A UNHA DO DEDO GRANDE DO PÉ DO ADMASTOR

O espaço para a colocação de textos da autoria dos membros do BBdE.
medicated
Brochura
Posts: 27
Joined: 20 Nov 2010 18:23
Contact:

A UNHA DO DEDO GRANDE DO PÉ DO ADMASTOR

Postby medicated » 02 May 2014 12:36

Penso naquilo que nos aproxima, essa enigmática força centrifuga que nos arrasta sem pesar, confesso que não resisto, olho o céu enquanto sou arrastado para um redemoinho que gorgoleja como um velho desdentado. Imagino que estamos sentados numa esplanada localizada numa encosta, estamos entre os pés do Adamastor a vista é silenciadora, o Tejo prateado está deitado aos nossos pés, silencioso na sua marcha em direcção ao Oceano, observamos o casario e os telhados infindáveis, estou inebriado e quando fecho os olhos consigo imaginar uma Lisboa medieval, imagino que estamos num beco conversando sobre o nosso Destino, escutando o abrupto silêncio que se abateu sobre nós, como um relâmpago fulminante. Tu és Judia e eu Gentio e sentimos os dois corpos cingidos, escuto os gritos de dor que ecoam pela velha Lisboa, os passos dos algozes perseguindo inocentes, culpando-os da Peste, da fome que se abateu sobre a Cidade de Ulisses. Sinto o meu peito despedaçado, as velas estão desfraldadas e enlutadas, os teus olhos cor de azeviche transpiram lágrimas, quando acordo estamos sentados na unha do dedo grande do pé do Adamastor. Lisboa regurgita cadáveres, relíquias, porcelana e vestígios de civilizações passadas, o Tejo leva corpos a passear, uma corda de guitarra partida, beatas de cigarros espezinhadas, um xaile abandonado na soleira de uma porta, uma voz feminina que canta sobre Dor e Amor. O fado ecoa pelas ruelas labirínticas, os pombos voam atordoados, das igrejas saem os crentes admirados com tanta confusão, estamos num miradouro e o Adamastor ressona e esfrega os olhos, quando despertar a cidade tremerá sacudida por um terramoto apocalíptico e eu sentirei pena da Mouraria, de Alfama, de São Vicente, do Bairro Alto e da encosta onde estamos a beber umas imperiais fresquinhas, entrelaçamos os dedos e proferimos estas palavras: Em Lisboa carregamos a dor nas costas e bebemos a alegria num único gole….
Estou a lixar-me para a cerveja derramada no meu colo, os corvos são farrapos de Luto que cruzam os céus a velocidade de cruzeiro, nas escadinhas íngremes deslizam rapazinhos pelos corrimões de ferro gasto, putos que andam pendurados nos eléctricos como se fossem póneis amestrados, gosto das pessoas dos Bairros, as suas vozes cavernosas ecoam pelas ruas esguias e sinuosas, aquele dialecto bairrista e castiço, são afectuosos e extrovertidos. Ainda estou sentado na esplanada do Adamastor, cheiro a cerveja, olho para ti semicerrando os olhos, estou encadeado pela insondável Luz de Lisboa. O teu gesto é inconsequente e penso para mim próprio que estes jogos psicológicos me entediam, volto a erguer o copo e a o meu olhar está ancorado no rio, a minha mão está pousada sobre a minha perna direita, quase adormeço embalado pelos suaves trejeitos da minha cidade natal, sinto-me acossado pelo teu olhar, sinto a cerveja a picar-me a língua e toco a tua mão, é só disso que preciso, o calor do teu toque, o teu silêncio a acariciar-me o queixo. É tudo tão simples, nós os dois protegidos pelos braços musculados do Adamastor, Lisboa é a nossa testemunha e o Bairro Alto o nosso arqui-inimigo, os teus cabelos são libertados pela brisa vespertina e pressinto que Lisboa nos contempla com o seu hálito quente e adocicado…

Return to “Escritos & Outros”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 86 guests

cron