A Lojinha dos Horrores

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Samwise
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A Lojinha dos Horrores

Postby Samwise » 07 Jun 2005 11:46

A Lojinha dos Horrores

No outro dia passei pelo largo do Santo Redentor e vi, num cartaz de cinema, a figura de um dragão.
O meu neto, que ia comigo pela mão, reparou no meu nervosismo. O miúdo tem três anos e já as apanha todas. É um espertalhão daqueles. Sai ao avô.
Inventei uma desculpa qualquer para não lhe contar a história. Talvez quando ele for mais velho. Sabem, as crianças, na idade dele, acreditam em tudo.
Aconteceu há uns cinquenta anos, quando eu nem sequer namorava a Helena. Tinha arranjado trabalho como aprendiz de contabilidade numa firma de reputação. O ofício era complicado, mas eu não me queixava. Começar por baixo numa companhia daquelas era um grande sorte. Todos os dias percorria listas de números, calculava somas e multiplicações e assinalava os erros com um lápis vermelho. Passavam-me pelas mãos os diários e balancetes de muitas empresas conhecidas na praça.
Chegava ao fim do dia com a cabeça em água. Naturalmente sabia-me bem fazer a pé o caminho até casa. Refrescava-me as ideias. O ar puro libertava-me os pulmões do cheiro do papel. Gostava, para além disso, de passear pela calçada do Anto. Plátanos enormes decoravam os dois lados da rua. A meio passava uma linha de eléctrico para cada lado. Havia algumas lojas e restaurantes ao longo do caminho. Era uma zona cosmopolita.
Em certas ocasiões, nos fins de ano, o trabalho acumulava-se. Nessas alturas a empresa contratava alguns servente e o expediente era dividido por todos.
Num Janeiro remoto, quando eu tinha uns três ou quatro anos de casa e já tinha subido uns degraus, saí do escritório a meio da noite. Eu e mais uns colegas tínhamos ficado a fazer serão. Desci a calçada, como habitual, pelo lado esquerdo, ao abrigo das árvores desfolhadas. Candeeiros a gás iluminavam o caminho, projectado sobre ele uma luz ténue e irregular. As sombras dominavam a luz. Não de via vivalma. Ali caminhava eu, descontraidamente, com o guarda-chuva a fazer de bengala, quando reparei no mais estranho dos factos. Do outro lado da rua, uns metros mais à frente, estava uma loja aberta. Era inequívoco. A porta, por onde escapava uma luz fraca mas constante, convidava os clientes a entrarem. Por cima desta um cartaz de néon anunciava o negócio. "Pequena Loja dos Horrores", dizia.
Não me lembrava de, nas inúmeras vezes que passara na rua, ver tão singular ponto comercial. Movido pela curiosidade, com as minhas pernas a avançarem à minha frente, dirigi-me ao local. Ao lado da entrada havia uma pequena montra onde repousavam alguns artigos. Vi monstros de madeira e de metal, meticulosamente construídos, apresentados para exposição como se fossem brinquedos. Assemelhavam-se, no meu imaginário, às figuras lendárias de dragões que tinha visto em publicações antigas sobre as grandes epopeias marítimas. Primavam pele perfeição no detalhe. Perplexo, resolvi entrar.
A loja funcionava numa cave acessível ao fim de meia dúzia de degraus. A área não era mais do que um espaço rectangular, do tamanho de um quarto, em que as paredes se escondiam por de detrás de estantes enormes e abrangentes. Variados artigos enchiam as prateleiras, todos eles relacionados com a temática do horror. Em frente às escadas, do outro lado do quarto, estava um balcão com uma caixa registadora em cima. Atrás dele, sorridente e erecto, aguardava o meu anfitrião. Não sei de onde vinha a claridade, pois não vi nenhum candeeiro no local. A iluminação era suficiente para uma pessoa ler um livro sem cansar os olhos.
'Boa noite, ' disse o homem, 'O meu nome é Straker. Bem-vindo à loja dos horrores'. Tinha uma figura esguia, de ombros largos e braços compridos. Mais compridos que o normal. Era totalmente calvo, o que era estranho para a sua aparente idade. O nariz, proeminente e rectilíneo, projectava uma sombra difusa sobre o lábio superior, que era carnudo. Não lhe via pescoço algum. Vestia um fato preto.
'Boa noite, 'disse eu, 'Esta loja... é nova por aqui, não?'
'Relativamente nova. Abrimos há dois meses. Anteriormente estávamos em França...' Straker uniu as mãos e esfregou uma na outra.
