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Brochura
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Postby medicated » 25 May 2014 22:13

O A. era um indivíduo delicado, os seus olhos negros como carvão enterrado na terra reflectiam a sua doçura inata. Os seus lábios eram esguios e o seu nariz combinava de forma sublime com as orelhas pequenas. O A. foi um prematuro, nasceu com 7 meses, penso que devem ter sido os sons exteriores ao útero da sua mãe e que ecoavam maravilhosamente nos seus ouvidinhos minúsculos os responsáveis pela antecipação do parto. Apesar de protegido dentro de um habitat que lhe dava tudo o que um feto precisa o A. desesperava por ouvir aqueles sons enigmáticos e longínquos que ele captava vindos de um mundo ainda incompreensível.
O A. é um exímio pianista, para além disso é um compositor a quem auguram um futuro promissor. Observava rendido a dança exótica dos seus dedos, era como se ele caminhasse sobre as águas de um rio plácido. Os seus dedos era compridos e finos, era muito cuidadoso com eles, exercitava-os diariamente esticando-os, juntando as mãos e flectindo os dedos lentamente.
Entre nós o A. era considerado efeminado, na verdade era gay. A sua voz não o atraiçoava, apesar de quase sussurrar as palavras, a sua voz era perceptível e masculina.
Olhava o interlocutor de forma directa, quase nunca pestanejando. Eu adorava conversar com ele, de certa forma éramos parecidos. Ambos contornávamos o colectivo, ele gostava de sobretudo individualizar as suas conversas, em grupo ficava silenciado, era introvertido e o ruído que fervilhava numa sala afectava-lhe os nervos provocando dores de cabeça atrozes. A. foi concebido para o silêncio, mesmo quando ouvia musica colocava o som no mínimo possível, a musica era pouco audível para um ser humano normal, mas para o A. era suficiente, fechava os olhos e deixava-se estar quieto analisando cada nota, cada som, cada pormenor de uma sinfonia. A. era um amigo dedicado, muitas vezes me emprestou dinheiro quando eu estava numa situação difícil. Sem a sua ajuda monetária ter-me ia sentido muitas vezes irremediavelmente perdido. Confesso que poucas vezes retribui a sua generosidade, porque nunca tinha dinheiro para o compensar dos seus investimentos na minha pessoa. Mas mesmo devendo-lhe dinheiro nunca o A. me olhou de forma reprovadora, pelo contrário compadecia-se com os meus fracassos, exultava com os meus minúsculos sucessos, incentiva-me a nunca desistir mesmo se um critico literário me designasse como um “vómito literário”.
O A. e eu ambos gostávamos de Jazz, semanalmente íamos ao Hot Club escutar alguns dos seus amigos músicos, o próprio A. protagonizava no diminuto palco momentos inesquecíveis, ele e o piano pareciam unificar-se numa corrente inquebrável, ao piano o A. esquecia tudo, deixava-se dominar num transe criativo que nos deixava perplexos, os dedos vagueavam pelas teclas como assombrações, mas em segundos corriam a uma velocidade vertiginosa. E o transpirado A. de olhos fixos na audiência, parecia um possesso, o seu rosto delicado era assaltado por uma angústia devoradora, os trejeitos que sulcavam o seu rosto indicavam que o A. padecia de uma urgência em dominar o instrumento de teclas, quando a musica findava uma estranha complacência dominava o público, depois as palmas apareciam fervorosas e o tímido A. agradecia gentilmente e colocava distraidamente as mãos nos ouvidos, como se as palmas fossem tiros……
Em A. não existia virilidade, ele observava as exibições de domínio com uma profunda indiferença, mesmo quando era caluniado não se exaltava. Nunca o vi transtornado com algo que lhe dissessem, só a musica o deixava irrequieto, enquanto não dominasse uma peça musical ficava acabrunhado, praticava obstinadamente até que alcançasse uma perfeição que lhe agradasse.
Na presença do A. eu poderia abdicar de qualquer artifício, não necessitava de representar nenhum papel previamente escrito e encenado. Sentia-me livre de constrangimentos, mesmo quando lhe disse que desejava morrer, este olhou-me impassível e disse que nenhum desejo se concretiza por acção do pensamento, eu senti-me um idiota perfeito e limitei-me a dar umas gargalhadas sonoras. O A. também tinha pensado nessa solução final, no entanto tinha que sobreviver. A música era o seu destino e nunca vi ninguém tão apaixonado e dedicado como ele. Despertava de madrugada e em jejum iniciava o seu trabalho. Compondo ou tocando piano as horas passavam rapidamente, esquecia-se de comer, de liquidar as contas da casa, de ver o correio, de alimentar o gato.
Só a musica fazia sentido na sua existência. O A. era um recolector de sons urbanos, que depois incluía nas suas partituras. Na sua música poderíamos observar uma chaminé a expulsar fumo das suas entranhas, poderíamos observar o recalcitrante e frívolo mundo contemporâneo em acção, poderíamos escutar o canto melodioso dos melros, poderíamos observar o passeio escarrado, poderíamos pisar caca de cão, poderíamos andar pela chuva desprotegidos, poderíamos fazer amor num telhado ainda quente por acção do sol que se encolhia para a noite passar, até poderíamos observar o rubor de uma criança e o suspiro ansioso de dois amantes….
Estas palavras são uma homenagem ao meu querido amigo A., arrependo-me da minha reacção quando este me informou radiante que ia para Viena continuar os seus estudos. Fiquei petrificado e não consegui esconder o quão abatido estava, ainda hoje não consigo entender se fiquei ressentido por me sentir abandonado ou se fiquei invejoso do seu sucesso. Mas uma coisa tenho a certeza o A. foi um grande amigo e eu comportei-me egoistamente, arrependo-me da minha reacção, mas nada posso fazer para mudar o que aconteceu. Não me despedi dele na partida para Viena, limitei a fingir-me indiferente, como se a sua ausência foi algo facilmente suportável.
Nunca mais vi o A., pelo que sei ainda está na Áustria, sei que alcançou o sucesso merecido, eu continuo a ser um auto-didacta diletante, o escritor indeciso, o filho da puta insensível, o mesmo zero à esquerda e o mesmo teso de sempre. Mas ainda hoje consigo reconstituir o A. ao piano, tocando freneticamente, como se tivesse um prego a furar-lhe a carne, como se tivesse uma brasa incandescente apertada numa mão, como se tivesse uma corda ao pescoço, são estes os artistas que me fascinam, aqueles para os quais a Arte é um martírio, mas que são capazes de criar algo grandioso, capaz de rivalizar com os mistérios da natureza.

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