McCarthy

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Samwise
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McCarthy

Postby Samwise » 12 Jan 2006 18:24

O pistoleiro engoliu o líquido de uma assentada, expirou uma enorme baforada de satisfação, enxugou a boca à manga da gabardina e bateu com copo em cima do balcão.
- Barman, outro! Melhor... deixa a garrafa!

Não era costume, naquele bar, servirem whisky a estranhos sem pedirem primeiro o pagamento, mas ao homem à sua frente o barman não se atrevia sequer a dirigir o olhar - colocou a garrafa ao alcance de McCarthy e afastou-se para longe.

O embaraçoso período de silêncio que se havia gerado no local - e que se iniciara com a entrada do fora-da-lei -, começava a dissipar-se timidamente. O pianista pôs-se a ensaiar uma balada brejeira, as cartas recomeçaram a bater nas mesas e um burburinho tenso inundou a sala.

Falava-se baixo e ninguém se ria muito alto. Ou por outra, ninguém se ria de todo. Os olhares já não observavam as cartas e os dados como até há minutos - faziam antes pontaria às costas de McCarthy.

- Há mulheres, aqui? – Lançou o ex-recluso para ninguém em particular.
- M... Mulheres? - Inquiriu o barman.
- Obrigas-me a repetir mais alguma coisa e prego-te uma faísca no coiro.
- Não há... Aqui no bar, não há. Mas podes tentar ali na casa da Lena...
- NÃO! - e largou a palma aberta sobre o balcão - Tu vais lá buscar-me duas miúdas e levas-mas para o quarto. E é melhor que sejam bonitinhas, senão... - Afastou a gabardina para o lado e acariciou o Colt com os dedos nervosos.
- S... S… Sim... - Engoliu a seco.
- Para com isso. Vai!
- Sim... Sim... Já estou a ir... - Largou a correr porta fora.

O pistoleiro virou costas ao balcão, apoiou nele os cotovelos e cruzou uma perna sobre a outra. Arrancou a rolha da garrafa à dentada e cuspiu-a para o lado, inverteu a garrafa uns centímetros acima dos lábios e bebeu a parte que não escorreu para fora. Quando acabou, atirou a garrafa para trás, por cima do ombro.

O fumo embaciava o ar e entranhava-se no suor das caras aflitas. O pianista esforçava-se por interpretar todas as omissões na partitura, e os sons que saíam do instrumento lembravam uma carroça desengonçada a cair por um desfiladeiro.

McCarthy olhou a panorâmica de relance. Abas de chapéu e cartas. Nenhum rosto à vista.
- Manada de cobardes... nem um único se aproveita. Bah... Até me envergonhava se tivesse de vos passar chumbo pelos ossos.

As portas do bar abriram-se e entraram duas raparigas novitas e parcamente vestidas. Do barman nem sinal.

- Que aconteceu ao rato dos copos? Afogou-se dentro das botas? Har Har Har... - ouviram-se alguns murmúrios sufocados, vindos das mesas.

- Vamos lá para cima. As duas à minha frente... gosto de olhar o material antes de o provar. - McCarthy afagou a barba de três dias que lhe picotava o queixo - Sim senhor... bom material.
Começaram a subir.

- Alto! - Havia um vulto à entrada do Saloon. O sol delineava-lhe os contornos a negro; o rosto mantinha-se oculto no meio das sombras.
McCarthy voltou-se lentamente, cautelosamente. Encontrava-se a meio das escadas.
- Quem...?
- Estou decepcionado. - O vulto olhou para baixo e abanou a cabeça. A mão esquerda segurava uma das portas, mantendo-a aberta; a direita mantinha-se vertical, de lado, junto ao corpo. - Julguei que nunca me esquecerias...
- TU????!!!
- Sim, eu, Walton Donover!
- Não sei de que buraco apareceste, Donover, mas é bom que seja bem fundo... vai ter um inquilino permanente, não tarda. - McCarthy desceu alguns degraus e deteve-se. - Como me encontraste?
- Segui o cheiro dos cadáveres que deixaste pelo caminho. Isso e o teu hálito a ranço azedo...
- Da última vez que nos encontrámos eu estava... diminuído. Agora vai ser diferente! - McCarthy deslizou a mão pela gabardina e afastou-a para trás da cintura.
- Diminuído? O que é isso? O teu nome do meio? Estavas mas era podre de bêbado. Nem os olhos conseguias abrir. No caso dos perus, habitualmente segue-se uma catanada no pescoço.
McCarthy desceu mais dois degraus - Devias ter-me morto quando tiveste oportunidade...
- A recompensa valia mais contigo vivo.
- Hoje, cabrão, HOJE, será o teu último hoje!
- Educado como de costume, hein, McCarthy? Vamos lá para fora. Não quero que o sol te encadeie os olhos quando eu te abrir um buraco na testa.
- Sim... vamos lá para fora - grunhiu -, aqui à demasiados dentes a bater. Minhas senhoras, não se vão embora, está bem? Isto não demora nada.

