Mais um dia

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Drops
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Mais um dia

Postby Drops » 31 Aug 2006 03:18

Mais um dia passou, apenas mais um.
Um mês correu debaixo dos meus pés, um verão arrefeceu nas minhas mãos abertas, um nada se escapou deste abraço sem sentido que fui dando a mim mesma.

Tinha que escrever aqui estas palavras porque tenho saudades de saber como é ser eu. Já não sei, e a cada conversa que temos isso se prova.
Prova-se que as certezas são mais ilusões que outra coisa, prova-se que sou apenas assim, miúda incoerente, e cheia de vontade de ser, sem saber o que isso significa.
O traço incerto na folha de papel denuncia os meus medos, denuncia a minha fraqueza... a transparência acusa a falta de vontade, e o tempo que levo a escrever anuncia em altos berros a minha apatia.
Aqui estou eu, nua, despida de tudo, e contudo não me vês, porque eu não deixo. Mais uma vez, no meio de tantas palavras, apenas ouves as que ficam ditas, e a culpa é minha, porque não digo outras.

Preciso de um abraço descomprometido, de carinho desinteressado, de aprender a lidar com tudo isso.
Porque a intimidade complica tudo, e depois deixo de saber o porquê de as coisas serem assim.
Era tão bom, quando as carícias eram inocentes, e me pareciam desinteressadas. Era tão bom uma amizade assim, aquele ardor platónico de algo que supostamente nunca viria a ser.
Desculpa a crueldade das palavras... talvez eu devesse ter nascido no tempo desses amores à distância, em que o desejo fica sempre pendurado num lencinho de seda na janela, mas nunca chega à mão do desejado amante.

Queria um abraço forte, queria carícias nas minhas mãos, um afago na cabeça, um colo reconfortante que me dissesse que os problemas se hão de resolver, e que posso chorar à vontade, que ninguém, nem mesmo tu, está a ver. Carinho...

E depois, uma mensagem que diz amo-te, e à qual não respondo imediatamente. Não era tua, era desinteressada, era um amo-te de uma criança que talvez o tenha dito pela primeira vez. Um “amo-te” desarmou-me. Queria afagar aquela criança, tomá-la nos meus braços e dizer-lhe que amanhã vai estar tudo bem, mas não posso, como tu não podes.
Porque amanhã não vai estar tudo bem... tu vais continuar aí, e eu aqui. Quem morreu já morreu e não volta mais, porque quem grita, grita sempre, quem ama, nunca ama o suficiente, ou nunca o demonstra o suficiente... porque somos apenas seres humanos, e tinhas que ser mais que um ser humano para conseguires ser e saber tudo o que eu preciso. Porque sou incoerente, porque sou insatisfeita, porque sou insegura e sei disso.
Porque me conheço bem demais, sei que nunca tiveste hipótese de cá chegar, mas mesmo assim deixei-te tentar.

Foi mais um dia, mais um. Mais um dia em que o tédio tomou conta de mim, não me deixou fazer nada do que havia planeado. Porque me sinto assim, insuficiente.
Insuficiente na escola, no trabalho, para os amigos. Insuficientemente bela, ou inteligente, ou perspicaz. Insuficientemente útil, ou pragmática, ou sem ideias que resolvam esses problemas que ajudei a criar. Mais um dia em que encerrei as lágrimas cá dentro, porque me sinto um empecilho. Sinto, apenas isso. Talvez não seja, talvez não dê despesas a mais, talvez não haja mesmo nada que eu possa fazer senão manter-me à parte, talvez as pessoas precisem da minha presença, mas apenas estejam ocupadas demais para reparar se eu estou lá ou não...
Talvez, no meio disto tudo, a vitima sejas tu, porque sempre me viste, mas eu já estava demasiado habituada a não ser notada, e achei que era invisível.
Porque “Amo-te” foi uma expressão que ouvi poucas vezes, e raramente nela acreditei, porque sempre achei que não era possível.
Sinto-me um empecilho... hoje como nunca, porque os problemas assim o mostram, e ninguém viu que era assim que eu me sentia, então ninguém me disse que era mentira. Nem tu, porque eu não deixei. Por isso é que me sinto tão bem longe, ao menos sei que “a mais” não estou de certeza, as minhas presenças tão esporádicas nunca são suficientes para incomodar muito, e o tempo vai passando.
Mais um dia... mais um.

