Boleia Arriscada

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Samwise
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Boleia Arriscada

Postby Samwise » 14 Oct 2005 17:43

“There is no place like home.”
in “The Wonderful Wizard of Oz” de L. Frank Baum

“At first his companions trusted him implicitly, and so great
were the delights of flying that they wasted time circling round
church spires or any other tall objects on the way that took
their fancy.”
In “Peter Pan” de J. M. Barrie

“Time is a face in the water.”
in “The Dark Tower” de Stephen King


Boleia Arriscada


Prólogo

Os sonhos, como lhe explicaram quando era pequena, são parte da nossa realidade. Não há realidade sem sonhos, tal como não há sonhos sem realidade. E não há excepções a esta regra. Podes ignorá-los, disseram-lhe, mas não podes fugir deles.

Os sonhos desenvolvem-se em torno de ideias que se acumulam em nós; coisas de um dia-a-dia a que muitas vezes não damos a devida importância e que encontram na nossa imaginação delirante uma espécie de escape para a liberdade, uma maneira de ganharem o protagonismo que lhes é devido. Não deixa de ser interessante que muitos deles escolham a noite para florescer. Apanham-nos com as defesas em baixo e ZÁS, cá vai disto! Parecem ter vida própria esses diabinhos, que fazem uso dos nossos neurónios para gozarem de uma vida fugaz e despreocupada. É quando estamos a dormir que todos os demónios saltam cá para fora. Se alguns vêm de lugares que conhecemos e que nos são familiares, há outros não sabemos ao certo de onde vêm. A esses, que trazem a escuridão consigo, e que chegam suaves e traiçoeiros, como uma neblina rasteira, chamamos-lhes pesadelos.

Os pesadelos têm um ponto de ligação bastante forte com a realidade... Normalmente, quando acordamos de um pesadelo, o medo prevalece sobre os outros sentidos.


I – Ida…(There…)

No pesadelo, ela não conseguia mover o carrinho das compras.

O objecto chegara até aquele sítio e estancara, assim sem mais nem menos, com se tivesse largado uma âncora sobre o solo. Logo ali... naquela zona sem iluminação, na única parte do caminho que passava pelo meio do bosque e onde não se tinham dado ao trabalho de colocar postes de iluminação. No meio de pinheiros retorcidos e de uma vegetação densa e agreste, naquele trilho de terra batida, de onde a relva tinha há muito desaparecido por acção de passadas humanas, ela puxava o carrinho com todas as suas forças, utilizando as duas mãos sobre a pega. Dobrava o corpo para a frente de modo a aproveitar o seu peso como arrasto, mas o carrinho não se movia. Era de noite. Nuvens imponentes vergavam céus onde nem a face da lua se atrevia a aparecer. Os halos de luz provenientes dos candeeiros, à distância, não aclaravam o chão perto dela e tudo era penumbra à sua volta.

O coração impunha um ritmo forte dentro do seu peito, alertando-a e obrigando-lhe o sangue a circular acima do limite de velocidade. A presença oculta, aquela que a tinha seguido à distância ao longo do percurso, encontrava-se agora mais próxima. Muito mais próxima. Estava a observá-la, ela sentia-o, através de olhos que não eram humanos. Percorriam-lhe o corpo avaliando a situação, à espera do momento exacto para avançar. O vulto animalesco que ela tentava convencer-se que não existia - que não era real - avançava silenciosamente pelo meio dos arbustos, com uma desenvoltura imprópria face ao seu tamanho. O terror inundou-a em calafrios gelados, fazendo-lhe estremecer ossos e carne. O carrinho, apesar dos esforços, continuava sem se mexer, preso ao chão como que por um íman imaginário gigante. Tentou então fugir e deixar a carga para trás (mas por que razão tinha perdido tanto tempo com o raio das compras?), apenas para descobrir que as suas mãos se tinham colado à pega do carrinho, fechando-se sobre ela contra sua vontade. O assobio cortante do vento foi interrompido pelo quebrar de galhos secos e pelo arrastar de folhas mortas atrás de si… Muito perto… Ao alcance de um braço. Virou-se, disposta a afrontar o monstro, tentando reunir forças onde sabia não existirem...

