Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

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Samwise
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Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Samwise » 05 Dec 2005 17:22

Lady Rowena caminha lentamente ao longo da planície verde; leva as mãos atrás das costas, pendentes, uma suspensa na outra. Os dedos brincam com as pontas dos cabelos. Vê ao longe, assente no cimo de uma elevação, o castelo, e às suas portas, como se dali tivesse nascido uma fonte, ainda envolta num manto de neblina matinal, a feira: barracas, tendas, bancadas, carroças, bestas de carga, gado, homens e mulheres, comeres e beberes, cheiros e barulho, tudo a nadar em lama.

A relva húmida e fresca amacia-lhe a nudez de seus pés; deixa-lhe na pele gotas redondas, pequenos pólos de atracção do frio que viaja nos ventos. Ela demora-se a cada passo que pisa. Sente a vida a palpitar a cada contacto, a cada união entre a carne e o solo, a cada medida de distância que deixa para trás. Demora-se porque naquele dia uma lenda vai nascer. A antecipação do momento circula-lhe nas veias; é como se o aroma límpido do orvalho, que se desvanece a refúgio dos primeiros raios da manhã, lhe pedisse – lhe implorasse – para se abstrair de tudo mais: “Pára! Pára e sente… Enche-te deste momento… Hoje e aqui... Pára e sente… sente apenas…”.

Pela estrada de terra batida vão chegando mercadores e comerciantes atrasados. Vêm de longe. Viajam há vários dias. Apoiados em cajados de pau, trazem mulas cansadas que arrastam carroças e carregam enormes fardos sobre o dorso. Vêm gentes dos povoados mais próximos, alguns também para fazer comércio, outros por motivos de diversão geral e outros ainda pelos prazeres específicos do estômago e da carne, que na feira não há que faltem. Cobertos por mantas agastadas, rotas e pesadas, ajoelham-se aos pés do padre, aquele que aguarda à entrada do local. Dá ela a mão a beijar, recolhe as esmolas, atira água benta à descrição e vai dizendo: “Vai com Deus, minha filha.”, “Vai com Deus, meu filho, lembra-te que os pecadores serão castigados…”, “Leve o menino à igreja para a semana, que o vamos baptizar.”, “Missa daqui a pouco, às dez…”

Passa Lady Rowena pelo clérigo, deita-lhe um olhar crispado, e logo o santo homem corre a agasalhar-se, que a manhã está fria e os arrepios abundam. Não a olhou o padre, porque não a pode ver, mas sente-lhe a presença no corpo, um toque gélido que para o resto do dia nem o fogo da lareira irá aquecer, quanto mais a manta com que agora enrola os ombros.

Começa a feira pela parte da alimentação que, aconchegado o estômago de início, tudo o resto fica mais aprazível. Vende-se o pão em grandes cestos. Está quente, estaladiço, a massa demora a rasgar-se nas mãos, e na boca desfaz-se em saliva. Vende-se o vinho, o licor, a água com aromas, a água em cântaros; vende-se a fruta, a seca, a fresca e a podre; vendem-se os legumes e as batatas, as cenouras e os nabos, as grandes abóboras e os molhos de salsa e coentros; vendem-se os ovos; vendem-se as galinhas depenadas, de pescoço à banda; vendem-se vivas, que já vamos entrando na parte dos animais domésticos; vendem-se os coelhos e os gatos, as ratazanas e os cães, os lombos de vaca e de cavalo; vende-se, enfim, gado, para comer ou para os fins que se entender. Cheira mal nesta parte da feira, coisa natural, que se são poucos os homens que tomam banho, muito menos são os que o dão a tomar ao ruminante bovino. Ali, atrás daquela vedação de palha de cepo, entre vegetação natural e sebes ajuntadas, é a casa de banho. Achou-se por bem juntar o útil ao desagradável, e pelo riacho que vai descendo a encosta, diluindo-se nas águas pouco transparentes e no ácido mijo do colectivo, flutuam em alegre convívio as bostas das vacas e as caganeiras dos camponeses, as duras e as moles, já não se sabe bem a quem pertenceram antes estes produtos, se ao Jacinto, se ao Baltazar, se à Antónia Maria. “Grande merda que ali vai”, dito e feito nalguns casos, feito e dito noutros.

Entra Lady Rowena na zona de diversão, parte central da ocasião. Seguindo em frente, a direito, vai-se dar ao castelo, e temos novamente animais e comida, pela razão inversa àquela que percorremos, de jeito a apanhar as gentes que moram dentro da muralha pela ordem natural das coisas. Crianças e adultos brincam em conjunto. Atiram-se bolas de trapos aos montes de cubos de madeira equilibrados nas bancadas, anda-se de baloiço e carrossel, puxam os cavalos as cordas e roldanas que fazem andar as alegrias. Pensa Lady Roewna que se tivesse filhos pequenos jamais andariam em tais aparatos, coisas perigosas e desengonçadas, tanto encravam as madeiras nas juntas como se espantam os cavalos à lei do chicote, e não raro volta e meia sair alguém da cadeira com as pernas partidas, tão depressa não andará, se é que algum dia o fará, que hospitais são só para gente rica.

