O Casamento do meu melhor amigo

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Samwise
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O Casamento do meu melhor amigo

Postby Samwise » 24 Mar 2006 14:24

O Casamento do meu melhor amigo

Falemos de convencionalismos, pode ser? Vamos a isso.
Quero-vos contar acerca de um casamento a que fui na semana passada. Aviso: se estão à espera de me ouvir falar acerca das pregas no vestido da noiva ou do modo peculiar como o nó da gravata do padrinho se lhe enfiava pela camisa adentro, então podem ir dar uma curva. Vão ver se está a chover, ou se estou na esquina; isso são coisas de colonato social, ou por outras palavras, são o tipo de coisas discutidas por sogras e maricas.

Estava sentado diante dela e ela estava sentada diante de mim. Nessa altura ainda não lhe conhecia o nome. Só sabia que não conseguia despregar os olhos da sua cara.

Gostava de perceber a fixação de certos escritores pelos olhos das pessoas. A sério que gostava! Conseguem ver tantas coisas que eu não consigo. Conseguem penetrar na alma dos personagem apenas através dos olhos. Em compensação, eu consigo ver outras coisas que eles não conseguem.

Mas como ia dizendo... Estávamos sentados num café, não me recordo exactamente qual, talvez fosse "O Cantinho do Teodósio", ou coisa que o valha. As cadeiras e mesas eram feitas de alumínio cinzento-oco, uma cor certamente contrária à do conforto físico. Ela fumava um cigarro. Fumava, não! Esse não é o termo apropriado... segurava-o entre os dedos (indicador e médio); tinha o cotovelo em cima da mesa e a unha do polegar enfiada entre os dentes. Não a estava a roer. O fumo esvaía-se pelo ar; formava uma coluna fininha assim que saía da centelha, e acabava em emaranhados incertos até desaparecer nas micro correntes de ar que circulam à nossa volta sem nos darmos conta disso.

Creio que a única baforada que a vi dar foi para acender o cigarro, e mesmo assim não creio que tenha retirado qualquer prazer do acto; o fumo entrou e saiu-lhe da boca num abrir e fechar de olhos. A pilha de cinza começava a dobra-se para a frente, marreca, ameaçando cair sobre o pires do café. Sentavámo-nos um em frente ao outro e ocasionalmente chocávamos as rótulas dos joelhos por baixo da mesa. Uma situação desconfortável na maior parte das ocasiões, mas que naquele contexto me excitava ao ponto de me fazer mexer as pernas mais do que o habitual.

Enquanto olhava para ela, só me conseguia ver a mim próprio, distorcido como que por uma objectiva olho-de-peixe, reflectido em duplicado naquelas íris verdes-marinhas. Isso e a parte do café que ficava por trás de mim, se olhasse com particular atenção. Não me apetecia prestar tanta dedicação a esse detalhe, contudo. Apetecia-me olhar para ela e ali ficar, perdido na contemplação, a imaginar que seria bom afastar-lhe a mão para o lado, assim de impulso, e beijar aqueles lábios suculentos. Extrair deles toda a saliva que conseguisse.

Não posso dizer, com toda a franqueza, que odeie casamentos. Há que ver as coisas pelo lado positivo: há comida e gajas à fartazana. Enquanto aguardamos confortavelmente que nos venham servir o prato de peixe, para onde quer que nos viremos, há decotes e minissaias. Nem sequer é preciso disfarçar. É suposto repararmos nessas coisas; aliás elas estão lá de propósitos para serem olhadas. O que há de tão mau nisto? E quantas mais pessoas, melhor, mais mamas há para observar. Num casamento, enquanto a maior parte da plateia feminina discute e manda piropos acerca dos vestidos umas das outras, a maior parte da plateia masculina trata de imaginar como seriam aqueles corpos sem esses mesmos vestidos.

No casamento a que fui na semana passada, deviam ter sido convidadas uma trezentas ou quatrocentas pessoas. Descontando a noiva - que, afinal de contas, estava lá para casar - calculei um universo de cerca de duzentos a trezentos alvos onde podia descansar a vista e esperar uma resposta. Sou uma pessoa com os pés bem assentes na terra ao ponto de saber que olhar seria a acção máxima que nosso senhor Jesus Cristo alguma vez me permitiria encetar. Mas tencionava aproveitar ao máximo essa benfeitoria, não duvidem.

Ela passou no meio da multidão, no momento em que toda a gente saía da igreja. Não estava acompanhada e olhou-me de relance. Os relances não significam nada - são olhares dirigidos para a imaginação -, muito menos num casamento, onde se largam relances como quem deita bagos de milho aos pombos. Mas por qualquer razão, aquele relance em particular alterou qualquer coisa em mim, como de resto acontece sempre que uma rapariga bem parecida nota que eu existo. Segui-a com os olhos, na esperança de encontrar os dela nos momentos seguintes. Acabei por lhe perder o rasto. Paciência. Havia mais para onde olhar, pensei na altura.

