Vera no Cimo das Escadas

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Thanatos
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Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 12 Oct 2006 21:37

A maldita rotina é que me mata. Bem, para ser completamente honesto o que me mata são as complicações coronárias, as duas tromboses, a angina de peito, o princípio de enfarte do miocárdio e os três maços de tabaco que fumava antes de ser aqui largado pelo meu filho. Mas isso é dum ponto de vista estritamente médico, porque psicologicamente o que me mata é a rotina.

Todos os dias sempre à mesma hora é o levantar, é o comer o pequeno-almoço e o tomar dos medicamentos e o ir passear ao jardim até perto da hora do almoço, isto se não estiver com cara de chuva porque se estiver ficamos todos muito bem acomodadinhos na sala comum a ver um dos intermináveis programas da TVI com aquele paneleiro do Goucha e a insuflada da Merche até que vem a hora do almoço e como carneirinhos dóceis lá vamos, uns arrastando-se de bengala, outros sendo arrastados de cadeira-de-rodas, eu cá, graças a Deus, ainda vou indo pelo meu pé.

E depois vem a tarde com aquelas conversas da treta ou um jogo de dominó com outros velhos caquéticos e desdentados e sempre com a enfermeira por perto não vá dar uma travadinha a um de nós e Deus livre o lar de repouso de Santa Eulália de vir a ter um velhinho morto por negligência na sala comum, ou até no quarto. O que havia de ser com os familiares e as TVs e os jornais. Por isso lá anda a enfermeira, tipo anjo-da-guarda, só que um anjo que mais parece ter feito o estágio em Auschwitz ou Bergen-Belsen, a vigiar-nos de olho de falcão e perna ligeira e sempre com uma auxiliar por perto com a inominável caixinha dos medicamentos. À hora certa lá vai o rebanho de novo para a cantina sorver mais umas sopas passadas e uns vegetais cozidos, tudo muito nutricional, não duvido, mas tudo muito desenxabido, obrigado. O dia termina com mais uma sessão de TV, onde a pouco e pouco os velhos e as velhas vão adormecendo como velas que acabam a parafina. Já tinha dito que esta rotina me mata?

O meu querido filho mais a minha querida nora acharam por bem que o lar fosse o meu destino final. Mal devem poder esperar por deitar os gafanhos ao dinheiro que andei uma vida toda a juntar, mas se eu puder hei-de prolongar-lhes a miséria o mais possível. Concerteza julgaram que aqui definharia e não duraria mais de um ano. Em parte têm razão. Sinto-me definhado, apertado, enclausurado, asfixiado. Quero poder respirar ar, ver os céus e não, não me refiro àquela nesga sombria de céu que se vê do jardim, mas sim às vastas vistas que só quem viajou pelas zonas inóspitas deste planeta sabe a que me refiro, quero voltar a sentir o spray da água quando o mar embate contra a falésia das costas escocesas, aquele cheiro salgado e húmido no ar nevoento, quero sentir o bulício duma cidade que nunca dorme onde a todo e qualquer momento tudo pode acontecer e acontece como foi Nova-Iorque durante a década de 80 e 90, muito antes de ficar presa no medo e na paranóia do estrangeiro. Quero tudo isso e que tenho? Um clíster duas vezes por semana pelo cu acima, visitas constantes do médico, comprimidos de duas em duas horas e a companhia constante de outros decrépitos como eu. Mas apesar de ter definhado ainda me vou aguentando por cá. Aguentando há mais de dois anos. Só o ver as caras deles quando me visitam à Sexta-feira dá-me alento para continuar vivo. Estafermos! Bem podem esperar pela herança. Da minha parte hei-de aguentar-me o mais possível. E acredito que uma das coisas o que me tem aguentado é o continuar a fumar os meus cigarrinhos. E acreditem que fumar às escondidas até parece que aviva mais o sabor dos mesmos. É a velha história do fruto proibido.

