A Caçada

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Samwise
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A Caçada

Postby Samwise » 12 Aug 2005 15:17

Fat Boy, este é para ti!
Começou com uma inspiração naquele teu conto da sedução e depois.... bem, depois só lendo :mrgreen: !
Espero que gostem.


A Caçada

"One day we all gonna die."
Expressão popular

"The sooner, the better."
Outra expressão popular


I - Ela

"Aposto como vai dizer Papá antes de dizer Mamã"
"Aposto como a levo para a cama na Sexta-feira"
"Aposto como o Sporting vai ganhar o campeonato"
"Aposto como o Mário vai levar porrada do Sérgio"

No bairro faziam-se apostas.
Fora sempre assim.
Era algo mais antigo que a própria tradição popular.
O gosto pelo desafio do improvável e a vontade alarve de sacar uns cobres ao vizinho do lado firmavam-se em suados e ferozes apertos de mão. Nos passeios e vielas, nas ruas e becos, nos recantos malcheirosos das tascas e cafés, nas paragens de autocarro, dentro de automóveis de boleia casual e até, imagine-se, de casa para casa, através de janelas separadas por estreitos metros de rua.
Apostava-se tudo e sobre tudo. Apostava-se sobre bola, sobre corte e costura e sobre dentes de siso por nascer. E falava-se, naturalmente, sobre as apostas em espera.

"Aposto como a Mariana vai morrer solteira"
"Aposto como ela vai à discoteca comigo"
"Aposto como nunca lhe vais por as mão em cima"
"Aposto que ela gosta é de mulheres"

Mariana Vilhena. Ela era um tema mais forte que os outros. Ela era a expectativa crescente de todo um aglomerado populacional. A rapariga mais bela das redondezas não tinha namorado. Nunca tinha tido. Nenhum macho local lhe tinha posto as garras em cima, pelo menos até ver. Mais: não se lhe conheciam devaneios irracionais de noites órfãs.
Sobre ela não havia nenhuma aposta acordada, talvez por cobardia, talvez por respeito. Havia sim uma rede, como que um emaranhado aracnídeo de palpites, quase apostas, sobre quem seria o escolhido. Se é que alguma vez haveria um.
Muitos já tinham tentado uma aproximação, mas nem subtilezas nem virilidades emproadas conseguiam arrebatar o prémio. Serena, Mariana caminhava pela rua, os saltos altos a ritmarem sonoridades fortes na calçada. Troteavam sonhos e esperança em muitas cabeças. Dir-se-ia que pisavam os cacos de corações partidos que se estendiam pelo chão à sua frente.
Alta - mais alta porque sempre em cima de saltos - e esbelta, linda de matar, o seu peito inexistente atraía desejos inconfessos e revirava sentidos em homens e rapazes, certamente habituados a medidas mais volumosas. As ancas, como que sustentadas em colunas atenienses, moviam-se plenas de intenção, sabedoras do libido que escorria para a rua. Enterravam, fundo, um punhal no peito dos apaixonados. Aquele corpo nunca lhes pertenceria, sabiam-no. Sabiam-no, mas sonhavam.
E se a figura imponente atraía as atenções ao longe, a face, de perto, dissolvia qualquer foco de resistência teimosa.
Os olhos profundos, as íris cor de avelã. Tingidos a verde, podiam, se quisessem, reflectir o mar em todo o seu esplendor. Quem os cruzasse não os tornava a esquecer. Era como olhar para a bela eternidade. Sobre eles, as sobrancelhas surgiam firmes mas delicadas. Eram negras, tal como o cabelo. Madeixas longas, ligeiramente encurvadas, desciam pelos lados da face. Escondiam pequenas orelhas e terminavam tocando os ombros.
Os lábios eram estreitos, maleáveis e deliciosamente carnudos. Adornados por um sorriso falsamente tímido, eram uma fonte de desejos por brotar. O seu vermelho carregado, natural, contrastava com o dourado suave da pele do rosto. O nariz, estreito e decidido, como a linhas do rosto, curvava-se ligeiramente na ponta, quando visto de perfil. E o queixo, essa peça que firmava um conciso mecanismo de sedução, era pequeno e arrebitado. Dele, mais do que da boca, surgiam os "nãos" com que brindava algumas propostas mais atrevidas.
Mariana era um anjo num corpo de demónio. Movia-se dentro de uma aura de invulnerabilidade. No bairro, e apesar da violência constante, todos a protegiam. Era invulgarmente respeitada.