E fora sempre neste momento que a senhora (apelidemo-la de senhora, para não lhe chamarmos velha, palavra que tem uma conotação injustamente depreciativa) acordara, com o coração aos pulos, a debater-se no calor húmido da cama, com os ecos de um berro a escaparem-se-lhe por entre os dentes cerrados.

Ao longo da semana, todas as noites havia sido fustigada por aquele pesadelo. Não sabia o que pensar dele, mas afligia-lhe a sensação de desconforto que o temor lhe calcava e que se estendia sobre a claridade tristonha dos dias solitários.

Aproximava-se sexta-feira, o dia em que atravessaria o caminho em questão para ir às compras, tal como fazia todas as semanas, acompanhada por duas amigas da vizinhança. Ou isso ou dar a volta pelas ruas principais, alternativa que para além de muito mais demorada, significava custos de transporte que não podia suportar.

Se tudo corresse como de costume, regressariam ainda de dia, um pormenor que lhe atenuava a ansiedade disparatada que sentia, coisa que se devia, por um lado, ao gosto por uns dedos de conversa, os únicos momentos de que podia dispor na sua via para lhe alegrarem a disposição, e, por outro lado, à desconfiança em relação àquele estranho pesadelo, que lhe parecia premonitório na sua mórbida insistência.

Sexta-feira chegou e as três idosas encontraram-se pontualmente no local habitual: um pequeno jardim de formato triangular, em que uma das arestas afunilava no início do caminho, e que oferecia alguns bancos de jardim a quem neles se quisesse sentar.

Apesar de unicamente pedestre, o caminho encontrava-se pavimentado a alcatrão e alongava-se por cerca de dois quilómetros, a meio dos quais atravessava uma zona florestal ao longo de cerca de duzentos metros, local onde nem pavimento nem postes de iluminação existiam.

Pelo alcatrão agastado rolavam agora três carrinhos tipo-trolley que, insuflados de ar bolorento, iam empurrando três senhoras curvadas caminho abaixo e ouvindo as novidades da semana a serem postas em dia.

Disfarçadamente, enquanto ia confrontando as vizinhas com opiniões variadas sobre a novela das sete, a senhora ia olhando à sua volta, tentando correspondências vagas entre algumas imagens de que se lembrava no pesadelo e o modelo real por onde caminhavam. Mas em vão. Era de dia, o vento não corria ameaçador e a conversa ocupava-lhe forçosamente a atenção. Adiante…

Separaram-se as senhoras após a subida da escadaria em que terminava o caminho, combinando encontrar-se naquele mesmo local, o largo da velha Igreja, daí a uma hora, de modo a encetarem a viagem de regresso.

As compras não decorreram dentro da monotonia habitual, pois embora a lista de bens fosse exactamente a mesma de todas as semanas, e embora o percurso dentro do supermercado já estivesse inconscientemente memorizado, a senhora não conseguia afastar do pensamento os momentos que se aproximavam. Várias vezes deu por si a estrangular a pega do carrinho, sinal que lhe denunciava o nervosismo, e ao qual tentou não atribuir demasiada importância.

Despachou-se rapidamente, de maneira a chegar cedo ao local de encontro, coisa que lhe valeu cerca de um quarto de hora de avanço: eram cinco e quarenta e três quando se sentou na escadaria do largo. Ainda faltava bastante para o anoitecer e as suas companheiras não tardariam a chegar, estava certa; tudo nos conformes.

Às seis horas ninguém apareceu. E o mesmo se passou até cerca de um quarto para as sete, altura em que os primeiros carros começaram a estacionar no largo, trazendo fiéis para a assembleia de Deus. Quanto a vizinhas, nada!

