O Jogo

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Samwise
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O Jogo

Postby Samwise » 17 Jan 2006 13:57

Primeira parte – Jessie

20, Abril, 2356 - 06:34
É a terceira vítima a apresentar os mesmos padrões num espaço de seis meses. O corpo branco, enxuto de fluidos orgânicos, repousa sobre os lençóis. Está atado, com cordas, às pernas da cama - esticado em forma de x. É uma rapariga nova, aparenta vinte e poucos anos. O olhar aflito, imóvel, fixa o tecto. Os tipos da equipa forense esperam que a sessão fotográfica termine para iniciarem o seu trabalho.
Há uma toalha de sangue coagulado no mármore branco do chão. À porta do quarto, o detective Alex Bean alarga a gravata no colarinho e desvia o olhar. No peito da jovem, através da gaiola de costelas-marfim, pode ver-se o coração intacto, parado. Os seios foram cortados e retirados cirurgicamente. Longas estrias percorrem o corpo e os membros do cadáver. Foram efectuados com um objecto cortante e afiado. A vítima morreu, provavelmente, de paragem cardíaca, após ter perdido uma quantidade considerável de sangue - todo aquele que agora faz de carpete.
Nenhum vizinho viu ou ouviu o que quer que fosse. "Costumava trazer rapazes com ela", é a única coisa que Bean arranca ao porteiro do prédio.

26, Junho, 2356 - 02:53
Noite. Uma rapariga entra numa discoteca e dirige-se para uma pista de dança "overcrowded". O ritmo explode nas colunas, inunda o ar, adensa-o e sufoca-o. A rapariga, o seu corpo aprisionado dentro de um grevat justo, rodopia no meio da selva humana; as suas formas avantajadas encaixam olhares disfarçados.
Exausta.
Senta-se ao balcão e pede uma bebida. O seu rosto brilha de suor. Vários candidatos tentam a sorte. A rapariga rejeita educadamente as propostas "para sair dali para fora". Está à espera de uma pessoa, afirma.
Um indivíduo de meia-idade, vestido com um blishca negro acetinado, aproxima-se e mete conversa. Falam de música, do tempo, das particularidades do destino e da vontade de partilharem algo mais do que aquela conversa inútil. Ele convida-a para "uma volta ao ar fresco".
Saem juntos e apanham um táxi. Ele conhece em sítio fino, que fica ali perto. Ela aceita e, no sofá de trás do táxi, encosta-se mais a ele.
O quarto é pequeno e abafado. Lá dentro apenas uma cama. Os lençóis da hora anterior não foram mudados. Uma ventoinha ruidosa projecta helicópteros no texto; retalha, indiferente, reflexos ocasionais de carros que passam na rua.
Agem como animais. Ela está por baixo. Ele, por cima, esmaga-a a cada movimento regular. A mulher recebe toda aquela brutalidade gemendo e gritando. As suas mão movem-se pelas costas da besta, arranhando-a, puxando-a para perto de si, tentando segurá-la quando ela se afasta. Invertem as posições e repetem a fórmula. Repetem-na várias vezes.
Tempo.
Ele descansa de rosto enterrado na carne dela. Ela afaga-lhe os cabelos molhados. Ele sente-lhe o coração a abrandar, a respiração, quase imperceptível, a tornar-se suave. A mão cessa os movimentos e imobiliza-se.
Tempo.
Ele estica o braço até ao embrulho de roupas; com as meias de ambos, prende-lhe os braços e as pernas à cama. Ela grita. Ninguém acode; naqueles corredores os gritos comem-se uns aos outros. Ela grita até ao momento em que sente uma bola de roupa íntima ser-lhe enfiada na boca. Calmamente, suavemente, com uma lâmina de fazer a barba, ele desenha fios de sangue pelo corpo dela. O artista espalha na tela a sua criação. Demora-se, trabalha sem pressas. A cama enche-se de tinta e as paredes de esguichos e salpicos. O homem senta-se aos pés da cama, de pernas cruzadas, e observa serenamente o coração a bater, a bater, até parar. Obra concluída.

