Postas de pescada

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Thanatos
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Postas de pescada

Postby Thanatos » 08 Jun 2007 12:31

Enquanto não me volta a "inspiração" para regressar aos textos que tenho por aqui desirmanados ficam aqui estas postas que já foram publicadas noutro local.

Para os mais interessados em dois dos snippets há ligeiras alterações no final. :wink:

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Alexandra chegou a casa estafada de mais um dia de escritório e filas e calores. Desde começar a manhã comendo um donut do dia anterior e bebendo um café queimado e com borras na Pastelaria do Sr. Zé, até aos assédios sexuais babujentos do patrão (casado, pai de duas filhas e católico praticante, daqueles que vai à missa e tudo) a que ela tinha de fingir achar muita piadinha enquanto fugia a mais uma mãozinha suada no traseiro, passando pela correria das sete da tarde para não ficar muito encalacrada no trânsito da capital, tudo isto servido a mais uma dose de temperaturas na casa dos 37 graus, era obra! E eram assim quase todos os dias da vida dela, com a diferença que durante o Inverno era o frio de rachar e fazer frieiras que a incomodava.

Assim não admirava que há algum tempo atrás Alexandra num acesso de raiva se tenha passado dos carretos com o marido quando este perguntou, casualmente, se o jantar demorava muito ou fazia serão. O acesso de raiva durara uns meros cinco minutos mas foi o suficiente para mudar estrategicamente a vida da Alexandra. Agora tinha de comprar menos comida congelada de cada vez que ia ao mini-mercado do bairro, só a suficiente para encher o congelador do frigorífico. A arca essa estava demasiado cheia com os restos dele.

Mas a pouco e pouco o Bóbi acabaria comendo tudo.

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Era o primeiro dia de Outono e um Sol envergonhado espreitava por entre nuvens diáfanas quando o Armando se atirou do alto do prédio onde trabalhava há cerca de quinze anos.

Uma multidão de curiosos tinha-se apinhado na rua congestionando o trânsito e a polícia estava mais interessada em ver o Armando do que a orientar os carros. Diga-se de passagem que os condutores também não estavam demasiado preocupados em seguir marcha e alguns até saíam dos carros para melhor apreciarem a diminuta figura empoleirada na beira do telhado do edifício.

Um carro de bombeiros e uma carrinha do INEM chegaram entretanto ao local, cada um disputando o melhor local para estacionar. Por entre buzinadelas, roncadelas de motor e insultos, os respectivos condutores lá foram mau-grado conduzidos pela polícia até ao perímetro delimitado por fita amarela. Junto ao perímetro já várias equipas de reportagem se digladiavam para obterem as melhores imagens. Uma repórter de gestos intensos e cabelo de rato brandia um microfone da TSF na cara dum transeunte e perguntava-lhe várias questões de rajada a que o homem tentava em vão conseguir responder por entre as recuperações de fôlego da repórter. Máquinas fotográficas disparavam flashes, câmaras assentavam objectivas quer no Armando, quer na fachada do edifício, quer na multidão que minuto a minuto se adensava.

À hora marcada Armando saltou, tendo ainda tempo para uma cambalhota que tentou passar por duplo mortal antes do imenso párapente com o novo logotipo da empresa se abrir gloriosamente. Armando tornou-se naquele dia de Outono no primeiro português a usar a nova forma radical de publicidade empresarial.

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Sentiu a chuva fria escorrer-lhe pelas costas. Era uma sensação a um tempo revigorante e estranhamente sensual. Depois de dias e dias de calor, perdido nas areias daquele maldito deserto, a inesperada tempestade fora como uma benção, literalmente caída dos céus. Às primeiras grossas e quentes bátegas de água saciara a sede e depois luxuriara-se com a força da chuva embatendo-lhe no corpo. Em pouco tempo o chão debaixo dos pés tornara-se uma massa pastosa e agora, aqui e ali, pequenos lagos iam-se formando. Em breve a tempestade resumira-se a uma chuva prolongada, insistente mas que ele sabia não iria ser por muito mais tempo. Aproveitou enquanto durava para encher os algodres que já não viam líquido desde a última vilória, há muitas semanas atrás.