O céu iniciou, então, a mudança de ciclo. A claridade foi gradualmente diminuindo e o sol derreteu os seus últimos raios sobre o horizonte. Algumas nuvens começaram a aglomerar-se lá em cima, acelerando o processo de chegada da noite.

A senhora, à medida que ia ruminando aquele seu estado de abandono, achava-se dividida entre duas opções viáveis, nenhuma delas particularmente agradável: ou avançava sozinha para casa, enquanto ainda havia alguma claridade, ou esperava que alguém passasse, ficando entregue às mãos de um desconhecido qualquer. Motivada pela natural preocupação para com as suas conhecidas, e na esperança de elas ainda poderem vir a aparecer, decidiu-se pela segunda hipótese.

Até às oito horas, momento em que o céu ficou totalmente negro, vários transeuntes passaram no local, mas nenhum com aspecto suficientemente agradável para entusiasmar uma boleia arriscada.

Qualquer pessoa que já tenha passado muito tempo à espera de alguém (ou de alguma coisa) sabe quão devagar o tempo passa nessas situações. Para além da deformação involuntária da medida do tempo, uma espera longa leva ao intensificar de alguns sentimentos. A ansiedade, a dúvida e o aborrecimento, por exemplo, podem dar origem a reacções menos simpáticas. A velha olhava para o relógio que tinha ao peito, alinhava os sapatos nos degraus e a seguir alinhava-os mais perto ou mais longe um do outro, abria o fecho do carrinho das compras e verificava o estado da fruta, bocejava, e tornava a fazer estas mesmas coisas, não necessariamente pela mesma ordem. Inquietava-se com a impossibilidade de poder andar com o tempo para trás. Pensava, irritada, no sermão com que brindaria as vizinhas, aquelas amigas da onça, que partidas assim não se pregavam e que não tinham piada nenhuma.

E o temor da tarefa assombrava-a cada vez mais.

As pessoas começaram a sair da igreja e na eminência do momento, no impedimento de ficar mais tempo naquele local, a senhora decidiu aproveitar o instante. Afinal de contas, quem frequentava a casa de Deus era, na pior das hipóteses, um perfeito merecedor da sua confiança, ao ponto de poder servir de companhia durante a travessia a efectuar. O problema é que toda a gente se dirigia para os automóveis. Ninguém tinha vindo a pé.

As poucas lojas que circundavam o largo começaram a fechar portas e não tardaria o local a ficar deserto. Sobrava um pequeno quiosque com duas ou três mesitas de esplanada, e que, à excepção do empregado de serviço, que aproveitava para passar o pano nas mesas pela centésima vez nessa hora, se encontrava às moscas.

Um medo irracional serrou-lhe os sentidos ao meio, obrigando-a a levantar-se de modo a conter as lágrimas… Tomaria o caminho alternativo, nem que demorasse três horas a chegar a casa. Monstros é que não! Não lhe apetecia passar a noite numa cova escura, a ser lentamente mastigada, e muito menos lhe apetecia ter a sua fotografia publicada no jornal do fantástico, na secção de crimes por resolver.


II – …e Volta (… and Back Again)

- Boa noite – Um rapaz passou por ela e assomou-se da escadaria, dirigindo-se para o caminho.

Não o tinha visto aproximar-se. Só podia ter saído da igreja. Alto e encorpado, de cabelo negro desprendido, vestia umas calças de ganga amarfanhadas e uma camisa branca sem alças. Descia as escadas aos pulinhos – tac-tac… tac-tac… tac-tac - como fazem as crianças felizes, enquanto entoava um assobio melodioso contagiante.

