação, não sabia mesmo que os advérbios terminado em -mente não eram acentuados desde 197-e qualquer coisa (não sei a data exacta, nem me apetece procurar). Ah, resta dizer que o tradutor em questão tinha nascido em 1985...
É óbvio que este meu argumento nem chega a ser argumento, mas era só um pequeno exemplo de como a língua portuguesa (falada e escrita) é tão mal tratada pelos falantes nativos, incluindo mesmo aqueles que supostamente são especialista da língua. :(
Em relação a perdermos trabalho, mas por que razão não pensam ao contrário? O mercado brasileiro é n vezes maior do que o português. Porque não ver neste Acordo uma oportunidade?

A língua está em constante mudança. Até mesmo as palavras mudam de significado. Por exemplo, "despoletar" sempre foi para mim (e em tempos idos também) o contrário do que significa actualmente. Hoje em dia, qualquer um que abra o Dicionário da Academia pode ler que "despoletar" também significa deflagrar, acionar, etc. Sempre aprendi que era o contrário, era impedir que a arma disparasse (colocar a espoleta), logo não acionar.

Sinceramente, não vejo por que razão este Acordo é assim tão mau.



Esse exemplo que referiste ("despotelar") pouco tem a ver com o que falamos. É uma evolução valorativa da palavra; não cuidamos aqui de qualquer ortografia. Separar as águas. ;) Essa foi uma evolução natural: principiámos a dar novo significado à palavra. Tal como surgiram outras, como "bué". Até aí, tudo bem.
Se vêem isto por uma vertente puramente económica... bem, só quero expressar o meu repúdio em relação a isso. Não temos de modificar parte integrante do nosso património de forma a termos mais sucesso lá fora, ou temos? Pergunto-me como é que os países nórdicos têm uma excelente qualidade de vida e ecónomias estáveis, então, se tivermos em conta o "poderio" linguístico desses páises. Não arranjem "desculpas esfarrapadas".
Além disso, querer comparar reformas anteriores a esta, é ignorar as circunstâncias em que foram feitas. Vivemos numa democracia, ou, pelo menos, é o que dizem. O despotismo já lá vai. É preciso ouvir o povo, por muita legitimidade que possa ter um governo, isto não é uma coisa que se possa definir por decreto.

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Pedro Farinha » 05 Mar 2010 17:24

Mantendo o off topic da componente económica

Em termos simplistas, eu acho que a abertura de um mercado seria sempre algo positivo, pois só na livre concorrência se estimula a qualidade e a eficiência. O proteccionismo existente em alguns momentos da história (incluindo o actual) e em alguns países fez com que esse mesmo país ou sector se imobilizassem no tempo.

Sim, eu defendo convictamente a méritocracia.

No entanto, na realidade e esse é o perigo da globalização da forma como ela está a ser feita. É que há países onde o baixo custo de produção não se devem a uma maior eficiência mas sim, à exploração dos trabalhadores, desregulamentação de regras laborais, exploração de mão-de-obra infantil, etc. Esses países ao concorrerem em pé de igualdade com outros onde existe um maior respeito pela sociedade produtiva, levam a que os seus produtos sejam mais baratos e “empurram” a que se nivele por baixo. Isto é, ou os países mais desenvolvidos deslocalizam as empresas ou retiram regalias sociais.

No entanto isto é mais verdade nuns sectores que noutros, tal depende basicamente de ser mão-de-obra intensiva ou qualificada. Se as crianças coreanas cosem à mão as bolas de futebol que os nossos futebolistas milionários chutam nos relvados, já não é tão verdade noutro tipo de serviços. E, julgo porque é um sector que não conheço, que é o caso da tradução. Ou seja, nem os tradutores portugueses são bem pagos e têm muitas regalias, nem existem crianças brasileiras a serem exploradas para traduzirem.

Aliás, se pensarmos numa amiga nossa que é tradutora. Ambos sabemos que é a agência portuguesa onde ela trabalha que traduz para o Brasil e não o contrário. Havia livre concorrência e, face à qualidade necessária, fomos nós (leia-se ela e os colegas) que entraram no mercado brasileiro e não o contrário. Trata-se de um mero exemplo, mas julgo que por essa via, não é o acordo ortográfico que vai alterar a relação.

