O Crepúsculo dos Deuses

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Thanatos
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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Thanatos » 11 Apr 2012 21:13

Thanatos recebeu o sms de pco69 no momento em que entrava no metro dos Restauradores. Intrigado sobre que tipo de assunto levaria o outro a mandar-lhe uma sms quando estavam meses sem falar parou o tempo suficiente para a ler e soltando uma sonora gargalhada após a leitura continuou a marcha em direção às escadas rolantes. Sem dúvida que pco69 tinha um grande problema primeiro-mundista. Fosse como fosse gostava do estilo do homem e ia massajar-lhe o ego congratulando-o pelo achado. Quem sabe talvez acabasse até por arranjar um espaço na agenda para passar lá por casa dele para poder soltar os devidos e ritualísticos sons de apreciação quando colocado de frente para a coleção. Respondeu ao sms e passados cinco minutos, já no metro a caminho de Alvalade, esqueceu o que escrevera. Tinha outras preocupações. Algumas com nomes quase impronunciáveis.

Entre Alvalade a a Quinta das Conchas existe um antigo solar de aspeto decrépito e abandonado. De fora qualquer um diria ser um solar devoluto, quiçá deixado de herança a herdeiros demasiado ocupados com a sua vida pessoal ou demasiado antagónicos entre si para se preocuparem em lhe restabelecer o brilho de outras épocas. Mas na verdade quem passasse o velho portão ferrugento, subisse a pequena alameda coberta de ervas daninhas e folhas mortas e batesse com o batente velho mas ainda sólido de metal preso por um espigão à porta de madeira carcomida mas ainda sólida seria surpreendido com o som de passos no interior do hall de receção e pelo entreabrir cauteloso da velha porta. Um par de olhos perscrutá-lo-iam e caso à senha fosse dada a contra-senha seria admitido no interior. Caso fosse um mero passante sem conhecimento dos códigos de entrada a sorte seria bem mais diversa. Mas, felizmente, Thanatos era habituée do solar e dos poucos privilegiados com o conhecimento íntimo de todos os códigos pelo que a entrada sempre lhe fora franqueada. Subiu sem delongas ao andar superior onde mantinha o quarto. Do Conselho só lá devia estar o Samwise e o sorumbático Archie. Quase apostava que o ostrogodo das mezinhas e elixires com aquele nome que não lembrava ao Diabo lhes andava a arrastar a asinha a ver se os convencia a passarem a Conselho dos Nove. Pois! Boa sorte, urukai duma figa.

Despertou o macbook e imergiu num mundo só seu contando aventuras e desventuras duma série de pessoas que se encontravam ocasionalmente e que partilhavam todas uma paixão, que por acaso também era a sua. Os livros. Seguia a máxima de escrever sobre aquilo que sabia ou conhecia e até hoje nunca se dera mal. Os contos, embora longe de obras-primas da ficção, não deixavam de aparecer regularmente em antologias, revistas e coletâneas. Era uma boa segunda vida.

Devagar, muito devagar, o ritmo dos dedos no teclado lento e suave como um amante a percorrer as linhas do corpo do seu amor, dedilhou uma porta num outro mundo além deste. Um mundo onde desapareceu por umas horas até que o cair da noite o forçou a parar. Guardou o documento colocou o mac em sleep e saiu para o corredor onde já o aguardavam os outros. Tal como esperava urukai seguia de perto Archie, Gokuu e Samwise. Sempre fora um lambe-botas aquele alquimista de bolso. Mas tinha de reconhecer que os seus talentos para poções e elixires era inultrapassável. Havia sapos que um gajo tinha de engolir. Acenou aos outros sete do Conselho e sem palavras trocadas desceram em grupo até ao salão onde desde tempos imemoriais ocorriam as reuniões.

