Anónimo

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Anónimo

Postby Drops » 05 Mar 2010 07:57

Recebi algo que mexeu comigo e achei por bem partilhar.

«O passado atormenta-nos, sem sabermos sequer porque permitimos que ele continue connosco. Será que apenas não conseguimos fechar aquelas portas? Ou é ele que ignora e nos persegue como sombra indesejada?
É nas horas avançadas que tudo começa a fazer sentido, não há um número que possa marcar em busca de conforto. E se ligasse? Do outro lado apenas se iria ouvir o cair de lágrimas que não chegam a lado nenhum. A vergonha, o medo, a apatia.

Há um motivo para eu ser assim. Um, rodeado de milhares de outros pequenos motivos sulcados na minha pele. Sou eu, são os outros, é o tempo, é o incerto, é a passividade com que assisto à minha vida a correr.
Não me reconheço, sou uma estranha dentro de mim mesma, e passo a vida em busca de algo que não deve existir... a certeza de que amanhã estará tudo bem.
E chega a madrugada, o silêncio, a solidão voluntária, o escuro, os soluços inaudiveis…
Os sentimentos surgem à flor da minha pele e revelam-se um por um. A cada noite parecem-me mais negros, a frustração, a solidão, a falta de auto estima, o ódio por mim e por quem me tornou nisto. A incapacidade de deixar que alguém se aproxime, a inexistência de alguém que se queira aproximar e o espelho a gritar que me odeia.

Não me apetece sorrir, e nem me dou ao trabalho de disfarçar. Despreocupei-me do mundo, e as minhas acções são executadas apenas a pedido. Não olho à volta, simplesmente já não quero saber.
Tinha tanto guardado em mim, foi-me tudo tirado aos poucos, uma bofetada de cada vez, um gozo de cada vez, um odeio-te de cada vez, um desaparece-me da frente de cada vez.

Olho nos meus olhos e apercebo-me que a vida já me mostrou mais crueldade do que alguém deveria imaginar.
Fui eu que sonhei com esse passado negro, ou é mesmo suposto descobrir o quão cruel é a realidade antes mesmo de saber escrever o meu nome? Que mal fiz eu para que me tenhas estragado para o resto da vida?
Lembro-me das persianas fechadas, o ruído dos carros a passarem na rua, a ausência de alguém que me tirasse dali, os pesadelos com um gigante que me atormentava. Quantas noites acordei a chorar por tua causa? E sabes o que é pior no meio disto tudo? Ninguém me vinha aconchegar os lençóis, ou fazer uma festa com promessas de que tudo ia ficar bem. Foi o que tu fizeste, e o que os outros não fizeram para me proteger de ti.
“É um segredo só nosso” e a inocência impediu-me de falar.
As horas de escola que me pareciam sempre curtas demais. Abrir da porta de casa devagarinho e ao fundo o teu sorriso e a pergunta que me gelou o coração, um dia de cada vez.
“vamos brincar aos pais e às mães?”
Estragaste-me para o mundo, tive de aprender a sobreviver sozinha. Hoje, conforta-me a certeza de que já ninguém me conhece.
Nem sequer te consigo odiar, quero apenas a distância e o silêncio, a minha solidão respeitada. Outrora não estiveram lá, então não se tentem redimir hoje, porque tudo o que tenho para vos oferecer são palavras amarguradas e lágrimas antigas."»
"I'm not crazy I'm just a little unwell..."

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