Sem Título

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Sem Título

Postby Samwise » 08 Nov 2005 18:49

Perspectiva. Tudo na acção humana é uma questão de perspectiva. Mais do que reger a nossa conduta sobre todas as coisas, perspectiva é a palavra que define a nossa personalidade. E pode mesmo moldá-la quando esta se apresenta firme, de pedra e cal, coisa não muito difícil nos dias que correm. Aos nossos olhos, o aspecto do mundo altera-se (deforma-se?) à medida que experimentamos diferentes perspectivas.

Denoto algum cepticismo no seu pensamento, caro leitor, e por isso peço-lhe que pense. Pense, por exemplo, naquelas executivas das grandes multinacionais, mulheres ríspidas e impiedosas, de aparência cristalina, pele suave, cara de anjo e maneiras sociais dignas de uma jibóia, e que mudam da noite para o dia a partir do momento em que dão à luz. Ou pense, então, naqueles brutos desgraçados que partem para a guerra com o gosto pelo sangue nos lábios, e que voltam com o olhar aguado, quase sempre fixo em parte incerta do horizonte, como se assistissem ainda aos horrores dos campos de batalha. Pense ainda nos infelizes a quem, aos trinta ou quarenta anos (para não irmos mais longe), diagnosticaram doenças em fase terminal, e que vêm subitamente a vida aprisionada numa ampulheta de dois ou três meses por onde escorrem areias de sofrimento.

Exemplos simples para demonstrar uma verdade óbvia. Algo mudou dentro destas pessoas. A sua perspectiva mudou. Olharam o mundo exposto de um novo ponto de vista. E foi tudo.

Durante a minha vida reconheço que não passei por nenhuma experiência extremista ao ponto de sofrer uma mudança mentalidade tão radical. Passei antes na morte.

Estou morto.

Não, não se trata de um força de expressão nem de uma figura de estilo. Estou realmente morto!

O meu corpo acabou de ser cremado e estão neste momento a recolher as cinzas para dentro de uma pequena urna de mármore verde-escura. Eu suspeitava que a morte ia mudar a minha perspectiva sobre muitos assuntos, mas nunca pensei que viria a assistir, divertido, ao meu próprio funeral.

Lembro-me de achar ridículas aquelas histórias que começavam precisamente desta maneira: um indivíduo qualquer a narrar em voz-off, com a mais melosa das vozes celestiais, que estava morto. Tretas, pensava eu. Se o tipo estava morto, como podia estar a falar? Tudo não passava de um truque usado pelo argumentista do guião para nos colocar em sentido. De um truque tão reles, tão baixo, tão insatisfatório, como aquele de terminar uma história com o personagem a acordar de um longo sonho.

Comecem sempre com um chamariz, ditam as regras…

Agora que sei que não são tretas, e agora que sei que o leitor sabe que não são tretas (isto se confiar nas minha palavras), voltemos ao nosso assunto.

Ainda não interiorizei o suficiente acerca a morte a ponto erguer uma opinião séria e dedicada sobre tamanha empresa, pois tal como disse, só estou morto há uns minutos. Mas posso (e devo) falar de duas situações específicas que me permitirão narrar os estranhos acontecimentos que o leitor irá ler de seguida, e que me levaram, precisamente, ao estado de morto.

A primeira sensação que me atingiu assim que morri, para além de um profundo estado de leveza apaziguadora, foi a clareza de pensamentos. Falo numa sensação porque é exactamente assim que a pressinto: todas as memórias e recordações por que passei ao longo da minha vida estão presentes em mim, tal como se de um membro se tratassem. Sinto-as frescas e reais, e posso dispor delas como assim o desejar. Consigo olhar para o meu passado como se estivesse a ver um filme; com uma desenvoltura maior que um leitor de DVD’s bem afinado. Mas melhor do que um filme, onde choramos com as desgraças dos outros, nas memórias próprias temos os nossos sentimentos agregados. E esses vejo-os agora tão bem como as memórias.

A segunda situação de que vos quero falar não respeita a uma sensação, mas mais a uma possibilidade: consigo olhar para o mundo em que vivi e mover-me sobre ele sem qualquer restrição. Não no tempo, ou pelo menos ainda não descobri como trabalhar sobre essa variável, mas no espaço. Esta capacidade, julguei eu em vida, devia ser digna unicamente dos anjos. Posso agora visitar todos os locais onde planeei ir passar férias, isto se alguma vez conseguisse juntar dinheiro suficiente para o custo das passagens aéreas. E posso fazer algo que causaria inveja ao mais intrépido dos turistas japoneses: tirar fotografias de perspectivas humanamente impossíveis (cá estamos nós de volta à questão da perspectiva). Desloco-me sobre a terra como o super-homem.

