" Duas conchas "

Maloveci
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" Duas conchas "

Postby Maloveci » 05 Apr 2005 00:14

Não havia vento, não havia ondas, nem um brisa se sentia naquele recanto de mundo a que alguém um dia chamou de praia .
Era cedo, muito cedo, a manhã estava com um céu azul tão brilhante que o mar sentia-se envergonhado por naquele dia não ter semelhante cor, mas ao mesmo tempo sentia-se protegido ... mas não aquela concha que nessa manhã deu à praia (vamos chamar-lhe de A) .

Mas não estava só ... lá ao longe outra concha (a que vamos chamar de G) vislumbrava aquele acontecimento ... a chegada de mais uma concha àquela praia .
Todos os anos este invulgar evento ocorria, este ano pertencia a A e a G .
Elas (as conchas) eram lançadas no alto mar por alguém ( a que vamos chamar de destino) e as duas primeiras conchas a alcançar aquele aglomerado de torrões de terra, viviam para sempre felizes . Mas desta vez e infelizmente as coisas não acabavam com um final feliz ... não desta vez .

Para G era a primeira vez que acontecia esta aventura ... para A ... também .
Contudo não seria a primeira vez que aquelas conchas se encontravam ... aquele olhar trocado entre ambas dizia tudo ... de certeza que em outra realidade já teriam partilhado confidências .

Este dia foi marcado por alegrias mil entre as duas conchas . Foi um dia de sussurros, de brincadeiras, de alegria partilhada, de maneiras iguais de ver o mundo e até várias cusquices sobre ele e sobre a vida, (a curta vida delas) . G transbordava de alegria, tanta ... tanta que poderia o mundo acabar ali aos seus pés que ele viveria para sempre feliz para onde quer que fosse .

O dia passou num ápice (rápido demais mesmo ...) e G reparou que A estava quase desfalecida, o longo caminho percorrido até alcançar aquela praia era a razão .
G na sua simplicidade/cortesia, segurou em A e delicadamente deitou-a num leito de algas verdes (construídas por si) ... umas lindas algas verdes que davam cor de esperança aquele lugar .

Passaram-se vários dias e A não melhorava .
O dia de G era preenchido a tentar animar aquela outra concha .
Ele contava histórias, desenhava na areia lindas figuras só para a animar, procurava os melhores raios de sol para aquecê-la e quando ficavam fortes demais ... procurava a melhor sombra .

G sentia-se contente por estar a ajudar, sentia-se útil, preenchido, alegre como uma criança traquinas, mesmo não tendo de A ... qualquer gesto de ternura . Mas G não desistia, considerava que lhe estava destinado aquela sua maneira de ser útil .
Que engano, que engano ele estaria a cometer, mas também ... não havia naquela imensidão de praia quem lhe ouvisse e ele não sabia falar nem com o mar nem com o vento, habitou-se a viver daquela forma .

Certa manhã A acordou muito melhor, G não viu ... foi a brisa que lhe disse porque ainda continuava a dormir . A noite passada à procura de pauzinhos de madeira secos para fazer uma pequena fogueira e aquecer A, havia-lhe tomado as forças .
A levantou-se e olhou para G, mas nem lhe tocou ... não sabendo bem porquê, retirou-se devagarinho sem barulho, nem mesmo amparou aquela manto de algas por cima de G para lhe aconchegar o sono ... como ele lhe fazia todas as manhãs .
Sem destino caminhou sempre em frente e conseguiu sair daquele lugar , sem nunca olhar para trás ... como poderia ser ? como ? Então não existiu nem um pingo de sentimento ?

O brilho do Sol a tocar ligeiramente o mar fez desvanecer aquela figura aos poucos até ao ocaso total .
Já o Sol estava alto quando G acordou e olhando para todos os lados procurou por A muito preocupado ... tinha receio que o frio e o vento da noite passada lhe tivessem levado, estando ela tão fraca .

Mas com o decorrer do dia, das semanas, dos meses, reflectiu interiormente que nunca mais veria a sua alma gémea .
Todo esse tempo fez com que aprende-se a falar com mar e mesmo com o vento que lhe apresentou à estrelas, mas também elas não sabiam o porquê de A ter partido .
Por vezes tem a noção de a ouvir ao longe a dizer : “estou aqui, estou aqui” ... mas de seguida tal momento desvanece-se com mais um pôr-de-Sol . É apenas um engano momentâneo .

