Livro de Viagens - extracto de manuscrito

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Torgut
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Livro de Viagens - extracto de manuscrito

Postby Torgut » 21 Jan 2013 13:58

Oi... o texto que se segue é um extracto do manuscripto (ora aqui está uma palavra que devia ser repensada) de um livrito que me decidi a escrever. Trata-se de um livro de viagem, com o foco assente nos aspectos humanos. É mais sobre quem se vai encontrando "na estrada" do que sobre as torres de Londres e as pirâmides do Egipto do nosso mundo. E se algum tema específico tivesse que ser indicado, seria o "Couchsurfing", aquela comunidade internacional de viajantes que abrem as portas de sua casa a outros viajantes que precisem de hospedagem.


Sarajevo

Zlatan abre-me a porta. O táxi que ele enviara à minha procura na estação central inverte a marcha e arranca. Sou convidado a entrar. O chão é a primeira coisa a chamar-me a atenção: feito de vigas de madeira com uns bons três dedos de espaçamento entre si, assentes sobre um solo britado. Uma solução estranha, de todo inconveniente para sapatos elaborados e fora de questão para saltos altos.

Os meus olhos tentam abarcar tudo aquilo que será o meu lar nos próximos dias. Com a devida discrição, claro. Então, pousam sobre ela. Há um pequeno sobressalto. Uma mulher jovem está sentada a uma mesita quadrada, posta para um pequeno almoço que está a ser tomado já às primeiras horas da tarde. Procuro compreender os laços ali estabelecidos. Seria também uma couchsurfer? Talvez, mas sente-se no ar uma nota que sugere um outro grau de intimidade. Uma namorada? Pode ser, e nesse caso a evidente diferença de idades, na ordem da metade, seria apenas um detalhe concebido para baralhar estas cogitações.

O anfitrião convida-me a sentar, diz-me que depois de comerem terá de ir ao centro e nos dará boleia para baixo. Pergunta-me se quero trincar qualquer coisa, em termos que deixam claro que a resposta esperada é “não, obrigado”. O ambiente é constrangedor. Instalado no sofá, sou claramente deixado de fora do que quer que ali se esteja a passar. Aquelas duas pessoas partilham a refeição num clima conjugal, basicamente em silêncio, feito de soslaios cúmplices. De tempos a tempos o Zlatan deita-me uma mirada, observa-me, avalia-me, com olhares penetrantes que atravessam a alma. Sinto-me terrivelmente desconfortável, dou por mim a matutar em que raio de sarilho me vim meter. Se tudo isto não passasse de uma história de banda desenhada, era nesta altura que um balãozinho de pensamento surgiria sobre a minha cabeça dizendo:

“- Ricardo, amanhã piras-te daqui, perdes o amor a uns quantos Euros e encontras um hostelz qualquer no centro”.

Quando aquelas duas alminhas finalmente acabaram as suas torradas e o respectivo chá, fui apresentado ao resto do lar. Os quartos são no andar de cima, os sapatos têm de ficar nas escadas. Pergunto à misteriosa jovem:

“ – Desculpa, como é mesmo que te chamas?”

“ – Tenho muitos nomes... mas para ti... [olha-me de alto a baixo e pondera durante um par de segundos]... podes-me chamar Asia.

Fico desde logo a conhecer a sua nacionalidade; apenas os polacos usam aquele diminutivo para “Anastasia”.

Daí a nada estamos os três no velho carro, colina abaixo, a uma velocidade tresloucada; ele vai-me dando indicações, que entram por ouvido e saem por outro ao mesmo ritmo a que a viatura progride. Pelo final do dia, quando quiser regressar, vou ter que encontrar sozinho a solução para aquela charada feita de cruzamentos, ruas que sobem e descem, parques e mais encruzilhadas. É isso ou pagar cerca de 3 Eur por um táxi e sujeitar-me a uma situação que me inspira pouca fé: segundo o meu amigo, só uma empresa é opção, a Paja Taxis [em português, “páia”] , e com esses, basta entrar e dizer ao condutor:

“ - Zlatan”.

Não sei não. Algo me diz que estou a ser submetido a uma praxe. Vamos lá a ver se percebo... então chegamos a uma capital europeia e acreditamos que se dissermos o primeiro nome do nosso contacto local o taxista arrancará, impavidamente, detendo por fim o carro à porta da casa que pretendemos? Assim, sem mais nem menos, sem uma morada, sem conversas? Não, não me meto nessa. E além disso, 3 Eur ainda são 3 Eur. Pode parecer pouco, mas para quem está a viajar com um orçamento apertado é uma despesa a eliminar.