A princípio comecei a fumar no quarto mas a enfermeira deu por isso e foi o cabo dos trabalhos para deixar de a ter à perna. Ao fim dumas semanas lá relaxou a vigilância e foi então que me lembrei que podia perfeitamente sair do quarto a meio da noite. A população geriátrica tem o sono pesado e a partir da uma da manhã só mesmo um auxiliar é que anda por aqui nas rondas. A maior parte da noite passa-a metido no cubículo vendo TV ou lendo A Bola ou o Record. Deve olhar para os monitores de vigilância do circuito interno de vídeo para aí umas duas ou três vezes por noite, se tanto. Ahh como é bom lidar com incompetentes! Para alguma coisa hão-de servir. E assim todas as noites saio sorrateiramente do quarto, atravesso os corredores vazios, viro umas esquinas, abro umas portas e dou comigo no jardim, livre para acender um cigarro e escutar os sons calmos do campo. Pelo menos uma coisa boa que este lar tem é que fica no meio de nenhures. Não sei se suportava aquele cheirete râncido da gasolina das cidades portuguesas e a imitação barata de Los Angeles com uma sirene do INEM aqui e uma buzinadela acolá. Aqui no campo ouvem-se as cigarras, ou os grilos ou lá que raios de bicharada é esta que faz um estridor do caneco a noite toda, vê-se a noite em pleno com milhares de milhares de estrelas, tantas que se um gajo se põe a contemplá-las por muito tempo acaba zonzo com a impressão que a todo o momento elas vão cair em cima dele.

Sinto-me vivo, porra! Posso já não ter prazer com mais nada mas pelo menos deixem-me os cigarrinhos. Quem ouve os médicos a falar até parece que alguém vive para sempre. Não coma gorduras, não fume, faça exercício. Safa! Passam a vida a cagar sentenças para os outros e depois vai na volta são dos que mais abusam. Basta ver aquele que vem cá ao lar. O gajo parece uma baleia com óculos. Vai-me dizer que não come bem? Patranhas! E um outro que tive lá no hospital aquando da primeira trombose? O homem parecia uma chaleira e ainda teve a lata de me vir dizer que tinha de cortar no tabaco, que o tabaco ia ser a minha morte. Pois seja! Ao menos morro a fazer uma coisa que gosto. Não vou ser como estes outros que para aqui andam a morrer a conta-gotas, todos os dias felizes por estarem vivos como se ainda tivessem muita coisa para fazer, sem verem que já estão mortos, só falta serem enterrados.

Normalmente costumo fumar um ou dois cigarros, dependendo da disposição e do tempo. Se estiver frio é um cigarrinho e a correr. Se estiver ameno já fico um pouco mais. Aproveito e como conheço o jardim como a palma da mão vou fazendo um pequeno passeio. A noite é boa ouvinte e acabo por ir desabafando o que vai cá por dentro. Se não fosse assim ainda acabava psicopata a ir de quarto em quarto praticando a eutanásia. Não é que a ideia já não me tenha ocorrido, mas por enquanto não passa duma ideia. Uma daquelas com que me entretenho durante estes passeios. A outra é lembrar-me da Sofia.