27, Junho 2356 - 12:20
17 humanóides de aparência feminina estão sentados na sala A-32, ala oeste, centro de investigação Delta. O andróide em falta é localizado em segundos, através de uma sonda elíptica. É iniciado o processo de recuperação de informação. O download de dados, utilizando a popular Mega-esfera, é instantâneo. O detective Alex Bean recebe uma mensagem no tele-campo, quarenta minutos mais tarde: "Caso AX-234-L. Suspeito identificado. Recolha forense em curso. Morada: ..."

27, Junho 2356 - 14:26
Dois toques à porta, com os nós dos dedos. Uma mulher, com rolos na cabeça, roupão velho e chinelos, atende e pergunta quem é. O detective mostra-lhe a identificação e pede-lhe para falar com o marido. A mulher berra qualquer coisa para dentro de casa e abre a porta, desconfiada. Convida o polícia a sentar-se na sala e oferece-lhe uma bebida. Dois minutos depois Eduard LaGross senta-se em frente a Bean. O seu olhar denuncia uma noite em branco, mas exibe uma concentração impiedosa. Os olhos devoram toda a vida em seu redor, sedentos como um abismo negro.
O detective incita a mulher a sentar-se, aquele assunto também lhe diz respeito, e informa os LaGross dos motivos que o levam a estar presente. Fala de um conjunto de crimes em série cometidos durante os últimos meses, dos requintes de sadismo com que foram perpetrados, menciona as expressões "homicídio premeditado", "brutalização de cadáver" e "pena máxima" no meio da conversa, como quem não quer a coisa. Recosta-se depois na cadeira, soltando um breve suspiro, e dedica-se a estudar as reacções dos LaGross. As cores branco pálido, roxo, e depois vermelho, desfilam na cara da mulher. Ela olha para o marido, que continua impassível, levanta-se, e corre para fora da sala.
O Sr. LaGross encara o detective nos olhos. O detective pergunta-lhe se tem alguma coisa a dizer e aguarda uns segundos, pacientemente. Retira um micro-projector da algibeira e põe o filme a correr, em 2D, na parede mais ampla da sala. Eduard observa-se a si próprio em acção, primeiro tal como se costuma ver ao espelho, depois segundo várias perspectivas exteriores de imagem. É um truque, afirma, alguém o quer tramar, manipulação digital e coisas do género.
Bean desliga a gravação. A rapariga assassinada naquela noite é a agente especial Jessica Mandela - AIN-12, humanóide ao serviço do FBI, nome de código "Jessie". Naquilo que resta do seu corpo estão amostras limpas de sangue e de esperma, bem como unidades capilares de várias partes do corpo do assassino. ADN válido. Tudo o que aconteceu a Jessie, entre as 00:00 e as 06:00 desse dia, está registado em vídeo e áudio. Não há qualquer manipulação de dados. As amostras recolhidas pela agente, analisadas em laboratório, confirmam um mesmo autor para quatro crimes diferentes.
As provas são concludentes e podem ser usadas em tribunal.
LaGross é encarcerado e obtêm uma condenação em três dias úteis.
Caso Encerrado.

Fim da primeira parte.

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Segunda parte – Na sala de formação.

Abril 2350 - 09:23 – FBI - Centro de Formação Tango, algures no Colorado

O filme atingiu-me como um termo-bastão na nuca, deixando-me atordoado, com os lábios gretados, a língua seca e a respiração alterada.
O holograma desapareceu – desmaterializou-se – em frente aos nossos olhos, e quatro projectores de reduzidas dimensões recolheram para dentro de compartimentos situados junto às quinas do tecto. As partículas de pó que brilhavam sob os seus feixes luminosos regressaram à sua condição de perdidas no universo. Vários conjuntos de ripas de plasto-alumínio guincharam e rodaram em simultâneo dentro das calhas nas janelas, e a luz natural encheu de novo o espaço abafado. Alguns dos presentes fizeram caretas com o nariz e piscaram e abriram amplamente os olhos umas duas ou três vezes.
Aparentemente, mais ninguém na sala fora afectado do mesmo modo que eu; para eles aquilo não passava do início de mais um exercício maçador.
Ou estava muito enganado ou desta vez algo de verdadeiramente importante estava prestes a acontecer.
Custava-me, mais do que o habitual, que as transmissões dentro das salas de formação não fossem permitidas.
Queria desesperadamente falar com ela…
Mas lá estava aquele led vermelho, no quadro indicar, junto das horas e da temperatura ambiente – significava que ninguém dentro daquele espaço conseguia aceder à Mega-esfera e que os canais de comunicação inter-pessoais também estavam desligados.
Selennia não me fitava. Olhava antes para as suas mãos, agarradas uma à outra sobre o tampo da mesa.
Reparei, pelo canto do olho, que o cabeça-de-melão olhava para mim e para Selennia com especial interesse. Esforcei-me para aplicar uma parte do treino que recebera tão intensamente ao longo dos últimos 4 anos: ocultar eficazmente os meus sentimentos. Selennia fazia o mesmo, tinha a certeza.