Imagino o que o leitor possa estar a pensar neste momento. E não deve ser um pensamento tão agradável quanto isso. Neste momento duas ideias de impacto oposto dominam a vastidão de descargas electromagnéticas que viajam pelos neurónios da sua cabeça: uma diz que é bom saber que há vida depois da morte; e a outra afirma que não é nada agradável poder estar a ser observado de perto, e em todos o momentos, mesmo nos mais privados, por não sei quantos biliões de almas de desconhecidos que vagueiam nessa outra dimensão (que talvez seja o “céu”).

E o que me diz a mim que esta pessoa, para quem estou a olhar neste momento, neste exacto momento, e que está a ler precisamente estas linhas, não é você, meu caro leitor?

Arrepiante, não?

Não quero perder mais tempo com divagações... A motivação que me traz aqui é de outra índole: pretendo lançar-lhe um alerta - um aviso - para que não seja apanhado em falso, da mesma maneira que eu fui.

Deixo-o com os factos...

---




SamW

P.S.

Isto é a única coisa que vou publicar aqui. Pelo menos até ter o texto todo escrito, o que, na melhor das hipóteses, irá aconter lá para Fevereiro de 2006.
Já tenho a história pensada (não todos os pormenores, mas lá chegarei), mas nada de importante é revelado neste "prólogo" que está aí em cima. Agora é só ter a paciência para escrever a coisa de forma "não perguiçosa"...
Já escrevi cerca de 10.000 palavras... está a ser divertido!
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: Sem Título

Postby Pedro Farinha » 08 Nov 2005 23:15

Está bom Sam !

Dizes, e muito bem, que o principio é essencial para prender o leitor, pelo menos na minha perspectiva é mesmo ;)

Espero que neste momento o teu narrador não esteja a vaguear sobre a minha cabeça enquanto escrevo estas linhas. É que poderia reparar que enquanto o faço a minha mão interrompe o bater das teclas para coçar, preguiçosamente, o sitio onde as costas mudam de nome.

Ah, e enquanto esperamos por Fevereiro, as mulheres não dão há luz, mas sim à luz.

:bye:

User avatar
Venom
Encadernado a Couro
Posts: 488
Joined: 01 Jan 2005 03:17
Contact:

Re: Sem Título

Postby Venom » 08 Nov 2005 23:38

Sam amigo meu errrr ....coiso...... ta excelente :ttu: por favor vai metendo aqui alguma coisa que nao aguento até fevereiro :rolleyes:


your friend


The cat,Venom
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Sem Título

Postby Samwise » 09 Nov 2005 10:32

Pedro Farinha wrote: Ah, e enquanto esperamos por Fevereiro, as mulheres não dão há luz, mas sim à luz.

:lol!:

Obrigado pela correcção, Pedro. É uma gralha imperdoável :blush: .

SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

Fat Boy
Capa Dura
Posts: 316
Joined: 27 Dec 2004 22:13
Location: Lisboa
Contact:

Re: Sem Título

Postby Fat Boy » 09 Nov 2005 13:03

hehehe agora já lia por aqui fora :D

Muito bom mesmo! Soube foi a pouco! Força nisso Sam!

Um abraço
<img src="http://pwp.netcabo.pt/duderino/movie.jpg" border="0" class="linked-sig-image" /><img src="http://pwp.netcabo.pt/duderino/bewareofgeek.jpg" border="0" class="linked-sig-image" />

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Sem Título

Postby Samwise » 09 Nov 2005 13:31

Bom... como há algumas pessoas interessadas, não resisto a colocar aqui mais um bocadito da história. Vai ser mesmo a última por estes dias, uma vez que as partes restantes que já escrevi não são a continuidade destas...

Para quem não sabe o porquê do "Fevereiro"... é porque esta história vai sem mesmo longa, com o tal objectivo das 50.000 palavras. E para além de ainda me faltarem muito pormenores no "argumento" em questão... falta-me mesmo é escrever a coisa... :P





I – A carta

Tudo começou na fria manhã de um sábado de Inverno, com a recepção de um carta enigmática.

Haverá melhores momentos na vida do que aqueles em que saboreamos os deliciosos pequenos-almoços de fim de semana, de pés à lareira, roupão e chinelos, televisão ligada no canal dos desenhos animados e uma enorme vontade de não fazer nada? Reservo-me na minha opinião, que na essência da pergunta se encontra quase dada.

