Biliões e Biliões de Sóis

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Thanatos
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Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 24 Oct 2006 21:09

Acordou.

A vozinha junto aos ouvidos informava-o de onde estava, do tempo universal, das condições ambientais fora da cápsula de estase e mil e uma outras informações que supostamente deveria estar a escutar. Mas na verdade não escutava nada. Estava impaciente por sair da cápsula e começar a sua nova vida. As luzinhas na consola ao nível dos olhos informavam-no que ainda estava em laranja. Em breve passariam a verde uma após outra e então poderia sair.

A cápsula abriu-se, restos de geleia anti-impacto escorrendo para as fissuras no pavimento. Parecia haver gravidade. Se artificial, se natural, Clemente não fazia ideia. Decerto a vozinha da A.I. de bordo tinha-o informado peremptoriamente desse facto mas essa informação perdera-se no emaranhado de informações supérfluas com que fora bombardeado nos cinco minutos desde que abrira os olhos até à abertura da cápsula de estase.

Saiu para o centro da galeria. Olhou em volta. As outras cápsulas, cerca de vinte, estavam todas abertas, os conteúdos prenhes de hardware hi-tech expostos. Dos ocupantes nem sinal. Pelos vistos fora o último a ser acordado. Maldita burocracia. Decerto o ser um Delta – 5 influíra na ordem geral de ser acordado. Até para ser emigrante era preciso ter um bom status.

Recordou-se das instruções recebidas... há quanto tempo atrás? Anos, séculos? Não tinha a certeza. Ainda não assimilara bem a sua nova condição. De qualquer maneira as palavras da instrutora de voo estavam presentes e claras na sua memória. Deveria, após a ressuscitação como eles lhe chamavam, seguir as setas amarelas no pavimento até uma área onde lhe fariam um exame médico mais aprofundado. Olhu para o chão. Não havia setas amarelas algumas. Nem de outra cor sequer. Simplesmente não havia setas no pavimento. Nem nas paredes, já agora. Típico da incompetência governamental. O que a mão direita faz a esquerda desconhece. Alguém fornecera à instrutora informações que não correspondiam à realidade. Ou talvez alguém, à última da hora tivesse alterado o procedimento. O certo é que havia três saídas da galeria e Clemente não fazia a menor ideia de por qual deveria se enfiar. À sorte escolheu a mais perto de si. O corredor logo a partir da porta estava escuro, apenas entrecortado aqui e ali por uma luz de presença. O frio começou a incomodá-lo. Voltou para trás e foi espreitar as outras duas saídas. Também elas davam para corredores em penumbra. Mas que chatice esta! – pensou. E agora? Ficar ali a ver se aparecia alguém ou meter por um ao calhas? O certo é que a galeria estava fria e sem roupas nenhumas Clemente começava a bater o dente. Tanta tecnologia e nem sequer sabiam aquecer aquele sítio? Clemente apostava que para os Alfas até champanhe lhes serviam aquando da ressuscitação.

(continua)
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Lazy Cat » 24 Oct 2006 23:49

Ai que giro! =D hihihi

Olha uma coisa...
"Decerto a vozinha da A.I. de bordo[...]"
A.I. é Artificial Inteligente? Se é, sendo o texto em português, não deveria ser I.A.? Ou é tipo como uma denominação universal? ...ou é outra coisa qualquer? =X
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 25 Oct 2006 08:49

Uso o termo Artificial Inteligence que é já do uso corrente, tal como hardware e hi-tech. :smile:

O que interessa no conto é «demonstrar» como a burocracia, a incompetência e as inteligências, mesmo as artificiais, podem estar sempre a impedir o normal desenvolvimento das coisas, sejam elas o simples passar duma herança para nome de um herdeiro, seja ela a colonização dos planetas.
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Samwise » 25 Oct 2006 17:51

Alfas, Deltas...Onde é que já vi isto. :tongue:

...restos de geleia anti-impacto escorrendo para as fissuras no pavimento.


Uma das coisas interessantes nos teus contos de Sci-Fi são estes pormenores tecnológicos tão naturalmente embebidos no meio do resto.

Sam
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Aignes » 25 Oct 2006 23:25

Isto deve ser para me fazer vir ao bbde todos os dias.. :dry:


Thanatos wrote:O que interessa no conto é «demonstrar» como a burocracia, a incompetência e as inteligências, mesmo as artificiais, podem estar sempre a impedir o normal desenvolvimento das coisas, sejam elas o simples passar duma herança para nome de um herdeiro, seja ela a colonização dos planetas.