- Espero que tenham prestado muita atenção ao short que acabaram de ver, meus senhores, – a voz abalou a sala como o som de um trovão - porque durante os próximos minutos vamos partilhar opiniões sobre ele.

Fechei os punhos e esfreguei os olhos.
Na sala, e para além do orador, de mim, Joshua Kirkwood, e dos três restantes cadetes, Selennia Hoggart, James Ansefield e Karina Marshall, estava presente o Dr. Alexandro Lopez, responsável máximo pelo gabinete médico daquela unidade de treino. Não era invulgar que especialistas em áreas diferentes acompanhassem e complementassem a nossa formação durante as aulas, mas, após aquela projecção, a sua presença acentuava as minhas suspeitas. O pequeno-almoço revirava-se no meu estômago e clamava por autorização para dar um passeio pela superfície.
Circundávamos uma mesa oval, não muito longa, em que todos os presentes podiam encarar-se uns aos outros sem terem de se revirar nas cadeiras. Os cadetes, lote onde eu me incluía, sentavam-se de costas viradas para a janela, numa das extremidades da mesa. Na outra extremidade, do lado direito, sentava-se o Dr. Lopez, enquanto que o orador, que se levantara quando o filme acabou, passeava de um lado para o outro junto ao quadro de apresentações. A sua cadeira estava chegada para trás, à cabeceira.

- Durante as próximas horas, - continuou a voz - vamos discutir o assunto numa perspectiva mais prática, mais funcional, mais relacionada com o vosso trabalho no terreno. Quero ouvir as vossas ideias em concreto. Não deixem nada por esclarecer. Cadete Ansefield, comecemos por si – o orador apontou para o tipo à minha esquerda, que ainda estava afundado assento.
Ansefield recompôs-se na cadeira, manteve-se alguns segundos em silêncio, aclarou a voz e disse:
- Sir, a data do filme…
- O que tem a data do filme, cadete Ansefield?
- Apenas três anos no futuro… aquilo é... real?
- Cadete Ansefield, expresse-se como deve ser. Ninguém entende o que quer dizer. E afirma-se o senhor um finalista deste curso, Jesus!
- Desculpe, sir… Quero dizer… aquela a tecnologia é real? Poderemos, a curto prazo, dispor de humanóides tão perfeitos ao ponto de passarem por humanos?
- A tecnologia é real. O intervalo temporal também. Três anos são uma estimativa realista para início da utilização de agentes humanóides – vulgo andróides – ao serviço do Bureau.
- Mas sir, isso significa que…
- Significa que a fase de debugging e aperfeiçoamento já passou há história, e que neste momento estamos em plena fase de testes práticos.
- Isso significa, sir, como eu ia dizer, que atingimos a perfeição tecnológica no que respeita à reprodução do funcionamento do corpo humano e ….
- A perfeição não, mas andamos lá perto. Há muito que o desenvolvimento de tecido celular humano, quer por clonagem, quer por métodos artificiais, é usado para fins terapêuticos, como todos sabemos, e daí até aos andróides o passo é relativamente curto. Mas acerca deste assunto terão oportunidade de ouvir o Dr. Lopez a falar daqui a pouco. Primeiro quero ouvir-vos a vocês.
(Silêncio)
- Somos os únicos?
- Como assim, cadete Ansefield?
- O Bureau? Não acredito que o governo pretenda restringir o uso de andróides às forças policiais…
- Cadete Ansefield, estamos a sair do âmbito de discussão…
- Não, sir. É uma pergunta válida! Quanto mais abrangente for o escopo de utilização dos andróides, maiores serão as possibilidades de fuga de informação. É uma questão de tempo até isto chegar aos ouvidos da comunicação social e consequentemente…
- Compreendo o que quer dizer, Ansefield, mas isso é e será inevitável, mas cedo ou mais tarde. É uma contingência que foi contemplada nos planos iniciais. Tenho a certeza de que o governo tentará, numa primeira fase, utilizá-la para proveito próprio, no sentido de servir como medida preventiva no que respeita ao crime… depois, quando a questão for mais séria que isso, haverá outras medidas disponíveis… Limite-se a pensar que, por enquanto, o assunto é Top-Secret.