'É um negócio certamente diferente,' disse eu, enquanto olhava em volta. A estante do meu lado direito era exclusiva a dragões. Para além dos exemplos que tinha visto na montra, descobri monstros sob outros formatos... fantoches, marionetas, duas ou três pinturas a óleo e até pedaços de escamas e unhas etiquetadas como autênticas.
'Tem as suas compensações,' retorquiu o homem, 'O meu sócio está a pensar abrir um negócio de arte, mas eu, pessoalmente gosto mais deste...'. Os seus olhos não me largavam. Sentia-os percorrerem-me a figura.
'Muito boa pronúncia, para quem veio de França à dois meses...'
'Obrigado... mas receio que a minha destreza já venha de outros tempos.'
'Mesmo assim...' Olhei para ele. 'Não consigo precisar ao certo de onde vem a sua pronúncia...'
'Ah... seria difícil, mesmo para um estudioso na matéria. Venho da Moldávia,' sorriu, sem separar os lábios.
Pousei o guarda-chuva no bengaleiro e, de mão atrás das costas, comecei a volta pelo quarto.
'O horário também não é o mais vulgar...', lancei.
'Faz parte da mística do negócio. Para além disso nós,' pausou, '- eu e o meu sócio, quero dizer - somos um pouco sensíveis à luz solar.'
'Estou a ver,' disse eu. Na realidade, não estava a ver coisíssima nenhuma.
Havia uma secção de uma estante dedicada a poções mágicas. Estava ocupada por inúmeras campânulas de vidro. Estas continham os mais diversos pós e líquidos. Todas tinhas etiquetas. "Pele de morcego: região lombar", "Extractos de medula de lobo", "Bálsamo de sais de mandrágora"...
'Interessado nalgum componente específico?'
'Bem... Na verdade estou só a satisfazer a minha curiosidade. Tudo isto é novo para mim.'
'A maior parte dos nossos clientes começa assim. Depois das primeiras tentativas, começam a aparecer por cá com mais regularidade...'
'Talvez ... hmmm... o que me recomendaria como prenda para uma pessoa de estatuto?' Fiz a pergunta a pensar no meu pai, que teria o seu aniversário daí por um mês.
'Algo exclusivo, sem dúvida. Os nossos melhores artigos não estão expostos aqui... para não originarem mal entendidos, se é que me compreende. O senhor, no entanto, parece-me bastante à vontade. Se estiver mesmo interessado...'
'Estamos a falar de quê?' Na realidade, eu não estava nada à vontade, conseguia era disfarçar bem.
'Cavalheiro, faça o favor de me acompanhar.' Esticou o braço e abriu um cortinado atrás dele. O braço era longo, de facto, tal como os dedos da mão. Convidou-me a entrar com o outro braço. A iluminação no corredor resumia-se a uma tocha pendurada na parede.
Enquanto descíamos por uma escada apertada, eu à frente e ele atrás, ouvi-o a tirar um molho de chaves do bolso.
'A última porta, do seu lado esquerdo, se fizer favor,' disse-me, ao fim de vários minutos de escadaria. Por essa altura eu estava a ficar verdadeiramente nervoso. Mais uns minutos a descer e estaríamos no centro da terra, não tinha dúvidas.
Depois de destrancar várias fechaduras abriu uma esguelha numa porta de ferro maciço, que parecia a de um cofre gigante. Um cheiro pestilento chegou-me às narinas. Por momentos julguei que ia ser encarcerado numa cela.
'Antes de entramos, porém, há uma coisa que necessito de lhe dizer, Sr...?'
Não me senti confortável em revelar o meu nome verdadeiro, por isso disse-lhe a primeira coisa que me veio à cabeça.
'Meira. Benjamim Meira.'
'Sr. Meira, o assunto que nos aguarda para lá desta porta deve permanecer em estrita confidencialidade. Confio na sua palavra em não revelar quaisquer pormenores a terceiros.' Straker olhava para mim, sério. A afirmação que fizera saldava-se a si própria. Era um aviso.
'Não tenho outra coisa em mente, asseguro-lhe,' disse eu, com a voz mais solene que encontrei.
'Avancemos, então,' e empurrou o colosso. Entrámos para uma sala onde poderia estar uma adega. Para além de uma boa dose de humidade, um frio de rachar atingiu-me os ossos. As paredes e o tecto revelavam um compartimento construído há centenas de anos e, quem sabe, até se não há milhares. As poucas tochas que ardiam nas paredes forneciam a iluminação. Os artigos, da maneira que estavam expostos, davam ao local a aparência de uma galeria de museu. Era um espaço amplo e sombrio.
'Estão todos para venda... mediante um determinado preço, como é óbvio.' Straker soltou uma gargalhada que ainda hoje me ecoa na mente.