Quase que aposto que deve ter sido inspirado numa daquelas crises burocráticas que todos encontramos no nosso dia-a-dia. :rolleyes:
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 26 Oct 2006 08:41

'Tou a ver que toquei num nervo nevrálgico (e não o são todos os nervos?) :devil:

A continuação virá lá para a semana que vem... isto de escrever com gotas a cair na cabeça é tipo tortura de água chinesa que eu dispenso. :tongue:
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 03 Nov 2006 00:55

(continuação)

Um bocado à toa começou a procurar nas paredes um intercomunicador ou alguma coisa do género. O frio estava a apertar. Quando já desesperava de todo, um dos corredores iluminou-se. Finalmente alguém acordou nesta bendita nave! – pensou. Meteu pelo corredor fora indo desembocar umas centenas de metros mais à frente num pequeno cubículo com armários numa das anteparas. Experimentou a porta dum dos armários apenas para verificar que estavam fechadas biometricamente. Lá foi metendo o polegar em todas até dar com o dele. Podiam ter metido uma placa com a identificação em cada armário mas pelos vistos facilitar não fazia parte do vocabulário do Governo. Dentro do armário estava um fato-macaco branco e umas botas com fecho de velcro que na opinião do Clemente eram uma realíssima merda. Com o movimento de andar o velcro acabava sempre por se abrir. Mas que fazer. Uma vez Delta, sempre Delta. Não nascera com o cu virado para a Lua por isso só tinha de se aguentar. Para os da laia dele eram sempre artigos de segunda categoria.

O cubículo tinha outra porta a dar para novo corredor, este, felizmente, já iluminado. Meteu pelo corredor, já mais confortável agora. Pelo menos frio já não passava. Agora começava era a ter fome. Um gajo nunca está satisfeito, diga-se em abono da verdade. Estranhou que ainda não tivesse encontrado mais ninguém. Na volta tinham-se atrasado tanto com a ressuscitação dele que acabara por perder o vaivém orbital. Se assim fosse nem o facto dele ser Delta o ia impedir de mandar vir com alguém. Haviam de rolar cabeças. Ai haviam, haviam. Há limites para a incompetência.

Outra coisa que não entendia era como é que com tanto lixo hi-tech por todo o lado não faziam umas passadeiras rolantes. Um gajo cansava-se só de andar por aqueles corredores. Anacrónicos!

(continua)
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby anavicenteferreira » 19 Jan 2007 23:18

Estou a gostar... Começa-me a soar a SF do tipo "Twilight Zone". Mas onde está toda a gente? Gosto do título também, é muito Bradbury.
Ana

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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 02 Mar 2007 19:57

Obrigado pelas palavras gentis Ana. :smile:

(continuação)

O corredor a certa altura começou a ter portas dum lado e doutro. A maior parte estavam fechadas mas pelas poucas abertas Clemente viu que eram alojamentos. Possivelmente da tripulação se bem que se lembrasse da instrutora ter explicado aos potenciais colonos que as naves da nova geração já não dispunham de tripulações per se. Se calhar esta era uma nave adaptada e ninguém quisera gastar orçamento a modificar o interior. Quanto mais andava pelo corredor mais Clemente sentia o frio punho da solidão abater-se sobre ele. Apetecia-lhe gritar, chamar por alguém. Mas a própria inutilidade do acto mantinha-o silencioso. Ao longe viu o fundo do corredor. Apressou-se os últimos metros, ansioso por sair dali e começar uma nova vida num novo ecossistema.

A saída do corredor dava para uma das baías dos vaivéns que transportariam os colonos até à superfície da colónia. O local parecia ter sido o palco duma batalha. Por todo o lado jaziam bocados de metal retorcidos, plástico fundido, e uma miríade de destroços não identificáveis. Clemente deambulou pelo meio dos destroços tentando perceber o que acontecera. Um incêndio? Uma explosão? Tinha aspectos disso mas aparentemente não causara vítimas. Em lado algum se viam corpos, e muito menos se viam pessoas que pudessem ter detido os fogos. Estaria a nave tão avançada que tinha sistemas próprios de contenção de acidentes? Conhecendo Clemente como conhecia a maneira de pensar do Governo duvidava muito que tivessem investido em A.I. De segurança, mesmo que em causa estivessem vidas. Ao fim e ao cabo pessoas era o que não faltava no planeta-mãe. Já os recursos eram mais escassos e até agora nenhum Governo de nenhum Bloco conseguiria um suficiente suporte económico das dispendiosas colónias. Portanto, quod erad demonstratum, alguém de carne e osso tivera de pôr fim ao que ali se passara. Onde estariam agora os bombeiros? A elaborarem um relatório de danos? Era possível, era possível. Clemente desejou pela enésima vez que os pais tivessem pago para ele ter um implante de rede. Seria tão fácil aceder à I.A. e saber o que se passava. Mas esses implantes embora comuns não estavam ao alcance de Deltas. Enfim, era encolher os ombros e tocar de ouvido. Um écran ainda funcionava ao fundo da baía mas àquela distância Clemente não percebia o que tinha escrito. Contornando os destroços foi para mais perto e leu então os horários de saída dos vaivéns. A cada um estavam associados uma gama de códigos que mostravam quem os podia ocupar. Clemente esperou um pouco e o lento rolar dos horários mostrou finalmente qual era o seu vaivém. Se ele ainda estivesse na doca 7 era para lá que ele devia ir. A saída seria dentro de meia hora. Era um absurdo pensar que alguma coisa ainda funcionasse bem depois de tudo o que já presenciara mas não lhe restava outra alternativa e assim, laboriosamente, lá percorreu os metros que o separavam da doca 7.