- Olhe... Rapaz!... - Chamou-o desajeitadamente, quando ele se já encontrava ao dobrar da esquina, chegando mesmo a desaparecer de vista por breves instantes.
Meio corpo e uma cabeça apareceram lá ao fundo, torcidos sobre o ângulo recto.
- Está a falar comigo? - Apareceu o corpo todo, à espera de uma resposta.
- Sim... Consigo… Eu conheço essa melodia…
O rapaz começou a subir as escadas lentamente, como se não tivesse ouvido bem a senhora, e se estivesse a aproximar para entender o que ela estava a dizer.
- “O Feiticeiro de Oz”, certo?
- Ah… Sim… É isso mesmo.
- Quem me dera ter um sapatos daqueles. Por esta hora já estaria em casa.
- Está à espera de alguém? – Disse o rapaz, continuando a acercar-se.
- Estava… mas já passou tanto tempo que perdi a esperança. Será que me podia oferecer uma boleia? Tenho de atravessar esse caminho...- apontou como dedo - Isto é, se não for muito incómodo.
O jovem estendeu-lhe a mão. - Terei muito gosto em acompanhá-la. A senhora será a Dorothy e eu serei o Homem Leão. Subiremos a estrada amarela e enfrentaremos todos os perigos juntos. Importa-se que lhe leve o carrinho?
- Não, deixe estar, obrigado. Eu gosto de levar as minhas coisas…e como vai de rodinhas, não custa nada. – A senhora olhava fixamente para o rosto do jovem, que continuava de braço estendido. Pairava uma mística naquele olhar que indicava sabedoria e experiência, e que de alguma forma não se ajustava à idade do seu detentor, que devia rondar os vinte anos. A velha agarrou a mão do jovem e usou-a como suporte para se levantar.
- Ao menos para descermos as escadas… se leva ovos aí dentro, o mais certo é quebrarem-se todos!
- Está bem. Está bem. – Disse a senhora - Até ali abaixo, então.

O caminho estava iluminado por lâmpadas que, nos casos em que não se encontravam fundidas ou partidas, emitiam uma luz cor de laranja pálida enervante. Os candeeiros cinzentos onde as lâmpadas se atarraxavam, distanciavam-se uns dos outros ao ponto de criarem vazios de claridade no solo. Alguns estavam fixos nas fachadas de muros altos, que ladeavam partes do passeio de um lado e de outro, e outros no cimo de postes cilíndricos, feitos de madeira tosca e fissurada. No global, a existência daquelas luzes, ainda que necessária, emprestava um ambiente desencorajador àquele caminho já de si tenebroso.

A velha olhou de soslaio para o rapaz e reparou numa tatuagem gravada no seu braço: uma enorme serpente enrolada numa árvore, exibindo uma ameaçadora língua bifurcada.

- Veio da igreja, rapaz?
- Sim, fui assistir à missa das sete. Faço-o todos os dias.
- Tem graça. Não o vejo nada a si como um católico praticante…
- Mas então porquê?
- A sua figura, talvez… Tem de reconhecer que não está dentro dos padrões normais de aceitação social. Os jovens que vejo para aí espalhados, de figuras parecidas com a sua, fazem de tudo menos aparecer numa igreja. E uma vez lá dentro, seriam olhados com alguma desconfiança, presumo.
- Não tenho sido mal recebido na igreja. Desculpe-me a indiscrição, mas a senhora é católica?
- Fui em tempos, já não sou. Perdi a fé algures pelo caminho.
- A fé? – O rapaz enfiou dois dedos no bolso das calças e puxou de lá um maço de tabaco espalmado – Mas, então, continua a acreditar n’Ele?
- Acreditar, sempre acreditei, mas penso que durante muito tempo confundi crença com fé.
O rapaz apertou o maço e olhou lá para dentro. – Fuma? Sobram-me dois…
- Não, obrigado.
- O que a fez mudar de atitude? – Prendeu um cigarro aos lábios e acendeu-o, abrigando a chama do vento com a concha das mãos. - Quero dizer… em relação a Ele? – Guardou o isqueiro dentro do pacote e empurrou tudo para dentro do bolso outra vez.
- Uma dúvida sobre as Suas verdadeira intenções… Algo de que não me apetece falar.
- Desculpe-me se toquei em assuntos sensíveis.
- Não foi culpa sua… eu é que trouxe a conversa à baila…

