Sam

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medicated
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Sam

Postby medicated » 19 Mar 2014 22:51

Lisboa transpira entre os meus olhos, de onde me encontro observo condescendentemente as cicatrizes desta cidade desfigurada, deixo-me estar sentado num banco de jardim, ao meu lado está o Sam. O Sam está literalmente fodido, a sua mulher deixou-o e levou o seu filho para Madrid, o Sam e a sua mulher são pintores com algum estatuto, eu sempre que os visitava ficava fascinado com a energia criativa que percorria a sua casa, o Sam pintava na sala e a Isabel pintava no seu atelier situado no jardim, eu entretinha o puto correndo com ele pelo pequeno jardim rodeado de paredes cobertas por trepadeiras, Sam pincelava a tela como se estivesse a esfaquear alguém, os seus gestos eram nervosos e inquietos, a Isabel pintava com delicadeza e respeito pela brancura que antecedia o seu primeiro toque na tela nua. Eu desejava intensamente aquela morena, existia entre nós um entendimento silencioso e cúmplice, eu nunca tentei nada, não por respeito pelo Sam, porque nesse aspecto sou um cabrão, mas porque sempre preferi observá-la num fascínio mudo e surdo, se a tivesse tentado comer penso que todo esse encantamento se quebraria com um estalido de dedos.
Voltamos para casa do Sam e fico surpreso com o estado da mesma, com ele vive um jovem estudante de medicina, a casa está virado do avesso, restos de comida empilhados na cozinha, gavetas partidas, um odor nauseabundo adensa o meu espanto, porra Sam esta casa está uma merda, pergunto ao Sam se anda a comer aquele gajo, ele olha-me com aqueles olhos faiscantes e encolhe os ombros, o puto continua deitado e olha-me com rancor, eu puxo de um cigarro e pergunto-lhe se o gajo não pode ir lavar a louça suja ou arrumar a puta da casa, o Sam ri-se e o puto olha-me de relance e volta a fuzilar-me com ódio. O tecto de um dos quartos cedeu devido ás infiltrações, o jardim parece uma selva, nem com uma catana um gajo consegue descobrir o atelier no fundo do jardim, quando o alcançamos o refugio da Isabel dou de caras com uma ruína esquecida pelo tempo, Sam mais uns meses e esta casa torna-se inabitável, porra, vão ter que entaipar estas janelas ou fechar as portas com tijolos, o tecto está quase a cair-te sobre a cabeça. O Sam diz-me que está a tentar vender a casa e eu digo-lhe que duvido que alguém compre esta merda no estado lastimável em que se encontra, mas o Sam é um gajo optimista e sentencia a conversa com um “vais ver que se vende”. No quarto do gajo deparo-me com dois quadros dele, um colocado ao lado do outro, eu sou louco pela arte do gajo, não me importava de perder uns dedos em troca de um destes quadros, pertencem ambos à mesma colecção, o gajo utiliza uma panóplia de materiais nas suas obras, alcatrão, cera de abelha, resinas, goma laca, e pó de pedra entre outros, o resultado final é grotesco, num dos quadros observo as entranhas humanas efervescendo em acido, no outro observamos o interior de um corpo humano, a circulação sanguínea azulada, os nervos, músculos, glândulas e fibras musculares, comparo-o ao homem Vitruviano do Leonardo da Vinci, mas aqui o objectivo é relevar os pormenores do interior de um homem, o Sam parece estar contente consigo próprio, eu digo-lhe que os quadros estão sublimes e ele mostra-se como sempre indiferente, o gajo sabe que tem talento e por isso encara qualquer elogio com perfeita naturalidade, porra Sam podias-me dar um destes, e o gajo diz-me para escolher um e desaparecer com ele, eu fico incrédulo mas nem hesito, pego no mais próximo e passo os próximos quinze minutos a tentar tirá-lo pela escadaria íngreme, na rua contemplo o quadro afastando-o um pouco de mim, considero que tenho na minha posse uma das melhores obras do Sam e rejubilo extasiado, ergo o olhar para a janela e penso nas infiltrações do Sam, penso que o gajo devia secar a sua alma no muro do seu jardim selvagem, acho que devia abrir as janelas da sua casa insalubre e deixar o sol secar as manchas do tecto com se fossem peixes salgados, deixo um Sam atolado nos seus próprios excrementos e carrego entre os meus braços o seu desespero expresso em continuas camadas de tinta, paro no miradouro do Torel, peço um cigarro emprestado e deposito o quadro nas costas do banco, fecho os olhos e apresento a Lisboa uma verdadeira obra prima, deixo os meus dedos passarem pelos seus relevos, em alguns pontos parece empastelada de tinta, noutros a textura é pouco densa e parece desbotada, mas uma coisa é certa, existe muito sangue do Sam nesta peça, agarro nela como se fosse o braço de uma gaja e desço com ela pelas artérias de Lisboa, vou encostar o quadro de Sam numa das nossas paredes esventradas e olha-lo intensamente durante alguns minutos, porra, talvez consiga penetrar a mente complexa do gajo que o pintou, por agora tenho-o o nos braços e não consigo deixar de pensar que carrego um bocado de carne pútrida de um gajo que corre para a morte.

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Sharky
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Re: Sam

Postby Sharky » 20 Mar 2014 11:14

Gosto disto B)

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zé.chove
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Re: Sam

Postby zé.chove » 31 Mar 2014 17:35

Cool. As desgraças dos outros são sempre boas de ler.


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