Tal como esperava, junto à doca não estava ninguém embora o portão de embarque estivesse aberto. A boca do portão mostrava um pequeno túnel cilíndrico iluminado a espaços por lâmpadas. Meteu-se por ele e já sem saber bem o que esperar daquilo tudo, emergiu no interior do vaivém. Sendo aquele um vaivém para deltas não havia lugares sentados mas antes cintos de segurança que saíam das anteparas. Uma voz monocórdica instava os passageiros a colocarem os cintos tal como a figura desenhada na antepara ilustrava. Clemente olhou em volta. Continuava sozinho. Decidiu que por uma vez iria ignorar as ordens e tentar saber algo mais. Não podia ser sempre ovelha de rebanho. Dirigiu-se até à frente do vaivém apenas para descobrir que não havia pilotos. Tudo parecia automático e pré-programado. Pela pequena janela da frente do vaivém conseguia ver a colónia girando como um enorme berlinde azul e branco por baixo de si. Ao menos tinham acertado no planeta. Restava-lhe obedecer à voz e prender-se o melhor possível. A certa altura a gravação foi substituída por uma contagem decrescente dos minutos para a separação do vaivém. A porta de entrada fechou-se em íris e de vários tubos dispostos ao longo da saleta começou a sair um gás que em contacto com o ar solidificou, primeiro criando uma espuma gaseificada e depois uma geleia peganhenta que o comprimiu ainda mais contra a antepara. Clemente, já habituado à geleia da cápsula de estase, começou a respirar calmamente, engolindo a geleia lentamente para não despertar o reflexo de vómito.

Na viagem para a atmosfera não teve a companhia de nenhuma vozinha de I.A. A fúria iónica contra o casco sobreaquecido do vaivém provocava-lhe uma sensação de estar imerso numa tempestade sónica, sensação essa apenas atenuada pela quase surdez induzida pela geleia anti-impacto. Após o que lhe pareceu uma eternidade a geleia liquefez-se desaparecendo pelos ralos no pavimento. Libertou-se dos cintos e esperou que a porta irisasse uma abertura. Não fazia ideia de onde aterrara porque esses pormerores não fizeram parte da instrução inicial. Decerto estacionara num dos centros de quarentena. Tinha agora pela frente um entendiante processo de aplanetarização onde os médicos iriam ver se o seu sistema se adaptava ao planeta ou se seria necessário ser metamorfizado. Um colono nunca sabia bem qual o planeta que lhe coubera em sorteio. Bem talvez os Alfas soubessem, mas decididamente nunca Deltas. Não adiantava moer a cabeça. Em breve saberia. À sua frente a porta abria-se.

A primeira bala falhou a cabeça por milímetros. A segunda teve mais sorte e apanhou-o no ombro fazendo girar sobre si próprio e perder o equilíbrio. Momentos antes de cair no pavimento do vaivém sentiu outro impacto na base da coluna. Depois veio a dor dos impactos, quer das balas, quer contra o pavimento. E por fim veio o oblívio.

Quando veio a si estava preso numa cadeira, totalmente nu. A divisão onde estava não devia medir mais de quatro por quatro metros. Embora firmemente amarrado conseguia virar a cabeça e constatar que, pelo menos dos lados as paredes não tinham janelas nem orifícios. Também não distinguiu nenhuma porta. A parede imediatamente à sua frente tinha um enorme espelho que ele suspeitava que não fosse inteiramente verdadeiro. Sentia-se observado. Fez a única coisa que se lembrou: gritou!

Afinal na parede do seu lado esquerdo havia uma porta, tão bem camuflada que mesmo depois de aberta era difícil perceber onde acabava a parede e começava a porta. Por ela passaram dois homens trajados de fato negro, camisa branca e gravata azul. Ambos usavam óculos escuros. Clemente apeteceu-lhe rir perante a incongruência da situação. “Ó meu Deus,” - pensou - “vou ser interrogado pelos MIB!” Cada um dos homens posicionou-se em frente dele a igual distância dele. Ia começar a rotina do “bom agente” - “mau agente”. Clemente preparou-se mentalmente já que fisicamente nada podia fazer. Ao menos que quando batessem não fizessem grande estrago, pensou.

O MIB do lado direito iniciou o interrogatório:

