Poema dadaísta ao automóvel

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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Samwise » 17 Dec 2012 17:41

João P Ferreira wrote:Em relação à política da hegemonia automóvel, recomendo-te vivamente que leias este texto que em tempos escrevi:
http://www.veraveritas.eu/2012/08/o-processo-coletivo-e-psicanalitico-da.html


Nada de particulamente novo para mim, mas penso que consegues entender que há uma diferença gritante entre as duas abodagens. Abordagens que assim à primeira vista criticam a mesma coisa. Enquanto uma é um estudo em forma de manifetso, abrangente e justificado, ainda que por vezes enverede por um tom educativo-paternalista que não lhe traz mais-valias nenhumas, a outra é como o arremesso do menir à boa e velha maneira gaulesa: se cair em cima de um romano (ou de uma romana :mrgreen: ), ainda bem, se não, ainda bem também - o que importa é que foi arremessado, os danos colaterias que se lixem. É agressivo e ofensivo, e o calão e a brejeirice ampliam essas duas caractarísticas para um patamar insuportável (para além de nos fazerem "desligar" da eventual mensagem que esteja a ser passada). Confesso que me fez rir aqui e ali, mas não foi pelas melhores razões - não foi pela habilidade artística, foi pelo desgoverno e falta de subtileza formais (ainda que propositadas).

Quanto à arte e à sua aceitação, de facto não é um eventual tom agressivo ou o recurso ao calão e ao mau gosto que fazem os apreciadores deixarem de gostar dela, é antes o "jeito", a "habilidade" ou "génio" na sua formulação/criação - e a questão passará sempre por essa tal barreira subjectiva que distingue a arte das imitações e tentativas falhadas.

No seguimento disto, o que me choca na abordagem não é embrulho, é antes falta de noção, de adequação e desproporcionalidade com que este foi doseado sobre o recheio. Naturalmente que não é meia dúzia de palavrões e uma quantas imagens escatológicas que me fazem deixar de ter vontade de olhar, mas é a maneira como são usadas no formato em questão.

--- EDIT -

Ainda de outra perspectiva, uma forma de arte ou entretenimento que necessita de "chocar" para se fazer ouvir, e que recorre a estratagemas terceiros para atrair atenções que de outro modo não consegue, não merece que lhe dedique o meu tempo.
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Samwise » 17 Dec 2012 17:49

João P Ferreira wrote:Acho que na verdadeira poesia LIVRE, podemos falar mal de pretos, homossexuais, das mulheres, de Salazar, de Mário Soares, Álvaro Cunhal, do Primeiro Ministro, do Rei, do Papa, do Clero, dos agiotas, de Cavaco Silva, ou tão-somente da hegemonia automóvel. Alías há variada jurisprudência, que reiteradamente iliba, os autores, de eventual "calúnia" quando se trata de obra artística. O próprio Mozart, referia que através da ópera, "o que não se podia dizer, cantava-se!"


Já cá faltava a conversa da "liberdade artística". Nessa expressão, o que importa é mesmo o termo "liberdade", e não "arte". E esse tem sempre o "problema" de terminar onde começa a dos outros. Não considero que disfarçar um insulto com uma capa artística o torne menos ofensivo.
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby João P Ferreira » 17 Dec 2012 18:57

Samwise, percebo o teu ponto, mas acho sinceramente que surge pelo facto de te teres sentido "chocado"!
Mas não é esse (em parte) também o objetivo da arte?

A arte neste sentido é nobre e superior, e acima de tudo é humana, porque é catártica, purgante e escatológica.
Ou seja, através dela, extravasamos de forma pacífica os ímpetos mais agressivos e acesos que nos vão na alma!
A criação de arte chega mesmo a ser terapêutica!

Mas volto a frisar que o poema em causa não assenta na ofensa "gratuita" pois tem um propósito político muito bem vincado, que é combater a hegemonia da indústria automóvel, que tanto destroi o país e a qualidade de vida nas cidades!

