O Artista

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Samwise
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O Artista

Postby Samwise » 21 Sep 2005 17:23

O Artista

Um antebraço erguido e uma mão aberta com os dedos esticados. Olha-se e vê-se vida viva. A escultura está exposta num pedestal iluminado, no centro de um salão, rodeada por outras peças imortais, no museu de arte nova da cidade.

Veias e tendões salientes, dedos ossudos, unhas de homem arranjadas sem espigões à volta, rugas na base do punho e nos caroços dos dedos, linhas vitais nas palmas das mãos às quais uma cigana atribuiria um futuro deslumbrante. Gestos de ternura imaginários captados da realidade e esculpidos no mármore branco.

Um artista desconhecido que fez Arte com Á grande.

Por baixo o título, "Insanidade", um desafio à capacidade interpretativa dos visitantes. Uma escultura serena.

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Mãos que seguram apoios, punhos fechados que equilibram corpos alinhados lado a lado, bamboleantes. O comboio avança lento. Talvez nesta altura já pressinta qualquer coisa.

Eu sentado de lado, entre dois desconhecidos. Desconhecidos? Quantas vezes me terei sentado junto destas pessoas? O senhor à minha direita lê o Real Madrid no desportivo matinal. A rapariga encostada a mim, do outro lado, lê pensamentos engalfinhados numa cabeça que desfalece, enquanto abre os olhos de vez em quando para saber se já chegou à estação. Calor. Não calor do Sol, calor de corpos enlatados, preparados para o frio da rua, fechados em compartimentos mal ventilados. Calor de transpiração num dia de Inverno.

O comboio avança lento sobre os trilhos. Tum-Tum...Tum-Tum...Tum-Tum... Pessoas que roçam nos meus joelhos para saírem, outras que pedem licença para entrarem, mochilas, casacos de pele, anoraks, cachecóis, jornais debaixo do braço, livros e revistas, cheiros que entram nas carruagens e permanecem connosco até sairmos. O dia-a-dia todos os dias à minha frente. Puta de vida. Nunca mais saio da merda. O curso para quê? Não me serviu de nada. A inspiração perdi-a ao longo daqueles anos de cativeiro. O gosto quase que se foi também.

Sobre o caderno, com um lápis minúsculo, termino os sombreados da imagem que vejo: mãos penduradas em apoios, a tensão que libertam quando o comboio trava ou arranca, mangas alinhadas por baixo de pulsos, sacos humanos suportados pelos dedos, dependentes de hastes de ferro suspensas em cabedal. Arranco a folha e faço uma bola de papel com ela. Ficaria tão bem na galeria..."Vidas Pendentes - carvão sobre tela"...

Os Tum-Tuns tornam-se espaçados. Um apito. Pessoas a comprimirem-se mais junto das saídas. Ou será das entradas? Querem todos sair primeiro. Pode ser que aquele segundo de diferença signifique o apanhar do autocarro. O comboio imobiliza-se. Ouve-se o ar comprimido a puxar portas de aço que pesam dezenas de quilos. Um batalhão aguarda do outro lado; reboliço, choques e pisadelas não intencionais, soldados indiferentes ao grito de batalha dos generais, tentando furar através dos adversários como fantasmas na neblina.

KA-BoooooooooooooooM...

Escuridão!

Antes de abrir os olhos sinto tudo o resto. Eu no chão, contorcido, dorido, o comboio por cima de mim. Borracha queimada, carne queimada. Os pulmões a sorverem golfadas de fumo asfixiante. A boca seca, gretada de medo. Tudo a andar à roda, mesmo sem os olhos abertos. Não ouço nada. Um Piiiiiiiiii estridente carrega-me a audição para longe. Afinal os olhos abertos a focarem a tragédia. A minha atenção a ajustar-se à imagem... um braço rasgado à minha frente. Um braço sem o resto do corpo, sem roupas, pálido e nu, cortado pelo cotovelo. Olho em redor. Ainda estou dentro da carruagem. Alguns corpos mutilados arrastam-se, arrastam outros consigo. Muitos não têm ninguém para os arrastar. Poeira e destroços nos intervalos dos corpos. Ferro retorcido e cacos de vidro. Fumo e mais calor. Calor não do Sol, nem da transpiração. Calor de fogo.

Piiiiiiiiiiiii.

Agarro o braço morto e com o cachecol faço-lhe um torniquete. Guardo-o na mochila. Apeio-me pela saída mais próxima. Uma criança cinzenta chora baba e pó encostada a uma parede. Ao seu colo a cabeça de uma mulher. Ou será de um homem? As mãozinhas envoltas na face desfigurada. Festas e carinhos que clamam por vida. Um grito surdo que não chega ao céu. Puta de vida. Não ouço a criança, não a vejo a ela nem a cabeça, não me vejo a mim. Vejo uma escultura num pedestal numa galeria para turístas.

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Re: O Artista

Postby Venom » 21 Sep 2005 17:34

Gostei muito deste texto... gostei muito das descriçoes :bow:
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: O Artista

Postby Venom » 21 Sep 2005 21:01

ThUnDDeR wrote: PS: só um pormnor :P na primeira linha lê-se "um antebraço erguido e uma mão aberta com os dedos esticados" não é antebraço mas sim braço. O antebraço vai desde o ombro até ao cotovelo ;)

Eu acho que esta correcto o braço é que vai do ombro ao cotovelo
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Re: O Artista

Postby Samwise » 22 Sep 2005 09:43

ThUnDDeR wrote: Este texto faz-me lembrar e muito os atentados de londres, as descrições das pessoas que se encontravam perto das bombas.

A acção passa-se durante os atentados em Madrid, mas no texto só há um indicador disso (o matutino desportivo). Podia perfeitamente ser em Londres. Não faz grande diferença.

O texto pretende ser, ao mesmo tempo, uma homenagem às vítimas dos atentados e uma crítica à barbaridade de alguns "dejectos sociais".

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Re: O Artista

Postby Samwise » 04 Oct 2005 17:50

:bow:

Há comentários que me levam às nuvens. Frequentemente são aqueles que falam em motivação e inspiração para escrever.

Esse comentários servem-me a mim de motivação para escrever mais e mais (não é que me falte alguma... mas é um grande impulso).

Obrigado pelo comentário, Amon.

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