O deserto, naquela cerca de meia hora que durara a tempestade reconfigurara-se. Era agora um imenso lago, onde aqui e acolá despontavam algumas dunas mais elevadas. Do cimo de uma delas o sobrevivente perscrutava o horizonte em busca dum caminho viável. Seria no mínimo irónico que a chuva que lhe salvara a vida fosse agora a causadora da sua morte pelo simples expediente de ter tornado intransitável o deserto. O sobrevivente sabia apreciar a ironia dos elementos. Como aliás sempre apreciara todos os momentos em que de uma forma ou de outra sempre fora ludibriado no último instante por forças superiores a si. Forças que ele não se dava sequer ao trabalho de avaliar porque estavam fora do seu controlo. Que sentido faria perder energias tentando moldar o que era imoldável? O destino era o destino. Ele acreditava que o mesmo há muito que estava escrito e tentar reescrevê-lo era uma pura e simples perda de tempo. Mas por outro lado se lhe dissessem que era fatalista ou conformista depressa diria que uma coisa é aceitar o destino mais vasto que a cada um estava determinado, outra era deixar-se ir ao sabor do momento. Ele não era homem de se deixar ir na maré. Pelo menos não enquanto existisse uma alternativa viável.

Portanto agora, do alto da duna, tentava perceber onde poderia passar de forma a chegar mais perto dos limites do deserto. Já na linha brumosa do horizonte se divisavam, meio ocultos pela atmosfera e quase fantasmagóricos, os recortes serrilhados da cordilheira que marcava o fim do deserto e o começo da segunda etapa da jornada. Entre lá e aqui um imenso lago se interpunha.

A água não era muito profunda mas dificultava bastante o progresso e o sobrevivente usava de extrema cautela para não ser sugado por um aluvião encoberto pelas águas barrentas. Ao longe do seu lado direito vira uma manada de bois e vacas selvagens cruzar as águas em lenta procissão. Alguns bezerros acompanhavam a manada. Lentamente começou a alterar a rota no sentido de interceptá-los. Durante a noite conseguiria roubar um dos bezerros e assegurar comida para os dias mais próximos. As coisas compunham-se!

Mais uma vez o destino fora cruel. Aproximara-se da manada durante a noite e estivera algumas horas a observá-los à luz diáfana da lua cheia. Identificara duas cabeças de gado capazes de serem facilmente separadas do grosso da manada mas quando iniciara a lenta aproximação um dos bois dera pela sua presença e alertara a urros os outros machos e em breve o que fora uma simples surtida tornara-se num pesadelo em que o sobrevivente tentara fugir o mais rápido possível da carga alucinada dos bois selvagens. O luar que momentos antes parecera tão brilhante tornara-se no ímpeto da fuga insuficiente para escolher o melhor caminho e não tardara muito a ficar preso em raízes submersas. Os bois cercaram-no passado pouco tempo e apenas tivera a presença de espírito suficiente para se submergir por completo para iludir o cheiro. Ouvia reverberado nas águas os cascos dos bois que confusos com o súbito desaparecimento corriam sem destino à volta do local onde ele mergulhara. Arriscou apenas quebrar a superfície das águas com os lábios para sorver uma golfada de ar. Já despontava o dia no horizonte quando os bois voltaram para junto da manada.

Resignado continuou rumo às montanhas. Se o destino não lhe reservava um bom bife de bezerro que assim fosse.

Duas noites após a fuga aos bois selvagens ouviu o som dum helicóptero. Perscrutou longamente o céu estrelado mas não divisou nenhuma luz artificial que lhe indicasse a presença do aparelho. Na manhã seguinte viu que a planície voltava lentamente à configuração de deserto. Conseguiu fazer muito melhor tempo nesse dia e quase ao fim da tarde viu ainda ao longe uma silhueta que lhe pareceu ser do helicóptero da noite anterior, ou talvez fosse outro helicóptero. Ou apenas uma miragem. Em breve o saberia.

Alcançou o helicóptero no princípio da tarde do dia seguinte. Estava desocupado e em lado algum se viam sinais do piloto ou de eventuais passageiros. Na pequena cabina por detrás dos assentos estavam duas mochilas vazias e no chão da cabina duas cápsulas de munições. Cheirou-as. Tinham sido disparadas recentemente. Olhou o terreno em volta do aparelho procurando pistas na terra ainda molhada mas nada encontrou. Algumas horas depois já deixara o helicóptero para trás. As montanhas estavam mais perto.

Eles vieram na noite enquanto dormia. Um deles, o mais corpulento pelo que conseguira ver nos breves momentos antes de lhe enfiarem um capuz na cabeça, dera-lhe um forte murro na boca do estômago roubando-lhe a respiração e o companheiro enfiara-lhe o capuz enquanto jazia por terra. Sentiu os pés e as mãos a serem atados. Foi largado sem cerimónias e pelos ruídos que lhe chegavam abafados através do capuz percebeu que os assaltantes estavam desiludidos com o conteúdo pobre da sua mochila. Gritou mas não obteve outra resposta a não ser um violento pontapé nas costelas. Ao fim de algum tempo ouviu que os assaltantes se afastavam conversando ininteligivelmente entre si.