E em ralação ao facto de ser chocante, oiçam estes versos que são de um dos mais famosos e conceituados rappers portugueses
(espero sinceramente que não se sintam chocados, advirto que a terminologia é muito chocante e agressiva)



Atentamente
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Bugman » 17 Dec 2012 19:15

Pretendo com esta fazer uma última intervenção neste tópico, apenas por sentir que como todas as polémicas forçadas, isto funciona como isco numa pesca por atenção.

É perfeitamente possível gritar insultos sem sentimento. Se quiseres ver o que é sentimento na declamação de poesia é só ir ao youtube e pesquisar por "a cena do ódio" e "mário viegas". Curiosa a referência a que a verdadeira poesia "é a que sai da boca" quando este tópico se originou claramente num bloco de apontamentos lidos de forma neutra; curiosa a referência à ausência de forma, a uma suposta liberdade artística, quando há um esforço tão grande por não ter amarras, que se acaba amarrado nessa liberdade.

O poema de Bocage que tão bem citas quase que eleva a palavra puta e suas derivadas ao patamar de linguagem erudita, nada que possa sequer ser comparável com os três minutos de vídeo que pude ver. Pelos três minutos que pude ver, se esta poesia não está numa casa de banho devia estar, escrita num rolo de papel para que alguma utilidade tivesse.

Não percebo nem como se passou para a "liberdade artística" nem como se passou a falar do que Cesariny ou Ary dos Santos eram. Nunca a "liberdade artística" esteve em causa, nem eu insultaria Cesariny ou Ary dos Santos ao compará-los com o trecho de vídeo que suportei ouvir. Nisso de liberdades artísticas, como o Sam referiu e muito bem, quem sente a necessidade do chocar por chocar, normalmente é porque não tem argumentos para se valer numa discussão séria.

Agora que já dissertei mais sobre os três minutos de vídeo que tive o desprimor de ouvir, do que sobre os três minutos que passei há bocado na casa de banho, despeço-me deste sorvedouro de atenção injustificada. :bye:
Last edited by Bugman on 17 Dec 2012 19:23, edited 1 time in total.
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Samwise » 17 Dec 2012 19:22

Isto deve ser sintomático. Fico com várias questões a circular na cabeça:

- Por que razão a minha aversão ao formato usado é interpretado como um "sentimento de choque"? Identifico a prática da criação como uma tentativa de "choque", sim, mas não me sinto particularmente atingido por ela. O que não quer dizer que aprecie o que é dito - ou a forma como é dito. Não sou de facto adepto nem praticante da falta de nível verbal, mas daí a sentir-me chocado vai um grande salto.

- Por que razão as mulheres "rodadas" são sempre putas de merda e os homens são "garanhões" que colecionam respeito social, nomeadamente entre aqueles que criticam essas mulheres?

- Por que razão é necessário invocar "artistas" "dos mais famosos e conceituados" para justificar o uso "liberal" e mal medido de calão? (e não vejo realmente grandes "atributos artísticos" ou "exemplos a seguir" nesse tema, mas sublinho que não é por me "chocar")

- Continuo sem atingir a ideia de que os fins (nobres) justificam os meios (rascas). Por que razão "um propósito político muito bem vincado" atenua ou elimina um mau veículo de comunicação? O tema apresentado diz a certa altura que "a vossa beleza não esconde os vossos defeitos" - ao que eu acrescento "a fealdade vai pelo mesmo caminho". Não serão os "defeitos intelectuais" (?) características independentes da beleza e da fealdade? Por que razão se separam então as águas quando é altura de criticar?
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Thanatos » 17 Dec 2012 19:36

Refiro só que mencionei o Cesariny porque me pareceu pelo que li que o pessoal se sente "chocado" com expressões como puta, vulva, caralho e outras que tais. De resto longe de mim pensar em estabelecer paralelos ou de me lembrar de que o Cesariny e o Ary eram homossexuais como se isso trouxesse algum elemento importante à discussão.

