Genes de Fada

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Leto
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Genes de Fada

Postby Leto » 04 Dec 2011 18:31

Esta é uma ideia que tem andado a martelar-me, e antes de ontem decidi começar a passá-la para o papel. Aqui fica o prólogo e um pouco do 1º capítulo (porque ainda não escrevi mais). Quem quiser dizer-me o que pensa, está à vontade :rolleyes:

Prólogo

Era uma vez, há muito tempo atrás, um mundo diferente deste que hoje conhecemos. Aí habitava uma miríade de seres que já não existem, extintos com o passar nefasto dos anos, com o evoluir da mente humana, perdidos no tempo.

Entre essas criaturas encontravam-se algumas a que chamavam “mágicas”. Eram ditas como sagradas e amaldiçoadas, seres do Bem e seres do Mal, apesar de muitos acreditarem que era fraca a sua capacidade para distinguir entre esses dois opostos gladiadores. Acreditava-se que se regiam por estados de humor, por sentimentos que várias vezes tinham uma definição diferente daquela muito estrita que os humanos atribuíam com todas as suas certezas muito egocêntricas.

Mas afastamo-nos do pretendido. Não estamos aqui para conversar sobre a Humanidade, apesar de esta ter um papel muitíssimo importante. Reunimo-nos em redor destas páginas para falar dos Outros que um dia compartilharam este mundo com ela, antes de desaparecerem sem deixar rasto.

Bem, apanharam-me numa mentira. Na verdade, eles deixaram algumas pistas, caso contrário nunca saberíamos da sua existência. Esses indícios são as lendas, os mitos, os contos e todas as histórias mais estranhas que se contam em sussurros ou a cantar, em poesia ou prosa. Porém, é desejo imperativo da maioria que esses sejam relegados para o mundo da imaginação. Muitos dos olhos que me estão agora a ler, fazem exactamente o mesmo – não acreditam – e é esse o maior erro, o assassino que rouba o canto às sereias, que corta as asas às fadas, que seca as florestas dos elfos, que desmorona os túneis dos gnomos. Sim, porque são essas as criaturas mágicas em questão que foram esquecidas pela realidade, extintas dos nossos jardins. Por vezes, ainda aparece alguém que afirma a pés juntos ter visto uma criatura encantada, mas essa pessoa é completamente doida. Ou será que não é?

Independentemente daquilo que se vê, ou não, existe outra particularidade importante que muitos denominam por “crença”. É uma palavra traiçoeira, com mais gumes do que uma espada, mais espinhos do que uma roseira. E existem fadas que nascem de rosas, sabiam? E fadas com espinhos e espinhos mágicos que servem para poções… bem, esqueçam o que acabaram de ler, estas palavras não fazem parte da história. Como estava a dizer, a crença é como uma semente. E o que é que se faz com as sementes? Guardam-se, plantam-se, comem-se… não falaremos aqui daqueles que guardam a crença, prendendo-a na sua mente como a uma ave impedida de voar, nem daqueles que se alimentam dela transformando-a num espectro do que foi. Falemos somente daqueles que a plantam. De entre esse grupo de plantadores, existem aqueles que fazem exactamente só isso: escavam um buraco, atiram a crença lá para dentro, e esperam que dê frutos; e existem aqueles que dão um passo para lá desse, um passo tão importante que moveria montanhas se fosse de gigante – alimentam a crença, cuidam dela para que possa florir saudável. Todos os bebés precisam de um empurrãozinho, no final de contas. Apesar de tudo, as dificuldades continuam a existir, e haverá sempre alguém que tentará murchar essa planta, arrancá-la pela raiz, pisá-la para que não volte a florir, queimá-la como se fosse uma erva daninha.

Foi isso mesmo que fizeram com as criaturas míticas (não referirei o perpetuador de tais vilezas), ao ponto de nos deixarem somente as suas histórias. Histórias que são sementes e que aguardam ser regadas por sonhos. Não aqueles sonhos diários que nos acompanham durante a noite, mas os outros, os que desejamos tornar realidade.