II - Ele

Ao espelho, apertou a gravata no cimo do colarinho. Os dedos da mão direita deslizaram para baixo, ao longo do tecido sedoso, acariciando as tiras amarelas e azuis que se alternavam em diagonais cirúrgicas. O ornamento, isento de vincos, terminava triangular sobre a fivela prateada do cinto.
Distinguia o cheiro da água-de-colónia escapando-se por entre os poros da camisa, em resposta aos movimentos respiratórios. Em breve o seu olfacto habituar-se-ia, e então deixaria de sentir aquela fresca brisa artificial. A fragrância do after-shave desaparecera dessa forma, apenas poucos minutos antes.
Vestia umas calças de linho azul-escuro, da mesma cor do casaco pendurado nas costas da cadeira. A camisa era azul-clara lisa. Uma estreia, tal como o resto da roupa. Estaria, porventura, demasiado calor para aquela indumentária, mas lá mais para a noite talvez refrescasse um bocadito.
Colocou e apertou os botões de punho. Peças únicas, em platina, confeccionadas no estrangeiro por um artesão de renome.
Guardou um lenço de pano no bolso esquerdo das calça e um preservativo - só um - no da direita.
Um relógio de pulso moderno estendia-se ao comprido em cima da secretária. Pegou nele e verificou os botões. Tudo a funcionar. Apertou-o no pulso, fixando o fecho da pulseira de metal com invulgar atenção.
Ligou para a portaria e pediu para lhe deixarem o Ferrari em frente à porta. Desceria dentro em pouco.
Vestiu o casaco e guardou a carteira no bolso interior. Olhou-se ao espelho uma última vez. Fez uma careta à felino e saiu.
O descapotável vermelho aguardava-o no local combinado. Ronronava manso, chave na ignição, à espera que o dono lhe soltasse a rédea.


III - Sedução

Noite de Santos Populares...

-----------------

- Ficas-te pelo bairro?
- Não, Avó, vou até cidade.
- Mariana, querida, não voltes tarde, está bem?
- Descanse. Eu já sou crescidinha.
- Muito cuidado com as companhias... anda aí uma vaga de assassinatos...
- Até logo, Vó.