Aliás sempre me causou algum prurido pessoal que no meio duma conversa sobre algum artista lança um: ahh e coiso e tal o gajo era panilas. Como se a Arte estivesse diretamente ligada à opção sexual de cada um. Por esse prisma o Hemingway teria sido um pobre coitado (e note-se que como pessoa eu detestaria Hemingway).

Mas pronto, este fórum é um local para se discutir precisamente estas coisas e penso que cada contribuição traz algo mais à discussão.
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Samwise » 17 Dec 2012 20:08

João, já que estamos com a mão na massa ( :devil: ), deixo-te uma pergunta que não é apenas retórica: da tua perspectiva, que ganhos, qualidades ou mais valias trazem o uso do calão, da escatologia e da pornografia ao teu poema?

Que o objectivo que moveu a criação do mesmo é nobre é algo que não necessita de grande explicação, já o uso destas três características me deixa curioso (a apenas isso) - partindo do pressuposto que não foi deliberadamente para chocar, ou que não se limitou a esse propósito.
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Thanatos » 17 Dec 2012 20:21

Percebi que o poema não seria da autoria do João. :blink:
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Samwise » 17 Dec 2012 20:37

A sua (não) autoria está logo na primeira frase do tópico. :blush: :rolleyes:

A pergunta mantém-se no entanto dirigida ao João, como declamador. É ele que dá a cara e é ele que tem argumentado a favor do poema no tópico. Penso também que concordará com aquilo que declamou - ou pelo menos teve o mérito de ter transmitido calorosamente essa sensação.

(e não sei de quem foi o arranjo visual para o vídeo - a escolha de imagens e edição...)
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby croquete » 17 Dec 2012 23:08

Julgo que a ideia do "choque" foi apresentada pelo Thanatos. Confesso que nem pensei nela em primeiro lugar por julga-la demasiado infantil.
(sem desprimor)
Pensando nisso, é possível que essa seja considerada, por mentalidades mais primitivas, uma forma de legítima de comunicar.
A ideia talvez seja a de que pensem ser necessário "destruir barreiras mentais" e desta forma "despertar consciencias".
Pois muito boa sorte. :td:

Como paralelismo, não consigo deixar de pensar na imagem do anarquista com uma bomba de rastilho na mão sonhando com uma nova ordem mundial.
Uma ideia muito na moda hoje em dia, a de que quanto pior...melhor.

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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Thanatos » 18 Dec 2012 09:17

Então julgas mal croquete porque se leres os posts anteriores ao meu mais concretamente o do Samwise lerás que é ele que refere e usa o termo "chocante". Este tipo de afirmações quando ainda nem sequer se escreveu demais por aqui é que geram os mal-entendidos desnecessariamente a meu ver, tendo em conta que se poderia até redigir o post sem mencionar em concreto quem disse o quê visto que tal nada acrescenta à discussão a menos que se queira fazer passar alguma ideia menos positiva, mesmo que se diga posteriormente que tal é não intencional.
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby João P Ferreira » 18 Dec 2012 12:33

Bem, vou tentar ser direto e analítico

Nada tenho contra os homossexuais, nem muito menos foi minha intenção denegrir a sua obra, pelo contrário, grandes génios da literatura eram homossexuais, desde a Grécia Clássica até aos tempos modernos. Aliás, denoto um paralelismo interessante entre os génios da literatura e a homossexualidade, talves porque esta última conceda uma sensibilidade feminina ao autor, fundamental para conceber as mais nobres obras da literatura. Atesto apenas um facto: Cesariny, Ary, Hemingway eram homossexuais, Bocage era putanheiro, Camões era um romântico idílico e Pessoa era um frustrado com as mulheres!