Haverá pior chato do que aquele que nos interrompe em tais momentos?

A campainha tocou três irritantes vezes, fazendo-me abocanhar meia torrada e outro tanto pedaço da bochecha direita. Sacudi as migalhas das mãos, atirei com o comando da televisão para o meio do sofá e levantei-me; apertei o robe e dirigi-me à porta, verdadeiramente enfastiado com a interrupção. Quem raios seria?

Espreitei pelo gargalo e vi um rapaz aprumado, vestido com roupas de paquete vermelhas, onde pontuavam botões dourados lustrosos, e um chapéu achatado, de formato cilíndrico, daqueles que os moços de recados ainda empregam nos velhos hotéis de luxo.

- Sim?
- Sr... (olhou para um envelope)...Vicente Correia?
- Sim?
- Mensagem para entrega em mão.

Rodei as chaves e abri ligeiramente a porta. O Rapaz entregou-me uma carta, que no verso tinha o meu nome e morada escritos à máquina, e um livrinho de registos para assinar.

- Nome legível, por favor, data e hora... aí onde tem uma cruzinha.

Gatafunhei o registo e devolvi-lhe o caderno.

- De onde vem esta carta?
- Lamento, mas não o sei informar. Eu só entrego a correspondência.
- Onde trabalha?
- Para a central de entregas “A Lambreta”. Tenha um bom dia. – E dito isto desapareceu na escuridão das escadas, deixando-me um envelope apócrifo em mãos e uma curiosidade crescente na ponta dos dedos.

Sentei-me na cadeira de baloiço e pus-me a ler. A carta, que tresandava a mofo de secretariado, era curta e directa:

"
Ministério da Informação e do Conhecimento
Beco das Amendoeiras, nº 231

21 de Janeiro de 2006

Assunto: Correia, Vicente Alfredo Mendes
Nº de cadastro: 105-1550023538

Considere-se V. Ex.ª. notificado(a) para comparecer nas instalações supra-citadas dentro de um prazo de 48 (quarenta e oito) horas a contar do momento de entrega desta mensagem.

Pelos serviços do M.I.C.,
OM-42533325-T
(O superintendente responsável)
"

Meti-me debaixo do duche e fui afogando na água tépida os pensamentos acerca dos propósitos daquela mensagem.

Afastei a ideia de se tratar de uma partida. Apesar de conhecer gente capaz de tais actos de vilanagem, o selo branco carimbado no topo da carta, com alguns dizeres ilegíveis rodeados por uma coroa de louros e por mais meia dúzia de brasões e escudos em miniatura, invalidava de imediato essa hipótese. Fazer um carimbo para selos em branco custa muito dinheiro. Sabia-o bem porque trabalhava nos correios há largos anos e já me tinham passado pelas mãos algumas requisições de material.
Uma tentativa de rapto também não podia ser. Havia maneiras mais simples de sequestrar uma pessoa, e ninguém se ia dar ao trabalho de me raptar a mim, que não tinha meio tostão furado no bolso.
Tratar-se-ia portanto de um assunto de estado, mas nunca tinha ouvido falar do ministério em questão, e o seu nome, em vez de revelador, era um verdadeiro contra-senso. E que assunto poderia ser tão assim grave, tão importante, ou tão urgente, a ponto de me indicarem um prazo de 48 horas para me apresentar em pessoa?
Não estando em falta para com a lei (a não ser em assuntos relacionados com algumas multas de trânsito sem importância), ponderei então sobre uma outra hipótese: o poder tratar-se de um engano… ou de um erro burocrático. De uma dessas coisas raras que tão poucas vezes acontecem nos organismos estatais e que ainda menos vezes nos surpreendem nos noticiários da hora de jantar.

Findo o banho, agarrei nas páginas amarelas e procurei na lista de ministérios; um telefonema para o local poderia esclarecer o que não vinha escrito na carta. Não encontrei o organismo em questão. Procurei então a empresa “A Lambreta”, que encontrei no separador “Transportes e entregas”. Da empresa não me quiseram facultar nenhuma informação sobre o sobrescrito misterioso ou sobre os seus remetentes. Para além de evocarem uma cláusula de confidencialidade, alegaram que se a carta não trazia mais informações, então seria porque o ministério em questão assim o tinha desejado.