Passa uma escolta de guardas reais, armaduras reluzentes, acabadas de polir, como é hábito todas as manhãs. Afastam a multidão a pontas de lança, “Ao largo! Ao largo, que passa o Conde!”, foge o povo com o rabo, que para serem humilhados já basta a miséria dos trapos e da fome. Vai num coche o conde, tem um encontro marcado com el-rei para daqui a pouco, estanca a carruagem de repente, não se sabe bem porquê, é um menino que se atravessou na estrada, “Sai daí”, berram uns “Vem cá Artur,” grita o avô, mas de peito erguido, sem medos, o infractor não se mexe. Chicoteiam com força os cavalos, que relincham de dor e erguem os cascos aos céus. Não avançam, segura-lhes os freios Lady Rowena, que olha pasmada para o rapaz, “Vai…Segue caminho, a tua luta não é esta. Cavalos seguro eu bem, mas infantaria com lanças é outra conversa. Apeia-te enquanto podes.” Lá anda o garoto e lá segue o coche, e a vida continua, uns a comprar, outros a vender, outros a cagar, são estas as trocas normais entre a natureza e o homem.

Corta agora à esquerda Lady Rowena, entra pela rua da carne, da outra carne, da humana, a que se vende ao entrar em cada barraca. As mulheres estão cá fora, mostram os ombros, enroscam-se nos homens, sobem-lhes o joelho pela barriga até lhes chegarem o peito, para cima e para baixo, dissipam-lhes as dúvidas, se é que ainda as há, puxam-nos para dentro dos recantos, para trás das vedações e fazem-se pagar, a ouro ou a côdea. Não é isto que Lady Rowena procura, é antes a carroça que está ao fundo da rua, por qual chaminé saem bafos de vapor, alguma coisa está posta ao lume. À porta os dizeres: “Merlino, Mago e Vidente”, e mais um desenho, o de uma bola de vidro, que o povo não sabe ler. É lá dentro que se vai passar o principal desta estória, aquilo que nos interessa, pelo menos, que isto da feira é só para criar ambiente.

Entra a rapariga pela porta, não a abre, antes a atravessa, “Bom dia, Merlino,” “Bom dia,” diz ele espantado, e acrescenta: “Esperava alguém um pouco mais velho, em verdade te digo,” “É só a minha aparência, que a idade já não a sei,” “É hoje?,” “É hoje! Mas não é hoje aquilo que pensas, venho só para observar,” “Pode ser que me satisfaças um capricho, então,” “Pode ser, a ver vamos,” “Queres água de ervas?,” pergunta o barba branca, “Sim, hoje quero tudo o que posso. E hoje quero isso a que um dia hão-de chamar chá…” Tira o homem a água da fervura, deita-a sobre um funil de plantas esmagadas e nisto batem à porta: “Dá licença?,” “Entre, caro senhor, entre…,” diz o sábio, que o miúdo, esse, já entrou, “Peço desculpa,” diz o avô, retirando o chapéu, “Foi a criança, que teimou, teimou e não pude dizer-lhe que não.” “Avança, Artur,” diz o mago olhando o catraio, “Que tenho coisas para veres e coisas para te mostrar,” avança o miúdo e ajoelha-se o campónio, pelo meio de duas ou três benzidelas, “Recolhe-te homem, que não sou Deus nem o Diabo, e se não queres assistir espera lá fora,” e assim faz o avô, que daquele ambiente só lhe ficou um enjoo, e que daqui de fora, sentado numa laje branca, assiste a um espectáculo mais interessante, com peitos e pernas para cá e para lá.

Lá dentro descansa, sentada e divertida, Lady Rowena, a quem não via o avô mas a quem vê agora Artur, “A senhora…”, “Sim… eu,” e com estas poucas palavras se ficam entendidos, conversados e agradecidos. “Quantas primaveras fazes, meu menino?” Abre a mão cheia Artur, enquanto olha as cartas que voam habituadas às mãos do mestre, “Cinco anos, cinco cartas, e é esta a primeira.”A imagem mostra uma espada. Pega Merlino na carta e eleva-a até à testa. Diz após meditar: “Um dia encontrarás uma espada, dela não deves ter medo, onde outros desistiram tu alcançarás.” Tira outra carta Merlino, e esta mostra uma coroa, “Será tua um dia, faz para merecê-la.” Ainda a criança admira o desenho e já está outro na mesa, “O cavaleiro do lago, um amigo do coração.” “Amigos não tenho nenhum,” “Virás a ter, descansa, muitos e valorosos,” entretanto eis outra carta, desta feita uma taça, “É a tua vida, viverás e morrerás por este cálice,” riu-se disto Lady Rowena, “Foi uma força de expressão,” logo devolveu o mago. Aí vem a última do jogo, é uma face de perfil, parece-se com Artur mas tem cabelos compridos, “É tua irmã, saiu gémea depois de ti, veio ela ao mundo, foi-se a tua mãe dele. Não a conheces por ora, mas não tardarás a encontrá-la, ou ela a ti. Toma cuidados de batalha, tal como pela linha do sangue se ama, pela linha do sangue se mata. Está aqui o teu destino, se o quiseres aceitar. Olha para ele e grava-o certo, um dia saberás porquê.” Recolhe as cartas Merlino, enfia-as no baralho, “Agora vai com o teu avô, que ainda é cedo para ser eu o teu suporte.”