-----------------

- O lugar está ocupado? - Perguntou com delicadeza.
Mariana voltou à realidade. Encarou o estranho nos olhos. O rapaz à sua frente tirou os óculos escuros da face. Pousava a mão sobre a cadeira, como que aguardando um "Não. Pode sentar-se...".
- Estou à espera de uma pessoa. Desculpe.
- Far-lhe-ei companhia até que chegue, então. Detesto encontrar uma rapariga bonita a sós com o destino. - Puxou da cadeira e sentou-se.
Ele não era bonito. Era interessante. No rosto, embora bastante jovem, um misto de Humphrey Bogart e de Tom Cruise combinavam-se sem atropelos. Um cruzamento entre um "preto-e-branco" clássico e um "a cores" modernista. Interessante. Mariana olhou em volta. A multidão passava na rua. Poucas pessoas na esplanada. Comprimiu os lábios e elevou o queixo, em sinal de protesto, como se estivesse a beijar uma figura imaginária no ar à sua frente.
- Não é uma pessoa educada...
- A educação utiliza-se consoante as circunstâncias.
Ele fez sinal ao empregado, que não tardou a chegar. Outro sinal, com a ponta dos dedos, e o homem debruçou-se sobre ele. Mariana observava a troca de confidências entre os dois. O rapaz falava e o outro anuía. Uma nota de quinhentos mudou de mãos e o empregado deixou-os.
- Vem cá muitas vezes? - Perguntou-lhe ela. Os olhares encontraram-se de novo. Repousaram um no outro.
- É a primeira vez.
- E sentou-se por minha causa?
- Vi-a sozinha.
- Estou à espera de uma pessoa, já lhe disse.
- Vi-a sozinha. Achei educado sentar-me. - Sorriu.
Ela sorriu também. Que deslize imperdoável, pensou.
O empregado regressou. Pousou dois copos de champanhe sobre a mesa. A garrafa que derramou o espumante estava coberta de um pó acumulado durante décadas. O rapaz levou a bebida à boca, assentiu, e os dois copos encheram-se de bolinhas irrequietas.
- Prove. Creio que o achará do seu agrado. 1937. Uma colheita excepcional.
Mariana deslizou a mão até à base do copo. - A que devo esta honra, senhor...?
- Sabia que tem uns olhos belíssimos? É-me difícil desviar a atenção deles.
Ela sorveu um gole.
- Eu não estou à venda.
- Se estivesse à venda, Mariana, eu não estaria interessado em comprá-la.
- Como sabe o meu nome?
- Comprei a informação.
- O senhor é uma pessoa intrigante.
- Senhor não, por favor. Faz-me parecer que sou muito mais velho. Rodrigo.
A troca de olhares prolongava-se, firme de intenção.
- O que pretende, Rodrigo?
- A noite perfeita - disse, enquanto saboreava o champanhe. - E começou da melhor maneira...
- Está-se a referir a mim? Eu não sou rapariga para uma noite, devia saber.
- Referia-me ao champanhe.
Ela voltou a sorrir. Desta vez não se esforçou para controlar os lábios.
- É sempre assim que faz? Aborda raparigas solitárias nas esplanadas e paga-lhes uma bebida cara?
- Não costumo gastar tanto dinheiro. Especialmente quando elas estão à espera de um “ele”.
- Porque o fez comigo?
- Mariana, acompanha-me num passeio a pé pelo Chiado? Podemos depois descer até à Av. da Liberdade e assistir às marchas populares.
- E se ele entretanto chegar?
- Ele? - Rodrigo ficou sério. Sorriu depois. - Ele não vem. Sabe-o tão bem quanto eu.
- Ele já chegou. Está sentado à minha frente.
- A senhora é uma pessoa intrigante. - Riram-se, agora em cumplicidade.
Ele levantou-se e estendeu-lhe a mão. Ela aceitou-a.


IV - Aço

Uma brisa fresca levantou-se ao longo da Rua Garrett. Rodrigo tirou o casaco e colocou-o sobre os ombros de Mariana.
Subiam a rua de mãos dadas.
- Mariana, essa pulseira branca... Não me recordo de alguma vez ter visto um artefacto tão interessante.
- Não o encontra nas lojas. Mandei fazê-lo de propósito. Porque lhe importa?
- Posso vê-lo?
- Rodrigo, ainda não confio o suficiente em si para lhe mostrar o significado dele.
Cortaram à direita entrando na Calçada do Sacramento, uma subida íngreme. Chegaram ao Largo do Carmo que, cheio de luz e animação, acolhia uma multidão de festejantes. Pequenas tendas de madeira e pano ofereciam manjericos por tuta e meia, enquanto outras vendiam comes e bebes. O ar estava carregado de energia.
- Mariana, é-me muito agradável passear consigo, mas não percebi ao certo o que fazia sozinha naquela esplanada.
- Rodrigo, porque é que parou para me falar?
- Porque andava à sua procura. À procura da noite perfeita com a pessoa perfeita.
- Era isso que eu fazia na esplanada. Esperava alguém que se sentasse a meu lado e não começasse a conversa por dizer que o tempo estava bom. Esses não me agradam.
- Na verdade, o tempo estava bom.
Percorriam a Rua da Trindade.
- Rodrigo… é um caçador, tal como eu o sou. No entanto nem sempre sabemos o que fazemos. Somos também, em certa medida, a presa. É um jogo delicado.
- A vida, toda ela é um enorme jogo. Se conhecermos bem as regras, pode ser que a coisa nos corra bem. Mas há momentos em que temos que largar das amarras. Temos que deixar os acontecimentos fluírem por si. Nessas alturas só nos resta aproveitar as oportunidades que surgem. Mariana... Há toda uma fragilidade na sua figura que nunca me levaria a pensar que... que...
- Que sou como você?
- Sim. Uma caçadora. Mostra-me agora a pulseira?
- Aqui na rua não. - Ela apertou a mão na dele e agarrou-lhe o pulso com a outra mão. Puxou-o para dentro de um edifício de aspecto antigo, empurrando uma pesada porta de madeira. Lá dentro a escuridão e o fresco imperavam. A porta fechou-se atrás deles. Uma ténue luminosidade, que provinha de uma rosácea por cima da entrada, reflectia-se ao fundo, numa escadaria de pedra que dava acesso aos andares superiores, provavelmente ocupados por escritórios.
Ela caminhava para trás, arrastando-o. Embrenhavam-se na penumbra.
Mariana parou quando sentiu o corrimão atrás de si. Estavam no vão da escada.
- Nunca cacei ninguém como tu.
- Fui eu que te cacei.
- Ainda não acabou…
Ela colocou os braços por cima dos ombros Rodrigo e encavalitou-se, enroscando as pernas em redor da cintura dele.
Permitiram-se beijar. Fizeram-no com volúpia. Trocaram carícias com a língua.
Ele comprimiu-a contra a parede.
- Assim?
- Assim.
Uma pausa. Olharam-se de perto, quase sem se verem. Beijaram-se como dois amantes prestes a morrer e ofereceram-se ao infinito.
Mariana sentiu um objecto frio e pontiagudo a encostar-se à sua nuca. Olhou para Rodrigo perplexa, ao mesmo tempo que este lhe devolvia um olhar semelhante. Sobre a nuca dele pendia também um pequeno punhal de aço inoxidável.
- Na pulseira? - Perguntou Rodrigo, ofegante. Continuava a investir sobre ela. Sentia o clímax a aproximar-se.
- Sim. E tu? No Relógio?
Beijaram-se pela última vez e sentiram o frio da morte a roubar-lhes as forças.