Não perdi mais tempo. Chamei um táxi e mostrei o endereço ao motorista. O homem, que não sabia onde ficava a morada, consultou primeiro um roteiro e depois falou para a central, que o pôs em espera. Ao fim de alguns minutos recebeu uma resposta. Aparentemente um colega dele tinha levado uma pessoa para o mesmo local na semana anterior.

Por esta altura eu estava mais que intrigado. Ministério desconhecido, morada desconhecida e uma carta misteriosa que me fora entregue em circunstâncias estranhíssimas.

Pelo caminho, embriagado no movimento embalador do automóvel, ocorreu-me uma última ideia: aquilo podia ser um processo de selecção para os serviços secretos estatais. Era a explicação que fazia mais sentido. Uma escolha acertada, pensava… alguém iria suspeitar de um zé-ninguém como eu? Ao longo da minha juventude, e certamente influenciado pelos velhos livros de detectives, sempre sonhara vir a ser recrutado por uma organização secreta, daquelas para onde se entra através de uma porta falsa situada algures nos confins de uma livraria antiga. Uma organização em que nunca vemos a cara do nosso chefe e que nos presenteia com vários passaportes, todos com identidades e nacionalidades diferentes. Agora que a situação ameaçava concretizar-se, era mais um nervoso miudinho que me atingia do que a euforia desenfreada que um dia imaginara. O meu estômago revirava-se e eu afundava-me no assento, à medida que o táxi avançava pelas ruas esburacadas daquela cidade cinzenta.

Ameaçava chover. O táxi deixou-me à entrada do beco, uma rua curta e larga, com um estreito separador pelo meio onde cresciam duas árvores jovens, ainda amarradas a paliçadas de madeira virgem. Junto dos passeios, dos lados, estacionavam-se dois alguns carros a caírem de podres; carros que provavelmente não saíam daquele local há anos. Erguiam-se prédios degradados e escuros de um e de outro lado da via, e o local terminava num muro alto, mal rebocado e coberto de grafitis com assinaturas ilegíveis. Um local estranho para colocar as instalações de um ministério estatal, pensei na altura, mas nada surpreendente para esxonder uma sucursal de uma organização secreta.

Avancei ao longo do beco. Ao fundo, encostado ao muro e ligeiramente enfiado para dentro, encontrava-se o número 231, o único edifício térreo naquela rua.
Cada vez me achava mais intrigado. Todos os indicadores inscritos naquele local navegavam contra a lógica que tentava construir na minha cabeça. A rua, que começava, como todas as outras ruas, pelo número 1, passava abruptamente do número 5, um edifício moribundo com seis ou sete andares, para o número 231, um bloco de betão entalado contra o muro dos grafitis. Não devia ter mais de três metros de largo, e de altura pouco mais alto do que eu. Do lado esquerdo, perto do muro, ao nível da minha cara, havia uma janela, forrada por dentro a contraplacado e vedada por fora com várias barras de ferro verticais unidas por uma horizontal. À direita a porta, um bloco de aço maciço que fazia lembrar aqueles locais mal frequentados em que os porteiros abrem uma janelinha estreita, espetam cá para fora os olhos, e sussurram desconfiadamente "senha". Entre a janela e a porta havia um intercomunicador e um botão de campainha. Pintado à mão por cima da porta, com algumas pingas escorridas, o número 231 a preto. Bastariam estes pormenores para levantar os cabelos a qualquer espírito mais corajoso, mas o facto é que havia mais um detalhe de contornos arrepiantes… A fachada lisa de betão, de aspecto desagradável por causa de estrias de água da chuva que recentemente tinha caído, e que a escureciam assimetricamente, não tinha um único sinal de ter sido violentada com grafitis. Era como se aquela barraca com aspecto de bunker repelisse, por efeitos sobrenaturais, qualquer aproximação intencional ou não intencional.

Sem saber que o faria pela última vez, olhei as nuvens que se deslocavam pelos céus indiferentes à vida monótona dos corpos sólidos cá em baixo. Uma brisa levantou-me as pontas da gabardina e obrigou-me a segurar o chapéu com as mãos. As árvores agitaram-se por entre o silvar das suas folhas e começou a chuviscar.

SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

Pedro Farinha
Edição Única
Posts: 3298
Joined: 03 Apr 2005 00:07
Contact:

Re: Sem Título

Postby Pedro Farinha » 09 Nov 2005 15:22

Está a ficar excelente Sam. Aliás gostei mais desta parte que da outra. Se a outra pretendia servir de teaser e para prender logo o leitor, acho que podias equacionar começar antes por aqui mas provavelmente depois não fazia sentido :stars:

Adiante. Achei esta parte bem mais fluida e dsta vez fiquei mesmo cheio de vontade de ler já (e não em Fevereiro mas já percebemos que com o incentivo dos leitores talvez vá saíndo mais qq coisa) o mergulho na aventura que o teu personagem está prestes a dar.