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Bugman » 05 Mar 2010 17:30

A questão das consoantes mudas e acentuação no Acordo é que me faz estar um pouco contra a reforma como está, uma vez que se mude a questão de as ciências, e os dias da semana, e os meses do ano serem ou não com maiúscula tanto se me dá, como se me deu. (Até há quem diga que escrever nas regras actuais com minúscula é uma questão de liberdade artística portanto...)

Senão vejamos a palavra Baptista. Ao abrigo do acordo passará a Batista. O que seria totalmente correcto se não fosse o caso de o "p" na primeira apesar de mudo permitir abrir o "a", ao passo que na segunda seria qualquer coisa como "a" com o valor mudo que lhe damos em palavras como "na", "cama" etc.

Outro aspecto, Pára (forma do verbo parar) terá rigorosamente a mesma grafia de para (preposição) logo dever-se-iam tornar homónimas (um pouco à semelhança de são [como um pêro] e [eles] são), o que é engraçado pois apenas são homógrafas! Se o que se pretende é aproximar a escrita da fala então os futuros Antónios ou Antônios não serão nem uma coisa nem outra: serão Antonios (sílaba tónica: ni, por contraposição ao tó/tô).

Já agora a palavra "hoje", que até onde sei se escreve da mesma forma dos dois lados, passará a "oje" por ter o "h" mudo? Ou a trepadeira "hera" passará a uma temporal "Era" [uma vez...]? Porque se no primeiro caso há uma alteração fonética, no segundo não, ou seja acabamos por ter de voltar a meter exepções num documento que se quer uniformizador!

Agora, por outro lado compreendo a necessidade de um acordo, quanto mais não seja ao nível do ensino do português a estrangeiros, como o frisou recentemente Lauro Moreira ao JL. Só que esse acordo também o terá de ser ao nível da semântica. E já agora dos verbos e da pronominalização, porque posso ir a três países "falantes" de português e deparar-me com três tipos de construções distintas.
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Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ferreira Gullar
Yes, I am a woman of the law. And there are lots of laws. But if they don't offer us justice, then they aren't laws! They are just lines drawn in the sand by men who would stand on your back for power and glory. Sartana
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Bugman » 05 Mar 2010 17:33

Agora em relação ao off-topic:

A meu ver quem teria mais a ganhar, se este acordo fosse efectivamente uniformizador da língua, a meu ver seria Portugal e os seus autores e os seus editores. Digo isto porque ganhavam um mercado infinitamente mais amplo. É certo que é um mercado pujante e já com vários "mercadores e compradores", mas penso que uma fraca editora fora de portas, consegue ser tão grande como uma editora dentro de portas só que com potencial para aspirar a mais.
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Samwise » 05 Mar 2010 17:46

Dandelion wrote:Se vêem isto por uma vertente puramente económica... bem, só quero expressar o meu repúdio em relação a isso. Não temos de modificar parte integrante do nosso património de forma a termos mais sucesso lá fora, ou temos? Pergunto-me como é que os países nórdicos têm uma excelente qualidade de vida, então.


Não vejo isto de uma vertente puramente económica, mas essa é a que definitivamente me dói mais. O tempo e o dinheiro que já se gastaram nesta questão e que podiam ter sido usados noutros lados em que manifestamente seriam mais necessários...

"Modificar parte integrante do nosso património"? A que é que te referes em concreto?

Eu não vejo nenhuma mudança no património.

Além disso, querer comparar reformas anteriores a esta, é ignorar as circunstâncias em que foram feitas. Vivemos numa democracia, ou, pelo menos, é o que dizem. O despotismo já lá vai. É preciso ouvir o povo, por muita legitimidade que possa ter um governo, isto não é uma coisa que se possa definir por decreto.


Mas perdemos alguma identidade cultural por causa das reformas anteriores? Perdemos alguma "qualidade de vida"?

O problema desta reforma tem a ver com uma só coisa: Brasil. Se o Brasil não estivesse dentro do pacote, ninguém se estaria a queixar das alterações à língua no seu formato escrito. Como há o Brasil, estão já passa tudo a ser avaliado num contexto relativista em que eles (brasileiros) só têm a ganhar e nós só temos a perder. O essencial - a linguagem e as adaptações das palavras - parece ser assunto de menor importância quando chega a altura de firmar argumentos.