Mais um dia de menina isolada numa concha bem fechada, e de palavras tristes.

Mas tinha que escrever... desculpa, mas tinha que escrever.
Tinha que te escrever a verdade, porque ninguém me abraça como tu e eu queria poder agarrar esse abraço para sempre.
"I'm not crazy I'm just a little unwell..."

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Samwise
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Re: Mais um dia

Postby Samwise » 01 Sep 2006 09:13

Drops,

Este é das melhores catarses que vi de tua autoria. Leio estas linhas e moldo-me ao que absorvo.

Sei que muito (ou mesmo tudo) do que escreveste é real e que sai para o papel por duas razões contrárias, mas de certa maneira necessárias e complementares: por um aldo a questão da reflexão íntima, do lançar para o papel uma auto-consicência, e, por outro lado, o desejo de soltar os sentimentos como que ao vento, para que todos os oiçam bem alto.

Mais uma vez, no meio de tantas palavras, apenas ouves as que ficam ditas, e a culpa é minha, porque não digo outras.


As palavras que ficam por dizer são, por vezes mais expressivas que tudo o resto, e este é um texto que saber conjugar muito bem o que é imediato e o que fica suspenso.

Gostei muito.

Sam
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Re: Mais um dia

Postby Pedro Farinha » 03 Sep 2006 14:13

Independentemente do texto reflectir de froma directa um estado de espiríto e se basear numa situação real, ou de ser pura ficção (o que não quer dizer que não acabe também por reflectir um estado de espirito), gostei do texto.

Da aparente ingenuidade, do que ficou por dizer, do ritmo e acima de tudo da forma como simultaneamente mostras que te queres expor para que te percebam sem te questionarem e te queres resguardar e que nem te queiram perceber.

Um conselho aparentemente só literário mas que funciona bem, comigo já funcionou. Imagina-te do outro lado a viver uma situação semelhante mas em que és o outro lado da questão e, depois de entrares bem na personagem, seja ela ou não parecida com alguém real, tenta escrever com a mesma fluidez um desabafo deste tipo.

Dá dois dias e depois lê o que escreveste.

Entre outras coisas é um excelente exercicío de escrita. Porque a escrita não é muito mais que a representação posta em papel.

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Aignes
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Re: Mais um dia

Postby Aignes » 11 Sep 2006 23:44

Gostei bastante desta prosa tão sentida, mas que simultaneamente parece despejada, o 'tinha que escrever' perceptível em cada expressão. E o reconhcimento de um sentimento que não deixamos de sentir só por não ser verdadeiro está também bem explorada. Gostei :thumbsup:
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Drops
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Re: Mais um dia

Postby Drops » 28 Sep 2006 16:32

desculpem ter estado tanto tempo sem dar uma resposta.
Na realidade apenas não sabia bem o que dizer...

Obrigada, creio que cabe sempre em todo o lugar, mas nem sempre me parece suficiente...

Sam...
sim, muito pouco do que escrevo não é real, vivido ou sentido.
Eu queria que toda a gente soubesse ler ou ouvir as palavras que não ficam explícitas, mas como sabes, nem toda a gente se apercebe dessas lacunas de espaço, em que se diz tudo. :smile:
Deixas-me envergonhada...
mas muito obrigada, por seres sempre gentil


Pedro...
esse exercicio de escrita é interessante, vou experimentar, e depois publico o resultado! hehe a ver o que me dizes...
:wink: Thanks


Aignes
comigo as palavras são sempre assim, guardo tudo, até que um dia elas se obrigam a sair, num desabafo obrigatório... e como todos os desabafos, são apenas isso. :smile: porque apesar de ser como sou, tenho noção de que nem tudo o que sinto corresponde à realidade.
um beijo
e sim... obrigada

(tenho que procurar outra palavra...)
"I'm not crazy I'm just a little unwell..."


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