Leitura e crise
Muito se fala dos tempos difíceis que aí vêm. Mas será que vão afectar o mercado dos livros? Sara Figueiredo Costa foi saber.
O mercado nacional do livro cresceu muito nos últimos anos. Tanto que chegou a um número astronómico de títulos anuais: cerca de 15 mil, de acordo com o Centro de Documentação Bibliográfica da APEL. Quer dizer que são editados 41 livros por dia, isto num país cuja capacidade económica não é famosa e onde os hábitos de leitura só agora começam a mostrar algum ânimo. Com um panorama assim, seria de esperar que o ritmo abrandasse, com crise ou sem ela. Este ano e o próximo anunciam-se difíceis e as editoras já preparam os seus planos tendo em conta a redução do poder de compra dos leitores.
O grupo Leya, que integra editoras como a Dom Quixote, a Asa e a Caminho, prevê manter a redução do número de títulos publicados, à semelhança do que fez em 2008. Segundo Maria Rodrigues, da direcção de comunicação, “a Leya continuará a privilegiar e a desenvolver o catálogo de autores em língua portuguesa, reduzindo e optimizando o número de títulos de autores estrangeiros”. O mesmo se passa com a Porto Editora. Cláudia Gomes, da divisão literária do Porto, confirma que o ano passado correu bem, “sem que, no entanto, se tenha alterado a estratégia de editar com um ritmo controlado, publicando poucos livros por mês nesta área”, estratégia que será mantida.
E Manuel Alberto Valente, responsável pela divisão de Lisboa, acredita que a edição de livros de qualidade a preço controlado garante bons resultados, até porque, como nos disse, “o livro, pelo que representa e pelo seu valor cultural, continuará a ser procurado e desejado pelos leitores”. A Bertrand é mais contundente na afirmação da crise, apesar de não ter razões de queixa quanto às vendas de 2008: “prevemos para 2009 o recurso a formatos mais acessíveis e a diminuição das tiragens, além da habitual redução de custos de produção”, como nos disse Eduardo Boavida, director editorial.
Apesar das cautelas, não há visões catastróficas. Jorge Reis-Sá, da Quasi, diz que editará “com mais parcimónia, trabalhando de modo a que os títulos editados tenham visibilidade”. Bárbara Bulhosa, da Tinta da China, pondera reduzir alguns títulos, nomeadamente os álbuns, mas apesar da preocupação continua “a acreditar na consistência do projecto e na sua viabilidade”. E com a confiança depositada nos hábitos dos leitores, Mário Sena Lopes, da Guerra & Paz, diz que apesar da quebra do poder de compra, “os hábitos de leitura, mesmo que baixos, não vão desaparecer”, opinião partilhada por Maria do Rosário Pedreira, da Quidnovi, que crê que o número de leitores está a aumentar e que “haverá outros sectores que sofrerão bastante mais, uma vez que o livro ainda tem um preço bastante acessível em relação a outros produtos culturais”, e por Francisco Vale, da Relógio d’Água: “não prevemos que 2009 seja um ano negro, pois esperamos que os habituais leitores dos nossos livros se mantenham. O nosso lema para este ano é mesmo: “Lendo livros a crise passa mais depressa!”. Não há receita milagrosas, mas a confiança no valor intrínseco dos livros parece ser mais forte do que o medo da crise e isso pode ser uma boa notícia para os leitores.
Vasco David, da Assírio & Alvim, acha mesmo que um período difícil pode ser um desafio para quem faz bons livros: “A única forma de debelar uma crise é com optimismo, trabalho, e com a vontade sempre presente de fazer mais e melhor com menos.”
Contra todos os pessimismos, há até quem veja na crise uma oportunidade para apostar em áreas específicas. É o caso da Orfeu Negro que vai desenvolver a aposta na colecção Orfeu Mini, sabendo que o começo auspicioso que teve com O Livro Inclinado, de Peter Newell, e a apetência crescente por livros dedicados aos mais novos podem ser bons indicadores. É também o caso das editoras com livros de bolso. Quer a Bertrand quer as editoras da Leya irão desenvolver as suas colecções (7/11 e Bis), apresentando novos títulos a preços confortáveis. E a Biblioteca Independente, co-editada pela Assírio & Alvim, Relógio d’Água e Cotovia, continuará a aumentar o seu catálogo.
E depois há quem deite a língua de fora à crise. Luís Oliveira, da Antígona, arruma a questão: “Vamos continuar a caminhar indiferentes ao que se passa no exterior e a todas as fabricações de crise. Os bons livros resistem a tudo.”
terça-feira, 13 de Janeiro de 2009»
Fonte: TimeOut Lisboa