A primeira coisa em que Thanatos reparou quando entrou no salão foi que já alguém ocupava um lugar à mesa. Era-lhe desconhecida a figura mas do que conseguia ver na penumbra viu que tinha formas femininas. Assim que entraram o criado que horas antes lhe abrira a porta correu as grossas cortinas ocultando as janelas e de isqueiro na mão acendeu os vários bicos de gás que se espaçavam de metros em metros ao longo das paredes. À luz trémula e amarelada conseguiu finalmente discernir as feições da estranha. Era uma jovem entre os seus 20 e poucos, talvez 25 anos, magra de cara e corpo embora de busto farto o que de certa forma lhe dava uma desproporcionalidade charmosa mas seria exagero dizer que era bonita. Antes afetava uma beleza muda. Os seus olhares cruzaram-se e um relampejo de reconhecimento cruzou-lhe as feições o que desconcertou Thanatos que tinha a certeza absoluta de nunca a ter visto antes mas era-lhe impossível ignorar que o mesmo não pensava a rapariga.

Sentaram-se nas posições protocolares habituais. Archie à cabeça da mesa semi-oval. Gokuu logo à sua direita e Samwise à esquerda, seguido por Thanatos, Cerridwen, acrisalves, Lady Entropy e grayfox. Urukai ficou de pé por detrás do cadeirão de Samwise, a sua posição favorita. Thanatos achava que decerto dali pensava que alguma da importância dos membros mais antigos do Conselho se esfregaria nele e por osmose poderia afetá-lo. Enfim.

A disposição protocolar dos Oito fez, se por acaso, se por premeditação não saberia dizer, com que ficasse de frente para a estranha rapariga. Thanatos que há muitos lustros que deixara de se preocupar indevidamente com a etiqueta demorou o olhar nas formas avantajadas do busto e tentou tirar alguma memória daquele rosto mas foi debalde. No entanto, facto curioso, notou que a rapariga também o observava algo despudoradamente e com um semi sorriso que noutra situação poderia ser interpretado como tendo segundas intenções.

Archie deu início à reunião com a oração de Holbrook: Not more of Light I ask, O God, /But eyes to see what is; /Not sweeter songs, but ears to hear /The present melodies. /Not more of strength, but how to use /The power that I possess; /Not more of love, but skill to turn /A frown to a caress. /Not more of joy, but how to feel Its kindling presence near, /To give to others all I have /Of courage and of cheer. /No other gifts, dear God, I ask, /But only sense to see /How best those precious gifts to use /Thou hast bestowed on me. /Give me all fears to dominate, /All holy joys to know; /To be the friend I wish to be, /To speak the truth I know. /To love the pure, to seek the good, /To lift with all my might /All souls to dwell in harmony, /In freedom's perfect light.

Continua...
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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Sharky » 11 Apr 2012 22:21

Isto está a ficar cada vez melhor :rotfl:

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Thanatos » 12 Apr 2012 21:16

A reunião de hoje, como alguns de vocês sabem, - começou Archie após uns segundos de silêncio no final da oração – é para determinar o envolvimento de certas pessoas numa questão que tem vexado esta Loja. Até hoje temos conseguido manter a nossa atividade e a dos nossos frates pelo mundo fora suficientemente inconspícua. Por mais que se escreva sobre nós, as nossas origens, os nossos rituais e os nossos motivos a verdade é que até agora temos conseguido desviar as atenções da populaça das nossas reais intenções. Apesar disso ultimamente têm vindo a lume algumas peças de ficção e alguns ensaios, quer de autores proeminentes e já com bastantes seguidores, quer de pesquisadores, quer até de amadores que, estranhamente, parecem saber bastante acerca de matérias reservadas e que muito poucos de nós dominam na sua globalidade. Exemplo disso foi o completo desastre que se revelou o caso das Cinco Bruxas – e aqui todos os membros olharam subrepticiamente para o ostrogodo que, Thanatos apostaria, se tivesse ali um buraco não hesitaria em enfiar-se por ele de cabeça – mas outros aconteceram noutras partes do mundo. Sim, para alguns de vós isto é uma novidade que vos conto agora pela primeira vez. Espalha-se pelo mundo e muito rapidamente conhecimento hermético nosso. Provavelmente isto acaba por ser um mero reflexo do uso das novas tecnologias de comunicação, do uso indiscriminado da internet, das telecomunicações, etc. Não interessa a forma. Interessa a causa. E é essa causa que hoje iremos tentar determinar daí ter convidado quem agora está aqui sentada connosco e que passo a apresentar devidamente: cara dra. Angelica_Angel está perante o Conselho dos Oito, o meu nome já conhece. Também conhece da nossa prévia entrevista o dr. Gokuu e o dr. Samwise. Aqui ao meu lado direito está ainda Thanatos, - à menção do seu nome o visado soergueu-se ligeiramente em sinal de respeito – a dra. Cerridwen, a dra. Acrisalves, a dra. Entropy e o dr. Grayfox. E agora que estamos apresentados agradecia que explicasse a sua ligação com esta Loja e o que descobriu no decurso da sua investigação.