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Re: Genes de Fada

Postby Leto » 04 Dec 2011 18:33

(E um bocado ranhoso do 1º capítulo!)

I - Entrevista no Jardim

Uma mão, entre muitas, crispava-se no varão do autocarro, como se o quisesse dobrar. A sua intenção real não era segurar-se, apesar dos sucessivos “pára e arranca” com que o condutor brindava todos os passageiros. A culpa era, nem mais nem menos, do relógio cujo ponteiro dos minutos andava demasiado depressa. Na verdade, ele dizia à dona que já passavam cinco minutos da hora para a qual a sua entrevista de emprego fora marcada, e ainda só estava no início da Avenida da Liberdade.

Prendeu a mala entre as pernas para libertar uma mão e rapidamente foi com ela até ao bolso do casaco, donde desencantou um papel muito mal tratado. Sacudiu-o com brusquidão para o desdobrar e observou o mapa de letras minúsculas que imprimira nessa manhã, com medo de se perder entre as ruas da grande cidade. Detectou o suposto lugar onde estava nesse preciso momento, a poucos metros da Praça do Marquês de Pombal, o senhor do leão. Resmungou alto e voltou a guardar o mapa, antes de se apressar na direcção do condutor.

- Deixe-me sair aqui, vou mais depressa a pé – atirou-lhe as palavras para cima, abruptamente, apontando logo a seguir, e de modo pouco firme, para a porta.

Com um olhar indisposto de quem dormira mal, o condutor examinou a rapariga de cabelo ruivo preso num coque, e cujas madeixas mais curtas caiam para a frente, contentes por se terem soltado.

- Estamos quase a chegar à próxima paragem, minha senhora. Seria perigoso sair no meio do trânsito – volveu, num tom de quem dava pouquíssima importância ao que ela dissera.

- Mas o trânsito está praticamente parado! – Protestou, com os olhos muito abertos. Sabia que aquela expressão por vezes assustava as pessoas, que a consideravam meia maluca. – É mais perigoso ficar aqui quando já devia estar à cinco… seis minutos numa entrevista de emprego! Não se preocupe que, se eu morrer atropelada por um caracol num passeio de Domingo, a responsabilidade será totalmente minha. O autocarro está cheio de testemunhas!

Olhou para trás, querendo confirmar que as pessoas estavam mesmo ali, assistindo impávidas à conversa, também elas desejando que o autocarro ganhasse asas e pudesse passar por cima de todos os outros veículos que ocupavam as duas vias de trânsito que desciam a avenida. E uma parte delas deveria perguntar-se sobre o que era “um caracol num passeio de Domingo”.

Com uma praga sussurrada, o condutor acabou por lhe abrir a porta.

- Saia lá, não quero que perca o emprego por minha causa. Os tempos andam difíceis – disse, sem olhá-la uma segunda vez.

Um sorriso enorme e deslumbrante abriu-se nos lábios da jovem e ela precipitou-se porta fora. Quase se estatelou no passeio quando o salto do sapato bateu numa pedra mais elevada, mas isso não a levou a considerar abrandar o passo.

- Obrigada! – Gritou, um segundo antes de começar a correr jardim abaixo.

Naquele dia de Verão as árvores projectavam uma sombra agradável e bem-vinda. Os bancos velhos eram ocupados por idosos que a observavam a passar, perplexos. Não era uma hora simpática para alguém andar a correr vestido com uma saia e um casaco pretos. Quando alcançou quase o término da avenida, parou três segundos, ofegante, voltando a tirar o mapa do bolso. Direita, tinha de atravessar para o outro lado da rua e enveredar até um jardinzinho numa tal de “Praça da Alegria”. Sem pensar duas vezes, precipitou-se para a estrada. E o que acontece às pessoas que o fazem? Podem ser atropeladas. E ela provavelmente teria sido, caso o trânsito não estivesse tão caótico.

(blablabla, continua...)


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