No Azul

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Thanatos
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No Azul

Postby Thanatos » 26 Mar 2009 05:13

O mar afaga o casco da escuna, a um tempo suave, a um tempo rude, numa mistura só conhecida dos amantes.

Sempre o mar. Sempre o infinito azul esticando-se qual espelho dos deuses para todos os pontos da rosa-dos-ventos. Sinto a maresia infiltrar-se na pele, o sal depositado nos lábios gretados. E o barulho do vento nas velas dos mastros.

Para trás de nós ficaram os restos das memórias de Altamont. Dos espaços imersos num frenesim de som, corpos quentes, drogas e álcool. Aqui tudo é diferente. Imaculado. Puro. Intocado.

O mar corre por nós e somos nós que permanecemos imóveis. Somos um minúsculo grão de madeira, ferro, tecido, carne, sangue e ossos! Deuses que nos vêem de cima, quão insignificante pareceremos.

Rude nostalgia que se imbui de triste melancolia. O perfeito casamento para o meu estado de espírito. Desperto das memórias ocorre-me que os meus camaradas de viagem desconhecem o que está mais além... ali naquele futuro que se assemelha azul mas que será tingido da cor da dor.

Ou assim ficará escrito numa qualquer notícia de pasquim de província: escuna encontrada à deriva ao largo da Califórnia com cinco corpos não identificados. A polícia prossegue pistas para desvendar o mistério.

Ó como faz bem ao ego imaginarmo-nos, nem que seja por cinco minutos (ou dois mesmo) o centro, o foco, o pilar das atenções dos suburbanitas cinzentos que se arrastam de casa para o emprego, do emprego para casa. Que sobrevivem na ilusão de viverem quando são apenas um cadáver adiado. Ó ego, sentes a lufada de ar carregado de promessa? Adivinhas o que aí vem?

O suicídio li algures, numa daquelas publicações universitárias onde Pitágoras se mistura com Kierkegaard, Aristóteles com Jung, todos numa orgia de conhecimento, descoberta, despudor investido de força matricial única e vibrante, li eu que o suicídio era uma forma de comunicação do id interior

será que existe um id exterior? Ou será que confundo os termos? Não sei, o tempo é obscuro nesse então.

para o universo rodeante. Um monte de merdas, pseudo-bla-bla-bla de quem tem de justificar a bolsa.

O suicídio é a fuga do cobarde ou a resposta honesta do escarro na cara da sociedade? Escolhei, meus caros que desse lado lêem estas linhas e se interrogam sobre a sanidade

ou falta dela

deste que vos escreve. Não mais quero me sentar em bancos de jardim, cheirar o perfume das jovens, tocar os rapazes e ser por instantes outro eu, aquele eu paralelo, aquele que podia ter sido. Mas não foi, nem será. Aqui este que se queda sobre a amurada da escuna vendo os cardumes como sombras indefinidas, este estranho que passa momentâneamente por sobre eles. É este que sou e como ele terminarei.

Fecho o moleskine. Passo cuidadosamente o elástico pela capa cuidando de que não fique torcido. Sou meticuloso. Sempre fui. Meto a tampa na Parker e enfio-a no bolso da camisa. Os restos duma ceia atraem-me. Ontem comemos e bebemos em honra a Dionísio! Ahh deuses de outrora que vos expulsámos ignobilmente! Onde estais?

Poseidão, Tritão, Amimone e Naúplio, Medusa e Crisaor, Polifemo e Teosa. Vinde a mim. Subjugai-me na voracidade do vosso cruel temperamento e testai a fibra do meu ser! Desejo-vos como nunca amante algum desejou a metade atraente. Sou vosso!

Desço do convés. Na saleta os restos balançam ao ritmo do mar que nos embala qual regaço de mãe. E não foi do seu ventre que saímos? Que melhor destino?

Sento-me. Ainda me restam alguns minutos. Por toda a saleta os camaradas estiram-se em poses grotescas, também eles sacudidos pela suave mão da mãe. Fecho os olhos e vou ter com eles. Recebem-me de mãos abertas e sorrisos nos lábios. Uma doce ode ressoa nos salões de Poseidão.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: No Azul

Postby Pedro Farinha » 26 Mar 2009 09:06

Soberbo Thanatos :notworthy:

Deti já li coisas tão diversas como desabafos raiados de bílis ou o sarcasmo das memórias de um funcionário público. Nunca no entanto tinha lido algo que em tocasse tanto como este teu texto. Não só pela escrita, tem pedaços verdadeiramente suculentos:

O mar corre por nós e somos nós que permanecemos imóveis. Somos um minúsculo grão de madeira, ferro, tecido, carne, sangue e ossos!
mas sobretudo pela mensagem que passa, ou a que eu li. Dá-se, ainda o caso, de hoje ser o dia certo para eu ler este texto. Mas isso já é outra história.