A voz límpida, grave e ressonante que enchia o ar, fluía da boca do tenente-coronel Anders Lorack, coordenador geral do curso de agentes especiais do FBI, ramo de investigação criminal. Lorack, mais conhecido entre os cadetes como cabeça-de-melão devido à inacreditável semelhança entre o formato do seu rosto e um melão equilibrado ao alto, para além de organizar e definir a maior parte dos conteúdos programáticos do curso, participava activamente nele como formador, leccionando a cadeira de I.A..
De uma maneira geral, Lorack era visto pelos cadetes como uma espécie de figura paternal, alguém rígido e austero no aplicar da disciplina, mas também afectuoso e compreensivo na abordagem de assuntos delicados. Parecia conhecer de memória, e a evidência demonstrava-o, uma grande quantidade de informações pessoais acerca os seus alunos. Corria o boato de que guardava em velhas pastas de cartão, no seu gabinete, cópias particulares dos arquivos de todos os cadetes que passavam pela academia, e que dispendia longas horas do seu tempo a estudá-las criteriosamente.

- …há ainda a questão ética, - disse Ansefield.
- Continue...
- Sir, o problema não é novo, e surgiu mais ou menos pela mesma altura em que se começou a falar em Inteligência Artificial. Tem a ver com o controlo da actuação dessa mesma Inteligência… como garantir que não espalham a destruição a seu bel-prazer… tem a ver com as restrições implementadas no código programático destes andróides.
Bem, sir, o facto é que até agora não havia robots com aparência de humanos aí espalhados pelas ruas, e o assunto andava meio esquecido, mas agora… com isto…
- Continue…
- Eu sei que ainda não atingimos o patamar tecnológico em que as máquinas pensam por sí ao ponto de tomarem certo tipo de decisões, mas dever haver – tem de haver – um certo grau de autonomia na actuação – como vimos no filme – para que o andróide seja credível como pessoa… para que as outras pessoas acreditem que estão na presença de um humano…
- Onde quer chegar ao certo, cadete Ansefield? Garanto-lhe que não vai haver nenhuma guerra termonuclear devido a uma decisão tomada por um andróide…
(Risos)
- Sim, sir, mas… ao certo, como foi planeada a ética de autonomia destes andróides? Isto faz-me pensar nas velhas leis da robótica, as que há uns séculos atrás foram enunciadas pelo escritor Isaac Asimov. Não me lembro concretamente o que diziam, mas garantiam um grau de segurança rígido e aceitável. Permitiam sobretudo a aceitação dos andróides por parte das populações… eu sei que não é bem o caso mas…
- Muito bem. Alguém se lembra das leis Asimov? – Anders olhou em volta – Não? Ninguém se dignou, sequer, a armazenar essa informação nos vossos centros de memória auxiliares? Lamentável… Então aqui vão: 1ª lei - Um robot não pode fazer mal a um ser humano nem, por inacção, permitir que algum mal seja feito a um ser humano; 2ª lei - um robot deve obedecer às ordens dos seres humanos, excepto quando estas ordens contrariarem a primeira lei; 3ª lei - um robot deve proteger a sua integridade física, desde que com isto não contrarie as duas primeiras leis.