A hegemonia do automóvel tem destruído um país onde 1/4 das importações são carros e combustíveis, assim o poema é unicamente de índole política, na verdadeira aceção etimológica do termo (mudar o paradigma da polis). O poema visa combater a hegemonia automóvel em todas as suas frentes, como a cultural, social, ambiental ou publicitária. Há alguns estudos académicos que referem a sacralização do carro por exemplo nos EUA. Um deles é ESTE

Assim o poema não visa ser um ataque às mulheres, não visa até ser um ataque aos automobilistas, visa atacar a cultura automóvel em todas as suas frentes! Acrescento ainda que, no meu enteder, e usando da dialética, considero que no paradigma do poema têm de ser considerados dois parâmetros: a forma e o conteúdo. A forma pode eventualmente ser injuriosa, infame ou ofensiva, mas assenta essencialmente num estilo de desabafo e de sátira literária; todavia o conteúdo é extremamente válido e premente nos dias que correm. A forma, que serviu apenas para chocar, foi um meio para trazer à consciência coletiva da sociedade o teor do conteúdo, esse sim, válido, racional e desprovido de sentimentalismos exacerbados. Assim devo confessar que o Bugman tem razão, pois a forma serviu "para chamar a atenção", mas não para chamar a atenção para a minha pessoa ou o autor do texto, mas para chamar a atenção a uma causa que considero maior. Não se trataram assim de simples ofensas gratuitas, e o texto em apreço não é contra ninguém enquanto pessoa humana, o texto é dirigido a uma cultura automobilista que se tem revelado nefasta para as pessoas, para as cidades, para o país e para o planeta.

E para que percebam esta tragédia deixo-vos alguns dados:

  • Em Portugal, os carros e os combustíveis representam cerca de um quarto das importações. Em 2010 esse valor foi cerca de 16 mil milhões de euros, agravando seriamente a balança de pagamentos de um país a ser regido por credores, um país que perdeu soberania e que se transformou num protetorado, em parte devido ao défice acumulado da sua balança comercial. Há cerca de 5 milhões e 900 mil automóveis em Portugal. Considerando um preço médio de €14000, obtém-se um valor patrimonial nacional de 82 mil milhões de euros, superior ao empréstimo total que Portugal obteve da troika. Considerando que um automóvel tem uma desvalorização média anual de cerca de 12%, o país perde de ativos todos os anos cerca de 10 mil milhões de euros, apenas na desvalorização do seu parque automóvel.

  • Portugal é o terceiro país da Europa com mais automóveis por mil habitantes, bens onerosos para as pessoas, sendo todavia dos países com maiores assimetrias sociais e dos mais pobres da zona Euro. Em Portugal o salário mínimo nacional é de €485, sendo dos mais baixos da Europa e auferido por 400 mil pessoas, em Portugal neste momento existe 35% de desemprego nos jovens e dois milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza. 85% dos reformados recebem menos de €500 por mês de pensão e o país tem o pior nível salarial dentro da zona Euro. Há milhares de falsos recibos verdes, sem quaisquer direitos consagrados no Código do Trabalho. No total, Portugal tem cerca de um milhão de desempregados e tem o maior fosso da União Europeia entre ricos e pobres. Todavia Portugal tem dos melhores parques automóveis da Europa. Em número de veículos por mil habitantes, o país só é ultrapassado pelo Luxemburgo, um país rico onde o ordenado mínimo é cerca de €2000 por mês, e pela Itália, um país que faz parte do G8 e com uma indústria automóvel de relevo.

  • As Parcerias Público-Privadas (PPP) rodoviárias representam cerca de 50% de todas as PPP, que representam um arrombo nas finanças públicas que estão a ser pagas com desemprego, austeridade, pobreza, cortes salariais, fim de abonos sociais, de educação, saúde e estado previdência

  • A maior causa de morte em Portugal são as doenças do coração, ceifando a vida a cerca de 37 mil portugueses por ano. Um dos principais fatores de risco deste tipo de doenças é o sedentarismo. A promoção da mobilidade automóvel promove drasticamente o sedentarismo.