Já passaram para cima de quarenta anos mas ainda me lembro do rosto dela como se fosse ontem. Os românticos gostam de dizer que não há amor como o primeiro mas isso para mim são tretas. O verdadeiro amor pode não ser o primeiro nem o segundo. No caso da Sofia não se pode dizer que quando eu a conheci não fosse já rodado. E quase de certo que em todas as anteriores ocasiões pensara também que tinha encontrado o meu amor de sempre. Mas com ela foi diferente. Numa coisa os românticos acertam, pelo menos. Existe mesmo amor à primeira vista. Quando a vi naquele jantar de empresa, sentada ao lado dum dos sócios, com um ar casto e tímido, o meu coração deu um pulo. Decidi logo ali que tinha de a conhecer. Tinha de a ter. E se há coisa em que fui bom era em conseguir meter conversa com o sexo oposto. O facto de ela namorar com um dos sócios da empresa ainda mais me espicaçou. Se um bananas daqueles conseguia cativá-la porque não eu? A verdade é que a Sofia afinal também não andava lá muito satisfeita com o bananas e uma coisa leva à outra e dois meses depois já nós viajávamos pela Europa fora numa espécie de lua-de-mel sem o inconveniente do casamento. Para mim foram os melhores tempos da minha vida. Ela tinha menos dez anos do que eu mas em espírito era suficientemente madura para manter o meu interesse e a sua juventude tornava-me rebelde, capaz de fazer coisas inimagináveis. A velha expressão de trazer ao de cima o melhor em nós assentava que nem uma luva na minha relação com a Sofia. Durante o tempo em que namorámos consegui coisas a nível profissional, intelectual e físico que nunca antes nem depois conseguira. Mas a vida é cruel e dá voltas e voltas e um belo dia acordei numa cama fria com um bilhete em cima da mesinha-de-cabeceira. Pelos vistos a Sofia cansara-se de andar com um homem mais velho e decidira que a erva do outro lado da colina era mais verde. Deixou-me com o coração estilhaçado e menos dez mil contos na conta bancária. Perdoei-lhe tudo! O amor é assim, cego, mudo e surdo. Ainda é pior que a justiça. Claro que quando a cabeça arrefeceu e consegui pensar mais friamente paguei a um detective privado, daqueles que anunciam nas páginas do Correio da Manhã, para lhe descobrir o paradeiro e quando soube onde ela morava e com quem, paguei a dois emigrantes do Leste para mostrarem as qualidades dos bastões de baseball da Sport Zone nas canelas do rapaz. Um deles tirou fotografias depois do trabalhinho. Ainda as tenho guardadas no cofre lá do escritório de casa. Por vezes imagino a cara do meu filho quando um dia, finalmente, puder abrir o cofre e passar os olhos pelo conteúdo. A Sofia, depois do enxerto que o namorado levou, não quis mais nada com ele e desapareceu de circulação por uns tempos. Também era uma rica prenda ela, mas isso nunca impediu que eu a continuasse a amar bem lá no fundo.

Mas tal como sempre digo a vida é cruel e dá com cada volta que até parece um filme. Quando voltei a descobrir-lhe o rasto andava ela metida com uns motards da pesada, com drogas à mistura e outras merdas assim. Estava um farrapo. Nunca me perdoei o não ter conseguido arrancá-la àquele mundo e como um cobarde fui sabendo dela por fotografias tiradas subrepticiamente por detectives, por histórias que me iam contando outros gajos do meio. Enfim, fui uma sombra que a foi seguindo mas que nunca teve os tomates para voltar a tentar. E nestas noites em que puxo uma cigarrada às escondidas e tento calar a tosse com um punho trémulo, quando as memórias me invadem e penso no que podia ter feito e no que não fiz percebo que no fundo, no fundo, tive medo da rejeição. Resta-me o consolo da memória do rosto dela, aqueles olhos tímidos e a um mesmo tempo provocantes, o cabelo sempre em rebeldia, os lábios com um leve toque de sarcasmo e um sorriso de menina no mesmo trejeito.

Quando se chega a velho só se vive das memórias. O passeio de hoje está terminado. Já passa das duas e o ar arrefeceu bastante. De volta à cama e à rotina de mais um amanhã.

Sigo pelo jardim até ao alpendre que dá para a sala comum, fecho atrás de mim as portas envidraçadas e enfio pelo corredor pronto a, se for descoberto pelo auxiliar, começar a desempenhar o papel do velhinho aflito que acordou a meio da noite sem saber para onde fica a casa de banho. Não há-de ser trabalho de Óscar mas dá sempre para enganar estes cabeça de abóbora que eles aqui metem a trabalhar.

