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O grito calado

Posted: 02 May 2005 20:19
by Thanatos
Como explicar? Como racionalizar? Mas seria preciso explicar? Ou sequer racionalizar? Afinal que lhe eram as convenções senão uma série de códigos instituídos para criar a divisão e marginalizar quem não entrava dentro dos modelos? Precisava ele daquilo para alguma coisa? Queria ele sequer saber daquilo?

A família não tinha aceite. Paciência.

No emprego era alvo de olhares furtivos e risadinhas escarnecedoras pelas costas. Paciência.

No dia a dia era olhado com várias misturas de emoções. Desde o escárnio até à curiosidade. Paciência.

Mas o que mais lhe custava eram os compreensivos. Aqueles que não estando do lado dele, não sabendo o que era ser como ele, o ouviam e compreendiam e lhe punham a mão ao ombro e diziam: coragem.

Merda para eles.

Com tanta compreensão acabavam por o fazer sentir ainda mais estranho. A compreensão deles dava-lhe vómitos. Naúseas. Sempre que podia evitava-os. Mas o companheiro gostava de se rodear de gente dessa. No apartamento das Avenidas Novas era um corropio de gente compreensiva. Vinham de todas as latitudes. Eram artistas. Designers. Cenógrafos. Fotógrafos. Modelos. Enfim, a fauna dita underground que cultivava a diferença como quem cultiva morangos. Com cuidado e extrema cautela. Sempre com a preocupação da diferença. Porque a igualdade. Ó horror dos horrores! A igualdade que morresse. Espezinhada. Horrível igualdade que desfazia o semblante da individualidade de cada um deles. E claro, sempre na individualidade e diferença, a mescla de compreensão por quem era genuinamente diferente.

Como ele os odiava.

Mas por amor ao companheiro lá os suportava.

A procissão iniciava-se quase todos os dias invariavelmente pelas quatro da tarde.

Era um ritual.

Como aqueles que se vê nos programas naturalistas. Os pavões vinham certificar-se de que tudo estava como devia ser dentro da desigualdade. Que nenhum vinco nem ruga perturbava a serenidade do seu pequeno mundo artificial construído numa base de lantejoulas e cursos de artes e letras.

Vinham com beijinhos e palavras de alento. Alguns não lhe tocavam. Mesmo anos depois de toda a gente saber que o vírus não se passava assim. Tinham horror à morte mas o mórbido fascínio de a presenciar de perto atraía-os vezes e vezes, como a luz atrai a traça.

Ele para ali estava. Na cama. Tubos a saírem dele para as máquinas. E tubos a saírem das máquinas para ele. Era a atracção número um do circo de anormais.

Diziam-lhe que estava na fase terminal. A sério? Se não lhe tivessem dito ele não acreditaria! Pois então se desde há um mês que não saía daquela cama. O emprego ficara lá atrás como um sinal de desvio passado na autoestrada.

A família. Onde estavam esses rostos rudes e beligerantes, agora? Ao menos esses não lhe ofereciam compaixão em bandeja. Mas também eles tinham ficado algures lá atrás. Num passado longínquo.

Só lhe restava o Rui.

E ultimamente não tinha ele visto a chama extinguir-se nos olhos do seu amor?

© Ricardo Loureiro, 2004

Re: O grito calado

Posted: 02 May 2005 20:34
by Pedro Farinha
Excelente ! Gostei mesmo muito, a forma como o texto consegue ser tão intenso sem ter necessidade, ou exactamente por não utilizar, palavras opressivas.

Acho que uma boa história deve ser contada assim, em que só a meio se percebe exactamente do que se está a falar e em que a intensidade vai subindo de tom.

:bow: :bow:

Re: O grito calado

Posted: 04 May 2005 19:06
by Samwise
Nossa senhora!!!!

Este texto é mesmo cruel! E o problema é que só vejo realidade nele!

Mais um grande texto sobre a solidão. Desta vez através da doença e da (in)diferença.

Está muito bom Thanatos.

Sam

Re: O grito calado

Posted: 05 May 2005 00:32
by Maloveci
Intenso, intenso, intenso, intenso, intenso ... muito intenso, mas quem será o seu amor ? Será que estará com ele na última etapa ? Ou será mais um dos pavões ? :(

Re: O grito calado

Posted: 05 May 2005 22:34
by Venom
:ttu: muito bom como sempre :lol: