Memórias de um Funcionário Público

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Thanatos
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Memórias de um Funcionário Público

Postby Thanatos » 05 Mar 2009 14:33

E não são todos os livros spoofs até serem um dia editados/publicados? Devia haver um termo para o livro-de-gaveta.

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No dia da tomada de posse estava nervoso e apreensivo. O que me iria sair na rifa? Onde me colocariam? Com quem iria trabalhar? Depressa perdi o nervosismo quando a secretária do director me comunicou do alto da sua importância de quinta coluna, que o mesmo só chegaria depois das 10. Tempo para conhecer melhor os outros futuros colegas que, como eu, se arrastavam em estertores de nervos pelos corredores forrados a oleado do 49 da R. do Comércio.

Alguns iam agora começar a sua vida profissional. Em menor número havia outros para quem aquele era outro degrau na carreira. Mas todos sonhávamos, acalentados na esperança fátua do "emprego para a vida".

Quando a secretária veio corrigir a previsão de chegada das 10 para as 11, ou talvez 11 e 30, rumámos desconsolados à pastelaria da esquina.

A "cerimónia" de tomada de posse foi como uma daquelas bombinhas de carnaval defeituosas. Muito estrilho e pouco bang! Nada de mais. Foram afinal as primeiras três ou quatro horas desperdiçadas a favor do ministério. Nada de mais. Nada que o tempo não colocasse em perspectiva.

A coordenadora da divisão de cadastro era uma daquelas senhoras cuja melhor definição é camafeu. E como é de bom tom num camafeu estava completamente fora dos avanços tecnológicos das últimas décadas. Dizer que era do tempo do cartão furado seria um eufemismo.

Percebi logo onde me tinham enfiado quando a dita senhora me tentou explicar como fazer login no sistema: "O Ricardo vai ver uma mão com os dedos assim - e imita uma garra com a mão repleta de anéis de pechibeque - no ecrã e então carrega nestas teclas... mas tem de carregar em todas ao mesmo tempo. Não se esqueça! É importante que carregue em todas ao mesmo tempo!"

Mas o golpe de misericórdia foi saber que no fim da sessão de trabalho era conveniente fazer "chuto dá um" ao computador. Como no primeiro dia estava meio anestesiado com toda aquela estupidez acabei por não seguir a recomendação de pregar um valente chuto na máquina. Nos dias seguintes já não tinha piada.

As complexas teias de intriga que se tecem no Ministério eram de molde a pensar que tinha vindo parar a um Mistério. Daqueles sobre os quais os teóricos da conspiração adoram juntar provas irrefutáveis. Na minha ingenuidade em menos de uma semana viria a ter a prova de que nem todas as teorias eram assim tão rebuscadas.

Essa prova das bizantinas movimentações surgiu na pessoa da minha coordenadora, a tal senhora que gostava muito de frisar a sua competência metendo a pata na poça a cada vez que abria a boca, informando-me que a minha presença era requerida no gabinete do Chefe de Divisão. Num diálogo de tom surrealista foi-me informado que a partir da segunda-feira seguinte iria para outra Direcção. O motivo? Não havia. Mas...? Ninguém sabia. E não valia a pena tentar saber! Era mesmo assim. “Gosto muito de si, Ricardo. Vai ser uma pena deixá-lo ir.” Pela minha parte não tive muita pena. A tal coordenadora já me começava a enervar. E sempre gostei de mudar de ares. Não tão subitamente, obviamente, e de preferência que fosse eu a tal decidir. Mas não se pode ter tudo, penso eu.

Eram as famosas “ordens de cima”, de carácter inatacável, que não competia aos que vogavam no fundo da cadeia alimentar pôr em causa.

Muitos meses depois, já integrado na nova Direcção, soube por um colega que a razão da minha movimentação se prendia com uma troca de funcionários. Alguém no topo da pirâmide, impermeável no seu pelouro queria muito, mas muito mesmo, uma certa senhora daquela Direcção perto dele. Eu fui a moeda de troca.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby azert » 05 Mar 2009 14:48

<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo--><!--coloro:#c0c0c0--><!--/coloro-->(O que é um spoof-book? :blush: )

<!--sizeo:2-->[size=85]<!--/sizeo--><!--coloro:#000000-->[color=#000000]<!--/coloro-->Sr. Thanatos, essa sua gestão da revelação do livro está a dar-me cabo dos nervos! Queremos tudo e queremo-lo já!

:mrgreen4nw: <!--colorc-->
<!--/colorc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec--><!--colorc-->[/color]<!--/colorc--><!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Thanatos » 05 Mar 2009 16:37

White Rabbit wrote:Xenhor thánatos,sefachavor altere para «de um»; dum remete-me pra dum dum...


Já reli duas vezes e a tua observação está a passar-me ao lado :unsure: HELP!

