Um estudo

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Thanatos
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Um estudo

Postby Thanatos » 21 May 2010 00:25

- É um caso de vida e de morte. Estou a dizer-te. A sério!
- Mas tu estás a gozar comigo, é? Um caso de vida e de morte? Passaste-te?
- Não. Nunca falei tão a sério na minha vida.
- Só podes estar mesmo a gozar. Tu nunca levaste nada a sério na tua vidinha desgraçada. Antes de mim eras um desgraçado e sem mim vais ser o quê? Outra vez um desgraçado?
- Se é assim que pensas nada posso dizer. A minha decisão está tomada. Lamento que tenhas uma visão tão curta das coisas. Devias encarar isto como uma oportunidade.
- Uma oportunidade de quê? De me destruíres a vida? Pensa no que vais fazer. E não me venhas com essa do caso de vida e de morte que só me dás vontade de rir. Perdeste o juízo de todo. Diz-me só uma coisa, foi ela que te disse que para dizeres isso? É isso, não é? Querem rir-se de mim. Mas fica a saber que à minha custa não te vais rir tu.
- Não faças uma cena. Já tomei a decisão. E não tem nada a ver com ela. Aliás já não há ela nenhuma. O que se passou é demasiado complicado para te explicar. Basta saberes que preciso de espaço... dum tempo para mim...
- Um espaço, um tempo, estás sempre com essas coisas. Mas por acaso eu atabafo-te?
- Queres mesmo saber a verdade? Sim, atabafas-me, não me dás espaço. Ao pé de ti sinto-me preso, é como se me atasses. Perdi a chama que dantes tinha.
- Ah! A chama. Mas qual chama? Agora as tuas frustrações são culpa minha? Estás parvo de todo é o que é. E foi ela que te virou. Sei disso e escusas de dizer que não.
- Lá vens tu outra vez com ela. Já te disse. Ela está no passado e eu só olho para o futuro. O que foi, foi. Assim como nós. Já passou. Deixa ir. Segue em frente. Já te disse que é um caso de vida e de morte. Dizer-te mais iria implicar-te.
- Mas que merda é esta? Queres dar comigo em louca, é? Um «caso de vida e de morte»! Mas que porra esta! Pensas que estás num filme, é? Sabes que mais, é isso, andas a ver filmes a mais. Deram-te a volta à cabeça. Só pode ser isso.
- Se soubesses a verdade! Mas que me adianta explicar-te. Só ia reforçar a tua ideia de que fiquei louco. É escusado.
- Pois claro. Imagine-se explicar algo aqui à «loura». Demasiado burrinha para perceber seja o que for. Sempre me trataste como se fosse estúpida. Mas olha que não sou. Olha que pensas que me conheces mas não me conheces.
- Ai sim? Então se eu te dissesse que nem tu, nem eu, nem nada disto que nos rodeia existe, que me dirias tu?
- Dizia que continuas a gozar comigo e que eu já começo a perder a paciência para contigo.
- Pois! Aí está. Se eu te explicasse já sabia que ias ter essa reacção. É mesmo escusado.
- Ai pois é escusado vires com essas tuas merdas de ficção científica. Sim, eu também vi a Matrix ou lá como se chama o raio do filme. Não é o que eu digo? Andas a ver demasiados filmes.
- Pensas que estou maluco. Não estou. Garanto-te. Descobri a verdade. E como te digo é um caso de vida e de morte. Se não me afastar agora não temos futuro. É assim que está escrito. E por muito que penses que estou a gozar contigo tudo o que dizemos, fazemos, contestamos, tudo, mas tudo mesmo está escrito. É como um guião. E se não o seguirmos... é o fim.
- De facto tenho de admitir. Para um gajo que se quer divorciar tens de facto muita lábia. E uma cara-de-pau do caraças! Vê lá tu a treta que inventas só para te livrares de mim! Olha, sabes que mais? Estou farta desta merda toda! Não te vais ver livre de mim assim tão facilmente. Queres saber porquê?

A um canto da sala a televisão emudecida passava imagens de um qualquer distante incidente. Pela janela chegavam os ruídos da noite, ambulâncias do INEM em socorro de última hora, carros-patrulha em raides imprevistos, adolescentes a aproveitarem o calor tardio da noite. Aqui e ali um vizinho deixava os sons da telenovela escaparem pela janela para a noite de lua crescente.

