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A CASA

Posted: 03 Dec 2015 18:31
by medicated
Estou deitado de costas no tapete de entrada, estou enregelado, mas nada sinto, tenho um charro incandescente a queimar-me os dedos e os olhos fixos no céu estrelado, a luz é ténue e este céu refulge num brilho imenso, pisco os olhos e contemplo este céu que me protege. Uma estrela cadente rasga o céu e eu recuso-me a pedir um desejo, mas sinto-me estonteado, sorrio com beatitude e soluço sem derramar lágrimas. Escuto o latir dos cães assombrando a noite e o canto rabugento de um pássaro no bosque, bosque que ontem explorei com as mãos nos bolsos e um cigarro deplorável entre os lábios, percorri-o sempre desejando ser devorado por um animal selvagem, infelizmente não me deparei com nenhum, ainda estava ressacado e pensei ver uma fada com tranças de musgo a ondular numa arvore próxima e um cão com um polegar entre os dentes, embrenhei-me e tentei separar uma pinha do tronco de um pinheiro caído por terra, não consegui, puxei um cigarro e embrulhei a beata do anterior numa folha húmida e guardei-a no bolso das calças, sentei-me no tronco caído e fechei os olhos e deixei a minha mente saltar de ramo em ramo até cair desamparada num qualquer declive, vou cobri-la de folhas mortas e deixá-la a decompor lentamente até ser parte do húmus desta terra.
Cheguei há poucos dias, esta seria até pouco tempo a casa dos meus sonhos, agora tenho as mãos caídas pela cintura e olho perdido para o nada, indiferente e seco como um animal sem essência, só permanece o a carapaça, tudo o resto se dissolveu como pó. Gosto da natureza e encanto-me sempre quando vejo um coelho a saltitar à minha frente, zonzo e nervoso pela proximidade de um ser humano, o meu olhar perde-se pelos montes e vales verdejantes, pelas encostas repletas de vinhas e pelo casario indefinido, lá longe num outro vale distante. Entre as arvores do meu jardim gosto de observar uma serra cor de carvão, escura e possante, dominando o horizonte, dou comigo a pensar que quero meter-me no carro e ir até aquele monólito, símbolo de tudo o que é inóspito, severo e integro, aquela Serra está de luto, como eu, grinaldas negras são desenrolados pelo seu dorso e consigo observar de onde me encontro as cicatrizes desde gigante de pedra.


Gosto das estradas esguias e sinuosas, caminho muito a pé e esqueço-me de comer, deambulo pelos campos quando não chove, quando chove fico em casa a amaldiçoar a chuva franzindo o sobrolho e fumando cigarros em série até caírem para fora do cinzeiro. Não tenho escrito, mesmo existindo pureza no meu olhar, existem sempre algo que o envenena, a minha alma é a estricnina da minha criatividade, recuso-me a escrever e não abdico disso, caminhar esvazia a minha mente. Afeiçoei-me a esta casa, não é um sentimento cordial é uma espécie de aceitação da sua presença, pensei em tirar a tela que cobre a piscina e tomar um banho na agua gélida, mas fiquei pensar que não merecia o incómodo de a retirar, para passar o tempo leio uns livros que encontro perdidos pela casa em cestos de verga, na ultima noite li O Grande Gatsby e achei uma merda, li Milan Kundera e achei uma merda e penso que ainda folheei um outro livro e desisti de ler, agora ando a pintar as pérgulas e as paliçadas, pinto até me doer a mão, depois sento-me a contemplar a minha obra e dou comigo a pensar que não está nada mal. Ontem encontrei uma foto delas e cai trémulo de joelhos no chão de madeira, chorei copiosamente agarrado à moldura e em segundos que se arrastaram por horas deixei-me ficar petrificado no chão, até que ficou noite e deixei de as ver na penumbra, levantei-me e endireitei os cadeirões, sentei-me num deles e meti os dedos entre os contornos de um coração esculpido na madeira e desejei que o meu coração fosse tão vazio como aquele.


Ás vezes vou as compras, vou a pé e ando quase 2 quilómetros, nunca tenho pressa, quando entro na loja olham para mim como se fosse um alienígena, dou sempre os bons dias, sei que os locais são muito susceptíveis quando não sou cumprimentados condignamente. A dona da Loja é vistosa, o decote revela um par de seios redondos e fartos, não consigo deixar de os admirar, algo que parece deixá-la agradada. Acho que a gaja é casada, é mais velha do que eu e perdeu um pouco o brilho, mas quando me perguntou se podia passar pela minha casa um dia destes, eu encolhi os ombros com indiferença e ela pareceu aceitar o gesto como um sim. Uns dias depois ouvi alguém a buzinar ao portão, deixei-me estar deitado com um livro aberto deitado sobre a cama e um maço de cigarros vazio e amarrotado sobre a mesinha de cabeceira, mas as buzinadelas incessantes não pararam e contrariado desci as escadas e encontrei a dona da loja sorridente dentro de um todo o terreno, olhei sobre o portão com uma expressão de incredulidade, ela perguntou-me jovialmente se podia entrar, e eu preguei o olhar no decote enquanto abria inconscientemente o portão.


Há muito tempo que não estava com uma mulher, esta era voluptuosa, sentia os seus seios comprimidos no meu peito, senti o seu sexo a arfar e a assobiar de desejo, serpenteei um pouco dentro dela, enquanto lhe agarrava as nádegas roliças, devo ter parecido desajeitado dentro dela, mas estava a lixar-me, espremi-lhe os grossos seios, humedeci os dedos dentro do seu sexo e entrei dentro dela chocalhando um pouco, foi rápido, ela pareceu gostar, deixou-me com um beijo carinhoso, o que me desagradou profundamente, vestiu-se em silêncio, observei o seu físico e achei-a que tinha uma beleza decrépita e um corpo lascivo, deixei-me estar enquanto ela se despedia colocando o meu sexo na boca dela. Aparece as vezes, algumas dessas vezes não desço, coloco a cabeça debaixo dos lençóis e convenço-me que a buzina me quer atrair para uma armadilha mortal.