"Parte 1 de um rascunho "

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Phantasy
Rascunho
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"Parte 1 de um rascunho "

Postby Phantasy » 24 Feb 2013 13:58

Olhava para o espelho procurando descrever-se. Não os recortes, os lábios ou a cor dos olhos. Algo mais profundo debatia-se no seu interior. " Quem és tu? "
Passou as mãos trémulas por água e esfregou o rosto como que á procura de algum detalhe que lhe tivesse escapado. Desistiu passado um longo minuto e secou as mãos. O som abafado de um telemóvel a tocar fê-lo despertar e saiu da casa de banho enrolado numa toalha. Levantou o cobertor da cama e pegou no telefone. "Número Privado".
- Sim?
- A Serpente Morde Pela Calada - disse uma voz masculina do outro lado.
- E o Lobo Observa.
Terminou a chamada e marcou um novo número. Foi direccionado para o correio de mensagens por voz.
-Querida sou eu, está tudo bem - procurava manter a voz firme - Sou capaz de ficar por aqui mais uma semana. Tenho saudades vossas e só penso no momento em que vos irei ter nos meus braços novamente. Como te disse, aquilo lá no escritório tem andado uma azáfama colossal. Quero que saibas que vos amo imenso e que esperes por mim. Diz á Carolina que o pai lhe leva guloseimas.
Partiu o telefone em dois e atirou-o para o saco do lixo.
Uma semana e tudo aquilo estaria terminado, ou pelo menos assim queria crer. Não era ele o mentor por trás do projecto. Sentia-se uma simples ferramenta á espera de ser posta fora de jogo, mas ainda assim o comboio deslocava-se depressa demais para poder saltar.
Apesar do elevado risco, optara por entrar naquele que poderia vir a ser o acontecimento do século.
Deixou cair a toalha e vestiu-se, reflectindo sobre a melhor forma de abordar o assunto face ás circunstâncias. "Que merda a vida é só escolhas! Fazer ou estar quieto, falar ou calar, fugir ou enfrentar". Aquele dia seria um dia de escolhas importantes.
Escolhas que poderiam dar á sua vida uma volta de 180 graus.
Mochila ás costas, saiu de casa deixando uma porta fechada para trás.

Na recepção do hotel, fez o check-out e dirigiu-se a entrada principal do edifício. Ultimamente, uma onda de azares havia-se abatido sobre o Ritz Lisboa de forma implacável. Há sensivelmente três meses, no dia anterior á sua chegada, um assalto lucrara uns quantos milhares de euros. Quatro homens entraram no hotel envergando fatos-macaco de cor escura e com os rostos tapados por máscaras carnavalescas, empunhando cada um uma caçadeira muito á semelhança de um filme típico de Hollywood. A Policia judiciária insistia em nadar por entre águas turvas sem nada descobrir em concreto. Por vezes um par de agentes fazia uma visita ao hotel.
Como se não bastasse, ainda a semana passada um tipo qualquer fora assassinado brutalmente no quarto enquanto dormia. Três tiros no peito e umas tantas outras atrocidades que se recusava a recordar das notícias na televisão.
Apenas a crise económica e financeira parecia não afectar o negócio. " Os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres " - O velho ditado vestia cada vez melhor a situação que se fazia sentir.
No instante em que se preparava para passar a porta, esta abriu automaticamente permitindo que alguém entrasse primeiro. Colidiram os dois corpos, e quem olhasse de fora diria que se haviam petrificado por breves segundos. Uma mulher jovem de cabelos dourados e olhos que reflectiam o mar desfez-se em perdões e lamentos.
Enquanto fazia ecoar as suas palavras, observou aquela alma que transpirava insegurança e fragilidade. Uma estudante de Erasmus, a julgar pelo sotaque francês e pelos livros que carregava nos braços - Direito Económico, História da Economia e Grandes Depressões do Século XX.
"Interessante”
- Na verdade a culpa até foi minha - forçou um sorriso - Tenha um bom dia madame. Dito isto, piscou o olho afastou-se a passos largos.
A cacofonia industrial e citadina invadiu violentamente os seus sentidos. Não muito longe de onde estava, um prédio havia começado a ser construído, o que só contribuía para alimentar o seu desconforto sempre que saía do hotel. Desejou por momentos voltar para dentro e refugiar-se no silêncio das suas congeminações.
O sol primaveril fazia-se brilhar timidamente por detrás do céu nublado. Ameaçava chuva e não tinha chapéu. Arriscou seguir em frente em direcção á Rua Marquês. Em direcção ao ponto de encontro.
Estacou e olhou em redor. Carros e motas passavam por ele como um furacão numa folha de papel.
Naquele compasso de espera, levou os dedos ao fio no pescoço e puxou a pequena bolsa de pano cinzento que tinha por baixo da camisola. O simples gesto de a segurar foi como uma droga que o induziu a um estado de inércia momentânea. Permitiu-se fechar os olhos e abstrair-se de tudo o que o rodeava. “Tu nem devias estar aqui. Não tens nada a ver com isto. É tudo tão maior que tu. Porque raio te foste meter nesta embrulhada que provavelmente fará com que acabes estendido na berma de uma estrada? Nem sequer fazes isto pelo dinheiro. Faz-te sentir importante, é isso não é?”
Assim ficou, um fantasma perdido em reflexões.