Ele tivera razão. Era mesmo um caso de vida e de morte. A vida dela. A morte dele.

O escritor tragou o último gole da cerveja já quase morna. Pousou a garrafa metodicamente sobre a mancha de humidade que alastrava no papel de rascunho e teclou esta frase que lêem.

Com o rato clicou no save.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Um estudo

Postby Pedro Farinha » 21 May 2010 07:56

^_^ Gosto destes textos que me permitem ler histórias diferentes em cada leitura que faço.

E dito isto carrego com o rato em submit

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Re: Um estudo

Postby Ripley » 21 May 2010 13:15

Um texto-vórtex.
Singularidades nuas, cadências desencadeadas rumo ao horizonte de fuga.

Cerveja sorvida, humidade alastrando. Inversão.
Anti-clímax.

A falta que faz um botão de reset... limpar memórias. Restart.

E a lua impávida na sua órbita.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Um estudo

Postby Samwise » 22 May 2010 23:38

Thanatos wrote:A um canto da sala a televisão emudecida passava imagens de um qualquer distante incidente. Pela janela chegavam os ruídos da noite, ambulâncias do INEM em socorro de última hora, carros-patrulha em raides imprevistos, adolescentes a aproveitarem o calor tardio da noite. Aqui e ali um vizinho deixava os sons da telenovela escaparem pela janela para a noite de lua crescente.


Depois de um diálogo a todos os títulos surreal, pelo menos no que concerne à argumentação de uma das partes, surge esta faixa deliciosa que nos coloca imediatamente no centro da realidade quotidiana nocturna, sentida algures de dentro de um apartamento.

Está muito interessante (e bem escrito), T., embora tema que não tenha percebido o conteúdo que está subjacente às palavras... :rolleyes:
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Um estudo

Postby Thanatos » 23 May 2010 10:02

Samwise, foi um estudo meu sobre como escrever diálogos o mais perto possível da «realidade» e ao mesmo tempo um exercício metaficcional. As personagens são de facto ficções do escritor que as deixa viver ou morrer ao seu bel-prazer.

Essa passagem que citas tem duas leituras - pelo menos para mim - por um lado podem ser as ambulâncias e a PSP a ser chamada a intervir no final do desacato, por outro pode ser a ambiência que o escritor sente na sua casa que o inspirou a escrever o diálogo.

Mas «explicar» o que se escreve ou porque se escreve é do camandro. Como dizia o outro a palavra mais perniciosa é «porquê»? ;)
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Re: Um estudo

Postby Ripley » 23 May 2010 21:28

Thanatos wrote:Essa passagem que citas tem duas leituras - pelo menos para mim - por um lado podem ser as ambulâncias e a PSP a ser chamada a intervir no final do desacato, por outro pode ser a ambiência que o escritor sente na sua casa que o inspirou a escrever o diálogo.


E eu que cheguei a pensar que o diálogo se calhar vinha da TV do vizinho com o som demasiado alto... :rolleyes:
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
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"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: Um estudo

Postby João Arctico » 03 Jun 2010 23:25

Thanatos wrote: Mas «explicar» o que se escreve ou porque se escreve é do camandro. Como dizia o outro a palavra mais perniciosa é «porquê»? ;)

Eu sou adepto do "não explicar nada" :P
O "meu" texto, i.e., o texto que eu li, divide-se em 3 partes, sob os seguintes ambientes (como remate final de uma estória mais longa... ;) ):
Um "diálogo" num apartamento, situado na grande cidade;
Um "escritor", numas águas-furtadas, a teclar na sua velha máquina de escrever (talvez com um teclado, ainda, HCESAR);
E "o" escritor fazendo "enter" no seu notebook, sentado numa esplanada à beira-rio. :)

Gostei do "estudo". De facto, o diálogo está para a escrita como o cavalo para o desenho. Um exercício engraçado, quando lemos um livro, é ler os diálogos em voz alta (claro, faço-o quando estou sózinho :whistle: :P )
"É isto o que, de todo em todo, pretendia o autor? Não sei; é a opinião do leitor que eu dou." Jean-Paul Sartre
"Mas mesmo aquilo que a gente não se lembra de ter visto um dia, talvez se possa ver depois de algum viés da lembrança" Chico Buarque in Estorvo


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