Durante uns momentos avançaram ao longo do caminho em silêncio. A velha regressou ao passado, revivendo o acidente em pequenas fracções de pensamento. Aquele amor transcendente, o único da sua vida; a promessa de casamento que se seguiu; a felicidade iminente, a dias de distância; o carro a ser abalroado pelo jipe... e os sons… da gasolina a escorrer para cima dele, das faíscas eléctricas dos cabos de tensão a dançavam no ar, dos gritos lancinantes de um corpo a carbonizar… e nada, absolutamente nada que pudesse ser feito.

A proximidade do trilho de terra batida trouxe-a de volta ao presente, e, com ele, veio também uma forte sensação de estar a ser observada. A companhia do estranho transmitia-lhe segurança de uma maneira que não entendia. Apesar do trato delicado, não gostava da aparência dele e não sabia se havia de acreditar naquela conversa toda, e no entanto, a recordação do pesadelo não a atemorizava, de todo, desde que caminhava com ele.

Entraram no trilho e penetraram na escuridão.

- Nunca sentiu que o estavam a observar?
- Para falar verdade, não... A não ser pelo canto do olho, quando conseguimos vislumbrar alguém a olhar para nós fixamente. Mas acho que isso não conta… não é propriamente um sentimento; é mais o normal funcionamento da nossa visão. – Retorquiu ele.
- Eu estou a senti-lo neste preciso momento… - Ela olhou em volta - Eu sei que alguém, ou alguma coisa, está a olhar para nós...
- Alguma coisa??? – Soletrou a última palavra de um modo propositadamente enfático. Inspirou uma última baforada, atirou a beata para o chão a pisou-a energicamente.
- Não tenha medo, não lhe vai acontecer nada. Eu estou aqui consigo. Se quiser, dê-me a mão.

Deram as mãos. A mão dele estava quente, e embora ela não estivesse com frio, aquele contacto transmitia-lhe conforto.

- É tal como no sonho… Eu sonhei com esta situação…
- Sonhou comigo?
- Não, não consigo!… Antes com o monstro que nos está a observar!
- Com o mons…!? - Largou-a da mão por uns instantes. – HEEEEEEEEEII…. - Agarrou numa pedra e atirou-a para o meio dos arbustos - ESTÁ AÍ ALGUM MONSTRO? – Virou-se para ela outra vez e sussurrou, divertido - Esta é a parte em que eles costumam aproveitar para atacar.
- Shhhhhh… Isso pode enfurecê-lo mais…
- Foi tudo um sonho. Dê-me cá a sua mão outra vez… Não existem monstros. Os sonhos têm essa característica fantástica: enquanto os estamos a viver, tudo é realidade. Quando acordamos, acabamos por sentir alguma frustração resultante do facto de pensarmos que fomos ludibriados pela nossa mente.
- Verdade. Mas à mesma eu… Sinto - eu sei - que algo está aí escondido, à espera para nos apanhar. Agora só falta o carrinho empenar.
O rapaz apertou-lhe a mão com mais firmeza – Venha. Estamos quase a chegar à claridade outra vez… Vê?… É já ali adiante. Não se passa nada. Há quem diga que os sonhos são obra de Deus e que os pesadelos são obra do Diabo. São os suportes que eles utilizam para comunicarem connosco, cada um à sua maneira, como se fossem canais de televisão em luta por uma fatia de share. E o que fazemos nós com a televisão? Basta carregarmos no botão, ou olharmos para o outro lado, que os canais se vão logo embora.
- Isso é uma explicação bastante simplista das coisas…
- Quase sempre a explicação mais simples é aquela que está correcta.
- Estranho o modo como esta conversa está a decorrer… deveria ser eu a dar-lhe os conselhos e a tentar tranquilizá-lo; não ao contrário. Já tenho idade para ser sua avó!
- Pois, mas não sou eu que ando a sonhar com o bicho-papão. Olhe, ali à frente já estaremos fora da escuridão.
- Ainda não cheguei a casa… - disse ela, hesitante.
- Para lá caminhamos… Nunca sonhou em ter umas asas para poder voar?
- Quem é que não sonhou… Mas a que propósito vem isso?
- É uma maneira de olhar as coisas de uma outra perspectiva. Quando estou deprimido, imagino frequentemente como seria bom poder voar… é um processo de defesa que tenho…
- Seria uma boa maneira de não ter de passar por este caminho maldito de cada vez que quero ir às compras…
- Vamos! – Interrompeu ele - Pensamentos positivos… O que pensa quando está a voar?
- Quando penso em voar… Hmmm… Penso em deslizar pelo meio do vento, olhando os vales e as planícies verdes lá em baixo. Imagino-me a mergulhar lá do alto, insustentada, e a fazer velozes razias pelo solo, quase toncado a relva. Meço a velocidade pela sombra que me acompanha, agora de perto, agora ao longe. Imagino que tenho peso, muito peso, não que sou como uma pena, mas como um largo bloco de granito, e que sinto verdadeiramente o poder de me deslocar pelo ar… e a brisa…
- O que tem a brisa?
- Penso na brisa que me percorre a cara, fresca e serena. A brisa que me leva embora toda a dor que tenho na alma. Voo de braços abertos, através do espaço e do tempo. Voo e sei quem verdadeiramente sou…

