Monólogo a Dois

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Samwise
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Monólogo a Dois

Postby Samwise » 14 Mar 2006 18:53

Monólogo a dois

O homem que estava de pé voltou-se para a janela e enfiou as mãos nos bolsos das calças. Através do vidro amplo, observou o horizonte dourado e cidade ainda envoltos na neblina matinal. Percorreu com a vista o topo dos edifícios adormecidos, as chaminés e pátios fumegantes, e o emaranhado de antenas, cabos de electricidade e aparelhos de ar-condicionado que tudo cobria como uma teia. Absorto, acabou por se fixar no seu próprio reflexo.

“Não.” - disse por fim.

O Homem que estava sentado franziu o sobrolho. Que raro ver recusado um pedido seu. E mais raro ainda quando o pedido era feito em pessoa.
O homem que estava de pé parou de observar-se a si e à cidade, fechou os olhos por uns instantes, e voltou-se para encarar o interior do gabinete. À sua frente, do outro lado da secretária, um rosto rígido, carregado de surpresa e indignação, observava-o.

“Não!” - disse novamente – calmamente -, desta vez com mais convicção, fixando o seu oponente olhos nos olhos.

“Alguma vez teve a sensação de estar em controlo absoluto sobre uma determinada situação?”

O Homem sentado demorou algum tempo a assimilar a pergunta. Preparou-se para falar e as linhas na sua cara atenuaram-se ligeiramente, mas não chegou a dizer nada. O homem que estava de pé antecipou-se.

“Neste momento há demasiado em jogo. Há demasiado em risco! Um bode expiatório vai piorar o estado das coisas. Não vai resolver nada. Não vou arriscar a nossa posição face ao desconhecido. Sou pouco sensível ao que dois ou três caçarolas vêm cuspir cá para fora, ainda por cima num jornal de segunda categoria. A minha palavra sobre o assunto é final. Não me vou demitir para salvar a imagem de ninguém – nem a sua.”

Sentou-se pesadamente sobre a cadeira giratória de couro negro, que soltou um assobio abafado, enquanto o ar no seu interior era violentamente expelido através de todas as fendas e costuras.

“Com todo o respeito que tenho por si - e acredite que é enorme -, não aceitei este cargo para servir de fantoche. Apesar de lhe dever o lugar, não estou de modo algum às suas ordens.”

O homem que estava sentado há mais tempo continuava incrédulo. Suspirou, desviou os olhos para um quadro na parede e pôs-se a roer o interior do lábio. Continuou calado.

“Sei que o estou a colocar numa situação delicada, e sei que pode agir em contrário, forçando-me a tomar uma decisão diferente. Penso, no entanto, que não o fará. Deixe-me contar-lhe uma pequena história... uma história acerca da importância de tomar as decisões acertadas... a si não lhe fará nenhuma diferença, mas a mim… é um fantasma que finalmente liberto.
Tinha sete anos quando o meu pai me ofereceu um leitor de cassetes pelo Natal; um aparelho rudimentar que servia essencialmente para reproduzir contos falados. Era uma alegria ouvir aquelas interpretações brasileiras dos contos da Disney, carregadas de emoção. Quase conseguia ver os sete anões a atravessarem a precipício em cima de uma árvore. Mas não era para isso, contudo, que eu o usava mais frequentemente. Cedo descobri para que servia aquele botãozinho vermelho redondo, e divertia-me a gravar tudo aquilo que achava que me poderia divertir: os pássaros no jardim, os carros a passarem na avenida, as refeições lá em casa (e que barulheira infernal faziam os talheres a bater nos pratos)... muitas e variadas coisas. E com o passar do tempo os meus métodos de gravação e as minhas brincadeiras foram sendo aperfeiçoadas; descobri os encantos de gravar as coisas às escondidas. O saber que estava a gravar a privacidade dos outros sem eles saberem, a hipótese de os apanhar nos seus momentos de intimidade - naqueles momentos que as pessoas julgam que estão sozinhas e libertam o seu verdadeiro eu -... aquilo era demais para a minha cabeça. Havia um misto de emoção e reprovação naquilo tudo. Sabia que estava a agir mal, mas não conseguia parar de o fazer. Era mais forte que eu.
Mas adiante…
Num belo dia de Verão, saí para dar um passeio com a minha mãe e, como habitualmente, deixei o gravador ligado, escondido entre as almofadas da sala de estar. Quando nessa noite me sentei na cama, envolto na escuridão, e me pus a ouvir a gravação - coisa que me causava sempre uma certa ansiedade -, descobri algo totalmente diferente do que aquilo que estava à espera.
Ao fim a uns minutos de silêncio, ouvi os passos de várias pessoas a entrarem na sala. A voz do meu pai, autoritária, fez-se ouvir. Ordenou a alguém para se dobrar sobre o sofá e alguns segundo depois ouvi uma voz feminina a gemer. Primeiro gemia baixinho e compassadamente, mas aos poucos e poucos os gemidos subiram de intensidade e transformaram-se em gritos e urros animalescos, sons que me pareciam de angústia e desespero - algo que me transtornou irremediavelmente. De súbito, tudo acabou; e os únicos sons a encher a sala eram os de dois pares de pulmões sôfregos por respirar. O meu pai voltou a falar: disse à Joana, uma das empregadas lá de casa, que voltasse para a cozinha e que chamasse a Teresa. Depois, em tom ameaçador, antes que os passos dela se afastassem pelo corredor, disse-lhe que não abrisse a boca... A gravação acabou pouco depois disso, numa altura em que a outra empregada se preparava para ajoelhar aos pés do meu pai.
Como lhe disse, nessa altura era um rapaz de tenra idade, e, embora profundamente afectado, não compreendi integralmente o que se tinha passado. Julguei que o meu pai batia nas empregadas e que, por alguma razão doentia, conseguia extrair algum prazer desses actos. No entanto, nunca me havia batido; tratava-me até com bastante carinho. O acontecimento atirou-me para um estado de precária sanidade mental, pautado pela ambivalência dos meus sentimentos em relação à minha família: deveria contar à minha mãe o sucedido (e ser o responsável por uma possível separação), ou pelo contrário, deveria ocultar o acontecimento e tentar viver numa paz ilusória, gerada ao abrigo de uma mentira monstruosa - muito mais monstruosa que aquilo que então suponha.”