- Como te chamas? De onde vieste?
Clemente não viu razão para mentir. Disse o nome e de onde viera. A segunda resposta valeu-lhe uma valente bofetada que o deixou meio inconsciente. O segundo MIB acercou-se dele, levantou os óculos escuros e com um ar preocupado instou-o a dizer a verdade, para bem dele. O primeiro MIB voltou a perguntar-lhe de onde viera.
- Porra, pá! Já disse que vim da Terra. Se vocês saloios não sabem onde fica porque não compram um Atlas Galáctico? - tal como esperava esta resposta mereceu nova bofetada.
Massajando a mão com que o esbofeteara o MIB deu uns passos pela sala e por fim saiu pela porta. O segundo agente recomeçou a representação de “agente bom”.
- Tenho de pedir desculpa pelo Esteves. O ânimo dele não anda lá muito em cima e descarrega facilmente. Mas se tu colaborasses um pouco ele ficava diferente. Acredita que me custa ver-te a levar assim porrada. Porque não dizes logo que és um agente soviético?
- Um agente quê?
- Soviético. És um comuna pá. E a gente já sabe disso. Isto é uma mera formalização do que já sabemos portanto podias poupar a ti próprio um mundo de dor e escarravas cá para fora tudo. Como planeavam entrar nos EUA, como planeavam assaltar os nossos silos e por fim o Pentágono e a Casa Branca. Acredita, pá! Nós sabemos de tudo. Os outros que apanhámos antes de ti disseram até as cores das ceroulas do camarada Kruschev!
- Se eu vos disser que não faço a mínima ideia do que estás para aí a dizer, acreditavas?
O agente abanou a cabeça aferrando um ar tristonho.
- Tss, tss. Assim vai ser difícil. Vai, vai.
Nesse momento entrou novamente o agente Esteves. Ou talvez fosse outro. Ao Clemente pareciam todos saídos do mesmo molde. Até na cor do cabelo e na altura eram iguais. O agente Esteves acercou-se dele e segredou-lhe ao ouvido:
- Podemos fazer isto da maneira fácil ou da maneira dolorosa. Qual é que escolhes pedaço de merda?
- Ora essa! Escolho a maneira fácil! - Clemente podia ser um Delta mas não era parvo. Na hora que se seguiu foi inventando o melhor que podia por forma a corresponder às expectativas interrogativas dos agentes. Por vezes não sabia bem o que responder mas com um incentivo verbal do “agente bom” lá conseguiu ir construindo uma fantasia que parecia a cada momento mais agradar ao Esteves. Ao fim duma hora de perguntas e respostas os agentes sairam do cubículo trancando a porta atrás deles. A Clemente restou-lhe olhar-se no espelho que agora não duvidava ser um vidro duma via. Um dos lados da cara estava inchado do sopapo. O outro apresentava um ligeiro corte que sangrava ligeiramente, já quase coagulado. Estava bonito, sim senhor!

As luzes apagaram-se. Há umas horas atrás vira-se forçado a urinar e a defecar, pois ninguém respondera aos seus apelos. Agora o frio e a fome apertavam. E o cheiro era horrível! No escuro pareceu ouvir ruídos mas nenhuma porta se abriu. Pelos vistos os agentes dos EUA tencionavam deixá-lo ali toda a noite, ou dia. A verdade é que já perdera a noção de quanto tempo passara desde que tinha sido imobilizado pelas balas atordoantes. Concentrou-se a tentar erguer-se sobre as pontas dos pés, mas estava demasiadamente bem amarrado para conseguir algum movimento. Restava-lhe dormir.

Acordou com a noção de movimento. Sabia que tinha os olhos abertos mas continuava imerso em breu. Por fim percebeu que tinha uma carapuça sobre a cabeça. Já não estava atado à cadeira pois sentia uma superfície dura contra toda a extensão do corpo. Devia estar deitado nalgum tipo de veículo que sacolejava e emitia ruídos de motor. Ainda tinha os membros presos. Manteve-se imóvel tentando pelo som perceber se estava ou não acompanhado mas os ruídos roucos do motor disfarçavam qualquer outra presença. Rolou sobre si. Se alguém estivesse consigo decerto notaria o movimento. Tinha de arriscar. A acção não desencadeou nenhuma resposta pelo que assumiu que ou fora ignorado, ou estava efectivamente sozinho nalgum compartimento dum veículo. Mais animado começou a procurar maneira de se sentar. Os esforços provocaram-lhe alguns espasmos musculares mas por fim, empurrando o corpo contra uma das superficíes ergueu-se o suficiente para se colocar na posição de gatas. Agora restava-lhe tentar afrouxar os nós que o prendiam se bem que sentisse que estava preso com fita plástica o que iria dificultar imenso a tarefa.

Ao cabo duma meia hora de grunhidos, esfoladelas, e muito suor conseguiu soltar os pés. Com maior liberdade de movimentos sentou-se o melhor possível e começou a gargantuesca tarefa de tentar libertar os pulsos. Não chegou a completar a tarefa pois uma violenta explosão sacudiu o veículo que se imobilizou, vibrando. Ouviu distintamente vários gritos de alarme, mais duas ou três explosões, o matraquear inconfundível de armas automáticas e uma correria de várias pessoas gritando frases de comando que cada qual parecia ignorar. Ao fim dum bocado reinou o silêncio. Um barulho de metal contra metal mesmo junto a si assustou-o. Percebeu que alguém tentava entrar no compartimento onde estava. Um pouco mais de marteladas de metal em metal e a entrada pareceu ceder. Alguém entrou para dentro do veículo e com mãos rudes e sem uma palavra agarrou-o sem cerimónias e meio arrastando-o, meio ajudando-o a andar fê-lo sair do compartimento. Tiraram-lhe o capuz e a forte luz solar encandeou-o. A pouco e pouco começou a divisar os rostos dos seus novos captores. Todos protegidos por máscaras passa-montanha era difícil perceber quem seriam. Também pouco importava. Há algum tempo que Clemente percebera que desde que saira do estase que não estava fadado a conseguir ter agum controlo sobre o seu destino. Era deixar-se ir com a maré. Aqui estou, aqui me têm era o seu novo lema de vida.
- Camarada! Estás livre! Alegra-te! - Quem falara bateu-lhe fortemente nas costas. - Percebes o que te digo? - depois virando-se para os outros – Se calhar não sabe inglês. Quem é que fala aqui russo? - os outros encolheram os ombros até que um deles se adiantou:
- Não me parece que nos devamos alongar mais por estas bandas. Não tarda temos os porcos em cima de nós. Eu sugeria irmos andando.
- Claro que sim, camarada! Vamos já. Só queria sossegar o nosso herói. - retorquiu o que falara em primeiro lugar.
Dois deles pegaram-lhe nos braços e sem se preocuparem em soltá-lo carregaram-no e arrastaram-no até um jipe que estava ali perto. Agora menos encadeado Clemente conseguiu ver que uma coluna de três veículos estava imobilizada numa estrada sem nada em redor. Ele tinha vindo numa carrinha blindada que seguia no meio de dois jipes de aspecto militar. Os jipes ardiam largando no ar um espesso fumo fuliginoso. A carrinha tinha os pneus furados. Aqui e ali viam-se corpos de agentes e militares em grotescas posições de morte. E todo o golpe parecia ter sido efectuado por estes homens que, Clemente via agora, eram apenas quatro. Que eficiência! Fossem eles quem fossem pensavam ser ele um herói e isso na agenda dele era bom sinal. Parecia que as coisas agora lhe iriam correr de feição. Pelo menos até que eles percebessem que de herói pouco tinha e de Delta tinha tudo. Enfim... como há pouco pensara, era deixar-se ir na maré. Até porque continuava de mãos literalmente atadas.