Anders fez uma pausa; esperou que interiorizássemos novamente o significado das leis e depois continuou:

- Por muito que sejam agradáveis de ouvir, e por mais que a sua lógica seja impenetrável, estas leis nunca poderiam ser utilizadas em andróides como a nossa Jessica Mandela. É evidente o porquê! E claro, desenvolvendo mais o raciocínio, estas leis nunca poderiam ser utilizadas num andróide ao serviço da forças da lei, fossem elas FBI, polícia, ou ainda outras.
Habituem-se a uma coisa, meus senhores, lá fora existe um mundo onde é necessário usar a força para impedir determinados acontecimentos ou acções. Lá fora existe um mundo em que um dia terão de escolher, e queira Deus que esse dia nunca vos chegue, entre matar ou morrer.
Um andróide ao serviço do FBI terá de agir como um agente humano agiria em seu lugar, excepto, claro, em casos como o da nossa Jessie, que no filme desempenhou o papel de um carneiro inocente.
Já estou a falar demais… Cadete Hoggart, ouçamos a sua opinião.

Selennia fitou-o nos olhos. O que quer que estivesse a tentar ocultar, conseguiu-o naquele momento com distinção, mas logo a seguir deitou tudo a perder com a abordagem ao assunto. Fugiu dele a sete pés. Ou isso ou a encenação de uma jogada extraordinária continuava em curso.

Apetecia-me gritar…

Lorack olhou-me de relance quando Selennia começou a falar. Continuei a fazer de conta. Selennia continuava sem olhar para mim. Teria as mesmas dúvidas? ou…seria algo diferente….

- Sir, achei o filme algo deslocado da realidade… e detectei incongruências na narrativa…
- Vamos ouvi-las.
- Parece-me tudo uma má encenação de uma má história de detectives. Um criminoso não actua assim hoje em dia. Há uns séculos atrás… talvez… mas agora? Após o primeiro crime da série, que não chegámos a ver, o homicida seria logo apanhado. Uma pesquisa rápida pelas bases de dados de ADN e voilá: um pássaro na gaiola. Era só uma questão de o localizar.
Mas isto é um ponto secundário… o que faz menos sentido, na história toda, é o uso que dão à Jessie. Parece que se esqueceram de a monitorizar…não tem cabimento enviarem uma agente especial, que provavelmente custou ao estado milhares de milhões de trets, numa missão daquelas, e só no dia seguinte darem pela sua falta. Havia de haver uma equipa especial a monitorizar em tempo real todos os passos de tais andróides… No caso da Jessica, o criminoso não passaria da porta do quarto após aquele trabalhinho de talhante… enfim.
Depois, as pistas negligenciadas por LaGross… Ninguém deixa amostras de esperma daquela maneira. O criminoso teria, quando muito, utilizado um espermo-desvitalizador, e mesmo assim, só se o homem fosse um completo idiota, ideia que é contrária em relação à calma com que age no momento do crime. Tudo aquilo foi cuidadosamente pensado – e até talvez ensaiado. São factores que não jogam bem entre si. Mas há mais… uma lâmina de uma máquina de barbear antiquada? Onde raios foram buscar essa ideia? Nunca conseguiria a perfeição e a limpidez que os cortes aparentam. Pelo menos naquele espaço de tempo. E, mais importante, o objecto contaria como um factor de diferenciação importantíssimo, uma pista segura para encontrar o criminoso. Em quantos sítios se vendem lâminas dessas hoje em dia? Se calhar só mesmo por encomenda.
Para finalizar… a encenação da prisão de LaGross. Mas porquê? Não seria muito mais simples e menos dispendioso prenderem-no de uma assentada? Isto em vez de se porem a falar com ele e com a mulher de falinhas mansas... a que propósito?

- Cadete Hoggart, estou decepcionado, - referiu Anders com alguma gravidade. - Baseando-me no que já conheço de si, pareceu-me uma intervenção mais fraca do que o habitual. Esperava… outra coisa de sua parte. Conseguiu, mesmo assim, colocar algumas questões interessantes. Tudo para logo a seguir falhar redondamente na respectiva análise.
- Desculpe, sir. – Selennia baixou a cabeça.
- Alguém quer comentar as palavras da cadete Hoggart? – Anders olhou para cada um nós.

