Entrevista a Miguel Sousa Tavares
por Catarina Carvalho<!--sizec-->[/color]<!--/sizec--> (Diário de Notícias)
«Quantos [livros]já vendeu?
Um milhão mais ou menos, deve estar em cima desse número. Se me permito fazer um safari onde não haja mais que seis pessoa no acampamento é graças a isso. Hoje em dia a minha vida é chapa ganha, chapa gasta. Escrevo um livro, recebo os direitos, vou viajar, encho-me de coisas que me ajudam a escrever outra vez, gasto nisso todo o dinheiro. Por exemplo, quando escrevi o Rio das Flores, fui quatro vezes ao Brasil.
Porque as editoras não pagam isso?
Até pagaria, se eu pedisse, mas acho que fazia parte dos meus encargos. Nem me passou pela cabeça pedir uma bolsa ao Estado. Podia ter ido só uma vez, ou não ter ido, ter comprado livros sobre fazendas… Mas eu quero ir lá, ver. Isso é um privilégio que pago com muito prazer, é uma excelente maneira de gastar direitos de autor. Também podia não o fazer e viver apenas disso, tranquilamente, hoje em dia.»
«Como é que faz para alimentar a sua opinião todas as semanas? Além de ler os jornais, também consulta os blogues?
Não, não vejo nem blogues nem redes sociais. Odeio o Facebook, odeio o Twitter. A única coisa que faço na Internet é, para além dos mails, para além de instrumentos de trabalho, wikipedias, etc., uso o Skype em telefonemas para o estrangeiro, mais nada. Não faço mais nada. Ah, jogo bridge. Agora, a ideia de rede social, e de blogues, tudo em comunicação, a falar… acho insuportável. Os blogues são uma série de gente que se acha importantíssima, que tem uma espécie de capelinhas, quase religiões, com os seus fiéis atrás. Há excesso de informação. Faz-me lembrar uma frase que a minha mãe dizia sobre o Eduardo Prado Coelho, que ele sabia mais do que percebia. Hoje em dia, as pessoas também têm mais informação do que a que conseguem entender. Nós temos uma dose limitada de aquisição de conhecimentos, e o resto é preciso tempo para pensar. No Facebook e no Twitter tudo tem umas teses extraordinárias. São todos cultíssimos, leves, frescos, trendy, sei lá...
Mas isso não é o que também faz quan-do vai à TVI, por exemplo, falar sobre tudo?
Não, é totalmente diferente. O Facebook é uma coisa elitista. Os blogues também. Aquilo é a beautiful people. Eu falo para 12% de audiência. Desde o vendedor de jornais da esquina, analfabeto ao professor universitário. E sei que falo, porque as pessoas abordam-me na rua e perceberam, e concordaram ou discordaram, mas perceberam. Estou a falar para elas, estou a fazer um serviço. Eu pagava um milhão para ninguém saber quem eu era, para poder fazer os meus comentários como o homem invisível. Agora, eu não vivo a ter opiniões instantâneas todos os dias, como se vive nos blogues, como se vive nas redes sociais. Em relação ao Facebook, eu vejo-o como a maior ameaça próxima para a história da humanidade.
Porquê?
Porque veio subverter todo o tipo de relações humanas. As pessoas deixam de se encontrar, de se conhecer, queimam as etapas todas, deixam de se olhar, mesmo. Tudo se torna fácil, vão para ali para arranjar namorados, para expor as suas vidas, os jantares que dão em casa, os baptizados dos filhos, as festas a que vão… E ainda por cima é uma perversão total da intimidade! Vou a uma festa e alguém põe uma foto minha na sua página do Facebook. É o paparazzo dentro de cada um, não é? A total promiscuidade das vidas privadas! E está tudo radiante a expor as suas vidas privadas no Facebook, contentíssimos, porque têm um feedback instantâneo, julgam que assim não estão solitários. E está tudo fechado em casa, diante do computador!
Não se sente ameaçado pelos blogues, como opinador?
Enquanto houver jornais, faz sentido que haja colunistas nos jornais. Se amanhã os blogues destronarem os colunistas dos jornais, tudo bem. Agora, não tenho a obsessão do Pacheco Pereira, que tem que estar na televisão, nos jornais e nos blogues, tem que estar em todo o lado, sob pena de perder espaço. Eu não me sinto ameaçado porque eu não luto para ter leitores. Quando não tiver, não tenho. Nem sequer vejo as audiências da TVI a seguir a eu falar, não sei qual é a minha influência.»
Entrevista completa:
"Estou a pensar ir-me embora para o Brasil"
"Exponho-me no livro, mas não vem daí mal ao mundo"
"Odeio tanto o Twitter como o Facebook"





