Histórias

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Drops
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Histórias

Postby Drops » 01 Apr 2010 01:55

Projecto novo, para as horas mortas. dividido em algumas (não sei quantas) partes que vou acrescentando aqui.

Sapatos rotos

Há muitos anos, na altura em que as pessoas tinham muitos filhos, os meus pais acharam boa ideia participar nessa tentativa bem sucedida de sobrepovoar o mundo. Na minha turma, mais de 2 irmãos já era considerado muito, e por isso sempre me senti com uma família grande, 1 pai, 1 mãe, 3 irmãos, animais a correr no quintal, 4 avós e alguns tios e primos espalhados por aí.
Claro que estas ideias brilhantes só funcionam bem durante a época das vacas gordas, porque quando alguém decide abandonar o lar, os cintos apertam-se, e começam os sacrifícios silenciosos de crianças que nada sabem da vida.
Durante toda a minha adolescência, e a maioria da minha infância, o meu conceito de pai era muito semelhante ao do pai Natal, era aquele senhor que aparecia 2 ou 3 vezes por ano e que nos levava a almoçar fora deixando sempre alguns presentes. Isto certamente faria de mim uma pessoa muito materialista, não fosse a ausência de recursos na minha vida real.
Nessa bela vida, nós morávamos numa casa enorme, com uma senhora triste a quem chamámos mãe. A tinta das paredes ia amarelecendo com os anos, as coisas iam-se estragando, e os gritos iam aumentando em proporção às contas que ficavam por pagar.
Como criança mais nova, a minha função sempre foi ficar de boca calada, não participar nas discussões, não tentar ajudar porque acabava sempre a partir alguma coisa e os meus direitos resumiam-se à escola, esse paraíso onde me era permitido brincar a rir sem olhares recriminatórios, e a herdar a roupa que vinha dos irmãos mais velhos.
Isto incluía obviamente o calçado, que passava de uns para os outros, e quando finalmente me chegavam aos pés, as cores vinham sempre gastas, o modelo parecia nunca ter estado na moda, os meus amigos olhavam-me e pareciam não compreender porque é que os meus sapatos eram tão diferentes dos deles.
Ora, como criança introvertida que eu era, jamais lhes conseguiria contar a verdade, e evitava ao máximo que se apercebessem do que todos os Invernos se passava.
Todos os dias caminhava para a escola, a distância era curta, e a minha cabeça ajuizada, pelo que o perigo não era um factor relevante, apenas as poças de água, ou a chuva me atormentavam. A cada dia calçava 2 pares de meias, e mesmo assim, os pequenos buracos nas solas dos meus sapatos, deixavam entrar quantidades massivas de água, e a temperatura dos meus pés mantinha-se sempre semelhante à temperatura exterior.
Estes assuntos jamais seriam discutidos dentro ou fora do ambiente familiar. A vergonha ou a arrogância incumbida pela outra vida que costumávamos viver jamais me permitiu contar a alguém, ou soltar qualquer queixume.
Mas os meus pés gelados fizeram de mim uma pessoa relativamente saudável, extremamente resistente ao frio, e a quem raramente as gripes tocavam.
A timidez, ou o medo, ou a vergonha, fizeram de mim a criança invisível, que não chorava, que não falava, que não adoecia e que adorava a escola. Também fizeram de mim a pessoa introvertida, que não vai ao médico e que mantém os amigos a uma distância confortável.


PS - Não é nada que tencione publicar, contudo agradeço os comentários ou críticas ;)
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Ripley
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Re: Histórias

Postby Ripley » 01 Apr 2010 11:25

Drops, fizeste na primeira pessoa um relato que calculo seja comum a (talvez) milhares de crianças em Portugal... e à face da situação económica recente creio que tenha aumentado o seu número.
Retrataste bem a pobreza envergonhada, o "comer e calar" dos mais novos, a deterioração visível no aspecto material e de relações humanas.
Isto quanto ao conteúdo. Como texto, preferiria que tivesse parágrafo(s) embora não seja grande.
Fico à espera da continuação. E com parágrafo(s) :whistle:

:tu:
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---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Histórias

Postby Pedro Farinha » 01 Apr 2010 13:08

Olá Drops

Fiquei muito contente ao ler este teu texto em que foges à temática que te é habitual, conseguindo manter o mesmo nível de sensibilidade.

