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Postby Thanatos » 12 Apr 2009 21:49

Esperei por ti a noite toda. O mínimo que podias ter feito era ligar. Dizeres alguma coisa. Telefonares nem que fosse para dizer para eu me ir foder. A indiferença rói-me mais que a frontalidade. Mas disso já tu sabias. Sempre o soubeste e agora que penso nisso acho que não me disseste nada precisamente por saberes que isso seria o que mais me magoaria.

Tu, com os teus lindos e compridos cabelos e esses olhos verdes que me enfeitiçaram logo que os vi, tu que querias de mim? Fui uma conquista? Uma diversão? Fui o títere que manipulaste a bel-prazer como se fosse parte dum qualquer estágio na tua senda de sensual feminilidade?

Ou fui algo mais?

Gosto de pensar que sim. Mas lá no fundo sei que não. Não passei dum marco na tua estrada. Daqueles que a folhagem já cobre e a quem o tempo já tirou o preto da tinta que indicava os quilómetros até à próxima povoação. Aqui me quedo mudo, triste, sem saber o que fazer das recordações. Queimei a parte física mas a outra, aquela que fica dentro de nós, para essa não há cirurgia que a arranque nem tempo que a apague.

Preciso de mudar de pele! Preciso de mudar de face, de nome, de cidade, de tudo e mais alguma coisa. Quero fugir de mim. Quero deixar de chorar lágrimas salgadas de cada vez que leio o teu nome, que ouço a nossa música, que vejo os nossos filmes. Que merda de frustração que não me deixa ir em frente. Prendes-me como uma âncora ao lodo das minhas emoções. Quisera ser rio para correr eternamente para esse mar que tanto me apela.

Mas sou homem. Não sei como ser água. E mais uma vez procuro-te na internet. E ligo o teu número apenas para ouvir aquela gravação que me diz que o número já não existe.

Esperei por ti a noite toda.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: S.

Postby azert » 13 Apr 2009 02:35

Thanatos! :ohmy: Confesso que nunca esperei lêr algo assim escrito por ti. :ohmy: Oh pá :ohmy: !

O sentimento que atravessa o texto, quem nunca o experimentou? A espera em vão. A certeza que procuramos iludir com todas as nossas forças. Os pontos de interrogação cravados no espírito como ganchos. A mancha que a ausência larga sobre o passado. A impotência perante a memória. A busca desesperada, nem que seja no avesso do sentimento (<!--coloro:#000000--><!--/coloro--><!--fonto:Comic Sans MS--><span style="font-family:Comic Sans MS"><!--/fonto-->dei pra maldizer o nosso lar / pra sujar teu nome, te humilhar / e me vingar a qualquer preço / te adorando pelo avesso / para mostrar que ainda sou tua / só pra provar que ainda sou tua - Chico Buarque).


:ohmy: <!--fontc-->
<!--/fontc--><!--colorc-->[/color]<!--/colorc-->
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Re: S.

Postby Thanatos » 13 Apr 2009 08:10

azert wrote:Thanatos! :ohmy: Confesso que nunca esperei lêr algo assim escrito por ti. :ohmy: Oh pá :ohmy: !


Nunca me tinham chamado pedra de sal duma forma tão gostosa. :rolleyes:

Humm e gostei da lembrança do Buarque, assenta que nem uma luva.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

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Re: S.

Postby Ripley » 13 Apr 2009 11:44

Que não eras pedra de sal já o sabia há muito.
Esta foi apenas mais uma prova de que consegues (quando queres ou quando te dá para isso) dar voz àquilo que te torna humano, ao que tens em comum com o resto de nós ... sentimentos.
"És a metade que me é tudo." [Pedro Chagas Freitas]
---§§§---
"O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende." [Miguel Esteves Cardoso]

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Re: S.

Postby azert » 13 Apr 2009 12:38

Big T., que seria da comida sem o sal? :rolleyes:

:wink:


P.S. Não foi minha intenção chamar-te calhau empedernido e completamente desprovido de qualquer réstia de sentimentos!... Ooops!
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Re: S.

Postby Pedro Farinha » 16 Apr 2009 17:25

Gostei do texto. Desta vez não me surpreendeu o facto de ter um timbre mais sentimental/nostálgico porque já me tinhas mostrado esse teu "lado" uma vez.

Acho que aquela dúvida sobre até que ponto fomos alguém (deixamos marca) ou fomos apenas um aperitivo entre a sopa e o prato principal está muito bem descrita.

Acho que fazem parte daquelas coisas que nunca chegaremos a saber (ups lá estava eu a pensar nas minhas S.s)

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Re: S.

Postby azert » 16 Apr 2009 17:48

Pedro Farinha wrote:Acho que aquela dúvida sobre até que ponto fomos alguém (deixamos marca) ou fomos apenas um aperitivo entre a sopa e o prato principal está muito bem descrita.


Suponho que no rescaldo de uma ligação interrompida pomos sempre (eu ponho) em causa o que está para trás. E isso é talvez o que mais custa - não tanto o terminar de algo, mas o facto de o fim nos roubar também o que tivémos. :sad:
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Re: S.

Postby Pedro Farinha » 16 Apr 2009 19:08

azert wrote:Suponho que no rescaldo de uma ligação interrompida pomos sempre (eu ponho) em causa o que está para trás. E isso é talvez o que mais custa - não tanto o terminar de algo, mas o facto de o fim nos roubar também o que tivémos. :sad:


O que tivemos é o que recordamos. Ou seja a recordação das sensações e sentimentos, não devemos reescrever a história à luz de algo que soubemos ou, pior ainda, aconteceu depois. eu quanto muito faço o contrário, reescrevo a história das coisas menos felizes de uma maneira melhor - azert pensei que já tinhas aprendido a viver do outro lado da peúga (private joke).

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Re: S.

Postby azert » 16 Apr 2009 19:47

Pedro Farinha wrote:azert pensei que já tinhas aprendido a viver do outro lado da peúga (private joke).


Viver agarrado ao outro lado da peúga exige muito esforço e o esforço de uma pessoa tem os seus limites. :smile:

O que eu queria dizer era que, se as pessoas se separam porque descobrem que afinal não gostam uma da outra, o seu passado passa, necessariamente, a ser visto de outra forma.
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Re: S.

Postby Gaminha » 28 Sep 2009 18:00

Xiiiiiii, não condiz contigo. Sorry, mas gosto muuuuuuuito mais dos teus "outros" textos.

Não está nada mau, mas está "normal", o que normalmente não é uma característica dos teus textos. :rolleyes:

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Re: S.

Postby Sharky » 28 Sep 2009 18:06

Eu gostei, é profundo :thumbsup:


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