Mas tal como nas outras noites tudo corre bem. Pelo menos tudo corre bem até eu passar perto da escada que dá para o piso superior onde ficam os escritórios.

O choro é inconfundível! Por momentos quase continuo a andar pensando que estou a imaginar, mas não. Detenho-me junto à escada. Consigo ouvir claramente um choro de criança. Olho para cima mas na penumbra não consigo ver nada. Ainda penso em ir ao cubículo chamar o auxiliar mas depois penso melhor. Era capaz de complicar as coisas. Sussurrando, digo: “está aí alguém?” - a voz sai-me mais forte do que queria e assusto-me pensando que no silêncio geral devo ter soado estridentemente. O som do choro pára. Consigo ouvir um restolhar de tecido e uns passos de quem não está calçado. Forço a vista pela escada acima mas continuo sem ver nada. Onde estará o maldito interruptor? Este casarão é um labirinto de corredores e corredores e cada um tem interruptores nas pontas. Este corredor em particular tem esta escadaria a meio do trajecto e não consigo lembrar-me se tem algum interruptor perto da escada ou se apenas os tem nas extremidades. Os passos páram e o choro recomeça, mas mais baixinho e mais entrecortado. Volto a sussurrar: “quem está aí? Como te chamas? Não chores!”

Da escuridão sai uma mão que se fecha em torno da minha. Quando tive a última trombose a sensação não foi muito diferente. O coração parece resfolegar dentro do peito, todo o sangue como que desaparece e um torno asfixiante envolve-me a garganta cortando-me a respiração. Mas passa rapidamente e embora sentindo picadas atrás dos olhos consigo restabelecer-me do susto o suficiente para ver quem me tinha agarrado. É uma menina. Não deve ter mais de treze ou catorze anos e está vestida com uma camisa de noite. Tem longos cabelos negros e uns olhos da mesma cor que me olham intensamente. Na luz de presença do corredor noto que ainda brilham das lágrimas. Numa voz fina e quase inaudível pergunta-me: “Queres ser meu amigo?” Nem sei o que responder. Mas quem pode ser esta miúda? Que está ela a fazer aqui num lar de 3ª idade? Não me digam que a enfermeira tem cá a filha a dormir. Na volta a miúda teve um pesadelo e saiu do quarto. Martelo a memória a tentar-me lembrar da vida pessoal da enfermeira. Confesso que sempre me marimbei para a mulher e nunca fui muito de conversa com o staff do lar. Azar meu. Se não tivesse tanto a mania de ser um emproado anti-social podia agora saber melhor o que fazer nesta situação. Bem, nada como tocar de ouvido.

(continua)
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Lazy Cat » 12 Oct 2006 23:03

que personagem divertida! =D fico à espera da continuação!
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 13 Oct 2006 11:36

Epá... chorei a rir a ler isto!

Isto deve ser a versão marginal e meia-nonsense d' "O Diário da Nossa Paixão".

Dos snippets que já li teus, este é o melhor de todos.

Mais, Mais!!!

Sam

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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Aignes » 13 Oct 2006 16:22

Adorei a forma como está escrito, mas não achei engraçado nem divertido, não sei se era para rir ou não, mas eu não me ri, se bem que sorri em algumas partes. Mas gostei muito e espero também a continuação. :stu:
«The force that through the green fuse drives the flower
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 13 Oct 2006 16:48

Depois desse comentário, resolvi pôr-me a ler o texto outra vez para ver o que saía, mas nada feito, volvidas duas ou três linhas lá me estava outra vez a rir.

O humor pode ser bem negro (porque de facto tudo aquilo se passa na realidade)... mas está bem presente, aparentemente de forma intencional, não só no estilo de escrita como nos pormenores que vão surgindo de forma quase sórdida, diria.

