Walk on the Wild Side

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Walk on the Wild Side

Postby Thanatos » 29 Mar 2009 05:24

A primeira vez que o vi ri-me imenso. Daqueles risos que reservamos para quando estamos em grupo; boçal, desmedido, completamente desproporcionado. É o riso de quem quer pertencer ao grupo, de quem quer encaixar, ser um deles. Não sei se ele percebeu que nós ríamos dele. Mas isso também não nos interessava por aí além. Tínhamos afirmado o nosso território, tínhamos estabelecido a nossa pertença. Estava-se bem.

Agora que penso nisso não vejo bem qual a razão de termos rido da figura dele. Era igual aos outros. Nada o distinguia nem o fazia sobressair. Era mais um na enorme multidão que se acotovelava à porta dos bares, querendo de viva força entrar e chegar junto do balcão onde dois ou três empregados suados e mal dispostos serviam shots, batidos, cervejas e favaios. Mas algo na postura dele despertara os nossos instintos machistas e de repente o Luís apontara e rira. E nós seguimos o exemplo. Era fácil rir dele. Talvez algo nos maneirismos com que se desviava da turba multa, talvez os jeitos efeminados de braço no ar, mão meio descaída como que prestes a desmaiar. Mas tirando isso pouco mais o distinguia dos outros. Não vestia cabedal, não usava jeans apertados, não tinha bigode nem lenço vermelho ao pescoço. Em suma não era o típico paneleiro que se vêe por aqui e por ali na noite.

A noite foi crescendo. De menina tornou-se moça e de bar em bar fomos fazendo a visita às capelinhas. Era assim todas as sextas-feiras. Por vezes um do grupo lá engatava uma gaja mais maluca e desaparecia para na semana seguinte nos contar todas as façanhas sexuais reais ou imaginárias que experimentara com o engate e nós fingíamos que acreditávamos. Mas nesta sexta ou as malucas estavam mais recatadas ou nenhum de nós conseguia projectar o charme suficiente. Até o João que até agora era o que mais engates contava na folha estava em baixo de forma. Eu pela minha parte e como o charme e a beleza nada quiseram comigo limitava-me a segui-los. E a consumir álcool. Nisso poucos me batiam. Talvez por isso ou talvez porque a Lua estava em cheia e diz-se que aquela luz mexe com a nossa carola o certo é que lá pelo fim da noite já estávamos de mau humor. Era daquelas noites em que bastava uma coisinha aqui e outra acolá e geralmente descambava em porrada à mínima provocação. Ó se nós queríamos dar no couro de alguém. Estávamos mortinhos por isso.

E numa daquelas coincidências do caraças não é que o maricas do Luís – era assim que o tínhamos baptizado logo ao começo da noite, até porque no meio da boçalidade, volta e meia tínhamos destes rasgos de génio, tipo fazer joguinhos de palavras – nos aparece à frente ali para os lados da Rua do Alecrim. Vinha com outro gajo de mão dada. Era uma afronta! Era mesmo o que precisávamos. O Luís foi o primeiro a mandar a boca:

- Ó paneleiro de merda! Não sabes que hoje a noite é só para gajos? As bichas foram proibidas.

O Arnaldo juntou-se e não tardou nada todos nós mandávamos as nossas bocas ao par que entretanto se afastava rapidamente com um ou outro olhar de soslaio para trás a ver se os seguíamos.

- Venham cá bichas! Estava mesmo a precisar duma mamada e tens cá uma boca que parece a frente dum eléctrico!
- Cheira-me a borracha queimada. Já andaste a esfolar o olho ao gajo foi?
- Não fujam meninas! Ao menos uma vez na vida sejam homens.
- Então a melhor parte de ti escorreu pela perna da mamã abaixo, foi?

Seguimos o par rua abaixo até ao Cais do Sodré onde viraram para a Ribeira das Naus. Má escolha. Àquela hora a zona era um misto de bêbedos, putas, proxenetas e gajos a escolherem a mercadoria, quer fosse ela carne, quer fossem pastilhas, drunfos, pó, o que quer que fosse que desse coice. Não era mesmo uma zona recatada onde alguém pudesse dar socorro aos gajos. E nós que já sentíamos o formigueiro na ponta dos dedos fomos alargando o círculo em torno das presas. O Arnaldo e o Luís foram pela esquerda, eu, o João e o Henrique pela direita. Apertámos o laço. A certa altura os gajos pararam. Um deles lá arranjou coragem para nos mandar à fava e pedir que nos afastássemos.