EDIT: LORDE! Se fosse cão mordia! Já topei :thumbsup:
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby azert » 05 Mar 2009 20:33

Posso fazer uma sugestão? (I'll make it anyway :mrgreen4nw: ):

Coloca os episódios, anedotas, apontamentos, tiradas ou o que quer que queiras chamar-lhes todos juntos, sem direito a intromissões, will ya?
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Pedro Farinha » 05 Mar 2009 21:15

Thanatos estás com a pica toda. Funcionário Público no trabalho, frustrado público em casa - eu juntava este texto com o do divórcio - um indíviduo alinhadinho mangas de alpaca que rebenta quando chega a casa.

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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby azert » 05 Mar 2009 21:41

Não creio que os dois tons combinassem, Pedro. O do funcionário é cerebral, contido, analítico, sarcástico; o do divórcio, embora seja também sarcástico, é bastante mais sanguíneo, visceral.
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Pedro Farinha » 06 Mar 2009 00:21

Certo azert, mas eu não estava a falar da escrita. Estava era já a imaginar um texto de alguém contido no trabalho, certo como um relógio de picar o ponto e depois a explodir em casa ao fim de tantos anos de subjugação. Enfim, estava já a imaginar um texto para eu escrever.

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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Thanatos » 06 Mar 2009 12:16

azert wrote:Posso fazer uma sugestão? (I'll make it anyway :mrgreen4nw: ):

Coloca os episódios, anedotas, apontamentos, tiradas ou o que quer que queiras chamar-lhes todos juntos, sem direito a intromissões, will ya?


Boa sugestão. Juntei o outro post ao anterior. Assim basta ir lendo o primeiro post de todos ou em alternativa posso ir colocando os bocaditos como novo post e passadas umas horas junto-o de novo.

Pedro: Esse tipo de texto, mais ou menos já o tinha escrito no "Diz-me dói muito..." De qualquer forma o divórcio foi escrito "under the influence" e como bem percebeste saiu de rompante. Já estas tiradas aqui são reflexões próprias de mais de 10 anos de funcionalismo público e passagem por outros tantos serviços. Como a azert bem disse, são mais analíticos. Estou a tentar uma voz satírica/irónica/sarcástica. Ah e nem tudo se passou exactamente como descrevo, sendo certo que algumas situações são amálgamas de várias ocasiões. Em prol do interesse subverto por vezes os tempos, os locais, as acções e as personagens. :whistling:
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby azert » 07 Mar 2009 14:59

"chuto dá um" :rofl2:
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Pedro Farinha
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Pedro Farinha » 07 Mar 2009 22:09

Estou a seguir estes textos como se de uma biblia se tratasse - têm tanto de verdade como de mítico.

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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Lazy Cat » 08 Mar 2009 14:43

Thanatos, estas memórias vão tornar-se uma lenda. Continua que estou a gostar! =D
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Thanatos » 20 Mar 2009 20:58

As complexas teias de intriga que se tecem no Ministério eram de molde a pensar que tinha vindo parar a um Mistério. Daqueles sobre os quais os teóricos da conspiração adoram juntar provas irrefutáveis. Na minha ingenuidade em menos de uma semana viria a ter a prova de que nem todas as teorias eram assim tão rebuscadas.

Essa prova das bizantinas movimentações surgiu na pessoa da minha coordenadora, a tal senhora que gostava muito de frisar a sua competência metendo a pata na poça a cada vez que abria a boca, informando-me que a minha presença era requerida no gabinete do Chefe de Divisão. Num diálogo de tom surrealista foi-me informado que a partir da segunda-feira seguinte iria para outra Direcção. O motivo? Não havia. Mas...? Ninguém sabia. E não valia a pena tentar saber! Era mesmo assim. “Gosto muito de si, Ricardo. Vai ser uma pena deixá-lo ir.” Pela minha parte não tive muita pena. A tal coordenadora já me começava a enervar. E sempre gostei de mudar de ares. Não tão subitamente, obviamente, e de preferência que fosse eu a tal decidir. Mas não se pode ter tudo, penso eu.

Eram as famosas “ordens de cima”, de carácter inatacável, que não competia aos que vogavam no fundo da cadeia alimentar pôr em causa.

Muitos meses depois, já integrado na nova Direcção, soube por um colega que a razão da minha movimentação se prendia com uma troca de funcionários. Alguém no topo da pirâmide, impermeável no seu pelouro queria muito, mas muito mesmo, uma certa senhora daquela Direcção perto dele. Eu fui a moeda de troca.
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Pedro Farinha » 20 Mar 2009 21:22

Melhor que o texto principal, só mesmo o da assinatura.

A Adelaide anda a estudar o humor em português - começas a ser um referência, pá.

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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby azert » 20 Mar 2009 21:33

Eram as famosas “ordens de cima”, de carácter inatacável, que não competia aos que vogavam no fundo da cadeia alimentar pôr em causa.


Imagino certo funcionalismo público, com as suas hierarquias, com liturgias próprias, quase como uma religião. :biggrin:

Continuo a apreciar as espreitadelas que nos vais facultando. :notworthy:
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Re: Memórias de um Funcionário Público

Postby Thanatos » 20 Mar 2009 21:36

Obrigado pelas palavras de incentivo. :smile: São apreciadas.
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