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Drops
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Postby Drops » 24 Jul 2012 15:04

Os nossos olhos cruzaram-se pela primeira vez, à distância, no meio de uma multidão barulhenta à procura de tudo e atentos a nada. Ele, encostado a uma janela aberta, copo na mão, encontrava-se rodeado da sua alcateia de costume. Homens feitos, arranjados, pouco bonitos, mas rodeados de gazelas esguias e sedentas da sua atenção.
Moviam-se independentes uns dos outros, mas sempre com o conforto de um grupo, entre avanços destemidos e risadas de escárnio, um a um iam-se aproximando das mulheres mais ou menos inebriadas que se ofereciam por ali, aproveitanto o que a sua condição de machos latinos lhes proporcionava.

Sempre me surpreendeu esta capacidade que as mulheres têm de se comportarem como crianças numa loja de doces perante um grupo de homens. Não que não se possa olhar para eles, ou até mesmo tentar de alguma forma seduzi-los, mas a oferta descomprometida é assustadora. Mulheres, muitas delas miúdas, quase despidas, a roçarem-se em estranhos na esperança de receberem atenção. Pergunto-me mil vezes se a sensação será agradável, ou se é apenas o efeito do álcool e a falta de afecto que as faz comportarem-se desta forma

Ao teu primeiro olhar de desprezo repondi com um sorriso desafiante. Não sou igual a elas, e no entanto é assim que me vês. Num acto de coragem, incentivado pelo meu orgulho ferido, atravessei a pista, onde tantos corpos se agitavam num frenesim de hormonas, e ao chegar a ti sussurrei-te ao ouvido "Não somos todas iguais". Não obtive, aliás, não esperei por uma resposta. Voltei-me de costas e regressei à minha noite, sem que, contudo, me tenha esquecido de onde estavas.

Mania que os homens têm de ficar a olhar de alto a baixo... com tanta mulher bonita à volta, podia escolher outra para incomodar. Detesto que me fiquem a observar...

O resto da noite foi passado em trocas de olhares, provocantes, reprovadores, divertidos ou simplesmente curiosos. Não me voltei a aproximar de ti, nem tão pouco esperava que viesses até mim. Entre tantas centenas de pessoas, entre engates, brigas, danças malucas, cenas de ciúmes e reconciliações, pensei que rapidamente me esqueceras, e por isso dancei até me fartar, e segui o meu caminho contigo no pensamento, mas longe de imaginar que virias atrás de mim.

A rua estava mal iluminada, com um candeeiro indeciso entre a luz ofuscante e o escuro absoluto, e os restantes com uma luz amarelada, cobertos de mosquitos à sua volta, que ameaçavam desligar-se a qualquer momento. De repente, silencioso e sorrateiro, pousou a mão no meu ombro, firme e gentil.

Devia estar com medo, mas os seus olhos dizem-me o contrário. Curiosidade, inconsciência ou estupidez?

"Leva-me contigo" quase suplicou. Aparentemente farto daquele ambiente degradado, segurou-me a mão e deu-me as chaves do seu carro. Eu estava incrédula. Não aparentava estar embriagado, nada sabia sobre mim, não se apresentava ameaçador. Comportava-se como se me conhecesse há muito, e fosse a coisa mais natural do mundo, entregar-me as chaves e esperar que eu o levasse... a qualquer lado.
A dúvida foi abafada por vozes que se aproximavam... a alcateia à sua procura. Olhou-me suplicante, algures no seu rosto uma expressão de tristeza levou-me a entregar as chaves dele aos amigos, e deixar que me acompanhasse ao carro.

Devo estar doida...

Não me largou a mão, num aperto constante, com uma confiança confortável e estranhamente familiar. O seu rosto moreno era-me absolutamente desconhecido, no entanto a sua presença completamente familiar.
Levei-o até junto do rio, conversámos até que o sol despontou no horizonte, indicando-nos que eram horas de ir embora. Contra vontade deixei-o numa estação qualquer, dei-lhe o meu número, e fiquei a vê-lo afastar-se.

Se eu tivesse coragem, levava-o para casa...

Pouco mais de uma hora se passara, estava eu a tentar conciliar o sono com a excitação dos acontecimentos, quando tocou o telefone. "Estou no metro, com o pequeno almoço na mão, só preciso que me digas para onde ir"


***

3 da manhã, um dia de trabalho e 300km depois e estes idiotas metem-me a aturar pitas bêbedas com a mania que são boas... f*-se que só comigo carago.

Vi-a do outro lado da discoteca, dançava com um grupo de gajas iguais às outras. Claramente menos produzida, num ar descontraído que a fez sobressair no meio de tanta gaja aos saltos. Olhei-a durante imenso tempo até que ela olhou de volta e sorriu. De ego bem elevado fiquei à espera que viesse ter comigo, parece diferente, mas quer o mesmo que as outras, se calhar valeu a viagem. Aproximou-se com um ar confiante, de quem sabe o que quer, e quando esperava que me desse um beijo chega-se ao meu ouvido e diz-me "Não somos todas iguais".

Partiu-me todo! Aquela voz... Eu conheço esta voz. Eu conheço esta cara... Da escola?! Já foi há uns anos, mas aposto que é ela. Mais magra, cabelo diferente, mas só pode ser ela, e nem do nome me lembro.

Não tirei os olhos dela. E ela de certeza que topou e gostou, porque sempre que olhava, dava-me um sorriso. Não percebi se se lembrava de mim, embora eu tivesse mudado bastante também, e nunca tivéssemos sido os melhores amigos.
No meio daquela trampa toda os idiotas dos meus amigos já se tinham atracado a umas quantas, e eu estava agarrado. Quando a vi na direcção da porta decidi segui-la para confirmar se é mesmo ela, e quem sabe aproveitar o resto da noite.
Já na rua, com bêbados por todo o lado, vi-a a andar com pressa, pus-lhe a mão no ombro, mas como não me lembrava do seu nome, disse-lhe apenas "Leva-me contigo", numa voz entre a dúvida e a vontade de que ela me reconhecesse.

Se não me reconhecer desata a gritar, senão ainda vamos a algum lado...

Não gritou, e quando lhe estendi as chaves do meu carro, já que não me apetecia fazer nem mais um quilómetro ao volante, ficou com um ar entre o curioso e o desconfiado. Não me reconheceu, mas não gritou. Após este pequeno impasse, algo que durou pouco mais que uns segundos, apareceram os idiotas dos meus amigos, numa barulheira infernal, e ela deu-lhes as minhas chaves. Agarrei-lhe na mão, não a podia largar...

Se a gaja me deixa numa rua qualquer que não conheço ainda me lixo. Já não moro para estes lados há uns dez anos, e com este sotaque, se apanho a multidão errada...

Levou-me até à beira do rio, e ficámos na conversa até de manhã. Estava com uma fome desgraçada, mas não queria sair dali, até que ela tomou a iniciativa e escreveu o seu número no meu telefone. Deixou-me numa estação de metro e arrancou.

Nem um beijo carago? Isto não fica assim, a esta hora ela também tem fome, e ela queria... de certeza que também queria que eu ficasse.

Atravessei meia dúzia de ruas à procura de uma pastelaria aberta, comprei umas coisas para o pequeno almoço, café incluído e liguei-lhe: "Estou no metro, com o pequeno almoço na mão, só preciso que me digas para onde ir"
"I'm not crazy I'm just a little unwell..."

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