- Então que foi? Estás com medo de levar no cu de homens a sério? – perguntou o Luís – Deixa lá que estás com sorte porque a gente não gosta de carne com pêlos. Mas também não gostamos de quem pega de empurrão. E eu e os meus amigos estávamos aqui a pensar que vos podíamos dar umas fuças novas. Essas são demasiado bichas para o nosso gosto. Que dizem? Querem uma cara nova? Cara de homem?
- E se nos deixasses em paz? Não vos fizemos mal algum. Deixem-nos em paz! - respondeu um deles.

Pareceu-me que foi o nosso conhecido do início da noite mas a escuridão não me deixou ter a certeza. Meti a mão ao bolso do blusão e saquei o soco inglês. O Luís tinha uma ponta-e-mola e o Arnaldo um nuntchaco. Os outros usavam os punhos e os pés. A festa estava para começar. Olhámos em redor e as sempre prevenidas putas pressentindo merda no ar já se tinham afastado para outros poisos. Com os bêbedos ninguém se preocupava.

O nosso círculo apertou-se ainda mais. No centro os maricas olhavam em volta. Um deles levantou o braço como que a fazer sinal de parar mas foi mais como que a dizer-nos para cair em cima dele. O Luís sacou da naifa e enquanto o João e o Arnaldo o seguravam entreteve-se a cortar-lhe as roupas. Eu e o Henrique fomos ao outro. A adrenalina estava mesmo no ponto e soube-me bem dar uns valentes murraços na cara daquele paneleiro. Logo ao primeiro murro senti que lhe tinha aberto a bochecha e com sorte até tinha partido a dentadura. Ao segundo senti o rilhar dos dentes contra os dedos. A coisa compunha-se. O Henrique tinha-lhe assestado um valente pontapé nos tomates que o dobrara em dois. Mesmo a jeito para eu lhe dar uma mocada na base da nuca que o meteu a cheirar o vómito no passeio. Do outro lado o Luís fartara-se de retalhar tecido e dera um corte na cara do paneleiro que chorava como uma menina. Aquilo não sei bem porquê ainda nos irritou mais. Foi assim uma confusão como aquelas que se vê no National Geographic, sabem, como quando dá o frenesim da comida aos tubarões. Era hora da matança! Quando a coisa acalmou é que vimos que os gajos estavam caídos sem se mexerem. Ainda lhes demos uns pontapés a ver se gemiam mas nada. Não ficámos mais tempo para ver se estavam mesmo arrumados. De repente as ideias clarificaram e percebemos que convinha dar de frosques. O Arnaldo deixara o carro pelos lados do Príncipe Real. Eram ainda uns valentes metros e sempre a subir. Não sei bem como mas lá fixemos o caminho, meio a correr, meio a andar. Nenhum de nós falou. Embora sessões de porrada não fossem nada de novo nas nossas saídas todos sabíamos que desta vez a coisa tinha fugido um bocado aos limites.

No Sábado a notícia vinha no Correio da Manhã. Logo pela manhã o Luís ligou-me a dizer que tínhamos de nos encontrar. Eu tinha uma ideia do que ele queria falar. Foi uma manhã do caraças com os outros todos a ligarem-me e eu a ligar a eles. Quase que dava cabo do saldo do telélé.

Lá pelas duas da tarde estava a tomar uma ducha para refrescar e ir ter com eles quando tocaram à porta. Ouvi a minha mãe a atender e quando sai da banheira estava ela a chamar-me, a dizer para me despachar que estava ali alguém para falar comigo.

Ainda pensei que fosse o Luís. O gajo sempre fora um minhocas do caraças e mesmo marcando as coisas tinha a mania de aparecer de repente. Quando sai da casa de banho e ia para o quarto é que vi que não era o Luís. Eram vocês. O resto já sabem.

Só gostava mesmo de saber quem foi o filho da puta que se chibou.
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Re: Walk on the Wild Side

Postby azert » 29 Mar 2009 13:20

O retrato dos laços de masculinidade forjados à custa de vexar os excluídos, está muito bem feito. O ambiente do Cais, também. O festim de pancada, óptimo. Só o fim é que acho que podia ser um pouco mais forte, não na solução encontrada, que é boa, mas na maneira como é apresentada.
:thumbsup:
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Re: Walk on the Wild Side

Postby Aignes » 29 Mar 2009 13:43

Gostei, e discordo da azert, acho que o final está bom, sóbrio... o texto já está suficientemente forte. Gostei principalmente de como a violência não aparece do nada, percebe-se o que levou a que acontecesse, mesmo que os motivos fossem os mais estúpidos, muitas vezes é por esses mesmo que acontecessem as coisas.
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Drives my green age; that blasts the roots of trees
Is my destroyer.
And I am dumb to tell the crooked rose
My youth is bent by the same wintry fever.»