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Re: A Caçada

Postby Cerridwen » 12 Aug 2005 19:38

Pelo que vejo a tua escrita tem melhorado bastante a vários níveis. Este foi portanto, dos textos que colocaste no fórum, aquele que mais me despertou o interesse, especialmente devido às descrições que vãos endo feitas ao longo do texto e às próprias personagens. No entanto, acho que o final podia ter sido um pouco mais elaborado. :)

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Re: A Caçada

Postby Samwise » 18 Sep 2005 16:19

Obrigado pelos vossos comentários.

O final, definitivamente, podia estar muito melhor. Está trapalhão à brava. E eu sei porquê...
O final original tinha mais umas 1000 palavras... estava tão confuso que resolvi cortar à descrição... acho que cortei demais e que não o corrigi em sintonia...

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Re: A Caçada

Postby Fat Boy » 18 Sep 2005 20:02

Só li isto agora! Deve-me ter escapado! Sorry!

Gostei bastante do texto. Sou um enorme fã das tuas descrições já sabes.

E sinceramente também adoro os teus finais! Este não é excepção. Desafia-nos, leva-nos a pensar no que se estava realmente a passar.

Portanto mais um óptimo texto. Parabéns.
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Re: A Caçada

Postby Venom » 20 Sep 2005 16:09

Gostei apesar de achar que é um bocado pequeno, podias ter desenvolvido mais :bow: :pub:
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: A Caçada

Postby Samwise » 20 Sep 2005 16:32

:o

Pequeno? E eu que achava que era grande...

Tenho a invulgar sensação de que se coloco aqui textos muito extensos depois a pessoas não têm paciência para os ler...

Mas sem dúvida que sim.. haveria muito mais coisas a desenvolver. E sempre cortei um bom bocado do fim (que, diga-se de passagem, estava muito maçudo).

Venom, que bom que ainda lês as minhas coisas... :bow:

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Re: A Caçada

Postby Venom » 20 Sep 2005 16:38

Samwise wrote:Venom, que bom que ainda lês as minhas coisas... :bow:

SamW

:lol: pensavas que nao lia era?e sim pequeno ,um texto como aquele agarra o leitor do principio ao fim e depois no fim desejavamos ter tido um pouco mais para ler
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!


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