Frases como

A campainha tocou três irritantes vezes, fazendo-me abocanhar meia torrada e outro tanto pedaço da bochecha direita.


são aquelas em que eu me revejo e que criam desde logo empatia com o autor. :tu:

Fat Boy
Capa Dura
Posts: 316
Joined: 27 Dec 2004 22:13
Location: Lisboa
Contact:

Re: Sem Título

Postby Fat Boy » 09 Nov 2005 20:27

A tua escrita está a apurar-se cada vez mais. Só posso dizer que o texto agarra mesmo desde a personagem principal a todo esta mistério inicial à introdução que adorei. Continua! e depois daqui a uns tempos dá-nos mais umas migalhas sff :wink: para matar a curiosidade!

Um abraço
<img src="http://pwp.netcabo.pt/duderino/movie.jpg" border="0" class="linked-sig-image" /><img src="http://pwp.netcabo.pt/duderino/bewareofgeek.jpg" border="0" class="linked-sig-image" />

User avatar
Riobaldo
Edição Limitada
Posts: 1099
Joined: 06 Feb 2005 15:14
Location: Lisboa
Contact:

Re: Sem Título

Postby Riobaldo » 09 Nov 2005 20:55

A minha opinião é um pouco diferente das já expressas. Decidi, no entanto, transmitir-ta por uma questão de honestidade e porque acho que também foste sempre sincero quando opinaste acerca dos meus textos.

Não gostei muito. O estilo de escrita, principalmente na 1ª parte, não me agrada, antes pelo contrário. Na 2ª parte esse aspecto é claramente melhorado, talvez porque se começa a relatar uma história. Quanto aos poucos dados que já temos da história, o que posso dizer é que cativa e dá vontade de continuar... mas não é o tipo de história que eu goste. Há ainda uma pequenina crítica que tenho a fazer: esse Ministério secreto e as suas instalações, foram imediatamente associados na minha mente com a justiça de "O Processo" de Kafka... não sei se foi intencional ou não... mas foi a ideia com que fiquei.

De qualquer forma, desejo-te muita sorte para esse projecto e que não desistas. A maioria das minhas críticas prendem-se com o gosto pessoal, de maneira que não te devem afectar. Acredito que não levarás a mal a minha opinião.

Um abraço e continua.

:tu:
www.revistaantologia.com

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Sem Título

Postby Samwise » 10 Nov 2005 10:30

:lol:

Bem, estou a gostar de ver as opiniões a este trabalho...

Pedro Farinha e TRiiAd,

A introdução, tal como está, é quase toda ela palha descartável. Para falar a verdade acho-a engraçada, mas para a versão final vou cortar metade daquilo que lá está escrito. Toda a primeira parte, que começa presisamente com a palavra "perspectiva", não serve absolutamente de nada à história. E, por exemplo, nas questões acerca da morte, a parte do conseguir ver para dentro deste mundo também é perfeitamente dispensável.
Mas é a tal coisa, por agora vou escrevendo... mais tarde irei cortar e melhorar... tem de ser assim senão nunca mais chego às 50.000.

A segunda parte que coloquei está mais fluída, também o pressinto, e deve ser porque começa a narrativa da história (e que se seguirá daqui em diante). Mas mesmo assim já tenho uma quantidade enorme de emendas e acrescentos a fazer. Coisas essas que me vão permitir melhorar um pouco a lógica da ideia (e a escrita também, espero). Só para terem uma ideia... não faz sentido misturar detectives com agentes secretos (são "profissões" totalmente distintas, tanto no objecto como no sentido de actuação).

Aquilo que leram até agora é uma pequena ponta de um iceberg gigantesco que tenho vindo a formar na minha cabeça. E são tantos os pormenores que começo a ficar baralhado com toda a lógica envolvente.

Quanto ao Kafka... :lol: Muitíssimo bem observado, TRiiAd. O "Processo" é uma das inspirações maiores desta texto, embora ainda se note muuuito pouco. Outra inspiração maior é o "1984". A minha primeira ideia foi fundir as duas obras numa só (um bocado ao estilo do "Brazil") e juntar-lhes uns perlimpimpins de Samwise... só que as ideias começaram a crescer e neste momento não sei bem onde isto vai parar tudo...