(continua)
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Samwise » 06 Mar 2007 10:36

:tongue:

Mas isto está a tomar sentidos que anteriormente nem vinham ao pensamento (o que de resto é sempre bom sinal)...

Os comentários ácidos à inépcia e estupidez do "governo" podem ter desaparecido do horizonte, mas o clima meio-kafkiano continua todo lá - o homem (pelo menos está com um corpo de homem, de momento) não sabe onde está, quando está, nem porque está; e se anteriormente ainda tinha alguma liberdade de acção, agora é a acção que lhe domina a liberdade.

Está engraçada, esta da mistura de um clima claramente futurista com a de-repente localização da intriga no passado terrestre da guerra-fria.

Mais, mais... (:tongue:)

Sam
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 06 Mar 2007 13:17

Obrigado pelos comentários. :smile: Irei colocando bocadinhos ao fim de cada semana se o tempo mo permitir. Repara que o clima de guerra fria tem alguns anacronismos e alternâncias em relação ao "que nós conhecemos".
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 09 Mar 2007 19:35

Nota: :lol2: Agora que estou acamado com doença "misteriosa" das duas, uma. Ou acabo mais depressa estes contos que tenho pendentes aqui no fórum ou vou ajudar a fazer crescer os ciprestes no Alto de S. João. Seja como for aqui vai o "pedaço" desta semana. :mrgreen4nw:

--------------------------------------------------
(continuação)


Já no jipe em movimento um dos libertadores soltou-lhe as mãos e deu-lhe um fato-macaco para envergar. Grato, Clemente tratou de se vestir. Sabia bem meter umas roupas em cima do corpo. Reparou que os “camaradas” continuavam de máscaras enfiadas. Ou não confiavam totalmente no herói ou ainda não tinham saído da zona de perigo. Efectivamente o barulho do rotor dum helicóptero fez-se ouvir e um deles exclamou após olhar pela janela do jipe:
- Fomos caçados, camaradas! Mete para a floresta, Doug, é a nossa única safa.

Doug, que guiava o jipe não pensou duas vezes e guinou o veículo saindo da estrada, saltando a berma e enfiando pela terra adentro em direcção a uma floresta que se espraiava num vale. O jipe provou ser um todo-o-terreno robusto agarrando-se com garra ao terreno e fazendo pouco caso dos calhaus e dos ramos que o fustigavam por baixo, por cima e pelos lados. O helicóptero ainda se fazia ouvir por sobre as copas das árvores mas decerto ia ter dificuldades em acompanhá-los. Um dos homens enfiou o torso para fora duma janela e com a semi-automática começou a saraivar na direcção do som dos rotores.

- Não adianta. Os gajos não nos vão largar tão facilmente. Temos de largar o jipe e ir de acordo com o plano B. - disse o que alertara Doug.
- Qual plano B? - perguntou um dos outros.
- Porra, o plano B. Andas a dormir ou quê?
- Não te irrites, camarada. É só porque já não me lembro bem de qual é o raio do plano B.
- O plano B é cada qual fugir para seu lado e encontrarmo-nos no ponto de rendezvous dentro de seis horas no máximo. Quem não estiver lá por essa altura é dado como desaparecido. Já te lembras agora, cabeça de alho-chocho?
- Sim, lembro-me agora, camarada Pacheco. Não é preciso falar assim.
- E vocês, lembram-se do plano B? – inquiriu Pacheco aos restantes camaradas.

Um coro afirmativo pareceu contentar Pacheco que se virou para Clemente.
- Tu vens comigo. Quando largarmos o jipe quero que corras como se a tua vida dependesse disso. Herói ou não herói não me podes atrasar. E não posso deixar ninguém para trás percebes?
Clemente acenou concordância. Entre os MIB e estes revolucionários já não tinha bem a certeza de com quem estava pior mas que fazer. Era deixar ir.

