A Voz

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Samwise
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A Voz

Postby Samwise » 23 Jun 2005 19:34

Muitos meses depois, diante do vazio húmido da sua cela, Filomena havia de recordar aquele dia remoto em que ouvira a estranha voz aveludada. Falava de modo tão hipnótico que faria as estátuas andar, se assim o desejasse.

O dia começara como todos os outros. Acordou na cama, já sem o marido presente. Arranjou-se e dirigiu-se para o trabalho. Trabalhava em tele-marketing, no Call-Center de um operador turístico.

Eram oito e meia da manhã quando se sentou no seu posto. Separada dos seus colegas por divisórias plastificadas, inseriu o log-in no terminal e colocou os auriculares e o microfone, ajustando-os às suas medidas. Olhou para a aplicação de contactos, onde se exibia uma lista de nomes e números de telefone, posicionou os textos acessórios ao lado do lista e lançou mãos à obra.

As primeiras chamadas da manhã decorreram dentro da normalidade. Alguns clientes aceitavam o prémio maravilhados por terem sido seleccionados. Outros protestavam raivosos, queixando-se da invasão de privacidade a que se viam submetidos todos os dias. Filomena ia olhando para a regra contornada a vermelho que flutuava no ecrã por cima da aplicação informática. "O Cliente tem SEMPRE razão! Seja educado(a) e paciente. TRATE-O COM CARINHO. E lembre-se... todas as chamadas ficam registadas."

Por volta das onze da manhã já tinha despachado vinte e três contactos. A sua taxa de aceitação, para esse dia, rondava os 70%. Estava dentro dos parâmetros indicativos.
Olhou para o número seguinte, deu ordem de marcação ao programa e decorou o nome do contacto enquanto aguardava ligação.

- Bom dia, o Sr. Bernardo Aureliano está?
- Sou eu.
- O meu nome é Filomena Meireles e estou a ligar do Clube Babilónia, Viagens e Actividades de Lazer. Temos o prazer de o informar que...
- ... ganhei uma viagem e que só tenho de me deslocar às vossas instalações para a receber. Que atencioso de vossa parte. - A voz que lhe chegava era convidativa e musical. O género de voz capaz de enlouquecer qualquer mulher, na vaga esperança de algum dia vir a conhecer o homem que a ostentava.
- Peço desculpa. Vejo que já o contactaram antes. Um erro na nossa base de dados, provavelmente.
- Não. De facto, não é erro nenhum. A Filomena é a primeira a ligar-me.
Filomena não estranhou a resposta. No mercado nadavam mais empresas com o mesmo tipo de oferta. Era possível que ele já conhecesse o esquema.
- Sr. Bernardo, está, então, interessado em vir receber o seu prémio?
- Não. Estou interessado em falar consigo, Filomena. Sabia que o seu marido anda a comer outra?
Pausa na ligação. Clientes engraçadinhos eram uma constante na sua profissão, mas aquela reposta tinha-a apanhada desprevenida.
- Sr. Bernardo, eu não estou autorizada a discutir assuntos que não sejam de trabalho durante...
- O almoço que planearam para hoje... Não vai ter lugar!
- Como é que sabe do alm...?
- Da mesma forma como sei que os seus olhos são verdes, mas que às vezes ficam acastanhados quando apanham claridade em demasia. E da mesma forma como sei que neste momento está a olhar em seu redor, a ver se está mais alguém está a escutar a conversa.
Outra pausa. Um arrepio de medo levantou-lhe a pele.
- Sr. Bernardo, não está, portanto, interessado em receber o prémio. Bom dia e com licença...
- Filomena, esta conversa ainda não acabou. Eu sei que só vai desligar o telefone daqui a exactamente quatro minutos e quarenta e sete segundos. Até lá vai ouvir tudo o que tenho para lhe dizer... - O eco da voz dele diluía-se nos seus ouvidos como chocolate na boca - ...atentamente.
- Desculpe, Sr. Bernardo mas eu não o conheço de lado nenhum...
- Ele vai ligar-lhe, Filomena, daqui a uns minutos, o seu marido. Ele vai ligar-lhe para desmarcar o almoço.
- Quem é o senhor?... isto é uma partida, já percebi.
- Filomena...gosta da sua vida miserável de empregada doméstica? Está a gostar destes dois magníficos anos de casamento? Do vosso afastamento progressivo? Das alturas em que fala com ele e ele nem ouve. E de quando a ouve, lhe responde com um grunhido imperceptível? E das surpresas que recebia quase todos os dias e que agora não passam de prendas habituais em datas importantes? E da maneira como ele se vira para o outro lado da cama e dorme sossegado, sem sequer uma carícia de afecto? E do sexo que passou para duas vezes por semana, ao fim de um mês, e para um incerto "ocasionalmente", ao fim de três? E da maneira como ele lhe pega quando lhe apetece fodê-la? Como se agarrasse numa puta? E dos olhos dele, quando o estão a fazer, que olham para si a nada vêm? Filomena, gosta de acordar todos os dias numa ilusão auto-imposta de felicidade que se vai desvanecendo até à hora do sono? Tudo para recomeçar no dia seguinte exactamente da mesma forma?
- Não tem o direito de tocar nesses assuntos...
- Filomena, eu sei de como dantes costumava pensar na palavra "FILHOS" e agora só pensa na palavra "DIVÓRCIO". Sei de como se recorda, com amargura, das promessas feitas diante do altar e da maneira como interiorizou o "Até que a morte vos separe" dentro do seu coração. Sei das carícias estranhas que o seu Pai lhe fazia, do seu medo por algo que não chegou a acontecer e de como se sentiu segura quando conheceu o Zé. Sei de como costuma esticar os lençóis na cama, para não sentir as pregas que a incomodam durante o sono...
- Pare!
- Lembra-se, Filomena, de ter chegado a casa, na semana passada, ao fim de um dia de trabalho, e ele já lá estar? Não achou estranho? Não desconfiou de nada quando lhe sentiu o cheiro? Cheirava a duche acabado de tomar! O género de coisa que se faz para encobrir...
Desligou a chamada. Esforçou-se por conter as lágrimas. Inspirou fundo várias vezes e tentou concentrar-se no trabalho. Passou para o nome seguinte. O seu telemóvel soltou um gri-gri e a imagem de uma carta apareceu no visor. "Querida, não posso almoçar hoje. Compromissos inadiáveis. Beijos."

