Biliões e Biliões de Sóis

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Thanatos
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Re: Biliões e Biliões de Sóis

Postby Thanatos » 16 Feb 2008 13:30

(continuação)

“Dormi o dia todo” – foi o primeiro pensamento que lhe ocorreu quando acordou. A luz escoava-se lentamente por entre os troncos e a folhagem prenunciando o regresso da noite. Tinha o corpo hirto e dorido, estava esfomeado e com vontade de urinar. A custo ergueu-se, as dores nos pés uma presença surda mas insistente. Aliviou-se contra o tronco da árvore que lhe servira de encosto, calçou as meias e as botas, fazendo caretas de dor de cada vez que tocava nos pontos sensíveis dos pés. Sentia-se de cabeça leve. Pelas suas contas já não comia há quase dois dias. A adrenalina servira-lhe de sustento por umas horas mas agora a fome e a sede regressavam em força. Estava completamente desorientado. Não fazia ideia de onde estaria a cápsula do vaivém, nem sequer se ainda lá estaria. Quase de certeza que os MIB deviam tê-la rebocado para algures. De repente a ideia de se entregar começou a fazer cada vez mais sentido. Ao menos poderia, talvez, comer e beber. Duvidava que o quisessem matar à fome. No estado em que estava, em que cada passo era uma tormenta, a cabeça a latejar e as articulações dos membros cheias de vidro moído não via grandes hipóteses de ir fosse onde fosse. O problema é que com a noite em cima dele já não conseguia distinguir bem o caminho de volta à orla da floresta. Tinha receio de enfiar o pé nalgum buraco e acabar com um tornozelo partido. Isso sim que seria de rir. Morto de fome e com um pé partido no chão duma floresta não se sabe bem onde. Olhou em volta tentando descortinar o trilho que usara até ali. A lua ainda não surgira e o escuro era quase impenetrável, ali debaixo das copas. Enquanto olhava e se decidia no rumo a seguir ouviu sons de ramos e folhas a partirem-se. De imediato estacou e tentou orientar-se na direcção dos sons. Pareciam vir do interior da floresta e quem ou o que os fazia não parecia muito preocupado em esconder a aproximação. Clemente arrastou-se o mais silenciosamente que pode para detrás dum tronco, tentando esconder-se ao mesmo tempo que mantinha uma linha de visão na direcção dos sons.

Não tardou muito a ver um vulto emergir do meio dos arbustos. Clemente quase deu um grito de alegria mas susteve-se no último instante. Ali à sua frente estava um companheiro de viagem. Não que Clemente os conhecesse a todos, a bem ver só se recordava de meia dúzia de homens e mulheres que tinham sido seus colegas no curso de instrução de voo e mesmo na penumbra não se recordava daquele mas o fato-macaco era indiscutivelmente o de um Delta. No entanto o facto de ter sido preso e torturado nas últimas horas tivera o condão de o tornar mais cauteloso. Aguardou uns momentos mais para se certificar de que o homem estava sozinho. Parecia em tão mau estado quanto ele. Coxeava ligeiramente, favorecendo a perna direita, tinha o fato-macaco sujo e rasgado em vários pontos e um ar tão desorientado quanto o que ele próprio deveria ter tido há momentos atrás. O homem olhou para um lado e outro e decidiu-se a seguir na direcção que Clemente supunha levava à orla da floresta. Clemente pensava em como o abordar. Deveria chamar ou simplesmente sair do esconderijo e meter-se à frente do outro? E se o outro reagisse impensadamente? Não lhe apetecia muito levar um murro ou um pontapé. Decidiu-se pelo chamamento.

- Hei, ó tu aí. Andas perdido? – a voz saiu-lhe rouca e fraca e a pergunta era estúpida mas dadas as circunstâncias foi o que de melhor lhe ocorreu. O outro assim que ouviu a voz estacou e, de olhar assustado, girou sobre si tentando determinar a origem da voz.

- Descansa, pá. Não te quero fazer mal. – Clemente saiu detrás da árvore e postou-se no trilho a uns cinco metros do outro.
- És um Delta também! – exclamou o estranho.
- Bem observado, pá. E posso saber o que andas aqui a fazer?
O estranho manteve o silêncio e Clemente fez a honras apresentando-se.
- Sou o Clemente, vim na Vasco da Gama II. Parece que as coisas não correram pelo melhor. Quer dizer ainda não percebi nada do que aconteceu. E tu?
O outro avançou os cinco metros que os separavam, mão estendida: - Sou o Henrique. Nem calculas como estou satisfeito por te encontrar. Já pensava que tinha dado em maluco. – apertou efusivamente a mão de Clemente. – Sai do estase e estavam lá uns gajos armados que desataram a disparar a torto e a direito. Eu fui capturado mas vi bastantes Deltas a serem chacinados. Foi uma coisa sem explicação. Trouxeram-me para o planeta e quando ia a ser encafuado numa carrinha apareceram uns outros gajos… foi uma confusão do caraças. Corri o mais que pude. Desde ontem que ando aqui no meio desta floresta sem saber para onde ir.

- Estás como eu. Cheguei a ser interrogado por uns gajos que pareciam daqueles bófias que víamos nos vídeos, sabes, aqueles todos vestidos de fato escuro, camisa branca, óculos escuros? Fizeram-me montes de perguntas parvas, se eu era espião, comuna, sei lá. Acho que quando me estavam a transferir para outra prisão houve um assalto à coluna e uns gajos revolucionários libertaram-me. Mas foi por pouco tempo. Também fugi deles e também tenho andado por aqui sem saber o que fazer. Sabias que ali ao fundo – e apontou na direcção donde viera – está uma cidade? A chatice é que está bem vigiada. Vai ser difícil entrar lá. Mas temos de fazer alguma coisa. Estou cheio de fome e sede. Por este andar não nos aguentamos muito mais. Só tu é que escapaste?

- Não… quero dizer… não sei. Éramos cinco os que viemos para baixo da Vasco mas quando se deu o assalto não sei o que os outros quatro fizeram. Nem sequer sei se estão vivos ou mortos. Mas falaste numa cidade. Achas que nos safávamos lá? Também estou a morrer de fome. – Henrique olhou para ele esperançosamente. Na breve troca de palavras que tiveram era como se já o tivesse eleito como líder. Clemente encolheu os ombros. Não tinha resposta para Henrique mas começava a pensar num plano. Vagarosamente começou a traçar o percurso de volta aos limites da cidade e pelo caminho foi explicando a sua ideia ao outro.

(continua)
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