TRiiAd, a tua opinião é valiosíssima! Eu acho que vais continuar a não gostar da história, porque não é mesmo nada o teu género, mas gosto de saber o que achas bem e o que achas mal. Espero que continues acriticar (a bem ou a mal) os meus trabalhos. As justificações, mais do que o teor de crítica, são fundamentais.

Fat Boy,

A tua curiosidade será saciada...

SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Sem Título

Postby Samwise » 10 Nov 2005 17:54

:ph34r: :P

II – CHECK-IN

Toquei à campainha. O intercomunicador tossiu uma resposta: 'Número de cadastro, por favor.'

Desdobrei a carta, sobre a qual caíram logo algumas gotas de chuva, e respondi apressadamente: "Cento e cinco, traço, cento e cinquenta e...'

'Alto. Soletre os algarismos um a um, por favor,'

'Um, zero, cinco, traço...'

'É hífen, e não traço. Recomece, por favor.'

'Vai abrir a porta, ou não?,' retorqui irritado, 'Está a chover cá fora, e posso mostrar-lhe a carta directamente, é mais fácil!'

Alguns segundos de espera, e depois: 'Número de cadastro, por favor.'

'Humpf...Um, zero, cinco, tr... hífen, um, cinco, cinco, zero, zero, dois, três, cinco, três, oito.'

‘Aceite.’

O intercomunicador morreu, levando consigo a estática ruidosa que embebia a voz do outro lado. Segundos depois ouvi pesados ferrolhos a rodarem e a movimentarem-se ao longo da porta. A julgar pelo ruído riscado e agudo proveniente do mecanismo, a ferrugem devia cobrir uma boa parte da sua superfície. O som de um trinco a ser aberto terminou a sinfonia.

Empurrei a porta com algum esforço e entrei para um hall reduzido, com a largura aproximada à de um corredor apertado. A escassa iluminação, que criava mais sombras que claridade, provinha de um bolbo de lâmpada pendurado por um fio a partir do tecto. Do meu lado esquerdo, um balcão de madeira estendia-se longitudinalmente ao longo do espaço do corredor. O verniz que outrora dera brilho àquela madeira já há muito que tinha desaparecido. Um vidro grosso, extenso e maciço, ligeiramente escurecido, estava colocado entre o tampo do balcão e o tecto, servindo de barreira para o espaço de atendimento. Uma grelha redonda formada por furinhos minúsculos flutuava no vidro. Por trás dela, um segurança fitava-me com cara de poucos amigos. A porta fechou-se atrás de mim e o mecanismo iniciou as manobras de tranca automaticamente. O corredor, rebocado pelo mesmo betão do exterior, terminava numa porta estreitinha que parecia um elevador.

'Bom dia,' comecei, "Recebi esta carta e...'

'Coloque a carta, o Bilhete de Identidade, o Cartão de Contribuinte e o Cartão de Beneficiário dentro da gaveta, por favor.'

A cara do outro lado do vidro mostrava-me o estereótipo perfeito de um segurança acéfalo: uma testa alta, ostentando uma cicatriz de lado a lado como a do monstro de Frankestein; por baixo de umas pestanas farfalhudas uns olhos pequenos, escuros e irrequietos; um nariz de boxeur, com indícios de ter sido quebrado a meio e de lado; e uns lábios grossos e secos, habituados a enfardarem pancada tantas vezes quantas as que aceitavam comida.

Sem vontade de fingir boas maneiras, coloquei os documentos dentro da gaveta, que era mais um fundo buraco de meta,l cheio de escuridão, encrostado no tampo do balcão, e empurrei-a para o outro lado. O som que rugiu desse movimento era em tudo semelhante ao dos ferrolhos da porta em actividade.

O segurança pegou na carta e estendeu-a sobre o a sua área de trabalho. Confirmou cuidadosamente os dados na carta contra as informações presentes nos documentos e depois pôs-se a comparar a fotografia no B.I. com as minhas feições. Olhou pelo menos uma meia – dúzia de vezes para uma e para outra imagem.

‘Rapou o bigode há pouco tempo?’

Não lhe respondi; fixei-lhe antes um olhar severo.
Ele não pareceu incomodado. Retirou um envelope de uma gaveta, colocou os documentos todos lá dento, lambeu a borda e selou-o com insistência.

‘ Peço desculpa... mas o que está a fazer? Devolva-me os documentos imediatamente.’

‘Lá dentro não precisará deles. Ser-lhe-ão devolvidos à saída,’ disse sem olhar para mim, enquanto espalmava envelope com quanta força tinha.