Era o destino. A poucos dias de alcançar as montanhas jazia atado e encapuçado. Tinham-no prendido com umas braçadeiras de plástico. Cruelmente apertadas cortavam-lhe a circulação das mãos e dos pés. O capuz abafava-o e o calor do deserto dificultava-lhe a respiração por detrás do pesado tecido. Quanto tempo levaria até morrer de sede ou fome? Lembrava-se de ter lido algures, nos tempos em que ainda tinha tempo para frivolidades como ler, que se morria mais depressa de sede do que de fome mas neste preciso instante daria tudo por uma boa lasca de carne salgada. Como aquelas que tinha na mochila e que decerto agora estavam na posse dos assaltantes. A fome era como um gigante sentado em cima do estômago. Comprimia e comprimia e quase roubava os sentidos de tão premente que era. Doía-lhe o lado onde recebera um pontapé mas mesmo essa dor empalidecia quando comparada com a dor de cabeça que se instalava a pouco e pouco conforme o dia ia aquecendo. Tentou lembrar-se da disposição do terreno procurando mentalmente uma sombra mas não se recordava de haver protecção alguma por ali perto e mesmo que a houvesse não fazia ideia em que direcção poderia rolar. Estava destinado a morrer ali e contra isso nada havia a fazer. Quanto mais depressa aceitasse isso mais depressa se conformaria e entraria em paz consigo próprio.

O dia passou numa agonia de dor, sede e fome. A noite veio encontrá-lo delirante, balbuciando nomes que julgara já esquecidos mas que a memória conservara. Encetou longas conversas com antigas paixões, discutiu filosoficamente com mentores que hoje eram pó, alegrou-se com o rosto da mãe e do pai em tempos mais felizes. Por fim, exausto, entregou-se a um sono perturbado.

Morreu serenamente às primeiras horas da madrugada. Não de fome, nem de sede, mas de lesões internas provocadas pelo pontapé que lhe provocara uma embolia que acabara por encher os tecidos de sangue. O cadáver viria a ser recolhido por uma equipa de salvamento que saíra da cidade mais próxima dois dias antes em busca dos pilotos dum helicóptero que lançara um apelo via rádio. A viagem de regresso à cidade que ficava além das montanhas foi feita em meia hora num jipe. Se soubesse comentaria com um sorriso irónico que quis o destino que nunca tivesse tirado a carta de condução.


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Chegou a casa pelas sete da tarde, como habitualmente.

Como habitualmente mudou a areia do gato e despejou uma lata de Whiskas no prato do bichano.

O gato é um persa e chama-se Aristides.

Despiu-se, encheu a banheira de água quente, adicionou-lhe os sais de banho e entrou na água acompanhado pelo jornal diário, como habitualmente.

Gosta de ler o Público.

Como habitualmente, pelas oito e meia da tarde ligou a televisão na TVI e acompanhou as notícias enquanto cozinhava o jantar.

Hoje jantou bróculos cozidos com batatas e pescada. A acompanhar um ovo, também cozido.


Depois do jantar meteu a loiça suja na máquina de lavar e ligou-a, como habitualmente.

Foi ao quarto de dormir, subiu a um banco e da parte de cima do roupeiro tirou um estojo. Abriu-o.

Hoje apetecia-lhe fazer algo fora do habitual por isso saiu do apartamento, meteu-se no elevador até ao último piso, subiu a pé o lance de escadas que levava ao sótão, saiu pela janela para o telhado e quebrou a rotina a fazer de conta que disparava sobre os pedestres na avenida lá em baixo. Por um fatal acaso do destino quando se levantou para regressar ao remanso do lar encravou o pé direito numa fenda da telha de lusalite, perdeu o equilíbrio, rolou telhado afora vindo precipitar-se cá em baixo sobre um Audi, pertença do dono do restaurante da rua. O seguro do carro estava caducado há dois dias.