Ó como faz bem ao ego imaginarmo-nos, nem que seja por cinco minutos (ou dois mesmo) o centro, o foco, o pilar das atenções dos suburbanitas cinzentos que se arrastam de casa para o emprego, do emprego para casa. Que sobrevivem na ilusão de viverem quando são apenas um cadáver adiado.

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Re: No Azul

Postby Thanatos » 26 Mar 2009 13:14

Bem, vindo de ti Pedro, este elogio tem valor a dobrar!

Penso que no fundo o que queremos quando "publicamos" alguma coisa é tentar alcançar por ideias, imagens, associações, metáforas e simbolismos, uma sinergia com o outro. Sinto-me agradado por ter conseguido, mesmo que em infíma parte, esse objectivo.

:smile:
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Re: No Azul

Postby Ripley » 26 Mar 2009 13:16

Forte. Muito forte.
Há coisas que de facto não mudam. A tua fascinação pelo mar é uma delas ... imaculada, pura, intocada. Como se tivesses a alma de um tritão, tristemente presa no interior de uma criatura com pernas e condenada até ao fim dos seus dias a caminhar num ambiente de ar em vez da água desejada, puro azul cristalino de felicidade líquida.


É depois de ler gemas como esta que, quando te lembras de auto-depreciar a qualidade da tua escrita, me dá vontade de te bater!
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: No Azul

Postby azert » 26 Mar 2009 14:00

Secundo a minha voz aos elogios mais que merecidos que me precederam.

Para além de momentos verdadeiramente "exquisitos" (no sentido espanhol do termo), como

<!--sizeo:1-->[size=50]<!--/sizeo-->
Que sobrevivem na ilusão de viverem quando são apenas um cadáver adiado.
numa daquelas publicações universitárias onde Pitágoras se mistura com Kierkegaard, Aristóteles com Jung, todos numa orgia de conhecimento, descoberta, despudor investido de força matricial única e vibrante


o rumo que toma a escuna, para longe da terra firme que é a vida segundo a lógica dominante, em direcção à morada ignota dos deuses de antigamente, tanto mais divinos quanto mais penosamente humanos, a coragem de rasgar a linha do horizonte que divide tudo o que é conhecido - e que é nada - do nada desconhecido - e que poderá ser tudo ou, pelo menos, um nada mais autêntico.<!--sizec-->[/color]<!--/sizec-->
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Re: No Azul

Postby Samwise » 26 Mar 2009 14:03

Acho que este texto é o melhor que deu entrada no BBdE desde há uns bons meses para cá.

O ambiente descrito chega a ser palpável a ponto de parecer uma memória própria - ou uma lembrança de um sonho.

Sam
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My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

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Re: No Azul

Postby Lord Wimsey » 26 Mar 2009 17:49

parabéns, thanatos

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Re: No Azul

Postby pco69 » 26 Mar 2009 17:58

é pá!
comecei a escrever já duas vezes e dessas duas, não postei.
esta é a terceira.
se estão a ler isto, é porque carreguei no botão 'add reply'
não gostei.
não estou a falar da arte da escrita nem do ambiente que consegue ser bem transmitido.
estou a falar do suicida
suicida-se sozinho, ou matou os seus companheiros?
é que a mim, o texto todo, só me faz lembrar os marados que agarram numa arma e começam aos tiros até serem abatidos pela policia.
a ideia deles também é essa
serem noticia nos jornais, nem que seja por um breve momento
Fenómenos desencadeantes de enfarte do miocárdio

Esforços físicos, stress psíquico, digestão de alimentos, coito, tempo frio, vento de frente e esforços a princípio da manhã.

Ou seja, é extremamente perigoso fazer sexo ao ar livre com vento de frente, após ter tomado o pequeno almoço numa manhã de inverno...

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Re: No Azul

Postby croquete » 26 Mar 2009 19:07

Bem escrito.
Parabéns.

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Re: No Azul

Postby Thanatos » 26 Mar 2009 20:25

Opá! Quem diria que uma coisa escrita pelas 3 da matina ia ter esta aceitação! Calhando foi da hora e fiz psicografia.

Não fosse ali o pco69 dizer que não gostava e eu ia já contactar uma editora. :biggrin:

Fico agradecido (e agora sem gozo) a todos pelos vossos elogios.

Mas, claro, isto é chão que já deu uvas e quando chegar a minha vez no conto BBdE... :devil2:
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