O primeiro objecto que me mostrou era um sarcófago. Estava colocado ao alto e a tinha a porta semi-aberta. Dentro dele eram visíveis milhares de espinho em ferro.
'A Donzela de Ferro,' explicou. 'Um dos mais populares instrumentos de tortura medievais. As vítimas eram deixadas lá dentro durante alguns dias. Algumas até sobreviviam à experiência. Enfim...Um desperdício de sangue!'
Avançámos para a segunda peça, largos metros à frente. Era uma gravura antiga.
'Vlad, o empalador. Um quadro original, pintado à vista.'
'Não creio que conheça tão ilustre figura...'
'O Príncipe Vlad foi uma personalidade influente na história do século XV. Eu diria que deixou um legado bastante interessante. Ficou conhecido pelos seus hábitos sanguinários. Diz-se que, ao longo da sua vida, empalou milhares de pessoas vivas.'
Inconscientemente fiz um careta,
'Sabe quanto tempo demora a morrer uma pessoa empalada? Isto é... considerando que a operação é efectuada correctamente?'
Não respondi, horrorizado. Avancei mais uns passos, como que a fugir à pergunta.
'Uma cadeira...?'
'Ahhh... um dos pontos altos do nosso catálogo: o trono do Papa Júlio II, que ascendeu ao poder em 1503.'
Incrédulo, olhei outra vez. A magnificência dos dourados ofuscava qualquer outro pormenor.
'Enquanto ainda era bispo trouxe ao mundo três herdeiras, fruto de relações proibidas e pecaminosas. Durante o papado combateu a oposição pela força da espada, comandando, em pessoa, exércitos implacáveis. Uma personagem interessante, não diria, Sr. Meira?'
Não sabia até que ponto acreditava naquela conversa. Acenei com a cabeça, ainda atónito. Straker aproximou-se, fazendo-me avançar mais uns passos.
Os meus olhos fixaram-se em algo escuro. A princípio não consegui perceber o que era aquilo. Segui os contornos do objecto com atenção, até apanhar a imagem toda. Um arrepio de varreu-me a estrutura óssea separando-a, por uns momentos, da massa disforme a que chamam carne. As minhas pernas fraquejaram e o ar abandonou-me dos pulmões, ele também, com vontade de fugir dali para fora.
'Esse NÃO é um boneco de madeira,' certificou Straker. 'Não me pergunte onde o arranjámos.'
Aquilo que eu tinha visto inicialmente era a ponta da cauda. Estava a olhar para um dragão embalsamado. A envergadura das asas, que pareciam as de um morcego gigante, estendia-se de uma ponta à outra da sala. Ocupavam toda extensão de parede. O corpo estava coberto de escamas esverdeadas e escuras, não como as dos peixes mas muito mais espessas. Sobre o dorso elevava-se um carreiro de formações pontiagudas, com o formato de diamantes invertidos. Começavam na parte de trás do pescoço e seguiam até ao final da cauda. O que me impressionou mais foi, todavia, a cabeça. Era grande, do tamanho e formato de automóvel, talvez. Através da boca, ligeiramente aberta, distinguiam-se algumas presas salientes. Eram tão afiadas como as de um tubarão assassino. E os olhos, Meu Deus... os olhos eram os do diabo. Olhar para eles era cair num abismo de terror, do qual não há volta possível.
'Sr. Straker... Eu… peço desculpa, mas o tempo urge. Tenho um apontamento importante de que lembrei agora...' Vistas as coisa, era um argumento completamente idiota. Ninguém, nunca, tem nada marcado para as três da manhã.
‘O resto da mostra terá que ficar para outra ocasião,’, disse, num tom comprometido.
'Compreendo. Eu acompanho-o à porta, ' disse Straker, que parecia divertido.
As escadas nunca mais acabavam, mas à medida que subíamos o ar tornava-se respirável, o que era bom.
'Boa noite, Sr. Meira. Espero contar consigo brevemente. E não se esqueça... o assunto lá de baixo fica entre nós.'
'Não me esquecerei. Boa Noite Sr. Straker.' Afastei-me rapidamente e só abrandei o passo quando entrei em casa, meia hora depois.
Não voltei a passar ou a passear naquela calçada durante a noite. De dia, a montra estava coberta por um lençol branco. Dir-se-ia que o local estava abandonado. Uns anos mais tarde um incêndio misterioso consumiu o edifício, reduzindo a loja a cinzas. Não sei se os seus proprietários ainda frequentavam o local.
Hoje tenho pesadelos. Às vezes acordo a meio da noite encharcado em suor e lembro-me. Lembro-me dos olhos do diabo a fixos em mim.