Evitei abrir a boca naquela altura. A minha cabeça misturava emoções com racionalidade, deturpando-me a pouca clareza de pensamentos que me restava. Decidido a ganhar algum tempo, nada disse. Sabia, contudo, que Anders não esqueceria a minha vez.

Foi Marshall que falou:
- O filme foi realizado dessa maneira propositadamente. Não creio, tal como referiu a cadete Hoggart, que um criminoso daquele calibre fosse idiota ao ponto de agir daquela forma, mas esta história é apenas um exemplo. Um exemplo para demonstrar um potencial uso para um andróide.
- Vago… muito vago, cadete Marshall
- Pegando nos argumentos de Hogggart… creio que há uma grande fatia da população mundial que ainda não está correctamente – hmmm… inequivocamente - catalogada nos centros de dados de ADN, e LaGross podia muito bem estar entre as omissões. Creio, sir, que ainda não temos nenhum registo de ADN tão completo como o de impressões digitais. Afinal de contas, a recolha só é obrigatória há cerca de três dezenas de anos.
- Correcto. Preparem-se para ser confrontados com esta realidade durante os próximos anos das vossas vidas. O ADN é o vosso primeiro destino, mas pode não ser suficiente.
- Depois, a questão da não monitorização dos andróides…- continuou Marshall - não a vejo assim como tão inverosímil. Vejo as coisas de outro modo. Vejo um grande conjunto de andróides, milhares deles talvez (e não apenas os 18 que aparecem no filme), a serem lançados no terreno, vejo-os começarem uma rede de interacções com os humanos, a construírem bases sólidas de relacionamentos inter-pessoais, vejo-os a diluírem-se calmamente, imperceptivelmente, entre a população. E vejo tudo isto bastante à distância dos centros de controlo. Não vai haver uma monitorização tão apertada, nem no que respeita a vigilância activa, nem no que respeita a relatórios de actividade. Quanto mais normais forem as vidas destes humanóides, menos suspeitas atrairão sobre si.
Claro, claro… se calhar, quando houver baixas, uma sirene vai soar num departamento qualquer algures num edifício do Bureau… mas não da maneira como a Hoggart referiu. Certo, sir?
- Perto, Marshall bastante perto…
- A questão da lâmina de barbear… bom, suponho que há por aí gente completamente alucinada, e que para LaGross aquela lâmina era uma verdadeira ferramenta de artista, tal como um pintor não dispensa um pincel com pelos de animal verdadeiros. Ele sabia que correria riscos ao utilizá-la, mas eram sempre riscos calculados, que ele estaria disposto a correr pela sua arte. Penso também que na nossa actividade teremos muitas vezes de nos agarrar a pistas dessas, insignificantes e invulgares, porque muitas vezes serão as únicas que permitirão avançar com uma investigação e…
- Já entendemos, cadete Marshall, passe ao ponto seguinte.
- Falta-me analisar a conversa do detective Bean com LaGross. Também me parece francamente dispensável, uma vez havendo provas concludentes para uma condenação. Só a consigo justificar de uma maneira… um estudo psicológico do assassino.
- Correcto. É importante! É importante – para qualquer que seja o caso, lembrem-se disto, - disse Anders - recolher e avaliar informações psicológicas sobre o suspeito. Neste caso concreto pretendia-se analisar as reacções de um homicida identificado quando confrontado com as suspeitas de um agente da autoridade. Primeiro suspeitas, depois apresentação de provas concludentes. Todos os dados recolhidos serão estudados, catalogados e inseridos na base de dados de conhecimentos do Bureau. Poderão, mais tarde, significar fundações de comportamento utilizáveis para lidar com situações semelhantes. Certo, certo, certo. – Anders estancou subitamente o seu interminável deambular de um lado para o outro da sala e olhou para mim. Depois falou, não evitando uma certa dose de ironia na sua voz.
- Cadete Kirkwood, é escusado dizer que deposito grande expectativa – e até um bocadito de esperança - naquilo que vai dizer.