'Telemóvel.'

'Desculpe?'

'Tem telemóvel?'

'Sim...'

'Coloque-o dentro da gaveta, por favor,' disse, empurrado a gaveta para o meu lado.

'Eu posso desligá-lo, não vale a pena deixá-lo aqui.'

'Ordens internas. Não entram telemóveis, ligados ou desligados, dentro do Ministério. Coloque-o na gaveta, por favor.'

Arrependido por ter denunciado o aparelho, fingi que o procurava nos bolsos da gabardina. Começava a pensar que ia entrar para um estabelecimento prisional. Sabendo o que sei hoje, essa teria sido uma alternativa muito mais agradável.

‘Olhe, parece-me que me esqueci dele afinal de contas,’ disse-lhe, compondo uma atitude de cabeça no ar, enquanto rezava para que o grilo não tocasse.
O segurança olhou-me desconfiado. ‘Em todo o caso não lhe vai servir de nada lá em baixo; não há rede.’, fez um compasso de espera, a ver se me convencia a mudar de atitude e resumiu o discurso:
‘Retire todos os objectos metálicos que tem consigo, coloque-os sobre o balcão e atravesse o detector de metais, por favor,' indicou-me que avançasse uns passos. Olhei em para o lado e reparei que a estreita divisão, antes de se enfaixar pela porta do elevador, estava forrada por uma estrutura de placas de metal no chão, no tecto e de alto a baixo nas paredes.

Despejei as moedas da carteira em cima do balcão, juntei-lhes o porta-chaves e atravessei o mecanismo. Não apitou. Voltei para o local em frente ao segurança. Guardei as moedas na carteira e enfiei as chaves no bolso.

‘Coloque as chaves dentro da gaveta, por favor.’

Não sei o que me irritou mais naquela altura, se o tom monocórdico e perfeitamente indiferente como ele pronunciava os por favor, se a presunção e frivolidade com que efectuava os pedidos. Inspirei fundo e contei até dez. Era muito cedo para perder a calma. Normalmente perde-se a calma dentro das instalações de edifícios estatais, não à entrada. Depois pensei que aquilo podia tratar-se de um teste, a ver quanto tempo resistia a provocações e não me irritava... um primeiro espicaçar de um objecto de estudo.

‘As chaves? Não me diga que não posso entrar com as chaves,’ ri-me, ‘Se calhar vou assassinar alguém com as minhas chaves...’

‘Ordens internas. Não entram no Ministério objectos metálicos com mais de 2 centímetros de comprimento. As chaves, por favor.’

Lancei as chaves para dentro da gaveta. Ainda as chaves não tinham batido no fundo do buraco e já o segurança puxava a gaveta para o lado dele. Enfiou o molho dentro de um pequeno pacote quadrado e selou-o com aquela insistência enervante. Puxou duas tiras de papel de uma pilha, alinhou-as à sua frente e começou a escrevinhar nelas. Aproximei a cabeça do vidro. Escreveu o meu nome e o tal número de cadastro em letras maiúsculas, mas legíveis, em cada tira, depois rasurou-lhes o verso com cola de stick e colou uma no envelope e outra no pacote das chaves. Colocou a caixa sobre o envelope e atou o conjunto com um pedaço de cordel, criando um laço na parte de cima como fazem nas pastelarias chiques com as cixas de bolinhos. Atirou o pacote para cima de uma passadeira rolante e fê-lo desaparecer por entre umas ripas de borracha na parede, como se estivesse a despachar bagagem no check-in de num aeroporto.

‘Fuma?’

‘Não.’

‘Ainda bem. Não é permitido fumar lá dentro. Outros haveres que carrega consigo?’

‘Quer uma lista patrimonial ou basta-lhe os traços gerais,’ ironizei.

‘Basta-me o que traz nos bolsos.’

‘Ora bem... um lenço de pano, um bloco de notas, um lápis quase no fim e carcomido na extremidade, uma pastilha elástica enrijecida e mais uns grãos de poeira.’

Não fez qualquer comentário. Devolveu-me a carta pela gaveta, fechou as mãos uma sobre a outra como se estivesse a rezar e alinhou os lábios, numa expressão que o colocou o mais perto possível de estar a sorrir.

'Entre no elevador, por favor. Lá em baixo será recebido por um oficial de atendimento. Apresente-lhe a carta de cadastrado e ele encaminhá-lo-á para o departamento correspondente. Poderá reaver os seus haveres à saída. Tenha um bom dia.'