Mas sim, podemos passar então a definir todas as leis ouvindo o povo. Creio que dessa forma afastaríamos totalmente a ideias de despotismo. Recordo-te daquilo que é coisa factual: vivemos numa democracia. As decisões do governo nunca poderão ser comparadas a atitudes despotistas, concorde-se ou não com elas. Há uma certa tendência em cair nessa acusação, que por acaso também serve bem de desculpa.

O acordo ortográfico ir a referendo? Epá, não sei. É mais outro assunto contra o qual não tenho nada de particular a opor, mas o parece-me que a maioria do povo se está a borrifar para o acordo e mais para as suas repercussões (nos próximos tempos, o que mais interessa é a crise e o preço da gasolina, com ou sem casamentos homossexuais a desviarem as atenções). Quem anda mais em cima deste assunto do acordo é uma determinada ala intelectual ligada à cultura e às artes.

----

Aparte destas opiniões: gostava de saber mesmo em concreto quem é que em Portugal beneficia com o acordo. E de que maneira.
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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Dandelion » 05 Mar 2010 17:49

A questão das consoantes mudas e acentuação no Acordo é que me faz estar um pouco contra a reforma como está, uma vez que se mude a questão de as ciências, e os dias da semana, e os meses do ano serem ou não com maiúscula tanto se me dá, como se me deu. (Até há quem diga que escrever nas regras actuais com minúscula é uma questão de liberdade artística portanto...)

Senão vejamos a palavra Baptista. Ao abrigo do acordo passará a Batista. O que seria totalmente correcto se não fosse o caso de o "p" na primeira apesar de mudo permitir abrir o "a", ao passo que na segunda seria qualquer coisa como "a" com o valor mudo que lhe damos em palavras como "na", "cama" etc.

Outro aspecto, Pára (forma do verbo parar) terá rigorosamente a mesma grafia de para (preposição) logo dever-se-iam tornar homónimas (um pouco à semelhança de são [como um pêro] e [eles] são), o que é engraçado pois apenas são homógrafas! Se o que se pretende é aproximar a escrita da fala então os futuros Antónios ou Antônios não serão nem uma coisa nem outra: serão Antonios (sílaba tónica: ni, por contraposição ao tó/tô).

Já agora a palavra "hoje", que até onde sei se escreve da mesma forma dos dois lados, passará a "oje" por ter o "h" mudo? Ou a trepadeira "hera" passará a uma temporal "Era" [uma vez...]? Porque se no primeiro caso há uma alteração fonética, no segundo não, ou seja acabamos por ter de voltar a meter exepções num documento que se quer uniformizador!


Exacto. As nossas pronúncias são diferentes; por isso é que têm uma grafia diferente da nossa. Ou também querem obrigar-me a falar de outra forma? :td: Temos uma pronúncia menos "aberta" que os brasileiros, e uma das provas disso está nas consoantes mudas; retirá-las, é, pelo menos teoricamente e se quisermos ser precisos, modificar a nossa própria pronúncia.

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Dandelion » 05 Mar 2010 18:04

"Modificar parte integrante do nosso património"? A que é que te referes em concreto?

Eu não vejo nenhuma mudança no património.


Para mim, trata-se de património cultural.


Mas perdemos alguma identidade cultural por causa das reformas anteriores? Perdemos alguma "qualidade de vida"?


Mas quem te disse que eu não concordo com as reformas anteriores, mesmo que algumas delas tenham sido feitas sob uma ditadura? :blink: Não concordo com esta, definitivamente.


Mas sim, podemos passar então a definir todas as leis ouvindo o povo. Creio que dessa forma afastaríamos totalmente a ideias de despotismo. Recordo-te daquilo que é coisa factual: vivemos numa democracia. As decisões do governo nunca poderão ser comparadas a atitudes despotistas, concorde-se ou não com elas. Há uma certa tendência em cair nessa acusação, que por acaso também serve bem de desculpa.


Acaso generalizei as coisas dessa forma? Não evertas aquilo que digo, por favor: detesto repetir-me. Disse apenas que não concordo que se deva modificar a nossa língua por simples decreto, só isso. Disse, implicita ou explicitamente, que tudo deva ser posto sob o escrutínio do povo?