Donover recuou e desapareceu na claridade. McCarthy saiu atrás dele. O tempo cristalizou durante uns instantes - as portas oscilaram até se imobilizaram por completo -, e depois todo o bar respirou de alivio. Seguiu-se uma corrida desenfreada para perto das portas e janelas.

Na rua que formava Peccos Town, os dois homens afastaram-se sem nunca quebrarem a corda que lhes unia o olhar. O sol caía a pique sobre a terra batida, avermelhando-a, tornando-a seca e fina. A brisa quente, que assobiava de vez em quando, levantava alguma poeira do chão e empurrava as placas à porta das lojas de um lado para o outro. As correntes rangiam e sibilavam.

McCarthy afastou os pés e alinhou a biqueira das botas. As pontas convergiam em vector para Donover. Via-o lá ao longe, a posicionar-se, enquanto o vento lhe levantava as pontas da gabardina. O fora-da-lei reparou que tinha o maxilar rigidamente contraído, retesado sob uma enorme pressão muscular. Obrigou-se a separa os dentes, passou a língua pelos lábio gretados e engoliu a pasta de whisky seco que os queimava e amargava. Ajustou o cinto sobre as ancas e fez descair as mãos ao longo do corpo.

- Que tal sabe a antecipação da morte, Donover?
- Diz-me tu, McCarthy.

Donover limpou o suor da testa, arqueou as sobrancelhas e focou o homem à sua frente. Os olhos castanhos adquiriram uma cor avermelhada no seu rosto - reflectiam a distancia que o separava do alvo. Os dedos tocavam ao de leve no barril da arma; tamborilavam uma suave melodia naquele frio prateado; marcavam o compasso para o início do espectáculo. Tentava respirar lentamente. Controlava-se para que o seu coração não saltasse para fora do peito durante aquela breve eternidade.

Um repórter havia, mais tarde, de descrever aquele momento como "um combate de olhares entre duas estátuas imponentes, obstinadas e mortíferas". O apito de um comboio ecoou ao longe e uma brisa tardia afunilou-se na avenida.

McCarthy foi o primeiro a sacar. Mesmo um ligeiro momento de antecipação podia ser decisivo contra Donover, sabia-o bem. Com uma habilidade e rapidez fulminantes, a mão direita arrastou a arma para fora do coldre e a esquerda descreveu um movimento circular em direcção ao cão, puxando-o para trás e acentuando a pressão no gatilho. Disparou duas, três, quatro vezes, até que a arma lhe escorregou para o chão. As forças abandonaram-no. McCarthy ajoelhou-se no chão e dobrou os braços sobre a barriga, em agonia. As veias na sua cara pareciam prestes a explodir. O seu adversário mantinha-se de pé.
- Não... pode... ser... - O corpo desabou para a frente, enterrando-lhe o rosto na poeira.

Donover demorou-se a interiorizar o desfecho do duelo. O revólver fumegante tremia-lhe na mão. Tentou certificar-se de que não estava ferido, mas não conseguia perscrutar o seu corpo; a mente não lhe obedecia. Nada sentia. Colocou, à segunda tentativa, a arma no coldre. Encheu o peito de ar e expirou profundamente. Alguém correu até McCarthy.
- Está morto, - Gritou esse alguém.

O assobio dos disparos desapareceu, então, finalmente nas montanhas.


Sam
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Re: McCarthy

Postby Samwise » 16 Jan 2006 11:02

Savante,

Obrigado pelo comentário.

A minha opinião é o contrário da tua, hehehe: escrita má como habitual (pois... eu próprio não gosto da minha escrita) e a história é engraçada (embora um bocadito cliché, certíssimo).

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Re: McCarthy

Postby elsefire » 16 Jan 2006 17:00

bem eu li e devo dizer que à medida que ia lendo, mais ia gostando. Acho que o enredo não é brilhante e não é assim muito original, mas quando é bem contado vale a pena ler. Consegui sem dúvida ver neste conto um filme e é possível imaginar os fotogramas ao pormenor. Acho que este é o ponto forte. Muito forte aliás.
Parabéns.

Fat Boy
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Re: McCarthy

Postby Fat Boy » 19 Jan 2006 14:17

Não percebo porque continuas a não gostar da escrita Sam. Sinceramente, sinceramente mesmo acho que tens um estilo "bonito" e que agarra o leitor logo nas primeiras linhas mas pronto.

Gostei do conto e acho que podes desenvolver a personagem do Walton Donover em outras aventuras por ex. caso tenhas "gostado" dele.

Acho que o ambiente western é fértil em oportunidades para grandes "sagas"

Um abraço
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Re: McCarthy

Postby Samwise » 20 Jan 2006 10:45

:blush: Epa.... nunca tinham ouvido que a minha escrita era bonita! Thanks, my friend!

Eu gosto bastante de escrever (pelo menos quando estou "in the mood"), mas muito siceramente olho para os resultados com alguma tristeza. Só vejo convencionalismo, infelizmente. :(

Vou pensar muito bem nessas tuas palavras, aquelas que dizem que o Walton pode ser utilizado noutras aventuras e que o ambiente western é fértil para... :)

Sempre quis escrever uma saga de... hmmm... não vou dizer para já... mas é uma coisa que tu próprio já escreveste, Fat Boy :P

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