Triste

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Thanatos
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Triste

Postby Thanatos » 02 May 2005 20:15

Tão simples e paradoxalmente tão complicado.

Como gerir as emoções? Como explicar a ela o que ele sentia? O peso amargurado de mais um dia como uma âncora que teimava em o afundar no mar das incertezas.

E contudo.

Bastava uma palavra.

Ou talvez duas, ou três.

De cada vez que o Messenger piscava era como se o coração sofresse aquele aperto. Ali estava. Era agora. Só que nunca era agora. Nem depois. Nem amanhã. Arrastava-se de conversa inconsequente em conversa inconsequente. Como gerir o turbilhão em que se consumia?

Tentou cortar.

Esquecer.

Ignorar.

Passar ao lado.

Mas sempre retraçava os passos de volta. E via-se naquela noite, a chuva escorrendo do cabelo, observando intensamente a luzinha na janela do andar de cima, tremendo não do frio e da intempérie, mas da raiva e da comoção. E via-se a voltar costas. Um pouco mais morto, um pouco mais vazio.

E depois arranjara um pretexto. Um qualquer. Não tinha importância. Conseguira restabelecer a comunicação. Insonsa. Sem cometimentos. Sem nada. Mas sempre o mar das incertezas que teimava em o afundar. Em o reclamar novamente para o precipício. Não conseguia viver assim. Morrendo aos poucos.

Tentou perceber os limites. Até onde ir. O que dizer sem comprometer-se. Passava os dias defronte do monitor. Os dedos enclavinhados sobre o teclado suado. Fazia teatros mentais. Juras eternas. Chorava e ria em sequência. Tremia e exaltava-se. Escrevia para logo apagar. Apagava e arrependia-se. Levantava-se mas logo se sentava. Cada toque do telemóvel era o sobressalto. Cada passo na escada era o único. A tortura prolongava-se. Mas como? O que fazer ou dizer?

E como um filme com a bobina presa lá voltava à noite. À chuva.

O outro entrara como se estivesse habituado. Como quem era o dono da casa. Ficara por lá. Na manhã seguinte ainda o carro lá estava, provocadoramente, mesmo em frente à porta do prédio. E nesse dia ela tinha metido baixa. Como tinha doído ver a secretária vazia. Imaginá-la com os longos cabelos negros ao vento da Caparica. Rindo com ele. Abraçada. Contando coisas. Fazendo planos.

E tudo isso sobre os restos dele. Da amizade que se tornara algo mais.

Que faltava? Que era aquilo? Onde ia ele?

Queria dizer-lhe tudo. De chofre. Na cara. Confrontá-la. Queria dizer-lhe que não era justo. Que morria todos os dias um bocadinho pela indiferença expressa dela. Mas no derradeiro instante... sobrava o vazio.

E o negro profundo do mar.

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Re: Triste

Postby Pedro Farinha » 02 May 2005 20:39

Também gostei deste (acabei de ler o O grito calado) mas preferi o outro.

Acho que este texto começa melhor do que acaba. Por exemplo:
Como gerir o turbilhão em que se consumia?

Tentou cortar.

Esquecer.

Ignorar.

Passar ao lado.


está excelente, um turbilhão descrito por frases curtas e pausadas.

Mas a forma como pões os parágrafos e que eu aprecio como no exemplo anterior, desaparece no final do texto e fá-lo perder o ritmo. Just my opinion e depois de ler o outro a bitola tinha-se tornado muito elevada :)

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Re: Triste

Postby Thanatos » 02 May 2005 20:45

Pedro Farinha wrote: Mas a forma como pões os parágrafos e que eu aprecio como no exemplo anterior, desaparece no final do texto e fá-lo perder o ritmo. Just my opinion e depois de ler o outro a bitola tinha-se tornado muito elevada :)

Aproveito para te agradecer os comentários tanto aqui como no outro texto.

Já agora explico que os parágrafos curtos que apontas não existiam na anterior versão... foi algo que decidi um instante antes de colocar aqui a vinheta. E estive para dar o mesmo «tratamento» ao último parágrafo. Vejo agora que provavelmente teria sido uma boa opção. ^_^

Já agora a bem duma cronologia este é mais antigo que o outro mas estranhamente sinto-me mais próximo deste que do outro... enfim, o «pai» também tem as suas preferências pelos filhos, embora poucas vezes o confesse. ;)

Novamente obrigado pelos comentários.
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Re: Triste

Postby Samwise » 16 May 2005 17:35

Eu cá gostei mais deste...

Considero-o mais contemplativo e mais profundo ao mesmo tempo.

