Vendedores de sentimentos

User avatar
Drops
Dicionário
Posts: 709
Joined: 04 Jan 2005 03:49
Location: somewhere over the rainbow
Contact:

Vendedores de sentimentos

Postby Drops » 04 Mar 2008 00:55

“What’s love but a secondhand emotion?”

E não é que ela tinha razão? Os sentimentos são todos assim, sentes, e entregas isso a alguém, vão em segunda mão, o original fica contigo, e só tu sabes o que ele significa na realidade, ele fica para sempre contigo. Entregas algo parecido, ou uma pequena parte daquilo que pensaste, que sentiste. Somos todos seres hipócritas e egoístas, o melhor fica sempre connosco, temos vergonha de entregar tudo, escondemo-nos atrás de escudos bem estudados de pessoas insensíveis, ou demasiado ocupadas para se preocuparem com essas lamechices de sentimentos, entregamo-nos aos pouquinhos, mas sempre bem escondidos, bem disfarçados de pessoas adultas que sabem controlar as suas emoções.

E depois?

Acabamos assim, feridos num silêncio abafado por gemidos de prazer fingido, que procurámos em pessoas tão hipócritas como nós. Porque nos recusámos a sentir, a amar de verdade, porque não queríamos dar tudo, com medo de não receber nada em troca… sim, porque o nosso medo não é dar, o nosso medo é não receber, é sentirmos que estamos a amar em vão, é sentirmo-nos sós, sentir que demos tudo, e como não recebemos ficámos vazios.

É por isso que nos entregamos a frivolidades mundanas, a orgasmos fáceis com desconhecidos tão voláteis como nós. Porque quem amávamos estava ali mesmo ao lado, e nós recusámo-nos a deixar-nos levar por esse sentimento arrebatador, com medo de ficarmos com ele nas mãos, ou sem ele, e sem nada em troca.
Sanguessugas excitadas por palavras ocas, somos estripadores sentimentais, que se atravessam no caminho uns dos outros, esquivando-se milimetricamente das escassas sombras de sentimentos que vamos vendo perdidas por ai. Somos tarados sexuais a aproveitarem-se uns dos outros, somos crianças inocentes que suplicam carinho com gritos e berros, para não termos que ser nós a dar o primeiro passo, o primeiro beijo, o primeiro suspiro.

Porque amamos, e dizemos que amamos, e utilizamos esse amor como estandarte doloroso, mas só depois de sermos deixados para trás, só quando já não há nada a fazer, porque somos masoquistas. Porque na realidade não queremos fazer ninguém feliz. Queremos que alguém viva para nós, que nos satisfaça a todos os níveis sem pedir nada em troca, porque os nossos gestos esquivos têm que ser suficientes, porque os nossos carinhos escondidos, as nossas palavras suaves ditas em ardores nocturnos de sofreguidão conjunta têm que ser suficientes, porque as palavras comprometem-nos, e assustam-nos, porque nos obrigam a assumir algo, a sentir algo, a partilhar, a dizer ao mundo que partilhámos, a dizer ao mundo que sentimos, a dizermos a nós mesmos que somos frágeis, que amamos, e que podemos vir a ser amados de volta, e isso faz-nos vulneráveis, isso faz-nos menos que humanos, faz-nos pedir e suplicar por mais.

Mais carinho, mais amor, mais atenção, mais um beijo, mais um minuto, mais um abraço, mais, sempre mais.

E depois choramos as ausências, sentimo-nos abandonados e traídos, atiramos culpas ao vento, abandonamos a nossa própria vida porque ela parece deixar de valer a pena, porque perseguimos e atiramos coisas em cara, porque sentimos ciúmes, porque nos abandonamos ao desespero de não podermos ter o que queremos, porque só queremos porque não podemos ter... porque somos estúpidos, hipócritas e egoístas. Egocêntricos atordoados por delírios esculpidos no meio de dois corpos unidos pelo acaso, que depois se despem um do outro sem se despedirem, e o tempo segue o seu rumo como se nada fosse.

Somos refugiados de guerra, abrigados no beijo de quem estiver mais próximo, escondidos nos lençóis que se apresentem mais confortáveis. Somos prostitutas de sentimentos, vendemos este amor tão grande que sentimos por um pouco de atenção, por um beijo mais fácil, por uma noite descomprometida, por um amanhecer a dois seguido de… nada, então não temos medo, nem vergonha… podemos amar à vontade porque este compromisso não passa da alvorada.

03/03/2008
"I'm not crazy I'm just a little unwell..."

Return to “Drops”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 2 guests