Tenha um bom dia? Que grande canastrão! Ao menos não me disse por favor. Divertia-me secretamente a imaginar que aquela cicatriz teria servido não para lhe colocarem um cérebro mas para lho retirarem.

'De que se trata tudo isto, pode-me esclarecer,' perguntei.

'Informe-se junto do oficial de atendimento, por favor.'

Entrei, pouco resignado, para o elevador. O espaço era mais apertado do que no corredor. Se coubessem ali duas pessoas ao mesmo tempo, teriam de respirar à vez. Corri, com alguma dificuldade, a porta interior extensível e premi o único botão à vista; dizia "descer".

Não sei ao certo a quantos andares desci, mas se me pedissem para fazer um cálculo por alto, eu diria que uns vinte ou trinta. Parecia-me que estava a atravessar o globo de um lado ao outro, e que no fim da viagem estaria a cumprimentar uma tribo selvagem algures numa floresta chuvosa da Nova Zelândia. Restava-me saber se se iriam lançar a meus pés e adorar-me como um deus, ou se, pelo contrário, me lançariam a mim para dentro de um caldeirão efervescente. Nunca tinha subido tantos andares de elevador quantos os que desci naquela altura.
Enfiei a mão no bolso e desliguei o telemóvel; isto enquanto ensaiava um ataque de tosse para dissimular o plim.
Mais que curioso, começava a ficar verdadeiramente preocupado; uma ansiedade que se manifestava em ligeiros pesares sobre o meu estômago e bexiga. O movimento perpetuamente descendente do elevador e a caneca cheia de café com leite que emborcara ao pequeno-almoço acentuavam essa pressão.


SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
Riobaldo
Edição Limitada
Posts: 1099
Joined: 06 Feb 2005 15:14
Location: Lisboa
Contact:

Re: Sem Título

Postby Riobaldo » 10 Nov 2005 19:49

Não resistes ao estrelato não é? Seu vendido... Primeiro dizia que não ia colocar aqui mais nada... agora já estou mesmo a vê-lo colocar tudinho... lolol

Quanto a mais este pedaço... parece-me bem, é cativante. Acho que é de uma extrema maldade deixar as coisas assim... é só para que o público te peça mais não é? Gostas de ser aclamado não é?

LOL
Apetece-me implicar contigo :D

Um abraço e continua... que eu também vou continuar agora o meu... que me está a dar algumas dores de cabeça (no sentido metafórico apenas, felizmente) :stars:
www.revistaantologia.com

User avatar
Samwise
Realizador
Posts: 14974
Joined: 29 Dec 2004 11:46
Location: Monument Valley
Contact:

Re: Sem Título

Postby Samwise » 10 Nov 2005 20:04

:lol!:

Este foi dos posts mais divertidos que li, TRiiAd.

De facto não resisto aos vossos pedidos, mas vou tentar controlar-me. Agora só em Fevereiro (até porque o capítulo seguinte também deixa as coisas no ar... e maldade atrás de maldade provoca uma maldade ainda maior).

Um dos meus objectivos é chegar sempre ao fim dos capítulos de deixar o leitor com vontade de ler mais (como faz a Blueiela). Não o vou conseguir até ao fim, já sei... mas vou dar o tudo por tudo.

Eu também começo com as dores de cabeça. E pensar que o teu prazo é mais ou menos imposto... isto dá muito trabalho (mas é bem engraçado)! Boa sorte para o teu trabalho, também!

SamW
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

Nemo vir est qui mundum non reddat meliorem?

My taste is only personal, but it's all I have. - Roger Ebert

- Monturo Fotográfico - Câmara Subjectiva -

User avatar
Riobaldo
Edição Limitada
Posts: 1099
Joined: 06 Feb 2005 15:14
Location: Lisboa
Contact:

Re: Sem Título

Postby Riobaldo » 10 Nov 2005 20:46

Samwise wrote: Agora só em Fevereiro (até porque o capítulo seguinte também deixa as coisas no ar... e maldade atrás de maldade provoca uma maldade ainda maior).

LOL

Fevereiro é quando, amanhã? :whistle:

Pois... o meu prazo é mais ou menos imposto. Mas eu tenho uma certa dificuldade em trabalhar sem prazo... provavelmente se fizesse como tu, ia chegar a altura em que desistia... como já desisti de outros projectos :(

Mas com este será diferente :)
www.revistaantologia.com


Return to “Samwise”




  Who is online

Users browsing this forum: No registered users and 2 guests

cron