Manuel e os pombinhos

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Thanatos
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Manuel e os pombinhos

Postby Thanatos » 07 Oct 2008 11:35

Manuel gostava de pombos fritos. Era um gosto que já lhe vinha desde tenra idade quando um dia o pai, farto de cuidar do pombal que mantinha no terraço dum prédio nos subúrbios da Capital, decidira passar de columbófilo a cozinheiro e num ápice reduzira a população do pombal de umas centenas de aves até uns meros cinco pombos enfezados que por piedade o pai soltara aos céus. Durante semanas a fio Manuel provara pombo cozinhado das mais diversas e imaginativas formas. No forno, na brasa, cozido, frito, assado. Enfim, um estendal de receitas em que a peça principal era pombo. Mas de todas as receitas a que mais lhe agudizara as papilas gustativas fora o pombo frito. Assim mesmo, só frito, sem acompanhamentos a não ser talvez um copo de tinto ou à falta de melhor uma loira bem fresquinha. Um pouco de alho, algum sal e estava ali para o Manuel um acepipe digno de príncipes.

O problema é que cada vez era mais difícil encontrar pombos à venda. Levaram o mesmo destino que a petinga e o jaquinzinho. Coisas da UE, que insistia em proteger determinadas espécies e além disso o pombo como ementa decaíra no gosto da clientela de há uns anos aquela parte. Manuel agora socorria-se de amigos caçadores que, oportunistas, lhe cobravam os olhos da cara por borrachinhos tenros e apetitosos.

Um dia, num daqueles momentos de epifania que volta e meia cruzam a vida duma pessoa, estando ele no Jardim da Estrela sentado num banco aquecendo as pernas e lendo o jornal, reparou, talvez pela primeira vez, no constante arrulhar dos pombos. Aquele som que sempre parecera fazer parte da banda sonora da cidade estava de tal forma enraizado no subconsciente que foi com algum esforço que Manuel verdadeiramente reparou no som e na implicação que tal som tinha. Ali, junto aos pés dele, pelo mísero preço de uns miolos de carcaça estava a solução dos seus problemas. Como se uma janela se abrisse na sua mente Manuel viu com outros olhos o mar de pombos que pejava a calçada. Eram imensos. Centenas, talvez milhares de pombos que se digladiavam por uns bocados de papo-seco que as velhinhas e os petizes nunca se cansavam de lhes atirar.

No dia seguinte Manuel surgiu com um saco cheio de carcaças e dirigiu-se para uma área mais reservada do jardim. Sentou-se num banco à sombra e começou a esfarelar as carcaças. Não levou muito tempo a que os olhinhos tangerina dos pombos captassem aquela fonte de alimento e de imediato Manuel se viu rodeado de bicos insistentes que picavam o direito a nutrirem-se. Até lhes achava piada na sofreguidão com que se lançavam ao miolo. Brincou. Atirava o pão para longe para os ver a correrem e esvoaçarem, depois atirava mais perto para de novo ver a revoada. Era um jogo que o entretinha.

Cumpriu o ritual durante duas semanas. Chegou ao ponto em que só de o verem os pombos já se aproximavam. Ainda dizem que os animais não são inteligentes. Falem-lhes ao estômago que logo vêem. Ao fim das duas semanas, além do saco com as carcaças, Manuel trouxe uma capa. Nada de muito espampanante. Na verdade era uma daquelas capas que os universitários usam. Para os efeitos pretendidos servia bem. Manuel estudara os ritmos do jardim e já conhecia bem as horas de maior afluência. De manhã era um sossego. Só os velhotes andavam por ali. Perto do meio-dia a coisa complicava-se com miudagem das escolas e alguns homens e mulheres que aproveitavam a hora do almoço para irem ali à bica. Por volta das três da tarde era a vez dos infantários. Depois das seis da tarde e até ao fecho do jardim era impossível. Ficava cheio de famílias, namorados, velhos, novos, enfim, uma autêntica multidão. Por isso a hora escolhida tinha mesmo de ser logo pela manhãzinha, assim que os portões eram abertos cerca das oito e meia. Até porque os pombos pareciam insaciáveis e para eles toda a hora era boa para picarem.

Manuel começou o lento ritual de esfarelar o pão para a pequena multidão que já se avizinhara dele. Ajeitou a capa no banco a seu lado estendendo-a. E quando ninguém estava por perto lançou-a num movimento várias vezes treinado no quarto em sua casa. Tinha ganho um jeito especial nos pulsos, como um pescador que lança a rede. Num instante a capa tapou vários pombos e num instante Manuel recolheu as pontas, atou-as e enfiou o embrulho arrulhante numa mochila.

Continuou mais uns momentos a espalhar o pão. Desconfiados os pombos olhavam-no de longe e não se aproximavam a não ser os mais temerosos que vinham debicar para logo fugir aos saltinhos. Por fim Manuel cansou-se da farsa e sacudiu os restos de pão das mãos. A mochila às costas estava quente.