O homem atrás da secretária escutava em silêncio.

“Passaram-se duas tortuosas semanas, durante as quais, cobardemente, não consegui tomar nenhuma decisão.
O destino – esse justiceiro incansável - acabou por decidir por mim.
A minha tia, pelo lado da minha mãe, resolveu, sem o meu conhecimento, levar algumas das minhas cassetes para sua casa, de modo a passá-las para os meus primos. Creio que julgou que estava a levar o “Dumbo” e “A Bela Adormecida” – e de certa forma até estava...
O que se passou a seguir é mais ou menos óbvio... Houve lugar a um divórcio litigioso e o meu pai foi posto na rua sem direito a receber um tostão. Durante quase quarenta anos não me dirigiu palavra. Quando finalmente falámos novamente, disse-me: "Sabes, afinal tinhas razão. A tua mãe não merecia aquilo,"…
Disse-me aquilo como se eu tivesse sido o único responsável pelo sucedido, mas parecia enaltecer a velha máxima: "A verdade acima de tudo".
E é por essa norma que pauto a minha actividade diária neste momento, algo a que nunca me esquivarei.”

Os dois homens olharam-se durante uns instantes. Um duelo de personalidades retesava aquela recta de contacto. Depois, um deles falou:

“Sei o que vai na sua cabeça neste momento… Provavelmente estará a pensar: “Que porra tenho eu a ver com a sua vida privada?… Que tem essa história a ver com os acontecimentos que vim cá discutir?”
Então deixe-me complementar a minha pequena história com outra pequena história. Uma história mais recente, mais abrangente, mas nem por isso menos trágica…
E começa assim: nesta cidade existem 536 estabelecimentos de natureza hoteleira: hotéis, pensões, estalagens, albergues e outros muitos locais onde se alugam quartos à hora. Esses 536 estabelecimentos perfazem um total de 23.542 quartos. Cerca de 97% desse total de quartos encontra-se actualmente sobre escuta directa por parte dos nossos serviços. É uma operação gigantesca que envolve, entre outros activos, aparelhos de captação de imagens e som - indetectáveis, deixe-me que lhe diga -, equipas de técnicos especializados a trabalharem 24 sobre 365, e uma panóplia de equipamentos informáticos que registam e armazenam tudo o que se passa nesses quartos.
Se até aqui foi apanhado de surpresa, ficará porventura mais chocado quando souber que apenas 7% das actividades que decorrem nesses quartos está relacionada com o sono. Quanto aos outros 93%... bem…estão todos classificados como sendo de natureza sexual.
São dados em bruto. Apenas dados. Nada do que recolhemos pode ser usado como prova em nenhuma situação concreta. No entanto podemos - claro que podemos - seguir muitas e numerosas pistas a partir daquilo que vemos e ouvimos nas gravações.“

Alguém crispou as mãos nos braços da cadeira a comprimiu os maxilares. A raiva subia-lhe pela face acima, vermelha e quente.

O outro homem continuou:

“Note que ainda só falei em estabelecimentos comerciais... mas há mais... muito mais... O caso das escutas telefónicas que veio a púbico é apenas a ponta do Iceberg. Creio que muita gente iria gostar de saber que determinado Ministro gosta de brincar com criancinhas de 10 anos, duas de cada vez, e que determinado Secretário de Estado gosta de festas frequentadas por indivíduos de aparência ambígua, daquelas que duram até ao amanhecer...
Não estou de modo nenhuma a ameaçá-lo... estou apenas a tentar ressalvar a importância relativa das coisas. Pessoalmente quero lá saber de nada dessas excentricidades! Estamos há quatro anos mergulhados na mais profunda das crises internacionais, o preço do petróleo duplica a cada ano que passa, e as ameaças terroristas obrigam-nos a esforços sobrenaturais. Mas...”

Silêncio.

“… mas sinto que estou no controlo dos acontecimentos, tal como estava quando ouvi aquela cassete deprimente. Tenho a informação nas mãos e sei como devo agir.
Demita-me, Sr. Presidente, e, como diria o meu avô, temos o caralho armado.”

Naquela manhã, o Presidente da República Portuguesa entrou mudo, no gabinete do Procurador Geral da República, e saiu calado.
Guido: "A felicidade consiste em conseguir dizer a verdade sem magoar ninguém." -

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Venom
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Re: Monólogo a Dois

Postby Venom » 23 Mar 2006 21:44

Adorei. Está de facto muito bom, grande enredo, agarra o leitor do inicio ao fim :ttu: two thumbs ups
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: Monólogo a Dois

Postby Pedro Farinha » 23 Mar 2006 23:02

Muito bom ainda que os 97 % me pareçam execessivos ,eh eh eh. Também houve um Público que passou a Púbico... mas Freud explicaria isso melhor do que eu.


No entanto acho que está bem urdida a história e que tem um bom final (o que é a parte essencial num texto curto como este) :pub:

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Re: Monólogo a Dois

Postby Samwise » 24 Mar 2006 10:45

Obrigado pelos comentários, gente! :)

Sem dúvida que é um texto de excessos... daqueles deliciosos excessos que tomam liberdade na nossa imaginação... :P.

Sam
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