G passou a ser mais uma daquelas conchas a que nos habituámos a pisar quando percorremos a praia, foi apenas mais uma e ... ele que queria ser diferente ...
Conta-se que ... ao luar ainda a procura ao longo daquela praia escrevendo frases banais na areia como : “Onde andas?”, “Não te escondas” ... à procura de uma saída daquele sítio porque sozinho não consegue, não consegue mesmo, porque ... falta-lhe um A .
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Re: " Duas conchas "

Postby Maloveci » 10 Apr 2005 04:10

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Re: " Duas conchas "

Postby Samwise » 12 Apr 2005 10:10

Este está bem bonito!

Acho que foi o texto que mais gostei teu!

Primeiro chamou-me a atenção a parte das cores (das letras) no texto. Depois quando o li gootei imenso.

É impressão minha ou aqelas letras existem mesmo na vida real?

Sam

P.S. Estou a reparar que muitos contos aqui postados fazem referência a praias e ao seu ambiente (este, por exemplo, um outro do Thanatos e um do Ancalagon).
Deve ser um dos sítios que mais puxa pela libertação dos sentidos...
Engraçado é que um dos meus próximos trabalhos (está em memória) vai começar desta forma também... Espero não cair num lugar comum!
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Re: " Duas conchas "

Postby Cerridwen » 12 Apr 2005 21:21

P.S. Estou a reparar que muitos contos aqui postados fazem referência a praias e ao seu ambiente (este, por exemplo, um outro do Thanatos e um do Ancalagon).
Deve ser um dos sítios que mais puxa pela libertação dos sentidos...
Engraçado é que um dos meus próximos trabalhos (está em memória) vai começar desta forma também... Espero não cair num lugar comum!


Pois é, a praia é um óptimo local de inspiração, não só a nível da escrita, mas também a nível de artes plásticas e não só. É um local belo e quase mágico, que "liberta" os vários sentidos. :)

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Re: " Duas conchas "

Postby Maloveci » 13 Apr 2005 08:01

Samwise :É impressão minha ou aquelas letras existem mesmo na vida real?


Quem sabe ? Quem sabe ? .... por isso o que escrevo chamo-lhe as minhas "palavras trocadas", mas deixo-te aqui uma pista ...

... reflectiu interiormente que nunca mais veria a sua alma gémea .


A = alma
G = gémea

Agora tenta situar este texto numa possível realidade diária, onde não é necessário existir uma praia ... ;)
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Re: " Duas conchas "

Postby Thanatos » 13 Apr 2005 10:39

Está de facto um texto superlativo. E encontram-se vários níveis de leitura conforme o nosso estado de espírito. Muito bom exercício de escrita, Maloveci! Diria até que é um dos teus melhores trabalhos que até agora tive o prazer de ler.
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: " Duas conchas "

Postby Maloveci » 13 Apr 2005 23:07

Está de facto um texto superlativo. E encontram-se vários níveis de leitura conforme o nosso estado de espírito. Muito bom exercício de escrita, Maloveci! Diria até que é um dos teus melhores trabalhos que até agora tive o prazer de ler .


Obrigado Thanatos :tu: :tu: mesmo, mesmo ... foi um daqueles que me saiu ... completamente diferente dos que costumo escrever . Existem outros mas ainda não mostrei aqui . Qualquer dia, qualquer dia ... :(

A história de A e G poderia passar-se com qualquer pessoa ... o sentimento está lá e demonstrado de forma metafórica ;)
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Re: " Duas conchas "

Postby Maloveci » 13 Apr 2005 23:14

Quero aqui agradecer a TODOS :clap: :clap: terem comentado as minhas "palavras trocadas ", só assim tive o feed-back ... que tanto ambicionei .
Fiquei mesmo contente por me terem inserido um espaço com o meu nome e ainda por cima sendo eu um novato no site :blush: :blush:


Mais uma vez :bow: :bow: :bow: :bow: :bow:


Maloveci :pub:
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