FIM
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Re: A Lojinha dos Horrores

Postby Cerridwen » 07 Jun 2005 21:51

Este, dos teus textos que concorreram ao passatempo "dragões", foi aquele de que mais gostei, especialmente por uma razão, pelo que li dos outros textos (confesso que não li tudo) parece-me que na maioria as partes de diálogos não ficaram bem ligados com as descrições, neste texto, porém já há uma boa ligação de "diálogos" e "descrições", o que tornou o texto menos massudo e mais apelativo.

Pelo que já li, pareceu-me que neste passatempo apostaste mais na quantidade do que na qualidade....pois alguns textos parecem ter recebido melhor tratamento do que outros. :unsure: (estarei errada?).

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Re: A Lojinha dos Horrores

Postby Samwise » 08 Jun 2005 10:36

De inicio apostei na quantidade, sem reservas, e depois logo se via. O plano inicial era escrever um conto por dia, o que daria algo como vinte e tal contos (LOL).
Escrevinhei as fundações para os seis trabalhos dentro do plano estipulado e parei por aí (estava farto de dragões).

Quanto aos tratamentos que lhes dei... sim... é verdade que os tratei de maneira diferente. Aos três primeiros, os que não gostei de ler uma semana mais tarde, só lhes dei uns retoques. Aos outros três, tratei-os com mais carinho, é um facto!

Dos três "melhores", este conto foi o que gostei mais de imaginar mas foi o que menos gostei de ler. Para mim era a aposta mais fraca para o pódio.

É engraçado como as nossas noções são tão diferentemente interpretadas por terceiros. Tem uma certa graça comparar o que os outros dizem com as nossas próprias opiniões.

Na minha cabeça continuo a gostar mais tanto do "Dragões" como do "A Maldição do Dragão". :joker:

O facto de sentires que este está melhor balanceado se calhar tem a ver com o facto de ter sido o último a ter sido escrito, o tal "Practice Makes Perfect"... Quem sabe se tivesse escrito mais uns tantos... :mrgreen:

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Re: A Lojinha dos Horrores

Postby Cerridwen » 08 Jun 2005 19:24

Samwise wrote: O facto de sentires que este está melhor balanceado se calhar tem a ver com o facto de ter sido o último a ter sido escrito, o tal "Practice Makes Perfect"... Quem sabe se tivesse escrito mais uns tantos... :mrgreen:

Mais uns tantos? :o Eu já acho seis contos, em menos de duas semanas, um número muito elevado. Aliás, eu sou da opinião de que é preferível optar em primeiro lugar, pela qualidade. Um texto precisa de imaginação, de ser revisto várias vezes, e isso implica tempo e paciência. :)

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Re: A Lojinha dos Horrores

Postby Samwise » 09 Jun 2005 10:26

Cerridwen wrote: Um texto precisa de imaginação, de ser revisto várias vezes, e isso implica tempo e paciência. :)

Eu sou o primeiro a concordar com isso!

A questão foi que tive uma catrefada de ideias logo de início e tinha que as passar para o papel a correr, antes que fugissem. Acabaram por se espalhar por 6 textos... Ainda tinha ideias para mais só que já era uma tortura escrever sobre "dragões". Daí que peguei nos melhores e dei-lhes a tal atenção que referes.

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