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Manuel gostava de pombos fritos. Era um gosto que já lhe vinha desde tenra idade quando um dia o pai, farto de cuidar do pombal que mantinha no terraço dum prédio nos subúrbios da Capital, decidira passar de columbófilo a cozinheiro e num ápice reduzira a população do pombal de umas centenas de aves até uns meros cinco pombos enfezados que por piedade o pai soltara aos céus. Durante semanas a fio Manuel provara pombo cozinhado das mais diversas e imaginativas formas. No forno, na brasa, cozido, frito, assado. Enfim, um estendal de receitas em que a peça principal era pombo. Mas de todas as receitas a que mais lhe agudizara as papilas gustativas fora o pombo frito. Assim mesmo, só frito, sem acompanhamentos a não ser talvez um copo de tinto ou à falta de melhor uma loira bem fresquinha. Um pouco de alho, algum sal e estava ali para o Manuel um acepipe digno de príncipes.

O problema é que cada vez era mais difícil encontrar pombos à venda. Levaram o mesmo destino que a petinga e o jaquinzinho. Coisas da UE, que insistia em proteger determinadas espécies e além disso o pombo como ementa decaíra no gosto da clientela de há uns anos aquela parte. Manuel agora socorria-se de amigos caçadores que, oportunistas, lhe cobravam os olhos da cara por borrachinhos tenros e apetitosos.

Um dia, num daqueles momentos de epifania que volta e meia cruzam a vida duma pessoa, estando ele no Jardim da Estrela sentado num banco aquecendo as pernas e lendo o jornal, reparou, talvez pela primeira vez, no constante arrulhar dos pombos. Aquele som que sempre parecera fazer parte da banda sonora da cidade estava de tal forma enraizado no subconsciente que foi com algum esforço que Manuel verdadeiramente reparou no som e na implicação que tal som tinha. Ali, junto aos pés dele, pelo mísero preço de uns miolos de carcaça estava a solução dos seus problemas. Como se uma janela se abrisse na sua mente Manuel viu com outros olhos o mar de pombos que pejava a calçada. Eram imensos. Centenas, talvez milhares de pombos que se digladiavam por uns bocados de papo-seco que as velhinhas e os petizes nunca se cansavam de lhes atirar.

No dia seguinte Manuel surgiu com um saco cheio de carcaças e dirigiu-se para uma área mais reservada do jardim. Sentou-se num banco à sombra e começou a esfarelar as carcaças. Não levou muito tempo a que os olhinhos tangerina dos pombos captassem aquela fonte de alimento e de imediato Manuel se viu rodeado de bicos insistentes que picavam o direito a nutrirem-se. Até lhes achava piada na sofreguidão com que se lançavam ao miolo. Brincou. Atirava o pão para longe para os ver a correrem e esvoaçarem, depois atirava mais perto para de novo ver a revoada. Era um jogo que o entretinha.

Cumpriu o ritual durante duas semanas. Chegou ao ponto em que só de o verem os pombos já se aproximavam. Ainda dizem que os animais não são inteligentes. Falem-lhes ao estômago que logo vêem. Ao fim das duas semanas, além do saco com as carcaças, Manuel trouxe uma capa. Nada de muito espampanante. Na verdade era uma daquelas capas que os universitários usam. Para os efeitos pretendidos servia bem. Manuel estudara os ritmos do jardim e já conhecia bem as horas de maior afluência. De manhã era um sossego. Só os velhotes andavam por ali. Perto do meio-dia a coisa complicava-se com miudagem das escolas e alguns homens e mulheres que aproveitavam a hora do almoço para irem ali à bica. Por volta das três da tarde era a vez dos infantários. Depois das seis da tarde e até ao fecho do jardim era impossível. Ficava cheio de famílias, namorados, velhos, novos, enfim, uma autêntica multidão. Por isso a hora escolhida tinha mesmo de ser logo pela manhãzinha, assim que os portões eram abertos cerca das oito e meia. Até porque os pombos pareciam insaciáveis e para eles toda a hora era boa para picarem.

Manuel começou o lento ritual de esfarelar o pão para a pequena multidão que já se avizinhara dele. Ajeitou a capa no banco a seu lado estendendo-a. E quando ninguém estava por perto lançou-a num movimento várias vezes treinado no quarto em sua casa. Tinha ganho um jeito especial nos pulsos, como um pescador que lança a rede. Num instante a capa tapou vários pombos e num instante Manuel recolheu as pontas, atou-as e enfiou o embrulho arrulhante numa mochila.

Continuou mais uns momentos a espalhar o pão. Desconfiados os pombos olhavam-no de longe e não se aproximavam a não ser os mais temerosos que vinham debicar para logo fugir aos saltinhos. Por fim Manuel cansou-se da farsa e sacudiu os restos de pão das mãos. A mochila às costas estava quente.