***

- Tens a certeza que é aquele o tipo?
-Absoluta, tem o cachecol com a faixa verde escura tal como lhe foi indicado.
- Sim mas olha bem para ele, parece nervoso.
O outro homem, um homem calvo e gordo, não respondeu.
O negro Mercedes CLS de elevada cilindrada, aproximou-se reduzindo a velocidade até parar junto do sujeito apeado.
Acto continuo, uma porta traseira abriu-se permitindo que entrasse.
Depois de se sentar, começou a entender a realidade que se ia materializando – Um carro topo de gama, estofos em pele e duas pessoas á sua frente bastante peculiares.
- Tem consigo tudo o que precisa? – Perguntou o homem gordo sem olhar para trás.
- Sim, claro. – Respondeu imediatamente por entre os roncos de um carro que acelerava.
Contornavam a rotunda do Marquês de Pombal quando os primeiros pingos de chuva bateram no vidro. As pessoas na rua aceleravam o passo prevendo um temporal. Faziam-lhe sempre lembrar um formigueiro de tão focado nos seus afazeres, mas ao mesmo tempo alheio do que o rodeia. “Pobres criaturas não imaginam sequer o que está para acontecer”.
Por sua vez, ele não fazia a mínima ideia do sitio para onde o levavam.
Saíram na terceira saída, em direcção ao Saldanha. Optou por apalpar terreno perguntando qual o próximo ponto de encontro. Quando não obteve resposta resolveu manter o silêncio.
O relógio apontava 11h. A paciência esgotou-se e falou novamente:
- Os senhores terão que me desculpar mas afinal para onde estamos a ir? Quando poderei falar com o Profeta?
O condutor, claramente os músculos da operação “rapto no centro de Lisboa”, olhou para ele através do retrovisor.
- Faz demasiadas perguntas Sr. Santos – disse num tom quase gutural.
A resposta foi um balde de água fria sobre qualquer expectativa positiva. Desistiu de vez e esperou pelo resultado final.
Minutos pareceram horas no intervalo de tempo que levaram até parar, no Campo Pequeno junto á Praça de Touros. “Então é isto?”.
Preparava-se para dar voz á sua curiosidade quando o homem ao lado do condutor quebrou o silêncio.
- Á sua direita tem a Biblioteca de Lisboa como já deve ter reparado. A qualquer momento o segundo elemento surgirá daquela porta e virá connosco.
- Se não é aqui que eu saio, será que me podem esclarecer onde?
Pela primeira vez o homem gordo virou-se para ele. As palavras escaparam entre murmúrios como se receasse que fugissem para longe do carro.
- Oiça com atenção Sr. Santos. Esta situação não nos agrada mais do que a si. Limite-se a cumprir aquilo que lhe foi instruído e deixe de fazer perguntas inusitadas. Quanto menos palavras trocarmos melhor. Agora esperemos pelo segundo elemento.

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