Mais tarde teve de separar os pombos novos e tenros dos velhos e dos doentes. Estes matou-os sem piedade e meteu no lixo. Aos novos torceu-lhes o pescoço, cozeu-os para soltar as penas, abriu-os, esviscerou-os e meteu-os em molho de marinada. Nessa noite regalou-se!

Para seu espanto no dia seguinte os pombos não se aproximaram. Foi como se a notícia tivesse corrido o bando. Poisavam nos ramos das árvores e olhavam-no fixamente. Os que andavam pelo chão à cata mal se apercebiam da sua presença levantavam voo. Manuel ficou sentado uma hora esfarelando pão mas nem mesmo os mais valentes se aproximaram. Ao fim dessa hora Manuel tinha um monte de migalhas qual Evereste panífero. Desconsolado, foi-se embora. Já perto da saída voltou-se e viu que alguns pombos circundavam o Evereste mas ainda assim não lhe tocavam. O vento acabou por dispersar as migalhas.

Durante o resto da semana Manuel cumpriu o ritual com o mesmo efeito. Os pombos evitavam-no. Parecia-lhe até que o olhavam com animosidade e não raras vezes sentira um calafrio ao virar-lhes costas e ouvindo-os arrulhar do cimo das árvores. Desistiu da caçada. Teria de se voltar a socorrer dos amigos caçadores. Ainda pensou em tornar-se columbófilo mas depressa percebeu que as associações controlavam rigorosamente as populações e ser-lhe-ia muito difícil explicar os desaparecimentos em massa das aves. Enfim, conformou-se.

Os dias passaram, tornando-se em semanas que deram vagarosamente lugar a meses. O tempo arrefeceu, primeiro gradualmente, depois mais bruscamente. Uma certa manhã Manuel acordou ao som da chuva a tamborilar do lado de fora da janela. O céu estava de chumbo. Levantou-se e ficou alguns momentos a olhar pelos vidros enrugados da água. Ia a voltar costas para começar as abluções matinais quando viu o pequeno corpinho cinzento pousar no parapeito. Por momentos pensou que alucinava. Mas não. Era mesmo um pombo que o olhava do lado de fora com aquele jeito especial das aves de torcerem a cabeça. Depois e para grande espanto dele o pombo bateu no vidro com o bico. Não uma, mas três vezes. Hesitantemente chegou-se à janela, desprendeu o caixilho e abriu-a. O pombo levantou voo de imediato, deixando-o ali aos salpicos da chuvinha miúda. Ainda espreitou para o céu mas já não o conseguiu ver. Ia para voltar a cerrar a janela quando um pequeno bando de pombos vindo por cima do prédio passou a rasar em frente à janela. Voltearam uma, duas vezes e por fim pousaram em linha no parapeito. Ali ficaram olhando para ele.

Até que Manuel percebeu. Estavam magros. Tinham fome. Ir à cozinha buscar os restos do pão do dia anterior, esmigalhá-lo em pequenos farelos e depositá-los no parapeito da janela foi obra de um minuto. Os pombos lançaram-se vorazmente ao pão. Manuel apreciou-os de dentro do quarto. Não se atrevia a chegar-se mais do que o necessário. A certa altura um dos pombos olhou fixamente para ele. Era um pombo velho. Tinha já as penas algo gastas nas pontas das asas, o bico amarelado e falhado e uma das patas terminava num coto, resultado provável dalguma doença de outrora. Um a um os pombos pararam de debicar, entreolharam-se e sem aviso começaram a bicar a cabeça de um deles. O pombo tentou esquivar-se mas os outros em maior número não lho permitiram. Não demorou muito a morrer. Os outros levantaram voo deixando ali o corpo inerte.

Daí em diante ao Manuel nunca mais faltaram borrachinhos novos e roliços. Não muitos, que os pombos nunca lhe ofereciam mais do que um a cada dois dias, mas o suficiente para o confortar. E os pombos, esses também deixaram de se preocupar com os Invernos.

© Ricardo Loureiro, 2006
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Nela » 07 Oct 2008 11:43

Retorcido q.b.. Gosto! :happy:
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby pco69 » 07 Oct 2008 12:06

Faz-me lembrar a cena do Watership Down, onde um bando de coelhos assume estar num sitio a ser alimentados para posteriormente serem eles alimento dos humanos

Quando os nossos heróis (coelhos) o descobrem, fojem dessa coelheira o mais rápido possivel :mrgreen4nw:
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Pedro Farinha » 07 Oct 2008 13:19

Bastante bem conseguido, fez-me logo lembrar os sacrificios que as religiões costumam fazer para aplacar a ira dos deuses.

