Insónia

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Phantasy
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Insónia

Postby Phantasy » 28 Feb 2013 15:54

Uma leve brisa penetrou por entre frestas de uma janela gasta pelo tempo, e esbateu-se nas costas de Alen Brachtold. Sentado num pequeno banco, contemplava a mulher de cabelos pretos encaracolados, enquanto dormia. Procurava definir a dimensão daquele momento, mas as palavras recusavam-se a ligar.
A única vela que queimava, libertava um leve aroma a frutos do bosque, e preenchia o quarto com uma névoa cor de cinza.
Desviou o olhar para o cachimbo que tinha entre as mãos e calcou com o polegar a segunda camada de tabaco, até ocupar metade do fornilho. Raspou o último fósforo da caixa e após um breve momento a observar a chama, acendeu o cachimbo. Inspirou suavemente a primeira vaga de fumo e permitiu-se descontrair quando a libertou. Fumar tornara-se um luxo naqueles tempos conturbados. Recordou-se de quando jovem fumara pela primeira vez. A tosse resultante fora alvo de troça entre amigos durante pelo menos um ano. Hoje gabava-se de acender um cachimbo sempre á primeira tentativa.
Costumava ficar acordado pela noite dentro, perdido entre memórias soltas e sentimentos postos de lado durante o dia. Naquela hora, reinava um silêncio quase perturbador. Apenas uma baforada de quando em vez, garantia um espaço entre o vazio e o quase nada.

Virou-se para a janela coberta por um lençol de cor escura, e afastou uma das pontas. Do lado de fora, a cadeia de prédios perfeitamente alinhados reflectia a lua cheia acompanhada por um exército estelar. Longe iam os tempos em que se imaginava a palmilhar cada porção de solo lunar.
Um gato virou a esquina e entrou no seu campo de visão. Subiu para um pequeno muro, e de lá pulou para a primeira janela do edifício adjacente. Billy Woodrow era o dono daquele andar. E do gato.
Preparava-se para puxar um pouco mais, quando um barulho alto e agudo violou o silêncio da noite. Quebrou toda a monotonia que momentos antes, quase julgara poder durar para sempre. Não percebeu imediatamente o que era e de onde vinha. Um vidro a partir, um copo. Um tiro, um grito.
E a noite rapidamente recuperou o que por momentos perdeu e tudo voltou a ser silêncio. Assim, rápido e fugaz.

Deixou cair o lençol e levantou-se. O soalho por baixo dele rangia a cada passada.
Sentou-se na cama e colocou o cachimbo sobre a mesa-de-cabeceira. Dentro de algumas horas os primeiros raios de sol reclamariam um novo dia e precisava de um pouco de descanso. Procurou a melhor posição para adormecer e fechou os olhos. Amanhã seria um dia longo…
- Terão descoberto os Goodwin?
A voz trémula da sua esposa fê-lo desejar que não tivesse acordado. Ainda assim, foi como uma melodia que lhe aqueceu o coração.
- Não creio que o tenham feito. Os Goodwin são espertos como os gatos e não se deixam apanhar.
- Quem disse que nunca nenhum gato foi apanhado?
- Teresa, precisamos de descanso em primeiro lugar e amanhã de manhã logo saberemos o que aconteceu – respondeu com alguma condescendência.
- Seja como for, amanha de manhã contemos com más notícias.
Alen virou-se para a mulher e esticou o braço num convite para que encostasse a cabeça sobre o peito. Quando ouviu o seu pesado respirar, soube que era o único que se mantinha acordado.
Alen Brachtold não dormiu nessa noite.

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