O Velório

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O Velório

Postby medicated » 12 Mar 2014 13:20

Ontem morreu um gajo nosso amigo, não estamos consternados pelo contrário, o gajo ficou a dever dinheiro ao Heitor, e é a divida e não a morte de um amigo que deixa o Heitor acabrunhado, está sentado num sofá esfarrapado com molas a sair por todo o lado e continua a repetir que alguém lhe devia liquidar a divida do falecido. Eu de certa forma também me estou a lixar para a morte do Óscar, há uns anos depois de me ter metido nos copos, o gajo levou-me para dormir na sua casa e acordei com o gajo a baixar-me as calças e a massajar-me o sexo, espetei-lhe um murro no rosto e sai trôpego com um tesão trémulo entre as pernas, porra, aquele sacana tinha as mãos macias, filho da mãe. Eu e o Heitor aparecemos porque pensámos que haveria aperitivos e álcool no velório, mas afinal tudo se resumiu a uns míseros pasteis de bacalhau sensaborões e a umas cervejas que tragámos com entusiasmo. Deixámo-nos estar sentados naquele sofá desconfortável fumando cigarros em série e elogiando o morto, era um gajo do caraças, amigo do seu amigo, gentil, generoso, eu esmerei-me e cheguei a afirmar que o Óscar era provavelmente o melhor gajo do nosso grupo de amigos, emborquei mais uma garrafa de cerveja e pensei que se este cabrão devia ter deixado pelo menos umas garrafas de vinho tinto na garrafeira. O Heitor resmunga sobre a divida não paga, eu viro-lhe as costas e vou á procura de uma gaja atraente, porra, onde estão as gajas, tenho que mijar, entro na casa de banho e dou-me conta que estou bêbado e trémulo, aponto para algo que me parece um urinol e relaxo, o chão brilha, talvez esteja molhado, penso na morte, na não-existência, penso na imortalidade da alma. Acho que o cabrão do Óscar deve estar no Inferno a abrir dissimuladamente as braguilhas dos sequazes de Lúcifer, saio porta fora e aceno ao Heitor que me vou pirar, olho de soslaio para o caixão, acho que o Óscar tem bolas de algodão dentro da boca, enverga um fato sóbrio, o gajo era espalhafatoso e a morte emprestou-lhe respeitabilidade, um gajo novo chora copiosamente ao lado do corpo, entrelaça os seus dedos entre os dedos frios do cadáver e promete que nunca o esquecerá, eu dou uma gargalhada desajeitada e não consigo parar de rir, todos me olham com espanto e censura, um gajo a rir-se no velório de um amigo é algo indigno. Recomponho-me e pergunto se sobrou algum pastel, ninguém me responde, todos me viram as costas, menos o puto choroso que me fulmina com um olhar odioso e o Heitor que quase deitado no sofá me estende o dedo do meio e me pisca o olho, fico a pensar que mesmo sendo um idiota prefiro estar vivo, saio porta fora e alegro-me por estar entre os vivos, deixo a morte para trás e caminho com o queixo levantado, coloco os óculos e digo ao sol que quero passar mais uns dias nesta terra, ondulo pelo passeio e volto para o regaço de Lisboa, aqui vou eu minha querida, minha amada, minha maldição…

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Sharky
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Re: O Velório

Postby Sharky » 12 Mar 2014 16:37

Muito bom B)

medicated
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Re: O Velório

Postby medicated » 12 Mar 2014 18:13

Thanks.

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zé.chove
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Re: O Velório

Postby zé.chove » 17 Mar 2014 14:37

sublime. a referência aos pastéis de bacalhau foi uma baixaria...


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