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Re: Manuel e os pombinhos

Postby azert » 07 Oct 2008 14:07

E dizes tu que o meu texto é sádico! :mrgreen4nw:

Muito bom, Thanatos. :notworthy:
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Nela » 07 Oct 2008 14:13

O sacrifício consciente mas involuntário de um elemento da sociedade em prol do bem comum... Como será que escolhiam o seguinte? Como conseguiam viver na incerteza se no dia seguinte chegariam à noite? Lembra-me demasiado o fanatismo religioso ou o comunismo levado ao extremo, a roçar o desumano. :sleep:
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Samwise » 07 Oct 2008 18:26

Nela wrote:O sacrifício consciente mas involuntário de um elemento da sociedade em prol do bem comum... Como será que escolhiam o seguinte? Como conseguiam viver na incerteza se no dia seguinte chegariam à noite? Lembra-me demasiado o fanatismo religioso ou o comunismo levado ao extremo, a roçar o desumano. :sleep:


A mim lembra-me o Dune... :wink:

Já tinha lido este conto lá no teu entretanto desactivado blog* - e já que falamos em desactivado, o que aconteceu à tua zona de contos aqui no BBDE? Só a consigo ver quando estou logado, e daí a seguinte pergunta: as outras pessoas aqui do fórum conseguem ver o "cantinho do escritor - prosa" do Thanatos?

* - Para além deste, tinhas lá mais uns tantos contos suculentos...

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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Thanatos » 07 Oct 2008 18:30

Samwise wrote:Já tinha lido este conto lá no teu entretanto desactivado blog* - e já que falamos em desactivado, o que aconteceu à tua zona de contos aqui no BBDE? Só a consigo ver quando estou logado, e daí a seguinte pergunta: as outras pessoas aqui do fórum conseguem ver o "cantinho do escritor - prosa" do Thanatos?

* - Para além deste, tinhas lá mais uns tantos contos suculentos...

Sam


Pois, eu desactivei o meu cantinho, ficou só visível para admins. Ainda tenho mais vergonha das coisas de outrora do que tu próprio. :blush:
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Nela » 07 Oct 2008 18:32

Thanatos wrote:Pois, eu desactivei o meu cantinho, ficou só visível para admins. Ainda tenho mais vergonha das coisas de outrora do que tu próprio. :blush:


:ohmy: Desculpa?! Então que direi eu?! Será melhor deixar de escrever publicamente outra vez, não?! :ohmy:
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Samwise » 07 Oct 2008 18:46

Thanatos wrote:Pois, eu desactivei o meu cantinho, ficou só visível para admins. Ainda tenho mais vergonha das coisas de outrora do que tu próprio. :blush:


Pois, mas eu tenho razões para isso...

Sam
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby azert » 07 Oct 2008 19:00

Vamos andar à luta para ver qual de nós tem mais razões para envergonhar-se das coisas que escreveu, é? :mrgreen4nw:
Eu cá acho que deve chegar para todos.
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Pedro Farinha » 07 Oct 2008 19:00

Eh eh, faz-nos bem olhar para trás e ver como éramos na altura. Viram os Gato Fedorento, então o Ricardo Araújo Pereira não mostrou a sua cara de adolescente borbulhosa ?

e estes textos do Thanatos não me parecem nada maus, bem antes pelo contrário.

Se por exemplo forem espreitar o único poema que pus aqui, desmancham-se a rir e têm sorte porque se vissem o que punha noutros sitíos por onde eu andava no minimo era expulso do BBdE

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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Thanatos » 07 Oct 2008 19:01

Samwise wrote:
Thanatos wrote:Pois, eu desactivei o meu cantinho, ficou só visível para admins. Ainda tenho mais vergonha das coisas de outrora do que tu próprio. :blush:


Pois, mas eu tenho razões para isso...

Sam


Não vamos começar às cabeçadas pois não? O marreta é o outro. :mrgreen4nw: O facto é que tu Samwise és uma pessoa esforçada e que leva a sério a escrita. Se eu te disser que à vontade 90% destes textos são escritos de sopetão e que pouco tempo lhes dedico logo vias porque não me considero nem de longe nem de perto "escritor", nem a tal tenho pretensões. Assim e no intuito de poupar almas mais sensíveis retirei de vista os vários textos que tinha por aí.

Sucedeu apenas que em relação ao Eros & Thanatos e ao Alberta da azert senti vontade de recolocar visíveis os respectivos textos, mas mais numa de resposta que outra coisa.

Aliás antigamente havia a tradição de a cada conto ou romance outro autor responder com um próprio, gerando-se um movimento muito semelhante à esgrima. Eram tempos engraçados. Hoje ficamo-nos pelas farpinhas dos fóruns. :devil2:
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby azert » 07 Oct 2008 19:11

Thanatos wrote:Aliás antigamente havia a tradição de a cada conto ou romance outro autor responder com um próprio, gerando-se um movimento muito semelhante à esgrima. Eram tempos engraçados.


E porque não voltar a cair em graça?
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Re: Manuel e os pombinhos

Postby Samwise » 07 Oct 2008 19:33

azert wrote:
Thanatos wrote:Aliás antigamente havia a tradição de a cada conto ou romance outro autor responder com um próprio, gerando-se um movimento muito semelhante à esgrima. Eram tempos engraçados.


E porque não voltar a cair em graça?


Nesta altura creio que seria mais em desgraça... :sad:

Não estou nada virado para esses lados, infelizmente. Pelo menos por agora. Pode ser que a febre regresse.

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