Os contornos da rua e a cor da vegetação começaram a aparecer novamente, sempre diluídos no laranja-pardo dos candeeiros.

- Como se chama, rapaz?
- Trate-me por rapaz. Não gosto do meu nome.
- Seja. Conte-me então, rapaz, mais acerca de si. A sua conversa despertou-me a curiosidade. E a sua voz embala-me os sentidos. Faz-me lembrar aquelas vozes da rádio, sonantes, melódicas, experientes, cheias de uma espécie de boa vontade, e que nos fazem vibrar de aconchego cá por dentro.
- Depois desse elogio, vou continuar a falar pela noite dentro, nem que seja só para ouvir o tom da minha própria voz - e com isto soltou uma gargalhada imponente. – O que quer saber?
- Porque frequenta a igreja de forma tão… intensa?
- É uma história complicada… e receio bem não haver uma maneira correcta para a explicar sem distorcer uma boa parte dos factos.
- Pode tentar… eu sou uma boa ouvinte.
- Não mencionando acontecimentos concretos, posso dizer que tenho uma dívida por saldar para com o Ele. – e apontou para cima - Aconteceu há muito tempo… cometi um erro insensato nos meus afazeres; um erro que alterou a vida a muita gente de forma irremediável; foi de tal forma grave, que nem Ele, na Sua compaixão toda, foi capaz de me perdoar. Senti-me afastado da sua presença; um castigo que me deixou desolado. Também a minha fé, confesso, passou por momentos aflitivos; alturas em que julguei nunca mais poder voltar a ver a Luz. Uma situação que alterou a minha noção acerca do bem e do mal…
- Fala como se tudo isso se tivesse passado à décadas… e no entanto é tão novo…
- O tempo é um conceito quase sempre incompreendido. Este corpo é jovem, é verdade… Mas… Deixe-me colocar-lhe um exemplo: há quanto tempo estava ali à espera que passasse alguém para a acompanhar?
- Estive duas horas sentada. Pareceram-me dias!
- A mim parece-me que passou uma eternidade desde tudo aconteceu. A missa diária faz parte da minha intenção de redenção. É como aquele café que tomamos de manhã para ficarmos sóbrios. Não consigo passar sem ela.
- É tão diferente dos outros jovens que conheço…
- Nem faz ideia o quanto!
- Creio que estamos a chegar… a minha casa é aquela ali – Apontou – Onde mora, rapaz?
- Moro acolá, do outro lado da rua.
- É estranho nunca o ter visto antes. E conheço a vizinhança melhor que a palma da minha mão…
- Eu faço os possíveis por ocultar a minha presença. Posso não parecer, mas sou um ser bastante recatado. Deixo-a aqui. Espero vir a encontrar-me consigo noutras ocasiões.
- Rapaz, eu sei que toda esta conversa teve uma intenção muito nobre a suportá-la, e agradeço-lha com todo o coração.
- Nem sempre conseguimos fugir dos nossos sonhos… e quando isso acontece, temos de saber… voar para longe. Adeus.
A união das mãos, antes de se dissolver, transformou-se em cumprimento; para cima e para baixo, duas ou três vezes. A senhora arrastou o carro para dentro do hall e subiu no elevador. Nessa noite não se lembrou mais das suas vizinhas, e o pesadelo do monstro parecia-lhe agora um enorme disparate. Dez minutos depois de entrar em sua casa deitou-se na cama e dormiu descansadamente.