O da semi-automática voltou para dentro do jipe. A arma encravara ou estava demasiado quente ou ficara sem munições. Largou-a no chão do carro e, tal como os outros, preparou-se para saltar do jipe. Pacheco abriu a porta traseira e um a um saltaram. Doug continuou a conduzir por mais um bocado desaparecendo numa curva do trilho. Clemente começou a correr atrás de Pacheco que aparentemente caíra mal e torcera um tornozelo. Afinal tanta conversa sobre atrasos e quem o estava a atrasar era aquele tipo! Mas como o atraso estava com uma metralhadora a tiracolo Clemente optou pela diplomacia e lá o foi amparando floresta adentro.

Do helicóptero já não se ouvia nada. Tinham-se enfiado tão dentro do vale que já mal o Sol se via. Pacheco disse que iam parar um pouco. Clemente escolheu a base duma árvore cujas raízes nodosas formavam uma espécie de assentos jeitosos. Ajudou o camarada a sentar-se e fez o mesmo.
- Afinal percebes inglês não é? - inquiriu Pacheco.
- Sim. Nunca disse que não percebia.
- Bem, é que lá atrás, quando te soltámos-
- Lá atrás eu estava ainda um bocado atordoado com a situação.
- Compreensível, camarada, perfeitamente compreensível. Mas então conta-me lá como foi que conseguiste aquilo? - Pacheco tirou o passa-montanhas e Clemente viu pela primeira vez a face do companheiro. Tinha cara de miúdo, talvez uns 22 ou 23 anos, não mais que isso. Barba farta e negra a fazerem conjunto com uma cabeleira espessa, olhos castanhos e um nariz ligeiramente abatatado. Os olhos eram pequenos e juntos e irradiavam uma certa inteligência. Clemente ponderou até que ponto seria sensato contar toda a verdade, e que se resumia simplesmente a que estava completamente às apalpadelas. Talvez esta não fosse a altura certa para ser verdadeiro. Tal como com os agentes o melhor seria ir-se adaptando e tentando perceber mais do que se passava através de perguntas subtis. Afinal não passara nos apertados exames para colonizador por ser estúpido de todo. Mesmo a classe Delta tinha o seu Q.I. desenvolvido. Pelo menos estavam bastante acima dos coitados dos Thetas. E pelo que até ali vira a maior parte dos indígenas eram pouco mais que isso. Muito capazes nas artes marciais mas pouco dados a subtilezas retóricas.
- Camarada, falas daquilo mas eu estou perdido. A que “aquilo” te referes?
- Falo da vossa infiltração no espaço áereo dos EUA. Até hoje nenhum camarada do Bloco tinha conseguido esta proeza e de repente, BAM, ali estavam vocês com aquela enorme nave! Pena que os sacanas estivessem preparados e tivessem conseguido uma abordagem eficiente. Tão eficiente que pelos vistos só tu escapaste. Mas de qualquer maneira abriu-se um precedente. Diz-me lá, onde tinham vocês a nave? Sempre é verdade que têm uma base secreta na Lua?

Clemente notou que as perguntas estavam muito perto das que horas antes lhe tinham sido feitas pelos outros agentes. Não é que fosse paranóico mas... havia ali algo que não batia certo.
- Camarada eu sou uma pequena roda dentada num enorme mecanismo. Certo aspectos da nossa operação estão-me completamente vedados.
- Ah, pois, claro, claro que sim, camarada. Desculpa-me. É que não é todos os dias que vemos o princípio do fim para os porcos fascistas capitalistas. E por falar nisso se calhar era tempo de voltarmos a fazer-nos ao caminho. Senão daqui a nada o tornozelo incha-me e aí é que não me mexo. Podias ver se arranjavas um ramo que me servisse de cajado.

E Clemente começou a vasculhar o chão da floresta em busca de algo que servisse à laia de cajado. O Sol mergulhara abaixo das copas e as sombras estendiam-se pelo vale. Na penumbra aproveitou para ir lançando olhares subreptícios na direcção de Pacheco. Não conseguia ainda entender se tudo aquilo não passava duma farsa elaborada para lhe arrancar mais informação, ou se por outro lado era mesmo um revolucionário genuíno lutando contra um estado totalitário que parecia saído das páginas dos livros de história que em tempos lera na Terra. Fosse como fosse não pretendia ficar na companhia dele muito mais tempo. Esta era a altura ideal para se pôr a mexer. O Pacheco estava incapacitado, a noite caía e ele já tinha divisado um caminho lá atrás que o poderia levar para fora daquele vale. Sob a pretensa de procurar o cajado foi-se afastado mais e mais até que a folhagem parcialmente o encobriu da vista do outro. Nesse momento disparou a correr. Ainda ouviu um grito alarmado do “camarada” mas nem sequer abrandou. Para a frente é que era caminho!
Com a noite e o desconhecimento do terreno viu-se perdido no meio de todas aquelas árvores. Na sua arcologia-natal as únicas árvores eram as dos dois parques e esses estavam abertos a Deltas apenas uma vez por mês. Ao todo, ao longo dos seus trinta anos de vida apenas visitara os parques duas vezes e ambas em ocasiões especiais que tinham coincidido com aniversários. E agora ali estava ele naquele planeta, que os indígenas teimavam de também chamar Terra, perdido no meio de mais árvores do que alguma vez a sua arcologia teria. De encontrão em tropeção lá foi tentando encontrar o caminho que vira aquando da fuga desenfreada com o revolucionário. Entretanto o outro deixara de berrar o seu nome há um bom bocado de tempo. Clemente não fazia ideia se desistira ou se preferira aproximar-se dele pela calada. Fosse como fosse não tinha grande escolha agora. Mesmo que quisesse voltar para junto do homem não saberia como. De noite todas as florestas eram pardas.