Não percebi muito bem a história que está por trás das emoções, mesmo depois de reler o texto.
Acho é que isso tem pouca importância face à beleza (triste) das emoções expressas.

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Re: Triste

Postby Maloveci » 23 Sep 2005 01:13

Thanatos  : Queria dizer-lhe tudo.. Que morria todos os dias um bocadinho pela indiferença expressa dela.


Lindoooooooo, espectacular !!!!!!!

Eu sei o que isso é ... e o Henis tem razão no que diz ... e muita :
  Henis : e possivelmente acontece em mais sítios, em mais pontos do mundo, em mais corações


"Todos os dias morria um bocadinho ... " nunca tinha pensado nisto Thanatos .

Boa :tu:
(vou ficar com essa no cardápio das minhas frases célebres de eleição, posso ? :blush: )
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Re: Triste

Postby Ripley » 04 Feb 2009 18:51

Já conhecia este teu texto há uns anos.

Faltaria saber o que se passava do outro lado, o reverso dessa tristeza.
(Acho que vou pegar nisso)
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Re: Triste

Postby Ripley » 05 Feb 2009 13:34

O outro lado da tristeza

Ela sabia-o no seu íntimo. Pressentia que havia algo mais por trás daquelas palavras soltas, por vezes brincalhonas.

Mas ele calava-se, limitava-se àquilo. E ela quedava-se confusa, pensando ter imaginado tudo.

No Messenger falavam de pouco mais do que algumas notícias isoladas, os votos de bom ano novo ou outra qualquer ocasião em que se reata contacto com pessoas a quem se perde o rasto. Um ou outro email trocados sobre assuntos inconsequentes, anedotas ou ideias.

Um dia após o outro ela aguardava, esperava mesmo sem grande esperança, sem saber se era hesitação que lhe tolhia as palavras ou se de facto não havia mais a dizer. Dava um pulo na cadeira quando chegava uma mensagem, entristecendo quando afinal via que era apenas mais uma promoção de pizzas. Fazia filmes dentro da cabeça, imaginando o que responderia no dia em que ele lhe dissesse o que ansiava ler. Chorava por dentro quando mais uma vez as palavras eram diferentes, o rolo de celulóide queimando-se na brasa que escondia no peito.

Tentou esquecer, convencer-se de que se enganara.
Sentindo-se estúpida por ter sequer pensado naquilo como uma possibilidade.

O namorado pensava tê-la na mão, ser dono dela - um dono distraído que a tomava por certa. Quando se queixava da forma como era tratada ele prometia mundos e fundos, tratava-a como uma princesa durante alguns dias. Depois tudo voltava ao mesmo. Cada dia ela morria mais um pouco por dentro, presa ao que já fora confortável mas que se tornava cada vez mais pesado como se tivesse uma bigorna amarrada ao tornozelo.

Um dia decidiu-se – não aguentava mais. Avisou o namorado "Temos que conversar".


Ele chegou, mais uma vez como se fosse dono de tudo incluindo a verdade. A pose desfez-se quando viu o olhar quebrado dela onde apesar de tudo luzia um desafio. A conversa durou toda a noite entre recriminações, justificações e pedidos de novas hipóteses que ela há muito esgotara. Pela manhã tudo tinha acabado.


Cansada, emocionalmente esgotada, meteu baixa e trancou-se em casa. Será que ele iria notar a secretária vazia? Pensaria que ela estava a divertir-se algures? Não, provavelmente nem daria pela sua ausência.


Abraçada a si mesma, chorou aquela amizade que se tornara algo mais apenas dentro dela, apenas dentro dela, sem nunca transparecer, sem se concretizar.

Lamentou o silêncio auto-imposto, o excesso de timidez, a falta de coragem para lhe dar a entender que queria mais, bem mais do que aquilo. Das poucas vezes que abrira a boca pensando nisso voltara a calar-se, olhando para baixo, para o vazio onde derramava as suas ilusões. Agora era só isso que lhe sobrava.


E as ondas agrestes do mar que adorava ali tão perto, tão perto ...




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Last edited by Ripley on 28 Jan 2010 13:39, edited 2 times in total.
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Re: Triste

Postby Samwise » 05 Feb 2009 14:21

Juntando um texto a outro, temos um daqueles desencontros de bater com a cabeça nas paredes, tudo por falta de iniciativa.

Gostei do teu texto, Ripley. Apanha bem os vários níveis de sofrimento da protagonista.

Sam
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Re: Triste

Postby Ripley » 10 Feb 2009 02:55

Samwise wrote:Juntando um texto a outro, temos um daqueles desencontros de bater com a cabeça nas paredes, tudo por falta de iniciativa.


Sam, deviam ambos ter a cabeça muito, muito dura ... :wink:
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