A segunda vez que a vi, foi ela que me viu. Estava de pé, encostado à entrada da tenda gigante que servia de espaço para o banquete, e que em todo a caso me parecia a tenda do Circo Paquito Cardinalli - só faltavam os trapésios. Preparava-me para sorver um martini quando me tocou no ombro. Virei-me e olhei. Por mais que quisesse dizer qualquer coisa, não me saiu nenhuma palavra, e quase me engasguei quando engoli uma grande quantidade de ar misturado numa pequena quantidade de martini. Poderia tentar desenhar-vos o seu rosto com palavras, e contar-vos o quão belo se me apresentava aquela figura. Creio, no entanto, que cairia em dois erros crassos: nunca, em circunstância alguma, o valor de minha prosa se elevaria à perfeição daquele rosto; e provavelmente, quando acabassem de ler a minha descrição, só por circunstâncias do acaso terminariam com uma imagem de alguma forma fiel ao modelo original. Por isso, vou-vos apenas confidenciar que os efeitos enganadores da distância não surtiam efeito naquela mulher e que os detalhes do seu rosto se mantinham tão frescos ao perto quanto o que me haviam parecido ao longe. Tinha uma pele suave, uns olhos verdes inesquecíveis e uns cabelos ruivos lisos que não chegavam a raspar nos ombros. Vestia-se de verde acetinado, e, se naquela altura tivesse havido espaço na minha cabeça para coordenar esse tipo de pensamentos, teria dito que ninguém ali dentro se apresentava tão propensamente vestido para mais tarde poder ser despido quanto ela. Ela… Ela, que me olhava com o ar divertido de quem sabe exactamente o tipo de reacção que pode desencadear num homem. Ela, que havia escolhido dirigir-se a mim por qualquer razão que me iludia a mente. Ela, que acabou por me perguntar se queria ir dar uma volta até ao café, enquanto eu tentava a todo o custo não tossir desenfreadamente.

Após um curto pensamento fortuito em que julguei estar a sonhar, seguiu-se uma série de outros pensamentos menos agradáveis à minha pessoa. Pensei, primeiro, que alguém me estava a pregar uma partida e havia pedido à rapariga para gozar um pouco com a minha cara. Olhei em volta, desconfiado, mas não vi ninguém a tomar atenção à nossa presença. Julguei, depois, que ela me havia confundido com outra pessoa, ou pensara que eu era um dos filhos herdeiros da fortuna de Lord Appleton, que por acaso também estava convidado para a ocasião. Cabrões, pensei, esses pacóvios deviam passar o tempo a comer gajas dequelas...

Que era estranho, isso era, não havia dúvida; aquela era uma situação que só acontecia nos filmes da Julia Roberts, e normalmente com tipos de cara afinadinha tipo Richard Gere. Ora, eu estava mais perto de me parecer com um sapo que com o Richard Gere, e ali estava ela à minha frente, a rapariga com quem nunca tinha sonhado, mas que sabia ser o sonho da minha vida.

Mas voltemos aos convencionalismos.
Saímos dali para fora e caminhámos ao longo da rua, até ao café mais próximo. Pelo caminho perguntou-me se estava no casamento por parte do noivo ou da noiva. Resolvi aproveitar a oportunidade para me por à vontade e brincar com a situação, e disse-lhe que não conhecia nem um nem outro e que estava ali era para comer. Creio, de qualquer forma, que não conseguiria manter a face séria diante daquela mulher por muito tempo. Riu-se e perguntou-me depois, entrando no jogo, como tencionava sentar-me a uma mesa se não tinha sido convidado, e eu disse-lhe que não me tencionava sentar de todo às mesas, tencionava antes passear pelos jardins do local, acompanhar as brincadeiras de algumas crianças, fazendo de conta que as conhecia, e ir petiscando aqui e ali.

Chegámos enfim ao café, um corredor com um balcão ao comprido e mais três ou quatro mesas apertaditas. Ela sentou-se de costas para a porta e eu diante dela. O empregado olhava-nos desconfiado, ao mesmo tempo que limpava uns copos de cerveja com um pano sujo, cor do óleo para carros. Imaginei que era o tipo de homem que volta e meia inspira fundo e espeta com uma verdinha dentro dos vidros - coisa que na altura não vi fazer. Ela pediu um café, e eu, para não desfazer, pedi outro. Disse-lhe que estava a ser uma má amiga e que não tinha nada que me obrigar a pagar dois cafés quando podia bebê-los de graça lá do outro lado. Ela disse-me que os homens serviam para isso mesmo, para pagar as contas das mulheres quando estas compravam coisas de que não necessitavam. Puxou de um cigarro e acendeu-o mecanicamente. Empoleirou o cotovelo em cima da mesa, e eis-nos novamente chegados ao ponto de partida da nossa narrativa.