Epílogo

“Os corpos de duas senhoras idosas, decapitados e em avançado estado de decomposição, foram ontem encontrados pela polícia num contentor de lixo no Bairro do Novo Paraíso.

Sobe para doze o número de vítimas deste estranho caso, apelidado de “Os Crimes do Diabo” devido ao elevado grau de brutalização dos cadáveres, que desde o início do ano aterroriza a opinião pública. A polícia, que parece não ter ainda quaisquer pistas em relação ao assunto, prossegue as investigações. Contactado pela redacção deste jornal, o superintendente Ramirez, director do departamento de crimes violentos e responsável máximo pelo caso, escusou-se a fazer quaisquer declarações.

Recordamos que os corpos das vítimas são largados em locais remotos, aparentando terem sido para aí transportados depois de mortos. Apresentam múltiplas perfurações e escoriações, resultantes do que parecem ser mordeduras de tubarão. Registam ainda uma total ausência de sangue nas veias e (…)”
in “O Jornal do Fantástico”


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Re: Boleia Arriscada

Postby Fat Boy » 17 Oct 2005 14:08

Muito bom :clap:

As tuas descrições são óptimas como sempre. Dos locais e das sensações. A atmosfera, a aura de todo o conto, a tensão a crescer, o mistério está tudo perfeito.

Grande trabalho. 5 estrelas. :ttu: :bow:

Um abraço
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Re: Boleia Arriscada

Postby Samwise » 17 Oct 2005 15:50

gaia wrote: Apreciei o teu pequeno conto "fantástico", arrepiou-me algures, mas não de medo propriamente, talvez porque descreveste bem algo que já senti... ter de atravessar uma imensidão escura até casa  :D

Esta medo é baseada em algo muito concreto... tal como tu, eu já me vi nessa situação algumas vezes. Quis transpor esse temor para alguem ainda mais indefeso...

Também vais dando "pequenos sinais" ao longo da história que esclarecem um pouco sobre as personagens, mas simultaneamente abrem "caminho" para suposições diversas que não são esclarecidas no final ( a serpente tatuada no braço, ir à missa todos os dias para redenção, etc...) Cabe ao leitor a interpretação final  :)


Sim, verdade... no caso do rapaz eu tenho uma interpretação muito própria dele. É fortemente baseado em alguém que todos nós conhecemos e abominamos... mas é só uma interpretação possível...


Agradeço o teu comentário, Gaia.

Agradeço o teu comentário também, Fat Boy.

São ambos bastante abonatórios. Obrigdo.

Não querendo desfazer o novelo, devo dizer que me senti verdadeiramente insatisfeito com o resultado final deste conto. Gosto da história, das dedicatórias no início ( :P ) e pouco mais...
Há algo na sua escrita que me desagrada profundamente... estive quase indeciso se havia de postar aqui o conto ou não (atendendo também às suas 4000 palavras).
Enfim... desabafos do autor. Vou tentar fazer melhor da próxima vez...

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