Mais tarde teve de separar os pombos novos e tenros dos velhos e dos doentes. Estes matou-os sem piedade e meteu no lixo. Aos novos torceu-lhes o pescoço, cozeu-os para soltar as penas, abriu-os, esviscerou-os e meteu-os em molho de marinada. Nessa noite regalou-se!

Para seu espanto no dia seguinte os pombos não se aproximaram. Foi como se a notícia tivesse corrido o bando. Poisavam nos ramos das árvores e olhavam-no fixamente. Os que andavam pelo chão à cata mal se apercebiam da sua presença levantavam voo. Manuel ficou sentado uma hora esfarelando pão mas nem mesmo os mais valentes se aproximaram. Ao fim dessa hora Manuel tinha um monte de migalhas qual Evereste panífero. Desconsolado, foi-se embora. Já perto da saída voltou-se e viu que alguns pombos circundavam o Evereste mas ainda assim não lhe tocavam. O vento acabou por dispersar as migalhas.

Durante o resto da semana Manuel cumpriu o ritual com o mesmo efeito. Os pombos evitavam-no. Parecia-lhe até que o olhavam com animosidade e não raras vezes sentira um calafrio ao virar-lhes costas e ouvindo-os arrulhar do cimo das árvores. Desistiu da caçada. Teria de se voltar a socorrer dos amigos caçadores. Ainda pensou em tornar-se columbófilo mas depressa percebeu que as associações controlavam rigorosamente as populações e ser-lhe-ia muito difícil explicar os desaparecimentos em massa das aves. Enfim, conformou-se.

Os dias passaram, tornando-se em semanas que deram vagarosamente lugar a meses. O tempo arrefeceu, primeiro gradualmente, depois mais bruscamente. Uma certa manhã Manuel acordou ao som da chuva a tamborilar do lado de fora da janela. O céu estava de chumbo. Levantou-se e ficou alguns momentos a olhar pelos vidros enrugados da água. Ia a voltar costas para começar as abluções matinais quando viu o pequeno corpinho cinzento pousar no parapeito. Por momentos pensou que alucinava. Mas não. Era mesmo um pombo que o olhava do lado de fora com aquele jeito especial das aves de torcerem a cabeça. Depois e para grande espanto dele o pombo bateu no vidro com o bico. Não uma, mas três vezes. Hesitantemente chegou-se à janela, desprendeu o caixilho e abriu-a. O pombo levantou voo de imediato, deixando-o ali aos salpicos da chuvinha miúda. Ainda espreitou para o céu mas já não o conseguiu ver. Ia para voltar a cerrar a janela quando um pequeno bando de pombos vindo por cima do prédio passou a rasar em frente à janela. Voltearam uma, duas vezes e por fim pousaram em linha no parapeito. Ali ficaram olhando para ele.

Até que Manuel percebeu. Estavam magros. Tinham fome. Ir à cozinha buscar os restos do pão do dia anterior, esmigalhá-lo em pequenos farelos e depositá-los no parapeito da janela foi obra de um minuto. Os pombos lançaram-se vorazmente ao pão. Manuel apreciou-os de dentro do quarto. Não se atrevia a chegar-se mais do que o necessário. A certa altura um dos pombos olhou fixamente para ele. Era um pombo velho. Tinha já as penas algo gastas nas pontas das asas, o bico amarelado e falhado e uma das patas terminava num coto, resultado provável dalguma doença de outrora. Um a um os pombos pararam de debicar, entreolharam-se e sem aviso começaram a bicar a cabeça de um deles. O pombo tentou esquivar-se mas os outros em maior número não lho permitiram. Não demorou muito a morrer. Os outros levantaram voo deixando ali o corpo inerte.

Daí em diante ao Manuel nunca mais faltaram borrachinhos novos e roliços. Não muitos, que os pombos nunca lhe ofereciam mais do que um a cada dois dias, mas o suficiente para o confortar. E os pombos, esses também deixaram de se preocupar com os Invernos.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Postas de pescada

Postby Samwise » 02 Aug 2007 16:05

Já tinha lido estas postas lá no outro lado, mas é sempre bom rir um bocado à pala de bons momentos de escrita.

Nice snippets! :smile:

Sam
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Re: Postas de pescada

Postby Thanatos » 02 Aug 2007 18:09

Thanks. :smile:
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Sofia
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Re: Postas de pescada

Postby Sofia » 19 Oct 2007 15:47

Eu até nem gosto muito de pescada, mas estas postinhas... Uma Delícia. Mesmo.

De comer e chorar por mais.

Thumbs up.


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