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Re: Walk on the Wild Side

Postby Thanatos » 29 Mar 2009 14:08

Em parte sinto que a azert tem razão. O final ficou meio a despachar porque pelas 4 da matina (sem considerar a alteração da hora :tongue:) o cérebro já estava algo embotado.

O curioso é que quando começo a escrever não tenho nenhuma ideia definida de onde vou parar. O final surge-me numa espécie de revelação com o prosseguir da escrita. A ideia inicial era apresentar uma personagem que de antagonista para com as diferenças e as minorias descobria dentro de si uma sensibilidade que lhe dava uma nova perspectiva do mundo. Penso que isso em parte ainda se nota nos dois primeiros parágrafos.

Com a continuação da escrita percebi que estava a escrever na primeira pessoa como se o protagonista estivesse a revelar os acontecimentos e esse facto fez-me alterar a ideia inicial, tendo-me depois inspirado num acontecimento real em que um grupo de skinheads assassinou na Rua da Palma, há muitos anos atrás, um dirigente do PSR. Na altura esse assassinato marcou-me profundamente pela tremenda estupidez que é o ódio à diferença e a intolerância poder levar alguém a roubar a vida a outro, alicerçado apenas em meras diferenças de ideais, escolhas afectivas, credos ou cor de pele.
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Re: Walk on the Wild Side

Postby Pedro Farinha » 29 Mar 2009 14:22

Acho que o texto tem muita força. Conseguiste muito bem meter-te na pele de uma pessoa tão diferente de ti - isso é das cosias que mais aprecio na escrita. Relativamente à escrita em si, já li coisas melhores tuas, mas em termos de impacto este texto dá-nos uma bofetada porque é tremendamente real.

P.S.: Mais que o assassinato junto à antiga sede do PSR fez-me lembrar o assassinato ocorrido mais recentemente no Porto em que um transexual foi assassinado.

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Re: Walk on the Wild Side

Postby azert » 29 Mar 2009 15:42

Thanatos wrote:A ideia inicial era apresentar uma personagem que de antagonista para com as diferenças e as minorias descobria dentro de si uma sensibilidade que lhe dava uma nova perspectiva do mundo.


Também pensei que era para aí que se encaminhava o texto. Cheguei mesmo a pensar que, devido à bebedeira e à frustração de não ter havido engate, algum/ns dele/s se envolvessem numa experiência homossexual, o que seria tremendamente desconcertante (uma bofetadazinha de luva branca). :mrgreen4nw: Mas suponho que a repulsa que o verdadeiro macho sente perante qualquer ameaça à sua masculinidade é demasiado forte para permitir algo assim.
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Re: Walk on the Wild Side

Postby Thanatos » 29 Mar 2009 18:09

azert wrote:
Thanatos wrote:A ideia inicial era apresentar uma personagem que de antagonista para com as diferenças e as minorias descobria dentro de si uma sensibilidade que lhe dava uma nova perspectiva do mundo.


Também pensei que era para aí que se encaminhava o texto. Cheguei mesmo a pensar que, devido à bebedeira e à frustração de não ter havido engate, algum/ns dele/s se envolvessem numa experiência homossexual, o que seria tremendamente desconcertante (uma bofetadazinha de luva branca). :mrgreen4nw: Mas suponho que a repulsa que o verdadeiro macho sente perante qualquer ameaça à sua masculinidade é demasiado forte para permitir algo assim.



Não necessariamente. Só que eu pretendia um texto curto. Comecei a escrever este pelas 3 e tal e não me queria alongar muito. Para ser minimamente credível a personagem não poderia descobrir essa sensibilidade dentro de si no espaço de meras horas. O texto precisaria assim de espaço para respirar. A intenção foi subvertida então para o mais credível (pelo menos para mim).

Pedro: eu na altura do assassinato estava numa acção de formação mesmo ao lado da sede do PSR. E tinha uns 17 anos. Aquilo chocou-me brutalmente porque uma coisa é tu leres notícias, outra é viveres no dia-a-dia junto da cena do crime. Confesso que a notícia do transsexual me passou um pouco ao lado até por opção minha porque estou já numa altura da vida em que situações dessas me causam uma tal repulsa e revolta interiores que sinto vontade de me armar em vigilante e andar por aí a dispensar justiça pelas próprias mãos. E isso, no meu entender, é também passar uma linha muito ténue do que é viver em sociedade e civilizadamente.

Obrigado a todos pelos comentários.

P.S.: Neste texto deliberadamente a escrita em si é mais pão-pão, queijo-queijo. :wink:
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