Selennia continuava sem me fitar. Inspirei fundo, relaxei o melhor que consegui e disse:
- Isto é um jogo, sir!
O rosto de melão de Anders iluminou-se de contentamento e eu prossegui. As palavras saíram-me trémulas:
- Um de nós é um andróide, e vamos ter de descobrir quem é…

Fim de Segunda Parte


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Re: O Jogo

Postby Venom » 17 Jan 2006 21:31

De facto esta primeira parte aguenta-se por si so, mas gostava que fosse mais uma introduçao a uma historia mais extensa, e a um enredo mais complexo :drool: . Mas tu é que és o autor :joker: . Fico à espera de mais.


:ttu: :ttu: :ttu:
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Re: O Jogo

Postby Samwise » 18 Jan 2006 15:38

O resto da história não tem nada a ver com o caso, mas relaciona-se com ele num ponto essencial.

Não quero dizer mais nada por enquanto. A ideia é um bocado complexa para a minha pobre cabeça, e não sei se consigo imaginar e escrever a história até ao fim....

Obrigado pelo comment, shôr Venom!

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Re: O Jogo

Postby Fat Boy » 19 Jan 2006 14:08

Gostei muito. Como sempre belas descrições que me colocaram "no local". Essas mesmas descrições fazem o texto "pesado" e mesmo ao meu estilo. Muito bom mesmo.

Mas realmente fica a sensação de que há algo mais que ainda não foi dito. Embora se possa ficar por aqui fiquei com algum vazio digamos assim...

Por isso força nisso Sam!

Um abraço!
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Re: O Jogo

Postby Samwise » 20 Jan 2006 10:48

Há muito mais que não foi dito...

Inicialmente tinha pensado em escrever isto mesmo... mas à medida que ia escrevendo, iam-me surgindo ideias e ideias e ideias... maneiras que tive de cortar o texto a metade e atrasar a continuação.

Vou tentar.... um dia destes vou tentar. Mas não vai ser nada fácil.

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Re: O Jogo

Postby Samwise » 24 Jan 2006 12:45

Está aí a segunda parte (está na continuação do primeiro post) !

As boas notícias é que consegui escrevê-la.

As más notícias é que ainda me falta muito para conseguir acabar a história. E também alterei, muito ligeiramente, a sua primeira parte ...

Anyway, espero que gostem... B)

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Re: O Jogo

Postby ApoK » 25 Jan 2006 16:16

Ora aqui estou eu para deixar o meu comentário.

Em primeiro lugar devo dizer que não sou grande fã deste género de temas futuristas. Andróides, humanóides, tele-campo, mega-esferas, etc. são para mim uma confusão tremenda porque não consigo assimilá-los e materializá-los devidamente, e daí o facto de não nutrir grande interesse por este tipo de histórias.

Embora a tua escrita seja segura e bem estruturada, este texto não me conseguiu seduzir. Isto é, todo o enredo e o assunto são demasiado complexos e confusos para a minha pobre cabeça.

Eu creio que existe um grande problema nestes contos, ou como lhe queiram chamar. São demasiado curtos para introduzir muitas personagens de uma forma bem sucedida. No início da 2ª parte inseres 4 ou 5 personagens de rajada que se tornam difíceis de identificar pelo nome com o desenrolar da história. Eu não percebo muito bem de onde vêm, nem quem são e não consigo entender qual é o grau de relação que mantêm entre elas.

Concluindo, o tema é o factor essencial para que eu não tenha gostado por aí além deste texto. Sinto uma ausência de rumo e um aglomerado de situações que, a meu ver, implicam um contexto mais aprofundado de toda a história.

Creio que também se deve um pouco ao meu gosto pessoal. Os primeiros textos curtos que eu li foram do Ricardo Loureiro (Thanatos), publicados na antologia “Gotas do Tempo”, e, de facto, agradaram-me imenso dada a simplicidade da narrativa. Já noutras ocasiões, tive oportunidade de ler outras coisas dele que não me cativaram por motivos semelhantes aos que eu expus aqui em relação ao teu texto.

Não sou especialista, nem percebo puto destes pequenos exercícios de escrita e até posso nem entender os verdadeiros propósitos da sua escrita. Portanto, entende a minha crítica de uma forma “especial” e atribui-lhe o valor relativo que ela tem…

ApoK
<b>"Deixem-me ouvir, uma vez mais, esses sons que foram, durante tanto tempo, a minha consolação e alegria."</b><br />W. A. Mozart - December 5th, 1791


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