O Fantasma de Joao Cesar Monteiro

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Suzuki
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O Fantasma de Joao Cesar Monteiro

Postby Suzuki » 09 Jul 2013 01:07

Um pequeno texto para nao levar muito a sério. Uma brincadeira que fiz depois de ver o filme Vai e Vem de Joao Cesar Monteiro. Uma especie de muito pequena homenagem que fiz para esse grande realizador Portugues que já nao está no mundo dos vivos.


Image


Passava o tempo a escrever scripts para filmes imaginários.

Naquela noite tinha um problema. Não me sentia inspirado.
Não sabia o que havia de escrever.
Para combater a falta de inspiração tinha concebido duas técnicas:

1. Um pacote de cigarros Pall Mall
2. Uma garrafa de Martini Bianco

Ainda tinha outra possibilidade: Rezar ao santo padroeiro.

Na estante da sala ao lado das garrafas de bebidas alcoólicas existia realmente um santo. Era uma pequena imagem de um homem calvo de barbas extremamente magro, uma figura curvada e vestida com o tradicional hábito preto dos monges franciscanos.

Mandei fazer a imagem num escultor que tinha um atelier junto à praça de St. Catherine em Bruxelas. Representa o falecido cineasta Português Joao Cesar Monteiro.

Sim, João César Monteiro, ou melhor a sua mais conhecida personagem que interpretou nos seus filmes, o João de Deus.

Obviamente que o mandei fazer com uma certa ironia e gozo mas nao deixava de ser o santo padroeiro da minha casa. São João de Deus. Sabia que João César Monteiro era ateu, mas eu também era, e acho que ainda sou. Sabia que ele tinha um grande sentido de humor e não levaria mal. Um modo de homenagear esse grande cineasta do meu país. Podia ser que me ajudasse um pouquinho.

Deixei o santo em paz para beber mais um Martini simples com gelo. Fumava o terceiro cigarro naquela noite.

A ideia para aquele script era estupida.Mas nao era importante porque ninguém vai ler um script imaginario. A historia era narrada por um gato siamês sobre um caçador de tesouros ou 'Bounty Hunter' chamado Hugo que procurava bandidos em diversas cenas de filmes famosos para conseguir recompensas. Cada capitulo corresponderia a uma aventura num filme concreto. Por exemplo num deles, o heroi tinha de caçar o Agente Smith do Matrix antes do Neo, depois noutro o Hannibal Lecter. Nao poderiam faltar em capitulos futuros o Darth Vader e talvez o Homem Marshmalow, sim aquele boneco gigante do Ghostbusters. Entre cada historia havia uma cena em que o heroi entregava cada criminoso a uma éspecie de governo cosmico onde recebia o dinheiro prometido como nas historias de faraoeste em que o vilao era anunciado com um cartaz 'Wanted live or not' e o valor da recompensa.

Gosto de cinema. Talvez o objectivo de escrever coisas destas era registrar os filmes que via, refazendo as historias à minha maneira. Mas ao mesmo tempo sentia que era uma falta de respeito com o argumento dos filmes. Porque é que Hugo lutava contra o agente Smith em Matrix quando estavam já em acçao Neo e Morpheu? E depois que sentido teria uma sucessao de historias sem ligaçao entre sí até ao fim do script? Como seria o final? Haveria final ou prepararia um outro script com a parte 2 do filme imaginario. Sao estas questoes que precisava responder.



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Precisava de ar. Abri as portas da varanda do meu quarto para fumar os meus ultimos cigarros e acabar a garrafa de Martini ao mesmo tempo que apreciava a neve que começava a cair. Fazia tarde mas nao estava com sono ou com criatividade. Paradoxalmente sentia-me naquele instante mais quente. O alcool aquece. Estava a ser um inverno especialmente frio. Vivia naquela cidade à três anos e nunca tinha nevado até este ano. O quarto estava virado para um pátio interior que servia de estacionamento privativo do bloco de apartamentos que habitava. Havia silêncio naquele local que só nao era absoluto porque havia aquele som quase imperceptivel dos flocos de neve ao cair. Estava hipnotizado com aquela paisagem junto com o efeito do alcool e tábaco quando subitamente oiço um ruído de uma porta bater próximo de mim. Devía ser a vizinha do lado a entrar no sua casa. Apesar de ter a idea que ela só chegaria de Paris no domingo. Deve ter chegado mais cedo. Nao tinha importancia.