Quase ao acaso acabou por dar com a pequena vereda que subia a colina que delimitava o vale. A meio da subida as árvores começaram a rarear e o topo estava completamente livre delas. Olhando em volta conseguia divisar milhas e milhas em sua volta. Ao fundo o céu brilhava com o reflexo das luzes citadinas. Meteu caminho nessa direcção. Pelos seus cálculos chegaria lá já noite velha. Valia-lhe a companhia duma lua argêntea que com a sua face cheia iluminava suavemente a paisagem. O suficiente para não tropeçar ou meter o pé nalgum buraco.

(continua)
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Samwise » 16 Mar 2007 18:21

Um estranho numa terra estranha, dir-se-ia... :tongue:

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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 14 Feb 2008 18:05

Quase um ano depois...
:tongue: (tempus fugit)
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(continuação)

Depressa percebeu que o fosso entre a intenção e a realidade era maior do que supusera. Muito antes ainda de chegar aos limites da cidade os pés, pouco habituados a tanta andança, estavam cobertos de bolhas e andar tornara-se um martírio, tanto que agora repousava sentado sobre um velho tronco caído na berma dum pequeno trilho, os pés fora das botas que de tanto uso já acusavam algum desgaste nos tacões. Botas para Deltas não eram material de primeira, nem sequer de segunda. Á parca luz da lua tentara examinar as bolhas mas sem nada para as tratar o melhor que podia fazer era tentar arrefecer os pés e depois, a custo, retomar a marcha.

Por breves momentos parecera-lhe ouvir os restolhar de folhas secas e pensou que o Pacheco o seguira apesar do pé torcido mas após alguns minutos de atenção e sem voltar a ouvir restolhadas atribuiu o ruído a algum animal nocturno. Não estava em grandes condições físicas, nunca se estava após tanto tempo de estase, mas pensava que se o Pacheco o tentasse surpreender ainda teria forças para o subjugar. O único problema seria a metralhadora mas parecera-lhe que o revolucionário estava mais interessado em respostas do que em matar. Era uma pequeníssima vantagem que Clemente esperava explorar caso a isso chegasse. Pensava agora que deveria ter tentado apoderar-se da arma. Uma arma tem sempre uma grande dose de persuasão negociativa em encontros inesperados. Não valia a pena ocupar a cabeça com esses problemas tendo em conta que tinha um muito mais premente. Tanto quanto conseguira avaliar estava ainda a meio caminho da cidade. E não fazia ideia alguma do que faria em concreto quando lá chegasse. Entregava-se às autoridades? Mas ter estado nas mãos das autoridades já lhe tinha acontecido, pelo menos a acreditar nos revolucionários e nos interrogadores, e a ideia de voltar a cair num interrogatório daqueles não lhe era muito apetecível. Outra opção era misturar-se na população, viver clandestino, tentar perceber onde estava e quando estava. Na posse de mais informação saberia melhor como agir. O problema é que não fazia ideia nenhuma de como viver clandestino. Uma coisa era ver os vídeos com histórias de aventureiros e heróis, outra muito diferente era viver na pele dessas personagens. Uma coisa era certa, se ficasse por ali o mais certo era daqui a nada ser caçado ou pelos agentes ou pelos revolucionários. O plano B do Pacheco era simples e parecia-lhe que as seis horas já deviam estar a esgotar-se. Em breve perceberiam que ele não estava com o Pacheco e decerto iriam procurá-lo. Ou talvez não. Ao fim e ao cabo não lhe pareciam muito organizados. Já os agentes pareciam ter muitos mais recursos e Clemente não se iludia que eles tivessem desistido de andarem na sua peugada. Talvez os tivesse despistado mas em breve os helicópteros deviam voltar e batedores não deviam andar por muito longe. Lembrou-se que provavelmente até o entrar na cidade poderia ser complicado. Se os agentes fossem mesmo bem organizados o certo é que todas as vias rodoviárias estivessem sob vigilância. Teria de se embrenhar no mato e entrar nos subúrbios por um caminho mais inconspícuo.

Os pés já estavam mais frescos e o ardor passara. Sabia que assim que os enfiasse nas botas as dores iam voltar e redobradas mas não havia nada a fazer quanto a isso. Era fazer das tripas, coração e seguir em frente.

