A boneca de porcelana

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Suzuki
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A boneca de porcelana

Postby Suzuki » 14 Apr 2013 22:10

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Estava sozinho em casa sem nada para fazer. Lá fora chovia torrencialmente e um frio de uma Primavera que teimava em não despertar.

Ligo a televisão mas a programação àquela hora era relativamente aterradora, preço certo, Novelas, comentadores a fazer comentários sobre outros comentadores nos canais de noticias, um episódio dos Simpsons que já tinha visto e no canal Historia um individuo despenteado com nome Grego a falar de aliens do passado.

Decido ver um filme, um 'fucking easy action movie' como dizia um amigo inglês para aqueles filmes de acção que nunca farão parte do top imdb 250.

Estava o John Travolta encurralado por cinco chineses quando ouvi um ruído.

Seria um ruído no filme?

Talvez, mas pelo sim e pelo não desliguei o som do filme. E então passados mais uns segundos ouvi um outro ruído.

Assustei-me. Vinha dentro de casa nao havia duvidas. Parecia algo a deslizar pelo tecto na zona dos quartos. Poderia ser da água da chuva mas quase de certeza que era algo mais sólido como se fosse um bicho.

Detesto bichos e podia ser um bicho grande, um rato ou mesmo um pior? Entrei em pânico. Detesto ratos ou bichos grandes em casa.

Ganhei um pouco de coragem e avancei no corredor até que subitamente estremeci, agora o ruído era mais nítido, parecia mesmo um coisa a mexer-se no soalho de madeira do meu quarto.

Parei, perguntei com bravura ensaiada, quem estava aí em voz alta. Mas ninguém respondeu. Ouvi agora o som de uns passos que se afastavam mas que não eram passos de uma pessoa, era algo muito mais suave.

Finalmente entrei de rompante no quarto acendendo a luz e nada. Olhei com timidez debaixo da minha cama a ver se via algum bicho, mas nada, o certo é que com a desarrumação de caixas e malas que tinha aí, dificilmente veria alguma coisa.

Mas não havia nada de estranho no quarto. Inspeccionei tudo, olhei a casa de banho, fui à varanda e estava tudo normal onde aproveitei para fumar um cigarro. Estava a anoitecer e a rua estava calma. Olhei ao lado na varanda e vi uma coisa esquisita, a boneca de porcelana estava no chão.

Era uma boneca antiga da minha mãe que não me lembro como veio parar à minha casa. Talvez ela a tivesse deixado aqui. Não sou menino para gostar de bonecas mas ela lá ficou a decorar o meu quarto, precisamente do lado oposto da varanda apesar do ar sinistro que todas as bonecas de porcelana têm, ainda por cima com um vestido vermelho da era Vitoriana. Lá meti a boneca no seu sitio a perguntar a mim como ela tinha saído de lá.

Fiz uma pequena inspecção ao quarto ao lado, e tudo normal. Havia silencio na casa. Acendi a luz da casa de banho principal e mais uma vez sossego. Devem ter sido alucinações auditivas pensei naquele momento. Aproveitei para ensopar a cara com água para lavar os pensamentos. E então quando olhei para o espelho do lavatório senti um tremor dentro de mim. Havia uma coisa estranha no espelho.

A imagem que via no espelho não era a minha. Não sei como explicar, aparentemente tinha a minha fisionomia mas senti que não era a minha face. Olhei com mais atenção e quando me aproximei dei um grito. A minha cara no espelho estava a rir inexplicavelmente. Mas eu não me ria.

Fugi outra vez para a sala mas vejo uma coisa a rastejar pelo corredor na minha direcção. Agora não era imaginação havia uma coisa rastejante que não consegui distinguir o que era no meio do corredor escuro.

Peguei num guarda chuva com uma grande ponta metálica e esperei que aquela coisa chegasse perto de mim. Aproximou-se lentamente até que ao ver os seus membros com que se movia e vi uma coisa terrível.

Tinha um vestido vermelho. Era a boneca de porcelana que tinha ganho vida por uma razão inexplicável. Talvez tenha estado sempre viva. Nao sei.... Nao era hora de pensar nos porquês era hora de acabar com tal coisa sinistra. Senti que a minha sobrevivência estava em perigo.

Ataquei-a com toda a força que podia com o guarda chuva mas ela num movimento ágil saltou para a ponta do guarda chuva e me mordeu a mão. Atirei o guarda chuva para trás com a boneca agarrada.

Ela ficou de costas para mim no chão mas fez uma coisa terrível. Sem mover o corpo conseguiu girar a sua cabeça de porcelana em 180 graus na minha direcção como naquela cena do filme exorcista. Ao redor da sua boca havia sangue.

Senti dor na minha mão, olhei com o horror de a ver jorrar de sangue a rodos.

Comecei a sentir-me sem forças, recuei enquanto ela parada olhava para mim com os olhos negros. Senti ódio neles.

E então ela mais uma vez num movimento mais uma vez expedito e súbito. Saltou para mim como um felino voador maldito. Ficou com a sua face quase colada na minha. Ela abriu a boca mostrando uns grandes dentes caninos como um vampiro.

E ela disse com um tom sobrenatural e meio cadavérico.
' Ouve, Sou muito Comunista....'

Então aconteceu o inesperado.

O meu despertador tocou.

Estava uma manhã linda de sol.

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