A loucura prossegue. A voz do Zlatan chega-me como uma ladaínha:

“- Pronto, aqui são as tais escadas. Quando as vires, já sabes que tens que subir, depois, é virar à esquerda, vês logo uma rampa, e aí é à direita, sempre a andar, vais passar junto à paragem de autocarros, atravessas o jardim, cruzas a rua defronte, andas dois blocos, viras à esquerda, chegas a uma estrada. Tudo simples, tal como te disse, não é? Vais ver, não tem nada de especial. Fácil, muito fácil. ”

E continua...

“- Bem, ou então, tens outra hipótese... apanhas o autocarro para cima, que não te traz a casa mas sempre te poupa meio caminho. O bilhete compra-se no quiosque à beira da paragem, lá na baixa. Ah... mas o melhor será mesmo apanhares um táxi, já sabes, basta dizeres que é para casa do Zlatan.”

Pronto, já estávamos a chegar ao centro. O trânsito está parado e recebemos indicação para sair. E ali estou eu, sem saber bem o que fazer, largado no centro de Sarajevo com uma “pitinha” de cara de anjo, pele branca de cal temperada com um mar de sardas atrevidas e uma farta cabeleira escura e cheia de caracóis. Olhamos um para o outro, eu, esperando que ela desse a entender um “adeus e até logo” que não chegou. As coisas não estavam a correr nada bem. Há pessoas que ligam bem ao primeiro contacto; outras, têm a química errada. E esta era sem dúvida a nossa situação. Mas a Asia não estava para já disposta a assumi-lo. Deixou claro que iamos andar por ali juntos, empenhada, com um sorriso amarelo, no seu papel de cicerone que não poderia nunca resultar.

Tentei discretamente perder-me num par de ocasiões. Ora fingindo distrair-me com uma montra ora apressando o passo quando sentia que algo a retinha. Sem sucesso. Uma e outra vez fui apanhado. A oportunidade surgiu por fim. A minha “guia” polaca procurava uma prenda para levar à sua melhor amiga e isso deu-me o pretexto perfeito.

“- Pronto, então deixo-te em paz para procurares isso, e vou por ai explorar. De qualquer modo, se calhar é melhor, cada um tem o seu ritmo, já sabes como é....”

Dou por mim a vaguear por esta cidade. Sem GPS estou perdido. Já não sei viver sem a ajuda desse precioso amigo. Resta-me andar por ali aleatoriamente, e acabo por encontrar alguns dos pontos que me lembro de ter marcado no defunto Garmin. As ruas de pequenas lojas, zonas de artesãos… uma mesquita magnífica… o chamado “largo dos pombos”, coração da cidade do século XVII. Adoro ver os cafés, não tanto segundo o figurino ocidental, mas feitos de espaços mais pequenos, por vezes apenas com uma ou duas mesas, à moda turca. Descubro a ponte latina, junto à qual o anarquista de origem sérvia Gavrilo Princip assassinou o herdeiro ao trono austriaco, o arquiduque Franz Ferdinand, que visitava a cidade em 1914.

Sarajevo era então parte do Império Austro-Húngaro, e a Sérvia, uma jovem e atrevida nação, persistia em hostilizar a presença imperial na Bósnia. Era uma questão de eslavos contra germânicos, de ortodoxos contra católicos. Os austro-húngaros, desejosos de pôr fim à irreverência sérvia, apresentaram um ultimato intencionalmente inaceitável. Estava despoletada a Primeira Guerra Mundial.

Agora há um museu no local, que pretendo visitar mais tarde. Entretanto o tempo avançou, e a tarde aproxima-se do fim. Respiro fundo. Está na altura de enfrentar o desafio do dia.

Encontro o quiosque onde supostamente vendem bilhetes para o autocarro… só que não vendem, dizem-me que é para comprar ao motorista. Nisto chega o autocarrozinho, cheio à pinha. Fico logo a pensar:

“- Ah pois, parece que isto não vai acontecer. Estou tramado.”

As pessoas comprimem-se numa tentativa de acomodar o par de atrevidos que tentam a sua sorte; as portas gemem num derradeiro esforço para se fecharem. OK… fora de questão. Táxi não, isso não! Portanto, opção C, andar.