O mundo desmoronou-se à sua volta. Não acreditava numa partida de tamanho mau gosto. Havia ali pormenores da sua vida que não tinha revelado nem ao Zé.

Com o coração aos pulos e uma raiva crescente, Filomena ligou o número outra vez.

- Filomena, minha flor, como está, desde há bocado. Muito triste com o almoço?
- Quem é ela?
- Avenida António Leal, nº 23 - 5º dto. Uma morada familiar, não? Sabia que ela o chupa sofregamente e que ele gosta?
- Quem é o senhor?
- Não vale a pena ir lá agora, que só está a mulher-a-dias.

A linha caiu.

O Zé e a prima?

Pediu ao Supervisor para sair, dando a desculpa de não se estar a sentir bem, o que na realidade correspondia à verdade. Uma vez na rua, tentou ligar ao marido. O telemóvel estava desligado. Ligou-lhe para o trabalho. Informaram-na que já tinha saído. Sentou-se num vão de escada, ao abrigo do sol, e pôs-se a chorar. Várias pessoas pararam na rua e olharam para ela. Algumas ofereceram-lhe ajuda. Recusou. Não tinha forças para sair dali. Horas mais tarde, quando as lágrimas secaram, chamou um táxi e indicou a morada.

A porta do prédio estava aberta. Subiu pelo elevador. Esteve quase a tocar à campainha, mas no último instante reparou que aquela porta também estava aberta. Empurrou-a devagarinho e entrou para o hall. Em cima da mesa, sobre a madeira envernizada, estava uma pistola, acompanhada de mais nada. Pegou nela e dirigiu-se ao quarto. Andou através de um corredor que lhe pareceu interminável. A face ardia-lhe de raiva e sal e a razão tinha-lhe abandonado às emoções. Entrou no quarto. Cheirava a luxúria. Os amantes dormiam serenamente, ela por cima dele. Dois tiros, dois melros.

Não tentou defender-se em tribunal. Aceitou a condenação sem abrir a boca. O caso foi encerrado pouco depois e votado ao esquecimento. Na acta do relatório criminal consta que não foi encontrada qualquer gravação das chamadas que Filomena disse ter efectuado, bem como o facto de o número que ela afirmou ter digitado não estar, naquele momento, atribuído. Na base de dados do Call-Center não existia qualquer referência ao nome “Bernardo Aureliano”, e, na ficha de Filomena para esse dia, apareceram apenas dois curtos períodos de inactividade e um pedido de saída pelo motivo “doença” antes da hora de almoço.

FIM

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Re: A Voz

Postby Maloveci » 22 Jul 2005 00:07

Fogoooooooooooooo !!!!!!!!!!
Super policial, ao estilo do mestre Hitchcock na parte do suspense .

Um must Sam, um must .

Sabes ... não costumo gostar de ler textos longos mas este prendeu-me à atenção em vários pontos e fez-me prolongar a minha curiosidade .
Existem algumas passagens que parecem ter sido vividas, pelo aprofundar propositado de certas descrições ... <_<

Destes ... venham mais ;)

Abraço
Maloveci :tu:
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Re: A Voz

Postby Samwise » 22 Jul 2005 09:43

Bem... depois deste elogio... não sei não...

Eu achei este meu texto um pouco irregular... há partes que gostei muito e outras que nem por isso. Fiz algumas concessões em prol do "terror" da história... e baseei-me numa quantidade enorme de fontes dos mais diversos quadrantes culturais (livros, filmes, música...)

Queria que o final fosse ambiguo, tipo: será que a "voz" era real ou foi tudo imaginação dela... só que me descuidei num promenor e estraguei a coisa :lol!:

Muito obrigado pele teu comentário, Maloveci... pensei que este já estava esquecido para os leitores.

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Re: A Voz

Postby Samwise » 22 Jul 2005 09:58

Já agora... a minha referência principal (ou a ideia de onde surgiu este texto) foi o filme "The Mothman Prophecies": <a href='http://www.imdb.com/title/tt0265349/' target='_blank'>http://www.imdb.com/title/tt0265349/</a>

Normalmente impressiono-me pouco com filmes de terror... mas este tenho que dizer que me gelou a "espinha". Vi-o no cinema e sai da sala com medo de pegar num telefone.

Foi um filme que passou relativamente despercebido e que na verdade não é nada de especial... mas mete mais medo que que os assumidos blockbusters de terror.

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