No entanto, e se acho que o tema, e a estrrutra estão bom conseguidos, penso que na escrita pura e dura, consegues melhorar. Pois se tens boas frases:

Nessa bela vida, nós morávamos numa casa enorme, com uma senhora triste a quem chamámos mãe. A tinta das paredes ia amarelecendo com os anos, as coisas iam-se estragando, e os gritos iam aumentando em proporção às contas que ficavam por pagar.


Há outras partes do texto que ficam muito aquem:

Todos os dias caminhava para a escola, a distância era curta, e a minha cabeça ajuizada, pelo que o perigo não era um factor relevante, apenas as poças de água, ou a chuva me atormentavam. A cada dia calçava 2 pares de meias, e mesmo assim, os pequenos buracos nas solas dos meus sapatos, deixavam entrar quantidades massivas de água, e a temperatura dos meus pés mantinha-se sempre semelhante à temperatura exterior.


Mas, no geral gostei. Quero ver mais :bye:

croquete
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Re: Histórias

Postby croquete » 01 Apr 2010 13:34

Drops wrote:A timidez, ou o medo, ou a vergonha, fizeram de mim a criança invisível, que não chorava que não falava


Eu gostei muito do texto. Aborda uma prespectiva que nunca explorei muito por isso fiquei muito surpreendido pela positiva. :)

Piquinhices...mmm...o tempo dos verbos.
"Fizeram" é pretérito perfeito. "Chorava" é pretérito imperfeito. A frase continua a fazer sentido assim mesmo, mas se calhar trocava "fizeram" por "faziam".

A ironia é que é dito por quem escreve tão mal como eu... ^_^

Parabéns. :tu:

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Re: Histórias

Postby Incerto » 21 Aug 2010 03:12

Eu sempre achei uma piada imensa aos que aconselham como sendo possuidores da experiência na formação de Homero, Shakespeare, ou Pessoa... A verdade é que as pessoas gostam de opiniar, mesmo não sabendo exactamente aquilo que dizem, seja por falta de compreensão do assunto em que querem expressar opinião, seja por isso e por mais alguma coisa. Neste caso parece-me ser correcta a primeira opção.
Eu conheci agora este blog, por indicação de um amigo meu, e fiquei surpreendido por ver que ainda há pessoas a saber escrever. Para se saber escrever, mais importante do que obedecer à gramática é obedecer ao sentido íntimo daquilo que queremos dizer. Escrever, falar, é projectar imagens da nossa memória inconsciente para o exterior visível da matéria; há profundezas da alma que a gramática não sonda.
Fiquei surpreendido porque a tua escrita demonstra-me que é fundada em pensamento. Pensamento como alicerce de emoção é um degrau importantíssimo que se deve subir para a escrita como Arte. Os puristas da gramática devem ter já vozes prontas em relação ao "demonstra-me" - era exactamente dessa forma que queria conjugar o verbo. Jesus dizia que o homem não é feito para a lei; a lei é feita para que o homem se sirva dela. Sem sintaxe não é possível escrever-se bem o que quer que seja, mas fazer da gramática uma regra inviolável é um erro.

Aconselho-te, se me é permitido, a trocares expressões mais comuns por expressões mais próprias; escrever é objectivar, e como escreves coisas íntimas à substância da alma, quanto mais própria for a imagem, mais próxima estará das almas. A luz visível exteriormente é invisível interiormente, mas somos nós quem descreve o interior, porque estamos nele, apesar de fora de ele.

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Re: Histórias

Postby Drops » 15 Apr 2011 10:37

Agradeço todos os comentários.

Tenho estado longe, tão longe quanto possível. Apesar de a minha morada ser ainda a mesma, e o tempo até ter abundado em demasia, a vontade foi demasiado escassa. As palavras abandonaram-me por uns meses, e estão agora a regressar.

Facto curioso, quanto menos tempo tenho, mais as ideias fluem.

Quanto às correcções sugeridas... é de facto um defeito (ou talvez não) que tenho. Escrevo quando a ideia vem, e depois de reler brevemente à procura de erros gramaticais graves, ou frases incompletas, não volto a alterar o texto.
Tudo o que escrevo, excepção para o que me era imposto na escola, é só e apenas com o objectivo de escrever. Não tenho nada publicado, nem tenciono fazê-lo. Quero melhorar, sem dúvida, e agradeço todas as sugestões que possam fazer. Mas as palavras que já estão lidas, irão permanecer inalteradas.

Faz parte da minha vontade de poder olhar para trás e ver a evolução.

Uma vez mais obrigada a todos

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