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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Aignes » 14 Oct 2006 19:09

Eu também tentei rir-me quando o li, porque li os comentários antes de ler o texto, mas não consigo achar piada a uma situação aterradora e tão realista que é um homem completamente apto, inteligente e que consegue usar as suas faculdades da maneira como vimos estar confinado a um lar, ter de se sujeitar a certas coisas e ver a morte a chegar dessa maneira. Se bem que algumas expressões e situações provavelmente foram criadas para introduzir o humor no texto. :huh:
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 15 Oct 2006 11:31

Bem, a minha ideia por acaso não era criar situações de humor, portanto por esse lado a Aignes está correcta, mas como cada leitor encontra algo no que lê...

A personagem é um velhote inconformado que se vê enfiado num lar contra vontade, que passa a vida resmungamdo contra aquela vida e relembrando outros momentos e que a certa altura vai ter um encontro que vai alterar-lhe a vida e a sua atitude inconformista.
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 16 Oct 2006 10:13

Thanatos wrote:Bem, a minha ideia por acaso não era criar situações de humor, portanto por esse lado a Aignes está correcta, mas como cada leitor encontra algo no que lê...


Podia não ser a tua ideia, mas que que elas existem, existem! E não são poucas...

Há muitas maneiras de dizer as coisas, e não me digam que esta, especificamente, não está pejada de contornos burlescos bastante negros (e não é por isso que deixa a realidade de ser realidade).

Só uns exemplos, para firmar os meus argumentos:

Por isso lá anda a enfermeira, tipo anjo-da-guarda, só que um anjo que mais parece ter feito o estágio em Auschwitz ou Bergen-Belsen, a vigiar-nos de olho de falcão e perna ligeira e sempre com uma auxiliar por perto com a inominável caixinha dos medicamentos. À hora certa lá vai o rebanho de novo para a cantina sorver mais umas sopas passadas e uns vegetais cozidos, tudo muito nutricional, não duvido, mas tudo muito desenxabido, obrigado.


O meu querido filho mais a minha querida nora acharam por bem que o lar fosse o meu destino final. Mal devem poder esperar por deitar os gafanhos ao dinheiro que andei uma vida toda a juntar, mas se eu puder hei-de prolongar-lhes a miséria o mais possível.


Basta ver aquele que vem cá ao lar. O gajo parece uma baleia com óculos. Vai-me dizer que não come bem? Patranhas! E um outro que tive lá no hospital aquando da primeira trombose? O homem parecia uma chaleira e ainda teve a lata de me vir dizer que tinha de cortar no tabaco, que o tabaco ia ser a minha morte.


Não me digam que isto não podia ser escrito de modo menos...cómico!

Mas pronto, aceito essa das leituras subjectivas, até porque tenho a a Aignes como exemplo concreto.

Se aos 30 já estou com estas rabujices... aos 40 devo estar parecido com esse velhote aí do conto. :devil:

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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 16 Oct 2006 12:30

Ai que rabuja que o sr. Samwise está hoje :tongue: Está aqui está a levar uma pica para acalmar o stress :devil:

Se tu e a Lazy acham o texto humorístico, tanto melhor para vocês que encontram nele essa faceta.

Não foi (nem é minha intenção) que o texto tenha contornos humorísticos. Note-se que está escrito na primeira pessoa e portanto o que lemos são as divagações dum velho que tem um estilo muito próprio de ver a vida e os que o rodeiam. Para o desenrolar da narrativa a forma como ele «fala» só assim fará sentido mais à frente.

Não me digam que isto não podia ser escrito de modo menos...cómico!


Se o fosse estaria a ser traidor à personagem e à sua joie de vivre :wink:
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Samwise » 16 Oct 2006 13:06

Thanatos wrote:Não foi (nem é minha intenção) que o texto tenha contornos humorísticos. Note-se que está escrito na primeira pessoa e portanto o que lemos são as divagações dum velho que tem um estilo muito próprio de ver a vida e os que o rodeiam.


