O Festim (VII)

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O Festim (VII)

Postby medicated » 07 Jul 2014 21:47

Pressiono o autoclismo e deixo-me estar com as calças pelos tornozelos, sinto que estou na merda, estou com um péssimo aspecto, o rosto encovado, os olhos chamuscados, a pele áspera e seca, a barba desalinhada, acho que estou a precisar de um duche, mas estou a lixar-me para a minha higiene pessoal, limpo o cú com o mínimo de papel possível, porra, nem dinheiro temos para limpar o cú, logo eu que adoro desperdiçar rolos de papel higiénico, puxo de um cigarro para disfarçar o odor nauseabundo que empesta o pouco ar que circula dentro deste espaço hermético. Hoje vamos todos sair e eu não sinto o mínimo entusiasmo, nem a perspectiva de comer uma gaja inocente me espevita, sinto-me como um cagalhão a oscilar na retrete antes de ser despachado para o infinito, quando era puto atirava insectos para a retrete e entretinha-me a vê-los a esbracejar no fundo da sanita, tirava as calças e cobria o tampo com camadas de papel higiénico e descansava as nádegas confortavelmente, deixava-me estar invariavelmente a ler, expelia os excrementos com visível felicidade, depois de acabar gostava de analisar a morfologia e o estado da minha própria merda, sempre receei cagar sangue, ouvia dizer que muitos gajos definharam assim, tentava fazer futurologia com as minhas fezes mas sinceramente não sabia se o estado liquido ou sólido seriam indícios positivos, pela forma repetitiva como ando a cagar (apesar de quase nada ingerir) devo estar amaldiçoado, sempre me interroguei sobre o destino de todos aqueles insectos torturados por mim, onde é que a merda de um gajo vai parar?
O Heitor está a bater à porta e vociferar que sou um cabrão mal cheiroso, mando-o à merda enquanto puxo as calças e faço pontaria à sanita com a ponta do cigarro, fecho a porta atrás de mim e vejo que o grupo está reunido, o Heitor está a pedrar-se, o Sam acaricia o quadro que me deu com um esgar de dor e o Charlie faz poses diante de um espelho estilhaçado, o Charlie é um gajo com quarenta anos obcecado por si próprio, conheci o Charlie num esplanada na Costa do Castelo, estava sentado num sofá rodeado por duas francesas anorécticas, o gajo fumava exalando nicotina e auto-confiança, enquanto acariciava o seio da gaja loura curtia com a morena enfiando-lhe a língua viscosa dentro de garganta, este Charlie é um sacana exuberante, expressava-se num francês macarrónico, exibia-se de forma extravagante e espalhafatosa, a vida corre bem ao Charlie, come gajas em série e não se deixa prender por nenhuma, eu estava sentado numa cadeira desesperando por um cigarro, por vezes observava o modus operandi do Charlie e sorria ironicamente, numa ocasião em que as gajas foram aos lavabos mijar o Charlie veio ter comigo e ofereceu-me a porra de um cigarro, eu semicerrei os olhos violado pela luz corpuscular de Lisboa, eu aceitei e o gajo perguntou-me se estaria interessado em comer uma das amigas dele, eu disse-lhe que gostava de gajas com mais carne em cima do osso, o Charlie deu uma gargalhada sonora que vibrou toda a sua exuberante cabeleira, disse-lhe que para além disso não me apetecia foder, mas se o gajo me desse uns cigarros e me pagasse uns copos até o fodia a ele, o Charlie exclamou que gostava de mim e acariciou-me o lóbulo da orelha, depois foi recolher as francesas ancoradas em cada um dos seus braços peludos, fomos para casa dele no Bairro Alto, fumamos uma erva de qualidade, bebemos Saqué, o Charlie gostava de viver com algum requinte, eu fiquei com a loura esquálida e insípida, como estava de mau humor tentei pô-lo no cu da gaja e ela pareceu ficar agradada com a minha brutalidade estudada, reguei-lhe o recto com um pouco de saqué e ela escoiceou como se tivesse um rastilho de pólvora a crepitar dentro dela, para acalmar deixei a minha língua banhar-se um pouco naquele cu cor de rubi, acariciei-lhe as nádegas magras, soergui-me e deixei o meu pau bater-lhe à porta antes de a penetrar, a gaja quase não tinha tetas, por isso puxei-lhe um pouco os cabelos enquanto o meu caralho se contorcia dentro dela aquecido pelo saqué, deixei-me estar encaixado nela enquanto a manobrava pela sala, a gaja gemia num francês histérico, voltei