Do que estão neste momento à espera, caros leitores, é de obter repostas para as mesmas duas ou três perguntas que me assaltavam o espírito naquele outro momento: que intenções teria a misteriosa ruiva, para com a minha simples pessoa, a ponto de me convidar a ir dar uma voltinha ao café do lado? Será que eu tinha alguma hipótese de a convencer a passar uma noite na minha cama? Cheio de vontade estava eu, oh yes. A moça era linda.

Os homens só pensam em sexo. Foi isso que ela disse de seguida, juro-vos, como se tivesse acabado de ler os meus pensamentos. E as mulheres, perguntei-lhe então, não pensarão também nisso?

Um pedaço de cinza caiu lá do alto. Desprendeu-se e caiu. Fez um montinho disperso dentro o pires do café dela. O tempo passa e a gente aqui.

As mulheres também pensam nisso. Eu também penso nisso. Eu também quero isso. Era essa a reposta que eu queria ouvir. Em vez disso ouvi uma outra, completamente diferente: quanto pagarias para te enfiares em mim?

Pagar? Paguei os dois cafés, e pus-me a pensar na Julia Roberts. Afinal de contas, para aquela ruiva sem vergonha, eu não era assim tão diferente do Richard Gere. Antes de me levantar, rocei mais uma vez os joelhos nos dela. Dei-lhe a mão para a ajudar a levantar e a seguir beijei-a apaixonadamente, como se fosse minha namorada. Pensaria ela que me tinha no papo? Mandei-a dar uma volta ao bilhar grande. Até lhe apontei o caminho com o indicador. Disse-lhe que ficava lá para o pé do sol posto. Nunca mais a vi (o que equivale a dizer, em todo do caso, que não a vejo de há uns dias para cá). Fiquei com o telemóvel dela, contudo... nunca se sabe as voltas que o mundo dá.

Convencionalismos...

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Re: O Casamento do meu melhor amigo

Postby Thanatos » 10 Jun 2006 10:03

Bem divertido! E nem vou entrar nas discussões acerca do quão auto-biográfico são as cenas que um gajo escreve. Não te quero arranjar problemas :D
Não importa como, não importa quando, não importa onde, a culpa será sempre do T!

-- um membro qualquer do BBdE!

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Re: O Casamento do meu melhor amigo

Postby Samwise » 12 Jun 2006 09:48

É muito pouco autobiográfico (cof... cof..). Não te vou é dizer quais são as partes inventadas...

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Re: O Casamento do meu melhor amigo

Postby Pedro Farinha » 12 Jun 2006 16:19

Muito divertido e tem algumas partes bem escritas também. por exemplo:

Ela passou no meio da multidão, no momento em que toda a gente saía da igreja. Não estava acompanhada e olhou-me de relance. Os relances não significam nada - são olhares dirigidos para a imaginação -, muito menos num casamento, onde se largam relances como quem deita bagos de milho aos pombos.


quanto à parte auto biográfica... aposto que é aquela parte em que te achas mais parecido com um sapo do que com o richarde gere :lol!:

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Re: O Casamento do meu melhor amigo

Postby Samwise » 12 Jun 2006 16:45

Pedro Farinha wrote:quanto à parte auto biográfica... aposto que é aquela parte em que te achas mais parecido com um sapo do que com o richarde gere  :lol!:


Não... isso era só eu a ser modesto... :lol:

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Re: O Casamento do meu melhor amigo

Postby Venom » 12 Jun 2006 17:36

Textos grandes assustam-me <_< . " E ficavamos nisto a tarde inteira". è basicamente a unica coisa que tenho a dizer sobre o texto :D .Vá, quer dizer, até concordo com certos pontos de vista que o texto apresenta(gajas) mas errr ( note-se que não há nada de concreto para meter nesta parte da frase, mas fica mais giro assim) coiso. Agora mais sériamente, gostei, e basicamente err coiso...


Ps: :ttu:

Ps2:Desculpa lá este comentario meio bebado. Sei que mereces mais, mas o meu espirito critico não prima pela genialidade.
no sci-fi masterpiece depicts an AI that, upon coming online and searching its database in an effort to better understand mankind, responds by shouting, “You guys are awesome! We should get nachos!

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Re: O Casamento do meu melhor amigo

Postby Samwise » 12 Jun 2006 17:53

:lol!: Venom. Gostei desse comentário - eu compreendo o que queres dizer (a sério!).

Se queres saber a verdade, este texto foi uma espécie de veículo para disparatar. Não é mesmo para levar muito a sério (é mais género: com a verdade me enganas :mrgreen:)
Quando o escrevi foi tipo... deixa-me cá gatafunhar o que me vier à cabeça sobre aqueles casamentos enormes e fastidiosos - e já agora divirto-me pelo caminho.

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