Mas que vergonha! Agora é o personagem que leva com as "culpas"... :lol2:

Venha de lá essa pica (e o resto do conto, já agora - and the pressure... always this damned pressure, falling heavy like a jackhammer blow, rocking me, killing me)!

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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 16 Oct 2006 13:25

Entre hoje (se o sono não me vencer) ou amanhã já fica aqui mais um bocadinho (basicamente a «história» da Vera... o resto depois logo se vê), que isto por «tranches» é mais aliciante :smile:
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Lazy Cat » 16 Oct 2006 13:29

Sam, não te preocupes com a rabujice. eu sou mais nova e mais rabuja que tu. nem eu própria me aturo. =P

Thanatos, ok, o texto não é propriamente uma comédia. mas também não é uma dramalheira pegada. até podia ser, mas não é. ainda bem! senão não tinha pachorra pa o ler =P
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Thanatos » 16 Oct 2006 20:37

(continuação)

Que fazes aqui? pergunto. Ela continua a olhar para mim e apertando-me ainda mais a mão volta a dizer: “Queres ser meu amigo?” É algo repetitiva o raio da miúda e aquela mão gelada está a começar a dar-me dores no reumatismo. Sacudo-lhe a mão e segurando-a firmemente pelos ombros abano-a levemente a ver se meto algum senso naquela cabecinha. Torno a perguntar: “Que fazes aqui? Já viste que horas são, devias era estar na cama.” Ela olha-me com um ar entre o intrigado e o amuado e soltando-se das minhas mãos recua dois degraus nas escadas. Não sei bem porquê mas repentinamente fico ansioso por que ela não desapareça. Devo ter algo a transparecer na face porque ela sorri ao de leve e com um ar matreiro diz: “Sempre queres mesmo ser meu amigo, estou a ver.” Como raios é que uma gaiata tão pequena pode ler tão bem expressões é algo que me ilude mas tenho de reconhecer que acertou na mouche. Que se dane! Vou entrar no jogo da miúda. Com o ar mais sincero que consigo meter na cara respondo: “Sim, claro que quero ser teu amigo, uma menina tão bonita como tu é mesmo para ter como amiga. E tu queres ser minha amiga e dizer-me como te chamas?” Sorri e volta a descer os dois degraus. Toca-me com a mão gelada na cara e responde: “Chamo-me Vera.” Já estamos a fazer progressos. “Ouve, Vera, estás gelada, não queres voltar para o teu quarto? Onde é que dormes? É aí em cima?” Ela olha-me novamente com aquele ar intrigado, como se eu estivesse a balbuciar disparates, revira levemente os enormes olhos negros e acaba por sorrir: “És um brincalhão, Américo.” Ao ouvir o meu nome sinto um calafrio. Mas logo a parte racional me explica que a miúda só pode mesmo ser filha da enfermeira e decerto sabe os nomes de todos os velhos e velhas que por aqui andam. Não é que eu alguma vez tenha dado pela presença dela no lar mas confesso que também não sou dos gajos mais atentos ao que vai e vem por estes corredores. E por falar em vai e vem já ando a esticar-me na sorte. Não tarda muito ainda aparece por aqui o vigilante e depois vai ser o cabo dos trabalhos. Tenho de arrumar este assunto presto.

Tomo a iniciativa e pegando-lhe na mão começo a subir a escada um bocado às apalpadelas, um bocado a medo. É que a idade já não é propícia a dar um trambolhão sem ter consequências. Maldita artrite e maldito reumático. Isto dum gajo dar em velho devia ser proibido. Como dizia o outro a juventude é desperdiçada nos jovens. Nem mais!