Pois bem os fraternos não me conhecem porque geralmente reservo as minhas intervenções na Grande Loja do Oriente na potência do Rito Escocês Antigo a meia dúzia de preleções por ano, preleções essas que raramente são transmitidas para o exterior e por exterior entenda-se as outras Lojas do Grande Oriente. Naturalmente a maior parte das pessoas reconhece-me mais pela minha carreira na advocacia e pelo menos desde o Caso de Vara tenho sido bastante solicitada para casos de elevado perfil. Isso aliado à minha faceta de investigadora rouba-me tempo para visitar as Lojas. Contudo foi precisamente a minha faceta de investigadora que me levou a descobrir factos que diria serem algo alarmantes. Senão veja-se – e debruçando-se pegou numa maleta que tinha pousada no chão ao lado do cadeira, pousou-a sobre a mesa, abriu-a e retirou vários livros do seu interior. Todos os presentes puderam reconhecer vários livros do chamado Fantástico Paranormal, todos de autores portugueses. - estes são alguns dos livros que hoje em dia se podem comprar em qualquer livraria, seja física, seja online. E são apenas a ponta dum imenso icebergue. Descobri e guardei dezenas de contos, ensaios e teorias, publicadas ad hoc em threads de fóruns, blogues, twitter, facebook, etc. Um verdadeiro manancial de conhecimento hermético pronto a ser lido por qualquer um. A forma como ritos supostamente fora do conhecimento de não-iniciados estão expostos leva-nos a crer que existe algures um traidor à causa. Mais do que essa exposição nada benigna resta determinar se a nossa real intenção não poderá um dia vir a ser também ela exposta. Meus frates será desnecessário explicar-vos que na atual conjuntura e dado o facto de ainda estarmos longe do nosso verdadeiro potencial, tal exposição poderia, na melhor das hipóteses, fazer regredir os nossos esforços décadas, senão séculos, e na pior das hipóteses poderia extinguir-nos duma vez por todas. Relembro o século XVII em que tão perto estivemos de nos vermos reduzidos a cinzas. Acredito que nenhum dos presentes aqui gostaria de voltar a viver aqueles momentos lacinantes. - Olhou diretamente para Thanatos – Aliás o nosso membro Thanatos será o que talvez melhor se lembre dessa época de verdadeira caça às bruxas, ou engano-me?

Thanatos pigarreou, incomodado pelas visões que aquela estranha criatura despertara nele.

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Thanatos » 13 Apr 2012 19:30

Se me permitem, frates, mas há ou não alguma maneira de saber quem anda a passar estas informações para o exterior? - interrompeu grayfox.
Ainda não sabemos ao certo se tudo isto é obra dum só indivíduo ou de um grupo deles. - explicou Angelica_Angel – o que sabemos é que parecem haver focos concentrados onde mais depressa estas informações surgem e a partir de onde se propagam. Um é em Lisboa o outro é no Porto. Esta reunião foi convocada precisamente para deliberar a forma de nos infiltrarmos junto desses indíviduos e tentar colher conhecimento que nos elucide. Felizmente que nem todos os membros deste Conselho são sobejamente conhecidos e alguns desenvolvem atividades extracurriculares que poderão ser uma mais-valia juntos dessas pessoas. Em concreto penso que o sr. Thanatos é dos membros mais bem posicionados para se imiscuir no seio dos jovens escritores e aspirantes a escritores que já demonstraram ter conhecimentos herméticos. Não duvido nem por um momento que o sr. Thanatos seja bem capaz de dissimular os seus intentos tendo em conta que é já conhecido no meio. Se o Conselho aprovar a Loja providenciará todos os meios financeiros entre outros recursos para que o sr. Thanatos desempenhe esta delicada missão na melhor das suas capacidades.