Sai também Lady Rowena, “Vou indo, velho amigo, caiu da muralha um guarda, pisou em pedra solta, fica para outra altura a conversa. Se quiseres usa as cartas à mesma, que não estando eu aqui, estará sempre a minha presença,” assim faz o sábio barbudo, e, neste novo lance do brinca-com-as-cartas, não é que se lhe alinham à frente, na ardósia fria da mesa, quatro cavaleiros dantescos, se assim lhes podemos chamar, ainda Dante não havia nascido, cada qual com sua foice.

Acaba aqui a narração, que não começando com um “Era uma vez” e não acabando com um “Viveram felizes para sempre”, nos deixa a todos expectantes, pode ser que o resto outrem conte, lenda esta que nunca se fará história. Vai Artur cuidar da terra, pega na enxada o avô, leva Lady Rowena, mas que nome tão estranho para dar de apelido à morte, o soldado para o paraíso e bebe Merlino o seu chá, tudo enquanto o tempo e o espaço mudam de lugar.


FIM

:blink: :P :lol:

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Venom » 09 Dec 2005 15:26

:unsure: A unica coisa que consigo dizer de momento é que gostei :tu: talvez mais tarde encontre palavras para o descrever :whistle:
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Samwise » 09 Dec 2005 16:33

Thank you, master Venom.

Este conto saiu-me de rajada. Nem eu próprio consigo decrever bem o penso dele.

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Samwise » 12 Dec 2005 11:54

Pluto e Savante,

Obriado pelos vossos comentários.

"Estranho" e "Diferente" são realmente as palavras mais adequadas para descrever o texto.

Agora que o leio, uma semana depois, valeria a pena fazer-lhe uma forte revisão! <_<

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Pedro Farinha » 14 Dec 2005 00:24

Sam, gostei muito mas deixa-me deixar aqui um comentário provocatório - vê-se mesmo que andas a ler Saramago :P é que já apanhaste o estilo dele que é, aliás, profundamente contagiante ;) .

Quanto ao resto, acho que é mais ousado, de certa forma, do resto que já li teu, e isso agrada-me, porque tem algo de experimentalismo.

:tu:

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Samwise » 14 Dec 2005 10:46

Pedro,

A tua análise é correctíssima.

Isso do Saramago ser contagiante é tal e qual como dizes... mas eu não escrevei o texto a pensar propositadamente no estilo dele, saiu-me naturalmente (isso prova um pouco a nossa adaptação às coisas que estamos a ler).
Alías... o texto começa com um formato de escrita normalíssimo e depois, lá para o meio, começa curvar-se para o estilo em questão.

Experimental e diferente... sim... mas foi por acaso. Ficou uma grande salganhada...

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby elsefire » 16 Jan 2006 17:14

Parabéns acho que é sem espinhas. Extremamente bem escrito e um bocado doido no bom sentido. Aquilo ritmo ali a meio da narrativa é estonteante é como um cavalo galopante pelas veredas do bosque. Ta ta tum ta ta tum ta ta tum. Uff. Acho magnífico.

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Samwise » 16 Jan 2006 18:10

:blush:

Quem lê este comentário pode ficar com uma ideia errada acerca do texto. Até parece que está alguma coisa de excepcional, e de facto não é nada assim.

De qualquer forma, ainda bem que consegue agradar a algumas pessoas. Obrigado, Elsefire.

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby elsefire » 24 Jan 2006 15:27

Acho que não de facto acho que a tua escrita é muito bonita e bem colocada. Acho que fazes mau juízo de ti próprio ou então é uma saudável modéstia.
Enfim acho que alguém te precisava de dizer isto.

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Re: Ali, onde o tempo e o espaço nunca se encontraram.

Postby Samwise » 24 Jan 2006 16:20

elsefire... nem sei que te diga.

Uma coisa é certa: não é por modéstia que faço aquelas afirmações.

Tento criticar a minha escrita com alguma tenacidade, a apesar de muitas vezes andar completamente à nora (acho que os textos que mais gosto são os que as pessoas menos gostam, e vice-versa), acho que a interpretação final que faço dela se adequa às linhas lhe escrevo...

Mas fico mesmo feliz por haver quem goste. Como é natural, isso dá-me algum conforto.

Obrigado.

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