Ora Sarajevo expandiu-se para além do vale em nasceu, trepou pelas faces das montanhas que a envolvem. Os subúrbios da metrópole são esses bairros, conquistados às encostas. O tráfego de pessoas e carros tem dois movimentos. Um, longitudinal, movendo-se ao longo do eixo do vale; ai circulam os que se deslocam de um escritório para outro, de um centro comercial para a universidade, de um museu para a paragem do autocarro que os há-de levar até casa. O transporte público é garantido por elétricos e “trolleys”, aqueles estranhos autocarros com duas antenas que, tocando na cablagem que se estende ao longo do percuurso, lhes conferem a energia necessária para prosseguirem com a sua marcha. Depois há um segundo movimento, transversal, que se processa a partir de determinados núcleos espalhados ao longo do vale, e que leva estas gentes do fervilhante centro para as comunidades espalhadas pelas faces ingremes dos montes. E é nesse sentido que caminharei hoje.

Há passagens tão ingremes que as minhas botas resvalam na calçada, tenho que me agarrar a algo. São vários quilómetros assim. Só sei que é sempre a subir. Não faço ideia da direcção exacta. Sem GPS a vida é complicada, e o telemóvel, que poderia dar uma ajudinha com o seu impreciso sistema de orientação, já quase não tem bateria. Resta-me lançar-me às cegas por ali acima, enfrentando um labirinto de ruelas, todas a pique, onde cada erro significa andar para trás centenas de metros e refazer a distância vertical tão arduamente ganha.

De tempos a tempos peço auxílio a uma pessoa local. Ao principio ninguém entende para onde quero ir, mas depois de lhes mostrar as palavras escritas no papel e de ser corrigido umas quantas vezes, aprendo a dizer os nomes de forma perceptivel para eles, e por fim bastava-me verbalizar a morada para ser compreendido. Sem uma língua comum, obter uma indicação completa e detalhada está fora de questão… resta-me ir avançando aos poucos, até à próxima bifurcação, parando, perguntando, caminhando mais uma centena de metros, olhando em redor em busca de alguém, de novo, uma abordagem, mais um dedo esticado apontando o rumo correcto.

Quando me aproximo de alguém, sinto sempre uma enorme desconfiança no ar, uma atitude corporal de “passo atrás”, um medo do desconhecido. Suponho esta atitude seja que um dos frutos da guerra civil, marca da agressão sofrida por estas gentes. Depois, quando se apercebem que aquele estranho é na realidade um estrangeiro em busca de ajuda, tudo muda. As barreiras caem e abre-se um sorriso. De seguida vem a tentativa esforçada de ser útil, por vezes com recurso à ajuda de um vizinho chamado para a ocasião.

Entretanto a noite cai, e ali estou eu, perdido, numa terra desconhecida, com o frio a chegar e ainda sem a menor ideia sobre o caminho a seguir e da distância a percorrer. De cada vez que peço indicações, sou brindado com expressões incrédulas. Um par de homens consegue transmitir a ideia geral:

“- O que é que vais fazer para ali, amigo, não há ninguém, é só a montanha, e já é de noite.”

Tento explicar-lhes que conheço alguém que vive para aqueles lados; parecem ficar um pouco mais descansados … mas indicam-me a direcção errada… virar à direita lá ao fundo. Felizmente, ao chegar à bifurcação tenho uma vaga percepção que foi ali, mas pela esquerda, que o táxi subiu, de manhã. E sigo a memória.
Mais à frente um homem jovem, óculos na ponta do nariz, vai saindo de casa e prepara-se para se meter no carro. Já é noite cerrada e a vivenda é isolada. Penso na melhor abordagem, porque seja ela qual for, sei que o tipo vai apanhar um susto. Mas corre muito bem porque quem está ali à minha frente é a primeira pessoa que encontro que sabe inglês. Dúvidas esclarecidas. É mesmo por ali e já não falta muito para chegar à estrada do Zlatan.

Apesar do frio, todo o stress e a caminhada monte acima fazem-me suar. Olha... está ali um “gajo” deitado na estrada. E, que giro, mais dois vultos sentados à sua beira. Perfeito. Estes já não bebem é mais hoje! Passo por eles, tentando ser o mais discreto possível, mas logo um se levanta e faz questão de me acompanhar durante umas dezenas de metros, balbuciando um discurso ébrio, perante o qual vou sorrindo e meneando a cabeça. Quando por fim desiste, sei que nem sequer se apercebeu de que esteve a “falar” com um estrangeiro .

O troço é mais longo do que esperava mas finalmente vejo uma cancela de que me lembro com clareza. Já me sinto em território familiar, agora subsiste apenas o medo de não identificar o local na escuridão. Mas pouco depois, lá está ela, a casa… os cachorros à solta no terreno, os mesmos carros que vi anteriormente. Cheguei!

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