A lua já descia para a linha do horizonte quando começou a ver os vultos das primeiras habitações. A terra foi-se lentamente despejando de vegetação e toda a esperança que tinha de entrar sem ser visto na cidade desapareceu quando verificou que entre a orla da floresta e os primeiros blocos habitacionais havia uma faixa de terreno nu e deserto com uns 500 ou mais metros. E estacionados no perímetro habitacional, com intervalos de 50 metros entre si estavam vários veículos de aspecto militarizado. Junto aos veículos estavam pequenos grupos de homens ou mulheres que embora aparentassem descontracção estavam armados como Clemente bem via pelas silhuetas dos canos das armas a tiracolo. A hipótese de passar despercebido no meio deles oscilava entre o zero e o zero. Nem mesmo que estivesse noite de breu Clemente conseguiria sair da floresta sem ser notado. Junto a alguns veículos estavam uns holofotes montados em tripés e embora estivessem apagados Clemente suspeitava que ao mínimo sinal de alarme eles se acenderiam e varreriam todo o perímetro. Seria o mesmo que tiro ao pato. Se isto fosse um daqueles vídeos que tanto passavam nas salas de entretenimento da arcologia bastava aniquilar um guarda, vestir-lhe o uniforme e passar calmamente pelo meio dos outros. Infelizmente isto não era nenhum vídeo e a arcologia estava a muitas centenas de anos-luz dali. Desde os acontecimentos dos últimos dias que Clemente já se arrependera mais de um milhão de vezes de ter embarcado naquela treta do sonho do colonizador. Bem vistas as coisas isso do desbravar novos mundos, de ser pioneiro e colonizador e poder vir a ascender a Alfa não passavam de ilusões metidas na cabecinha dos Deltas desde tenra idade, quer pelo sistema educacional, quer pelos dramalhões dos vídeos, quer pelas agências e corporações que descobriam e povoavam novos planetas ao ritmo de um por ano. Todos os anos milhares de Deltas e alguns Alfas metiam-se numa nave e zarpavam rumo a um qualquer planeta distante onde se estabeleciam as bases duma nova civilização. Os Alfas, os poucos que iam, serviam como coordenadores, educadores e dirigentes políticos, jurídicos e económicos. As corporações que investiam na colonização enviavam também um pequeno quadro de gerência. E os Deltas eram a força bruta, os trabalhadores indiferenciados, as mãos e os músculos que iam erguer as paredes das casas, das fábricas e das indústrias. Ao fim e ao cabo o camarada Pacheco que tanto falara em capitalistas tinha uma certa razão quando se insurgia contra a exploração da força trabalhadora. Onde ele falhava era ao não saber que muitos dos Deltas que emigravam conseguiam, por via do engenho e do suor, afastarem-se do estigma de cidadãos de segunda e ascenderem a uma vida razoável e, melhor do que tudo, conseguirem para a sua prole os melhoramentos genéticos que os afastavam definitivamente da categoria de Delta. Tudo isto pressupunha, claro, que não se acordasse num pesadelo como aquele. O arrependimento agora pouco o ajudava. Havia que fazer o melhor possível com o que o destino atirava para a frente dum gajo. A questão fulcral era, que lhe tinha o destino atirado para a frente? De momento estava encurralado. Assim que a alvorada chegasse os militares deviam meter-se floresta adentro a bater os trilhos. Podia entregar-se. Podia voltar para trás. Podia simplesmente sentar-se ali junto a um tronco e esperar. E podia tentar a sorte e ver se conseguia encontrar um ponto menos vigiado. Começou a percorrer a orla da floresta. Aqui e ali a mesma aproximava-se mais da cidade mas nunca o suficiente para ele passar pelo meio dos guardas. Os veículos, os guardas e os holofotes continuavam metodicamente colocados de 50 em 50 metros sem uma falha, sem uma brecha. Quanto mais andava mais a esperança se desvanecia no espírito de Clemente. Não via forma de escapar aquele cerco. Estava perdido. Restava-lhe entregar-se ou voltar para trás na esperança vã de reencontrar os revolucionários. Entre uns e outros, pelo menos os revolucionários não o tinham torturado. Não que tivessem tido muito tempo para tal mas sempre havia o benefício da dúvida. Tomada a decisão não perdeu nem mais um minuto. Ao longe, no horizonte, já se sentia o nascer do dia e os vultos começavam a tomar o ar pardacento do regresso das cores diurnas. Se queria voltar para trás agora era a hora.

Enfiou-se novamente para o coração da floresta.

A pouco e pouco a luz foi entrando no mundo. O ar encheu-se de sons matinais e pequenas lanças de luz atravessavam as copas das árvores iluminando a dança incansável das partículas de pó em suspensão. O trinado das aves tinha características encantatórias e Clemente, com os pés doridos para além do suportável, decidiu que era altura de descansar um pouco mais. Sentou-se e tirou a custo as botas. Com toda a caminhada do dia anterior e desta manhã as solas estavam gastas e a bota esquerda tinha já o princípio dum buraco na zona da planta do pé. Os pés estavam uma lástima, as bolhas com aspecto ensanguentado e as que tinha rebentado deixaram a carne viva em constante fricção com as meias. O sangue seco no meio dos dedos tinha uma coloração castanho-ferrugem. Sacudiu a gravilha do interior das botas, colocou as meias a enxugarem do suor e do sangue num ramo e encostou-se o melhor possível contra um tronco. Apesar de tudo sentiu as pálpebras pesadas e pouco demorou para cair num sono profundo embora perturbado.

(continua)
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