à carga investindo contra ela e deixando o meu pau a fazer-lhe cócegas no intestino delgado, antes de me vir tiro o pau e deixo-o esvair-se nas costas sardentas da Nathalie, deixo-a com a cabeça entre duas almofadas indianas e o cu espetado a arejar, antes de sair pego num maço de cigarros e passo pelo quarto do Charlie para me despedir, o gajo está a comer a morena à canzana e transpira abundantemente, tento abstrair-me do seu corpo entroncado, parece que o gajo não tem pescoço, ondula dentro da gaja dele como se estivesse dentro de um carro desgovernando, despeço-me e o gajo franze uma das nádegas num gesto de indiferença.
O Charlie encontra o meu reflexo no espelho e diz-me que estou com um aspecto estranho, devias cortar a barba meu, pareces um profeta charlatão, ou um daqueles gajos chatos que me querem lavar o vidro do carro com um pano imundo nos semáforos, o Heitor resmunga que pareço o raio de um sem abrigo, eu encolho os ombros peço um cigarro ao Sam que assiste a tudo com uma expressão ausente e mando foder os dois, digo aos gajos que estou a pensar ir para a Índia e dedicar-me ao faquirismo, quero caminhar sobre brasas incandescentes, quero trespassar a minha língua com estiletes aguçados, cuspir fogo e fazer malabarismos, até deixaria que me espremessem os tomates, porra, quero sentir alguma coisa e confesso que estou farto de vocês meus cabrões de merda, o Charlie ri-se em conjunto com a sua cabeleira espalhafatosa, o Heitor coça os tomates e o velho Sam fica na mesma, sinto que o gajo está a pensar na sua Isabel, aquela morena sabe enfeitiçar um gajo e sei que o Sam se sente neste momento um colosso caído por terra, infelizmente a gaja fartou-se de o aturar e pisgou-se para Madrid com o puto, todos sabemos o quão difícil é coabitar com o Sam, o gajo vive sobre um puro sangue, sempre a cair por terra, sempre a cuspir terra, sangue e dentes, mas volta sempre a tentar montar a vida, o Sam vive dependente da sua arte e sinceramente nunca o vi tão vazio como agora, a separação da Isabel esvaziou-o, agora vê-mos um Sam meio vazio, anda por ai à toa a comer putos com metade da idade dele, deu em pederasta porque acha que os gajos não o podem deixar como a Isabel, é um Jean Genet mas sem o mau génio, é um gajo que sai de casa pela metade, sem que ninguém compreenda que o gajo não está inteiro, parte dele está em lugar incerto, talvez em Madrid com a Isabel e o filho de ambos, talvez a sua alma jaza no fundo do Tejo dentro de um carro enferrujado, porra, o Mundo está louco e nós os quatro estamos neste apartamento que tresanda a merda, naftalina, tabaco, sémen e erva. Saímos para a rua com estrondo, todos fumando e caminhando como se fossemos reis de Alfama, entramos num bar e separamo-nos, o Sam instala-se no balcão e pede bebidas a um ritmo alucinante, o Heitor e o Charlie aproximam-se de duas miúdas sósias da Paris Hilton e eu deixo-me estar sentado numa mesa discreta, observo a fauna com indiferença e encontro miúdas com sexo tatuado na testa, quarentonas ninfomaníacas e trastes com vaginas gretadas e cosidas, eu desconsolado bebo um ultimo copo antes me retirar para a escuridão, caminho sem olhar para trás, passo por pedintes, travestis, putas, homens do lixo e outros habitantes da noite que se escondem enterrando o chapéu na cabeça, estou com fome e o meu estômago reclama por comida, saco de um cigarro e dou-lhe com fumo, hoje o Heitor disse-me com um sorriso irónico que a Joana anda com o Tavares e deve ser por isso que me sinto tão lixado, perdi a minha oportunidade, deveria ter feito alguma coisa, mas só consigo pensar em comida, droga e cigarros e livros, estou farto de gajas e sei o que filho da mãe do Heitor se sentiu bem ao me revelar uma merda destas, ainda não sei porque vivo com um cabrão destes, volto para casa enfio uma folha de papel e escrevo numa vertigem um escrito dadaista, retiro a folha e colo-a sobre a minha cama, escrevi sobre um tipo que se suicida com um cocktail de barbitúricos, fico a pensar que é um suicídio de gaja ou de paneleiro, mas que se lixe, fico deitado na cama a ler de longe o meu texto e penso que as minhas palavras se vão auto-destruir dentro de segundos, depois adormeço.

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