Ia fumar o ultimo cigarro e o alcool já tinha acabado, pelo menos a garrafa que tinha ao meu lado quando oiço um outro ruído mais forte e mais próximo de mim. Estremeci. Parecia vindo da minha casa. Volto-me e vejo ao fundo que sala onde escrevia antes tinha a luz acesa. Tinha quase a certeza que a tinha apagado ao vir para o quarto. Fiquei em silêncio à espera que escutasse mais coisas. E entao dei um salto de susto. Havia passos na sala. Impossível, vivia sozinho não podia ser mais ninguém. Estaria assim tão bebado? Mas os sonhos de passos continuavam e parecia que agora mexiam nas gavetas da sala. Tinha de ser alguém. Um assaltante?

Aproximo-me da sala com cuidado para nao fazer o mínimo ruído possível. Na mao tinha a garrafa de Martini vazia a fazer de arma. Avanço lentamente bêbado e com o coraçao a bater forte. Se fosse um assaltante profissional nao teria hipoteses. Finalmente espreito pela porta entreaberta da sala

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Um homem estava sentado à mesa debruçado sobre o meu portatil a beber whisky. Era um homem de idade calvo, com aspecto franzino e doente. Nao parecia ser perigoso. Talvez tivesse deixado a porta aberto e um sem abrigo entrou para escapar do frio da noite.

Ganhei coragem. Entrei na sala com o ar ameaçador da garrafa de vidro levantada na sua direcçao.

"Quem és tu? Que estás aqui a fazer? Fora!"

"Nao me faças mal e mesmo que me queiras fazer mal nao poderias fazer" disse o homem ao levantar a cara para mim

Senti algo estranho nele, aquela face nao era desconhecida. Esforçava-me para pensar de onde o conheceria.

"Posso-te pedir um cigarrinho?" disse o homem

Fiquei sem reacçao com a calma do homem. Dei-lhe o ultimo que tinha sem saber porquê.

"O que é que estás a ver no computador? Sao cosas pessoais, nao gosto de estranhos a ler as minhas coisas."

"Estou a ver se te ajudo a acabar o script"

"Mas quem és tu?" voltei a perguntar

E ele responde-me:
"Sou o João de Deus"

Deixei cair a garrafa no chao que se desfez naturalmente com estrondo. Tinha-o reconhecido. Aquela figura desmazelada, magra, o rostro mal barbeado, aquela mesma voz que conhecia dos seus filmes. Joao Cesar Monteiro bebia whisky na minha casa. Mas nao podia ser verdade, ele morreu em 2003. Estava a ter alucinaçoes. O Martini Bianco devia estar estragado, alguém tinha posto alucinogenicos no processo de distilaçao da bebida.

Aproximei-me dele, estava de fato escuro e gravata como os mortos costumam ser enterrados. A sua pele era muito branca. Toquei nela e estava tao fria que senti um enorme arrepio congelado. Belisquei-me para confirmar a alucinaçao e senti dor. Será possivel?

"É melhor limpar os cacos senao alguém se aleija" disse ele

"Mas como vieste aqui parar, és um alucinaçao ou vieste do reino dos mortos?" Perguntei literalmente assombrado

O homem respondeu solenemente:

"As personagens nunca morrem. Vivem na mente daqueles que têm memória."

Tentei acalmar-me e pensar.

"É a primeira vez que falo com uma alucinaçao. Tenho de começar a beber menos e vejo que também gostas de beber, essa garrafa de whisky estava quase cheia uns minutos atrás e agora suspeito que nao chegue para amanha. Espero que essa garrafa esvaziada também nao passe de uma alucinaçao."

"Nao sou uma alucinaçao. Já te disse e nao gosto de repetir as mesmas coisas. Sou uma personagem."

"Mas tu morreste à 10 anos" respondi em voz baixa para que os vizinhos de cima nao pensassem que estivesse maluco a falar sozinho

"Nao morri nada. Já me apresentei sou o Joao de Deus. Nao sou o Joao Cesar. És um chato."

Interrompeu o discurso para sorver apressadamente um gole de whisky e disse

"A Cesar o que é de Cesar, a Deus o que é de Deus, assim dizia Sao Mateus."

Começei a achar graça a ele quem quer que fosse. Podia ser um homem,fantasma,alucinaçao ou personagem. Nao estava com cabeça para pensar.

"A tua garrafa já acabou, a minha também, mas tenho aqui uma Old Parr 15 anos que podemos abrir e beber juntos"

"Será um prazer" disse ele

"Por falar em morte, como é isso de viver no reino dos mortos?" disse eu

Ele olhou para mim com aquele ar solene que normalmente tem nos filmes e disse

"Nao é grande coisa o reino dos mortos. Cheira muito a mofo."

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