A Vera acompanha-me docilmente e sem emitir um pio. Menina bonita! Era só o que me faltava agora era desatar para aqui aos guinchos histéricos e acordar o lar. Havia de ser o bom e o bonito. Da forma como as coisas andam ultimamente até parece que já estou a ver os cabeçalhos do 24 Horas no dia seguinte: VELHO PEDÓFILO TENTA VIOLAR MENINA EM LAR DE 3ª IDADE. Ah, pois, que isto dos jornalistas pelam-se por uma boa «caixa» e nunca na vida simples coisas como a verdade dos factos se interpuseram no caminho dessa boa «caixa». Chegamos ao topo do patamar e fico meio aparvalhado a olhar para a esquerda e para a direita. O corredor está completamente às escuras e nem uma nesga de luz foge por debaixo das portas. Aliás nem sequer vejo se há portas. Calculo que sim, afinal os escritórios ficam aqui e possivelmente os alojamentos do pessoal de permanência ao lar. Com a mão apalpo as paredes em busca dum interruptor. Não é preciso ser um génio da arquitectura e design de interiores para saber que no topo de cada escadaria tem de existir um interruptor. E cá está ele! Ligo-o e uma sucessão de luzes acende-se ao longo do corredor. A Vera puxa-me o braço na direcção duma outra escada que fica ao fundo do corredor para o lado direito. Agora é mais um minuto ou dois enquanto a enfio no quarto e a seguir volto para o meu. Quem havia de me dizer que ainda ia andar metido nestas andanças a uma hora destas. A escada sobe para aquilo que suponho ser o sotão. Não é de todo impossível que a miúda mais a enfermeira durmam lá em cima. Um casarão destes é bem capaz de ter um sotão com condições muito melhores que muitos apartamentos que por aí andam. Segundo ouvi ou li numa brochura, já não me recordo bem, este lar é um antigo Solar com mais de duzentos anos, antiga pertença duns duques ou condes ou coisa que o valha. Enfim, mais uma dessas tristes histórias de nobres falidos que acabaram sem um tusto. Talvez há uns cem anos ou menos algum burguês endinheirado comprou isto e desde então tem estado a ser explorado pela família do gajo. Já foi local de turismo rural e agora que o turismo rural ou de habitação já foi chão que deu uvas voltaram-se para o negócio de armazenar velhos até ao despacho final. Antes de me pôr a subir as escadas, páro. “Olha, Vera, estou um bocadinho cansado e acho que estas escadas todas numa noite só são demais para mim. O que me dizes de a gente se despedir já? Eu fico aqui em baixo a ver-te subir e tudo. Hein?”

Tenho de admitir que a miúda é espectacular. Não é daquelas de fazer beicinho para levar a dela avante nem nada disso. Bastante compreensiva, talvez porque se tenha já apercebido pela mãe que nós somos todos uns caquéticos que pouco falta para cairmos da tripeça, acena com a cabeça e, erguendo-se nos bicos de pés, deposita-me um beijo na face. Depois foge a correr escada acima mas mesmo no topo pára, volta-se e sussurra: “Amanhã podemos ver-nos outra vez? Vá lá, diz que sim. Tu disseste que ias ser meu amigo.” Quem é que pode recusar um pedido destes? “Sim, podemos ver-nos, sabes que eu estou o dia todo lá em baixo, aparece.”

“Lá em baixo? Nem pensar nisso! Detesto aquela gentinha. Olha combinamos no mesmo sítio em que nos encontrámos hoje, pode ser? Ali em baixo junto à escada. E à mesma hora. Vá, não faltes.” E sem me dar tempo a responder desapareceu na escuridão. Bonito serviço! Acabo de me comprometer com uma miudita de 13 anos. Só eu!

(continua)
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Lazy Cat » 16 Oct 2006 20:49

sim. continuo a gostar de ler. venha mais! =P
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Re: Vera no Cimo das Escadas

Postby Aignes » 16 Oct 2006 22:30

Sim, também gosto..e isto de ler textos como quem vê novelas irrita ligeiramente.. :sk:

( :ohmy: há um smile do songonku superguerreiro... :rolleyes:....ok, ignorem.. :mrgreen4nw: )
«The force that through the green fuse drives the flower
Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»


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