Seguiu-se uma discussão detalhada ao pormenor sobre a melhor forma de iniciar a tarefa, que tipo e quantidade de recursos poderiam vir a ser necessários, o agendamento da ação e mais importante por onde começar. Archie e Samwise tinham preparado uma lista em conjunto com a advogada e entre os dez decidiram que se iriam concentrar numa miúda que mantinha alguns blogues de críticas e ensaios feministas.

Quando a reunião terminou já um novo dia despontava. Cada membro do Conselho saiu à vez do Solar e seguiu o seu caminho mas por um daqueles acasos inevitáveis o ostrogodo acabou por apanhar Thanatos à espera dum táxi e aproveitou para lhe falar dum certo elixir que poderia vir a ser útil. Algo aborrecidamente Thanatos lá acabou por se comprometer a passar pela farmácia de urukai para levar uma amostra. Ao mesmo tempo aproveitou para enviar um email a Anibunny apontando-lhe algumas falhas num conto que recentemente ela publicara online num daqueles fóruns bastante semelhantes ao do seu mundo fictício. O motivo do aparente criticismo era espicaçar-lhe a vontade de conversarem mais demoradamente. Deixou escapar subtilmente que ia em viagem a Gaia daí a dois dias. O anzol estava lançado. Era ver se o peixe mordia.

Já na Baixa passou algum tempo no Nicola apreciando a morna manhã ao gosto dum café acompanhado de habitual meia torrada. Por volta das 10 horas, já cansado de apreciar as turistas, dirigiu-se à rua dos Fanqueiros onde urukai tinha uma das suas farmácias e apresentando-se à diretora técnica mostrou-lhe o cartão de visita do ostrogodo onde o mesmo escrevera a autorização para que fosse facultada ao portador uma amostra do elixir. A diretora, visivelmente impressionada, apressou-se a dirigir-se às traseiras da farmácia donde regressou pouco tempo depois com um pequeno saco de papel contendo no interior uma pequena ampola. Disse a forma mais correta de ministração do conteúdo e desfez-se em despedidas. Sempre umas bajuladoras estas doutoras assim que lhes cheirava a dinheiro e poder. O mundo era mesmo de tão fácil manipulação, como um relógio antigo exposto à lupa do relojoeiro, as suas rodas dentadas empurrando-se umas às outras, sem mistério nem enigma, apenas uma fria precisão. E como era fácil retirar uma delas e ver todo o sistema parar.

Assim animado Thanatos encaminhou-se para os lados do Coliseu. Era chegada a hora de almoço e o Gambrinus hoje servia um Rumpsteak em Pimenta Verde de estalar os dedos.

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby pco69 » 13 Apr 2012 21:00

:P :pipoca: :pipoca: :pipoca: :cheers:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Bubbles » 14 Apr 2012 14:18

Fabuloso T! :tu: :pipoca: :pipoca:
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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Thanatos » 15 Apr 2012 18:08