  • Os acidentes de viação provocados por automóveis já mataram mais portugueses do que a guerra colonial.

  • Em Lisboa e no Porto são atropeladas em média quatro pessoas por dia. Em 2011 morreram 118 pessoas atropeladas.

  • Um terço das emissões de dióxido de carbono, que provoca efeito de estufa e aquecimento global, vem dos transportes, sendo quase na totalidade, por veículos automóveis. Portugal ratificou o protocolo de Quioto, onde se comprometeu a diminuir essas emissões, sendo que neste momento o país está em violação das metas que se comprometeu cumprir.

  • 99% dos automóveis em Portugal, movem-se a derivados do petróleo, matéria prima que não é endógena, e que é necessário importar

  • Os gases emitidos pelo automóvel, como hidrocarbonetos, monóxido de carbono (CO), óxido de nitrogénio (NOx), partículas em suspensão e óxido sulfúrico (SOx) provocam graves patologias para a saúde humana, havendo diversos estudos académicos que relacionam mesmo milhares de mortes por patologias respiratórias com os gases emitidos pelo automóvel

  • Só em Lisboa, entram 700 mil veículos automóveis todos os dias. O parque de estacionamento equivalente, seria em termos de área, a segunda maior freguesia de Lisboa. Nesse espaço, poderiam estar jardins públicos, espaço de lazer ou praças para usufruto dos munícipes.

  • O tráfego automóvel, é o maior causador de ruído nas cidades, que provoca uma série de doenças ao nível endócrino, como stress, perturbação do sono e mesmo enfarte. Um em cada cinco europeus sofre de qualquer tipo de patologias provocadas pela poluição sonora dos automóveis

  • Há milhares de pessoas de terceira idade, com carrinhos de bebé, ou com mobilidade reduzida, cuja mobilidade está seriamente limitada, pois o estacionamento em vias pedonais é uma constante nas cidades, impedindo-lhes a mobilidade e pondo em causa a sua segurança.

  • Entre 1990 e 2004 houve um aumento no parque automóvel em Portugal de cerca de 130 por cento.

Atentamente
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby João P Ferreira » 18 Dec 2012 12:37

Samwise wrote:
- Por que razão as mulheres "rodadas" são sempre putas de merda e os homens são "garanhões" que colecionam respeito social, nomeadamente entre aqueles que criticam essas mulheres?


Sam, nunca proferi tal comentário, nem nunca defendi tal paradigma, apenas citei um rapper famoso que faz uso abundante do calão
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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby Arsénio Mata » 19 Dec 2012 01:24

Como sabem, pelo menos quem leu os meus textos, eu uso bastante calão. Faço-o por considerar que caralho é uma palavra igual a melancia. Já uma vez o defendi aqui, com uma frase parecida. O medo das palavras é perigoso. O Sam fala em falta de nível verbal. Para mim, falta de nível verbal é, mais do que dizer caralho ou puta, considerar que alguém que o diga tem falta de nível.

Posto isto, vi 30 segundos de vídeo. Avancei. Vi mais 2 segundos. Desisti. Não choca nem passa mensagem. É só chato. Repetir "puta" vezes sem conta não torna a arte mais livre, torna-a repetitiva. Peço desculpa ao autor e declamador, mas é só a minha opinião.
Only in the bloodline is this terror exposed
A knife to the eye of modern day times
Exactly what you've worked for.

A price for the pride
I can feel the distance coming
The holes in my lungs
Won't let me take this anymore.

http://umhomemsimpatico.tumblr.com/

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Re: Poema dadaísta ao automóvel

Postby João P Ferreira » 19 Dec 2012 10:59

Arsénio Mata wrote:Repetir "puta" vezes sem conta não torna a arte mais livre, torna-a repetitiva. Peço desculpa ao autor e declamador, mas é só a minha opinião.

Apenas uma nota: a palavra "puta" é apenas proferida UMA vez

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