O acordo ortográfico ir a referendo? Epá, não sei. É mais outro assunto contra o qual não tenho nada de particular a opor, mas o parece-me que a maioria do povo se está a borrifar para o acordo e mais para as suas repercussões (nos próximos tempos, o que mais interessa é a crise e o preço da gasolina, com ou sem casamentos homossexuais a desviarem as atenções). Quem anda mais em cima deste assunto do acordo é uma determinada ala intelectual ligada à cultura e às artes.


Sam, mais vale termos a certeza, não? Um simples parecer não nos esclarece isso, ou esclarece?
Nunca é de mais relembrar que existe um manifesto contra este "acordo" que conta com cerca de 110 mil assinaturas.

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Re: Acordo/Reforma Ortográfica

Postby Samwise » 05 Mar 2010 19:11

Dandelion wrote:
Samwise wrote:"Modificar parte integrante do nosso património"? A que é que te referes em concreto?

Eu não vejo nenhuma mudança no património.


Para mim, trata-se de património cultural.

Mas perdemos alguma identidade cultural por causa das reformas anteriores? Perdemos alguma "qualidade de vida"?


Mas quem te disse que eu não concordo com as reformas anteriores, mesmo que algumas delas tenham sido feitas sob uma ditadura? :blink: Não concordo com esta, definitivamente.


Não disseste nem eu deduzi (não faço ideia se concorda com as anteriores reformas). Limitei-me a fazer perguntas, que por acaso se mantêm sem resposta:

1 - O que é que fica alterado no nosso património cultural com esta reforma? (eu sei que estamos a falar de património - cultural - mas não vislumbro é nenhuma perda de valor no mesmo)

2 - Perdemos alguma identidade cultural, alguma qualidade de vida, com as reformas anteriores?

Mas sim, podemos passar então a definir todas as leis ouvindo o povo. Creio que dessa forma afastaríamos totalmente a ideias de despotismo. Recordo-te daquilo que é coisa factual: vivemos numa democracia. As decisões do governo nunca poderão ser comparadas a atitudes despotistas, concorde-se ou não com elas. Há uma certa tendência em cair nessa acusação, que por acaso também serve bem de desculpa.


Acaso generalizei as coisas dessa forma? Não evertas aquilo que digo, por favor: detesto repetir-me. Disse apenas que não concordo que se deva modificar a nossa língua por simples decreto, só isso. Disse, implicita ou explicitamente, que tudo deva ser posto sob o escrutínio do povo?


Conheces as expressões: "Já agora,...", "Por essa linha de ideias...", "Utilizando esse raciocínio,...", etc? Servem para evidenciar numa discussão, e através de uma formulação hiperbólica imaginária, que não se concorda com determinado argumento. Ora, tu falaste em "despotismo" e em "ouvir o povo", e eu limitei-me a deixar as ideias fluírem. Na continuidade desta lógica, eu também não me recordo de ter dito que generalizaste as coisas dessa forma nem de ter "evertido" aquilo que disseste.

O acordo ortográfico ir a referendo? Epá, não sei. É mais outro assunto contra o qual não tenho nada de particular a opor, mas parece-me que a maioria do povo se está a borrifar para o acordo e mais para as suas repercussões (nos próximos tempos, o que mais interessa é a crise e o preço da gasolina, com ou sem casamentos homossexuais a desviarem as atenções). Quem anda mais em cima deste assunto do acordo é uma determinada ala intelectual ligada à cultura e às artes.


Sam, mais vale termos a certeza, não? Um simples parecer não nos esclarece isso, ou esclarece?
Nunca é de mais relembrar que existe um manifesto contra este "acordo" que conta com cerca de 110 mil assinaturas.


Não tenho nada contra - por acaso até gostava que o tal ILC conseguisse assinaturas suficientes (neste caso serão só 35.000) para uma nova discussão plenária em torno do assunto, agora que já não há maioria absoluta.

Já agora, fica o remate: creio que se a coisa fosse a referendo popular (uma situação que nunca vai acontecer), o acordo não passaria, porque seriam maioritariamente as pessoas que estão contra ele que se iriam manifestar. Esta frase vai acompanhada de outro "parece-me", e aqui não vamos mesmo poder ter a certeza.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -


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