*****


Anibunny mordiscou a caneta enquanto relia pela segunda vez o email. Mas quem era aquele gajo para julgar que sabia o que era escrever? Lá porque tinha idade para ser pai dela julgava que podia mandar bitaites daqueles? Mesmo assim tinha de dar a mão à palmatória. O tipo até tinha alguma razão no que escrevia. Mas não lhe ia dizer isso porque senão ainda inchava que nem uma tripa no forno. O pior é que além de lhe apontar os problemas do conto até sugeria algumas alterações. Isto estava a deixá-la em pulgas! Tinha aquele outro conto tão bem alinhavado para a antologia. Se conseguisse convencê-lo a dar-lhe uma espreitadela e marcar os pontos fortes e fracos para ainda ir a tempo de os corrigir. Isso é que era! Não custava nada tentar. Ia mandar-lhe o conto à consideração. Sem compromissos. E não era que o gajo até vinha ao Porto daí a um dia ou coisa que o valha? Parecia de propósito. Num instante localizou o conto no disco, anexou-o e compôs a resposta ao email. Foi coisa de minutos. Agora era esperar e não desesperar.

Após enviar o email sentiu-se mais à vontade para ir dedilhar umas conversas inconsequentes para o chat do facebook. O seu método de trabalho era tudo menos organizado. Um olho no facebook, uma mão numa tese, e a pensar no dia seguinte. Era assim a sua vida. Para alguns poderia parecer desorganizada e até ela por vezes achava que sim mas era a única forma de se sentir totalmente preenchida. Sempre ativa e sempre em movimento. Um turbilhão de ideias, projetos, trabalhos. Se parasse sentiria que morria. Um cliché, sem dúvida, mas não menos verdade por isso.

A resposta ao email não se fez esperar. O gajo ia ler o conto e ver o que poderia sugerir mas adiantava já que algumas coisas eram mais práticas se ditas frente e frente. Estava a convidá-la para se encontrarem daí a dois dias. Anibunny ficou apreensiva. Não é que fosse uma virgem que se intimidava com a perspectiva de ir ao encontro dum gajo que nunca tinha visto mais gordo ou mais magro mas o namorado agora andava metido nuns congressos e esta semana não ia estar pelo Porto. Ainda considerou convidar uma amiga para ir com ela mas acabou por decidir-se a ir sozinha. Já era crescidinha e sabia tomar conta dela. Respondeu ao convite e deixou a bola no campo dele para marcar lugar e horas. Se achasse que era muito abusado podia sempre inventar uma desculpa de última hora. O gajo era homem e concerteza que já estava habituado a levar tampas. Mais uma menos uma não lhe ia traumatizar o ego.

E assim tecendo o seu destino Anibunny começou a imprimir o conto. Em Times New Roman ponto 12 a dois espaços para melhor se anotar. Não queria deixar nada ao acaso. E por falar em acaso o que deveria levar vestido? Depressa o seu cérebro se ocupou a fazer uma passagem de modelos virtual com as roupas que tinha no armário. Não queria nada muito espalhafatoso mas também não queria o estilo rigído tipo secretária de diretor de multinacional. Lolita estava totalmente fora de contexto até porque já estava entradota e lolitas gordas não eram lá muito apelativas.

Enquanto a impressora se esforçava por borrar folhas A4 com os traços da sua imaginação optou por um estilo vamp retro goth steampunk. Com as meias de renda metidas dentro dumas botas de cano alto, a mini saia de couro vermelho e o corpete preto e branco em cetim ia causar uma impressão. Quanto aos adereços tinha muito por onde escolher. Até demais. Ia ser uma trabalheira saber equilibrar o bom gosto com a espalhafatez. Mas que raios! Até parecia que ia já ter com o editor. Mas também não custava nada causar uma boa impressão. Nunca se sabe os contactos que o gajo podia ter.

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Anibunny » 15 Apr 2012 18:56

:bow: espero bem que continue :D Até porque gosto de ter um armário cheio nem que seja na ficção! E quanto a essa saia de couro... tenho de arranjar uma ^^

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Thanatos » 15 Apr 2012 20:25

A impressora terminou e o súbito silêncio trouxe uma espécie de premonição a Anibunny. Um calafrio percorreu-lhe a espinha e sentiu suores frios brotarem na fronte. Uma estranha sensação de estar a ser observada dominou-a mas na verdade estava sozinha no quarto em casa dos pais. Os dois só deviam chegar da loja por volta das onze da noite e a irmã hoje tinha aulas de piano pelo que só devia aparecer mesmo em cima da hora do jantar. E contudo a sensação permanecia e o estranho flash do seu futuro continuava presente na sua mente. Vira-se a correr por uma rua da cidade. Era como aqueles pesadelos em que sabíamos quem nos seguia mas ainda assim não lhe conseguíamos colocar uma face discernível. Sentou-se em frente ao monitor e numa espécie de transe começou a escrever. E escreveu e escreveu. Apenas a chegada da irmã a interrompeu. Foi quando reparou que a noite caíra e sem saber como tinha escrito mais de vinte páginas. E o pior é que se lhe perguntassem o que tinha escrito não saberia dizê-lo. Decidiu que também ia imprimir aquilo e leria mais à noite depois do jantar. Deixou a impressora a funcionar e juntou-se à irmã no piso inferior para jantarem juntas como habitualmente.

******

Lady Entropy não tinha grande confiança naquele plano meio atabalhoado que Archie e Samwise tinham traçado com Angelica_Angel mas não avançara com as suas dúvidas durante a reunião. O que não significava que não as colocasse agora privadamente junto de grayfox. Tal como esperava ele também não sentia que aquela linha de ação levasse a alguma conclusão. Mais ainda achava muito má ideia deixarem tudo nas mãos de Thanatos que na opinião dele era mais um bazófias que outra coisa. Aliás era incrível como um tipo daqueles tinha alguma vez chegado a pertencer ao Conselho e a ter tanta preponderância sobre as decisões que se tomavam nas reuniões. Só podia ser uma brincadeira dos Superiores mas para já não havia nada a fazer. Entropy concordava com ele que entre eles dois deviam tomar alguma precaução caso o plano de Thanatos falhasse só faltava decidir o quê. Combinaram encontrar-se nessa noite em território neutro. Entropy desligou satisfeita por ter conseguido pelo menos um aliado para resolver aquela charada que quanto mais pensava nela lhe parecia algo pré-fabricada. Ao fim e ao cabo teóricos de conspiração sempre os houvera. Uns mais elaborados que outros a verdade é que no meio de tanta fantasia uma vez por outra lá acertavam. Mas quem é que lhes ligava? E depois qual era o mal de segredos milenares estarem expostos em romances de terceira categoria? Não era caso para perder a cabeça até porque quem é que lia aquele lixo? Se vendessem 200 exemplares cada um já era muito, e uns 50 deles deviam ser comprados por familiares. Mas pelos vistos o Conselho na augusta pessoa de Archie, Gokuu e Samwise, o trio imbatível, tinha decidido que havia ali qualquer problema e a convencida da Angelica_Angel tinha-lhes atiçado as suspeitas ao ponto de acharem que deviam entrar diretamente em ação. Entropy abanou a cabeça mentalmente. Tinha sido precisamente por causa disso que a caça às bruxas de 1800 tinha estalado em força. E as perseguições de 1500. Enfim, pelos vistos o Conselho não era assim tão omnisciente nem tão imbatível quanto queria parecer. A cada dia que passava mais parecia a Entropy que os paradigmas se modificavam e estava na hora certa de fazer umas mudanças hierárquicas. Talvez este fosse o primeiro passo. Logo veria depois do encontro com grayfox para que lado os ventos sopravam.

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Ripley » 15 Apr 2012 21:44

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---§§§---
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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby MAGG » 15 Apr 2012 23:33

:D :D :D

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Thanatos » 16 Apr 2012 19:27

A zona escolhida por grayfox e Entropy para o encontro foi num dos muitos bares que iluminam a noite da marginal, algures entre Carcavelos e Estoril. Perfeitamente anónimos no meio da fauna noctívaga e do barulho cacofónico de vários altifalantes, cada um competindo com o outro para decidir quem entrava no Guiness como mais roufenho, sentaram-se numa mesa de canto menos iluminada e enquanto uma jovem vestida de blusa branca, mini-saia padrão escocês, soquetes de renda, mary janes e tótós num estilo que se poderia, com alguma condescendência, parecer com a imagem estilizada duma schoolgirl japonesa, se atarefava a entregar menus numas mesas, recolher ordens no que parecia um tricorder diretamente saído de Star Trek noutras mesas e fazer orelhas moucas aos piropos semi alcoolizados dos jovens, mantiveram o silêncio. Só quando a mesma se afastou dando-lhes finalmente alguma privacidade é que Entropy avançou diretamente ao assunto que os trouxera ali.

Da forma como as coisas estão e se deixarmos isto andar para a frente quer-me parecer que cada vez mais vamos pelo caminho do trio. - Entropy não achou necessário nomear quem pertencia ao trio. Já não era a primeira vez que tinham uma conversa com teor semelhante. - Portanto resta-nos, a meu ver, duas vias: ou levamos o assunto a esferas superiores e esperamos para saber a decisão, ou tomamos a iniciativa e entre nós resolvemos as coisas sem meter mais ninguém ao barulho. Que dizes?
Digo que devíamos ir pelos nossos instintos. Não me apetece ir aos superiores com um assunto tão trivial. Com trivial quero dizer que para eles isto é um mero precalço que nem merece um iota da atenção deles. Foi precisamente para resolver coisas destas que eles instituíram os Conselhos. Se levarmos este assunto à atenção deles ainda acabamos queimados. Se deixarmos a coisa seguir o rumo do trio também acabamos ainda mais expostos do que já estamos. Foi a pensar nisso que tomei a liberdade de convidar uma pessoa para nos vir falar de um assunto que penso que tem ligação direta com tudo isto. Marquei com ela para daqui a duas horas junto do Hotel Baía. Que acha?
Não acho nada. Nem sequer sei de quem estás a falar.
Pois, não a conheces mas garanto-te que é pessoa muito fiável e discreta. É pessoa dos meus conhecimentos de longa data e já por várias vezes me desenvecilhou de embaraços.
Dito assim até parece que é uma parteira duma clínica de abortos ilegais.

Grayfox riu-se. - Quase, quase, minha cara. Logo verá.

As horas passaram-se enquanto alinhavavam um plano de contingência. A certa altura grayfox mencionou o encontro e apressaram-se a sair do bar. Democraticamente escolheram cada qual levar o seu veículo até ao Hotel Baía.

Foi viagem de cerca de meia hora, sendo que a Marginal, nas primeiras horas da noite, torna-se quase uma irmã gémea da IC19 à segunda de manhã. Entropy a certa altura perdeu de vista o carro de grayfox mas não se perturbou. O ponto de encontro era no lounge do Hotel logo era questão de estacionar o carro e ir para lá.

Quando entrou no Hotel divisou de imediato grayfox junto ao bar do lounge acompanhado duma mulher alta e esguia. Vestia por completo de negro o que associado ao cabelo longo de negro azeviche dava-lhe um aspeto algo intimidatório de corvo antropomórfico. Grayfox viu-a e acenou-lhe para se lhes juntar. A mulher cravou-lhe os olhos penetrantes como se a interrogasse ainda antes dos cumprimentos sociais. Grayfox fez as apresentações: Lady Entropy apresento-lhe a dra. Tzimbi. Dra. Tzimbi esta é a colega de que lhe falei, dra. Entropy.

Encantada! - sorriu Tzimbi, oferecendo a mão num aperto sincero. - nem queira saber o quanto tenho para lhe contar acerca do seu colega Thanatos.

Fim do capítulo 1
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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Samwise » 16 Apr 2012 21:28

Já me estou a imaginar de archote na mão, a atear foto à pilha de lenha que prende os pés de um pobre inocente (dito "bufo por apontamento alheio") a um poste. :twisted:
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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Ripley » 16 Apr 2012 22:37

Sammy, be careful what you wish for... ;)
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: O Crepúsculo dos Deuses

Postby Samwise » 16 Apr 2012 22:43

... or you'll be the one ending up on that stake... :X
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